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Expensive Soul: Tudo vale a pena [ARQUIVO]

Em julho de 2014, a BLITZ esteve à conversa com New Max e Demo, dos Expensive Soul. Uma entrevista que agora republicamos, na mesma semana em que morreu o teclista da banda, Nuno Gonçalves.

Sonhador é o quarto álbum dos Expensive Soul e teve uma gestação demorada, à altura da ambição de New Max e Demo. Um registo orgânico e um pico numa carreira de 15 anos que deixa uma questão por responder: o que fazer depois disto? Jorge Lopes viajou com a dupla entre Porto e Leça da Palmeira à procura de respostas. Rita Carmo fotografou. O encontro com New Max e Demo começou numa sala de ensaios e estúdio na Rua da Alegria, no centro do Porto. Mudaram-se para este edifício antigo, outrora um bar, porque houve um dia em que perceberam que a garagem-berço da banda, na casa dos pais de New Max, no centro de Leça (ver caixa), era hilariantemente minúscula para tanto músico entre estes dois amigos de liceu e a sempre nobre e fiel Jaguar Band, presente desde a estreia em disco de 2004 com B.I.: chegava-se às 13 pessoas. Entre a receção da versão final de Sonhador, acabado de masterizar em Nova Iorque, e a tarde da entrevista, passaram menos de 24 horas, e o estado de espírito da dupla mistura excitação com o enorme alívio que se imagina quando se fecha um ciclo de vários anos. Admirável e ambicioso, o quarto álbum dos Expensive Soul implicou o mergulho num meticuloso trabalho orquestral, com atenção a tantos patamares técnicos que a conclusão das canções se prolongou um ano inteiro para lá do inicialmente previsto. Algumas vezes ao longo das horas de conversa com New Max e Demo, dupla de personalidades diversas mas com a cumplicidade que permite que se encaixem tipo puzzle (New Max usa uma afabilidade suave e low-profile, Demo é o protótipo do tipo que contagia tudo em redor com energia e boa disposição), emerge a sensação de que, com o largo espetro de Sonhador, os Expensive Soul bateram num teto estético. Como se um dos caminhos possíveis se tivesse cumprido na íntegra. Ferramentas vintage Há um único objeto sintetizado em Sonhador: é a "talk box" que surge a meio de "Agora É de Vez". "Foi uma opção", explica New Max. "Do primeiro disco até este procuramos não nos repetirmos. Vamos atrás de coisas diferentes. É claro que no próximo isso vai ser mais difícil (risos)". Tal como várias faixas do álbum, é uma revoada orquestral feita canção, um punhado de minutos pop e funk cravejados de pormenores. "Depois de termos tido a prova do Symphonic Experience [concerto com orquestra dirigida por Rui Massena, projeto realizado em 2012 para Guimarães Capital Europeia da Cultura e posteriormente editado em DVD], percebemos que os elementos da orquestra, as cordas, os tímpanos, a flauta, as trompas, etc., podiam ser uma mais-valia. Os discos anteriores tinham samplers, as músicas começavam sempre por beats. Nunca, até agora, tinha tocado e gravado baterias na fase de construção dos temas. Ou seja, o disco já existia na íntegra em maqueta comigo a tocar em casa, e depois foi regravado com todos os outros elementos. Para quê? Para não nos repetirmos e porque resultava assim. Percebemos pelo Symphonic que este podia ser o caminho". "Se olhares para os quatro discos", prossegue Demo, "e apesar de o DVD ter tido uma importância muito grande, em que elevámos a nossa música a um grau que nunca pensámos chegar, todos captam uma fase da nossa vida". New Max: "Têm a ver com o que a gente ouvia. A gente começou um pouco ao contrário". Como assim? "Começámos pelo que se fazia na altura, o hip-hop, o r&b, e depois fomos andando sempre para trás". Demo: "Além disso, fomos dos primeiros com este tipo de sonoridade a ter uma banda tão grande". A Jaguar Band, claro. "Somos 13 em palco, por isso fazia todo o sentido