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Father John Misty é ele mas não é - entrevista [ARQUIVO]

No dia em que Father John Misty é anunciado no cartaz do NOS Alive '16, recordamos a entrevista publicada na BLITZ de março passado.

Desde 2012 que Joshua Tillman é Father John Misty, máquina de fazer canções viciantes e apresentá-las sem vergonhas em palco. À conversa com LIA PEREIRA, o norte-americano que este ano editou I Love You, Honeybear fala de extraterrestres e do futuro da raça humana.

Nascido nos subúrbios de Washington, nos Estados Unidos, Joshua Tillman tem tido um percurso nómada, quer no calcorrear do seu país em Seattle - juntou-se aos Fleet Foxes, em Los Angeles criou o brilhante Fear Fun (2012), recentemente radicou-se em Nova Orleães - , quer no ecletismo da sua obra. Enterrado o alter ego de J. Tillman, Father John Misty está preparado para conquistar o mundo. Ele explica-nos como. Depois de Fear Fun, voltou a trabalhar com o Jonathan Wilson como produtor. Foi fácil explicar-lhe o conceito do novo disco? Não, de todo. Precisei de muitos meses para esclarecer o que queria, e não só por causa dele, mas também por mim. Antes de poder explicar o conceito a outra pessoa, tive de o perceber eu. E quando tento explicar a música que quero fazer, uso uma terminologia muito abstrata. Gesticulo muito.

Sei que demorou muito tempo a encontrar os arranjos indicados para cada canção. Que canção lhe deu mais trabalho? Sem dúvida a "Chateau [Lobby #4 (In C For Two Virgins)]". A versão que está no álbum foi a quarta tentativa. Tenho uma versão à Phil Spector, uma versão country, uma outra a que chamaria white noise e drones. A canção simplesmente não estava a funcionar, eu estava a pensar demasiado.

Com o seu último disco e os concertos que se seguiram, deu um abanão ao indie e ao campeonato dos singer songwriters, mas não se identifica com este rótulo. A questão é que eu não gosto da maioria dos atributos geralmente associados ao songwriting. Acredito que [nesse registo] há tanto potencial para uma verdadeira comunicação, e para uma autêntica visão sobre o que é a experiência humana, mas que muitas vezes acaba relegada para os mesmos clichês. Quanto a incluir [nas minhas canções] aspetos da minha humanidade, ou da minha psique, que não vão necessariamente de encontro a esse arquétipo, acontece porque penso que, dentro do songwriting, é possível fazer mais do que a maioria das pessoas costuma fazer.

Também ao vivo se destacou, com atuações expressivas e surpreendentes. Vai continuar a estar assim em palco, ou já se cansou de alguns desses "truques"? Não, não me cansei! Na verdade, é só mais uma camada de comunicação. Sempre que sobes a um palco, tens de conseguir comunicar com a pessoa que está na última fila daquela sala. É uma hiper-hiper-realidade. Eu não tenho quaisquer problemas, mas sei que muita gente fica presa à preocupação de que aquilo que estão a fazer em palco não é sincero, por isso sobem ao palco e ficam a olhar para os pés. Mas então onde é que está o espectáculo? Escrever canções não significa ser honesto e admitir que estás a montar um espectáculo? Muitas pessoas não compreendem isto, porque tens de conciliar coisas que, na superfície, podem parecer que estão em conflito. Mas estar em palco a atuar ao vivo é puro caos. És tu, mas não és tu. E quando estás lá, tudo isto faz sentido. Na digressão de Fear Fun chegou a atuar com uma moldura de iPhone gigante à sua volta. Incomoda-o muito que os espetadores vejam os concertos através dos ecrãs de telefone? Para dizer a verdade, nem me incomoda. Foi só um pequeno ritual, que fiz para o meu próprio bem. Passei dois anos a sentir que estava dentro do telefone de alguém e nesse concerto lembrei-me de me meter num telefone gigante. Arranjei muitos rituaizinhos nessa digressão, para tentar anular alguns dos efeitos psíquicos de passar tanto tempo em palco. Foi uma forma de reclamar a minha atuação. Andou muito tempo na estrada com o Fear Fun... Se calhar um pouco demais. E a certa altura, sem dúvida que se tornou autodestrutivo.

Chamou a este tempo em que vivemos como a Idade do Plástico. Referia-se à forma ou ao conteúdo? Quando disse isto estava a pensar que, se um extraterrestre viesse à Terra, daqui a milhares de anos, iria encontrar camadas de terras e crosta, e nada mais. Ao passo que, se viesse daqui a um milhão de anos, ia perceber que, por cima dessas camadas, ia estar uma camada espessa e endurecida de plástico. E por cima disso tudo, uma Idade do Gelo ou qualquer coisa assim. Ao fim de algum tempo, esta nossa era não vai ser mais do que isso: uma camada de plástico por baixo de uma Idade do Gelo.