puxar pela cena mais orgânica. Não conheço nenhum disco em Portugal [no cruzamento funk-pop-hip-hop] feito assim, todo orgânico, todo tocado". New Max detalha uma das características centrais de Sonhador: "Há aqui uma coisa que já tínhamos procurado no disco anterior [Utopia], mas com menos meios: tudo foi gravado com material vintage. Microfones, compressores, prés [pré-amplificadores]. tudo o que possas imaginar. Foi um investimento muito grande". Demo: "A pesquisa que ele teve de fazer para achar aqueles microfones, os melhores para gravar vozes, demora tempo". Tempo investido por New Max no eBay. "Também comprei algumas réplicas, como as mesas de mistura Neve, que são muito conhecidas e que têm uns prés para os microfones. O som é igual [às mesas originais], mantém-se a qualidade. Foi tudo misturado em analógico, tudo passado por fita, pista a pista. Se ouvires o disco com fones, notas que tens sempre ali um "tssssss". O microfone de voz que usámos é um Neumann U67. Não te dirá nada, mas é um microfone bom da altura [anos 1960]. A maior parte dos discos que temos como de referência foram gravados com ele. Foi muito difícil arranjá-lo, e muito caro: um exemplar de 1967 custou cinco mil euros". A fita magnética também foi adquirida entre os derradeiros detentores de stock antigo deste material: "Comprei um gravador de fita a sério, de mastering, de meia polegada, um Studer. E consegues adquirir fitas novas. Há uma marca que ainda as produz, a RMG. As marcas mais conhecidas, como a Ampex, já não produzem, mas é possível comprar algumas, a que chamam "new old stock", também pelo eBay. São sobras de stocks que os estúdios em tempos adquiriram aos milhares. E também são caríssimas: cada fita custa 80 euros e tem 15 minutos". Karmas Quem entra por este caminho do equipamento vintage terá de preparar-se para investir, além de bom dinheiro, tempo, dedicação e paciência. É isto, aliás, que melhor ajuda a explicar o atraso na chegada de Sonhador. Demo: "Este disco era para ter saído há um ano. Como é que demorou tanto? As músicas já estavam todas feitas. Acho que é, de longe, o nosso melhor disco. Pelas canções, pelas letras, pela capa. É o nosso auge como músicos, como pessoas. Acho que elevámos a música a um grau que, espero, as pessoas entendam". O rumo dos versos desta vez sofreu alterações, como explica New Max: "Nos discos anteriores, as letras estavam sempre muito ligadas às miúdas, ao amor. Neste disco, embora também haja esse lado, tentámos procurar outras coisas. Se calhar, é um pouco mais interventivo. Não forçosamente de uma maneira política, embora também haja disso: "Lição" remete para o estado atual do nosso país. Mas tentámos ir buscar coisas diferentes. Porque chegámos a uma altura em que tivemos que arranjar outras coisas". E entre essas outras coisas estão potenciais amigos distantes. "O "Agora É de Vez" fala de ovnis. É um campo pelo qual tenho imenso interesse. Na minha opinião, está mais do que visto que nós já tivemos contactos com seres de outros planetas e galáxias. O que a canção pede é: "Apresenta-te! Agora é de vez. Mostra-te". A terceira parte da canção, com a "talk box", é a resposta deles". Outro exemplo de uma nova abordagem lírica, embora não alienígena, é "Abre-te Comigo": "A ideia é dar força às pessoas. O refrão diz, "Tu não pares, não / Tens que acreditar em ti". À sua maneira, é intervenção social". Esta abertura temática também tem tudo a ver com o avançar da idade. "Na nossa evolução pessoal, acreditamos cada vez mais nas energias", explica Demo. "Nos karmas, nos retornos. Tipo, 'fazes o bem, vais receber o bem'". New Max completa: "Quanto mais velho ficas, mais ligado vais estando a questões espirituais. Se me falasses disto há uns anos ria-me, porque estava noutra". A soul atrás da soul Os Expensive Soul são os primeiros a admitir que a música que fazem anda cada vez mais para trás. No sentido em que começaram envoltos no r&b e no hip-hop do tempo presente (é confirmá-lo nos dois primeiros álbuns, B.I. e Alma Cara), a que se seguiu um processo de procura das raízes das sonoridades que os fascinam, não rumo a uma réplica fidedigna de um ponto longínquo da história da música popular, mas para uma súmula onde Prince e o hip-hop, James Brown e o funk quente com cheiro a vinil, psicadelismo e orquestrações de Norman Whitfield e muito mais habitam a mesma nuvem. Não se deixem enganar pelo stalking de instrumentos descontinuados: a música de Sonhador, tal como a do anterior Utopia, não é peça vintage para admirar no museu. "Foi uma coisa natural", diz New Max do processo de marcha à ré. "Na adolescência, antes do hip-hop, eu tive bandas de rock, e em 98 - é importante falar disto - a Kika [Santos] foi um bocado o motivo por que isto aconteceu. Na altura, o Tó [isto é, Demo] já gostava de hip-hop, ouvia Da Weasel, coisas portuguesas...". Demo: "Da Weasel, Black Company, General D, Mind da Gap, o Rapública.". New Max: "Na altura, a única banda de que gostava eram os Da Weasel. Em 1998 a Kika faz o Ouro Azul [o álbum foi editado somente em 2000], eu era adolescente, o meu primo [Miguel Guia] era o produtor, o meu irmão [Hugo Novo] o teclista, e estive sempre muito ligado àquilo. Ia para casa deles, acompanhei aquele processo todo e comecei a ganhar uma paixão pelo que eles ouviam, que era muito o r&b que se fazia naquela altura". Ou seja, D'Angelo, Maxwell, TLC, Sisqó, Craig David. "Copiávamos muito. Ouvíamos uma data de coisas e depois tentávamos fazer igual, ainda sem pensar que íamos ser os Expensive Soul. O primeiro disco tem influências chapadas de Busta Rhymes, N*E*R*D, Dr. Dre. Depois fui-me aproximando cada vez mais da soul, sobretudo devido ao Voodoo do D'Angelo, que me bateu muito". Influências semelhantes pairaram sobre Alma Cara, de 2006: Mos Def, Erykah Badu, Bilal. "Ainda é da pouca música que gosto dessa altura. Porque entretanto cansei, perdi muito o interesse [pelos sons contemporâneos]. Ele continua a prestar atenção ao que é feito, até porque é DJ". Demo confirma: "Ainda continuo a estar atento ao hip-hop." Correto e afirmativo: depois da primeira etapa da entrevista, o percurso de automóvel Porto-Leça a bordo do Porsche preto de Demo foi feito ao som de uma mistura que incluiu Sonhador, o rugido do motor em aceleração e canções dos álbuns recentes de Schoolboy Q e August Alsina. Kendrick Lamar tem "daqueles beats tão duros que até fazem estremecer os tímpanos". Da sua perspetiva atrás dos pratos vem notando uma preferência crescente de novas gerações pelo hip-hop entoado em português, porque abre portas a uma outra identificação com quem está na pista e que, além de dançar, gosta de entoar as rimas. Por alturas de Utopia, os Expensive Soul partiram em busca dos sons que haviam influenciado D'Angelos e Erykahs, "a soul antiga, os cantores e bandas que entretanto descobri e por quem me apaixonei de tal forma que há sete, oito anos que não ouço outra coisa", sublinha New Max. "E estou sempre a descobrir coisas novas, o que é incrível." Mas quão mais para atrás é plausível que o grupo viaje? "Em todos os discos andámos à procura de alguma coisa nova, e agora que chegámos a este disco não há muito mais que a gente possa acrescentar. Daqui para a frente só podemos tirar". Demo lembra que este disco sai no momento em que o grupo chega aos 15 anos. "Conto sempre esta história, porque é a mais caricata da nossa carreira: fomos a várias editoras com "O Amor É Mágico" e todas nos disseram que não ia tocar na rádio. Diziam: "É o que ouço em casa, mas isto não vai bater." Resultado? Um Globo de Ouro, essa música passa em todos os programas, continua no top do iTunes, foi genérico de uma