Vestiu a canção "True Affection" com arranjos eletrónicos para condizer com a letra, sobre tentar conquistar alguém à distância, através da tecnologia de que agora dispomos. Como acha que, no futuro, iremos ver esta época em que passamos boa parte do dia a olhar para um ecrã de telefone ou de computador? Há vários cenários possíveis. Se houver um colapso [tecnológico] qualquer, as pessoas até são capazes de olhar para trás com saudade! (risos) E até vão sentir a falta disto. A humanidade não tende a ficar mais inteligente, a menos que haja um salto qualquer na evolução. Se houver, acredito que a tecnologia vá ser a ferramenta principal nesse processo. Talvez venha a acontecer uma qualquer singularidade, talvez nos venhamos a libertar de todos estes corpos, para nos tornarmos pura consciência ou pura informação. Se assim for, vamos olhar para este tempo como qualquer adulto olha para a sua infância. "Olha para mim aos tropeções, tentando infrutiferamente reduzir o isolamento da experiência humana!". Acho que, na essência, é isso que as pessoas andam a tentar fazer: encontrar uma ligação. Neste álbum tem secções de cordas, mariachis, coros. a editora deu-lhe um orçamento chorudo para estourar no sucessor de Fear Fun? Ná! O álbum soa muito mais caro do que realmente foi, o que diz bem do talento e da dedicação das pessoas envolvidas. Tive sorte por ter feito um álbum [Fear Fun] do qual as pessoas, entre as quais muitos músicos que conheço, gostaram. Como ficaram excitadas com esse disco, quiseram aparecer e trabalhar neste, puramente por amor. Como se sente ao ver o seu nome nas listas de álbuns mais aguardados deste ano? Bem, nunca tinha tido um "álbum altamente aguardado"! Claro que eu sou o tipo de pessoa que vai ver isso com um certo grau de ceticismo. Um bom exemplo [da forma como penso] é: quando estou a dar um concerto, sobretudo concertos a solo, só eu e uma guitarra acústica, e estou a tocar canções novas, sei dizer quando é que o público está naquele ponto de pensar: "o que é que ele vai dizer a seguir?". E é aí que eu estou mesmo a divertir-me e a sentirme bem com as minhas canções, quando desafio o público. E as pessoas ficam a pensar: mas de que porcaria esquisita é que ele se vai lembrar agora? Será sarcástico, ou sincero, ou uma visão interna? Tenho orgulho nessa expectativa que os espectadores têm, de que eu posso dizer tudo. É isso que me faz feliz, que as pessoas pensem: mal posso esperar para ver o que este gajo vai dizer a seguir! É isto que eu entendo por um "álbum aguardado".

Aquando do primeiro disco, disse ter uma atração mórbida por dar às pessoas o que elas não esperam. Mantém-se essa atração? Não tanto. Agora é diferente, já tenho um público. E estou a crescer como artista, não quero continuar onde estava com o Fear Fun, nem posso. Tenho de reconhecer a realidade da minha situação, que é: agora tenho uma audiência, ocupo um certo espaço. Na canção "Now I'm Learning To Love The War", do primeiro disco, quando digo "how much oil it takes to make a record" é sobre isso. O que vou fazer com este espaço, com estes recursos? Vou continuar a choramingar sobre a minha própria crise, ou vou fazer algo de novo? Estou a tentar evoluir para aí. Caminhar para fazer algo com sentido. Diz que tem uma faceta autodestrutiva. Ela manifesta-se quando está a fazer música? Há dias em que me sinto um pouco autodestrutivo, mas isso é narcisismo. O comportamento autodestrutivo surge quando não conhecemos o nosso próprio valor. E aí torna-se fácil, porque é fácil destruir alguma coisa que não tem valor. Mas o verdadeiro desafio de ser humano é cultivar uma alma. Temos de criar uma alma para nós mesmos, temos de criar um significado e um valor. Seja através da intimidade, ou da arte, se eu cultivar este sentido de valor, então a autodestruição torna-se menos apelativa. Há dias em que isso é mais difícil, porque o mundo não quer que tenhas valor próprio; quer que te sintas insignificante, e sem valor, para que continues a comprar as suas merdas. Porque a partir do momento em que tens algum tipo de valor próprio, deixas de precisar da ideologia, da religião, de todas as traquitanas que te querem impingir. Lia Pereira Artigo publicado na revista BLITZ 105, de março de 2015