novela. É com esta indústria musical que vivemos". Para New Max, o sucesso de "O Amor É Mágico" e restantes singles de Utopia "foi uma chapada de luva branca", sobretudo à EMI, "porque já tínhamos trabalhado com eles antes. Foi uma estupidez da parte deles, que já tinham uma parte do percurso feito. Conheciam-nos, tinham investido dinheiro em nós. É burrice. Acho mesmo que para aí um quarto das pessoas que trabalham nesta indústria não gosta de música. Ou então gostam e estão cansadas, ou não têm sensibilidade". O acumular de experiências negativas empurrou o grupo para a edição por conta própria e, chegados a este patamar de autonomia, e ao contrário do que vem sucedendo na frente puramente estética, voltar atrás não consta dos planos dos Expensive Soul. Demo: "Arriámos as calças muitas vezes, por coisas que se calhar na altura eram importantes. Mas está feito e não voltaremos a fazê-lo". New Max: "Tivemos que fazê-las no início, como qualquer outra banda, mas hoje em dia já não temos a mesma paciência". O berço de uma "big band" Tarde típica em Leça da Palmeira: vento musculado, calor pouco fiável, o céu atravessado por nuvens espessas. A minúscula garagem onde a banda nasceu e registou o primeiro álbum, B.I., e parte do segundo, Alma Cara, pertence à casa dos pais de New Max, situada numa zona central, em frente ao Jardim de Santana e à Igreja Paroquial. Uns escassos quarteirões a leste fica a Avenida da Liberdade, que acompanha as praias para norte e passa à porta dum merecido ícone, a Casa de Chá da Boa Nova, desenhada por Álvaro Siza Vieira e prestes a acolher um novo restaurante de luxo de Rui Paula. Foi por estas ondas que o grupo praticou bodyboard na adolescência e foi nos vários bares de praia por aqui plantados que os Expensive Soul começaram a ganhar rodagem de palco. Em dias de ensaio a garagem entupia com os 13 músicos dos Expensive Soul e da Jaguar Band. "Volta e meia o portão da rua enchia-se de gente. Há aqui ao lado uma escola secundária, e os putos todos ficavam aqui à porta. Como o meu pai já ensaiava aqui há muitos anos, os vizinhos levavam isto na boa". Leonel Novo, pai de New Max, "teve várias bandas, e tocou durante 20 anos, até 2010, no Casino de Espinho". Baixista, liderava um combo chamado Speed, que também foi servindo de espaço de tirocínio para a descendência: Hugo Novo passou por lá, assim como Tiago (nome civil de New Max). "Toquei lá oito anos, todas as sextas, sábados e domingos. Foi altamente, aos 20 e poucos anos, começar a ganhar dinheiro certinho a fazer música. Tocávamos de tudo, claro". Com esse ordenado, New Max adquiriu o seu primeiro material. "O meu pai não me dava equipamento. Só um amplificador de guitarras Fender. "O que tu quiseres, tens de ganhar dinheiro para comprares". Foi uma educação bem feita". Fins de semana no casino não foi a única forma de aceder aos instrumentos desejados. "O meu primeiro teclado, um sintetizador que ainda tenho, comprei-o ao meu irmão, mas tive de ir para a Sonae, num verão, fazer a limpeza das máquinas. Chegava preto a casa". Quando começou a frequentar a garagem, Demo era "um vagabundo". A dupla conheceu-se porque foi parar à mesma turma. Demo, um ano mais velho, era repetente e "gostava de música, mas nunca tinha experimentado nada; mal conseguia distinguir um baixo de uma guitarra". New Max, pelo contrário, frequentava o conservatório, e incentivou Demo a pegar em caneta e papel e explorar o gosto pelo rap. "Na altura havia um programa ao domingo à noite [na Antena 3] que era o Repto, do José Mariño. Organizaram um concurso de letras contra a droga, precisava de mandar uma maqueta, falei com o Tiago e ele achou fixe. Enviei aquilo pelo correio e fomos escolhidos para tocar no auditório da rádio, em Lisboa". Não correu bem: "Enterrei-me todo. Falhei a letra!" Outros participantes nesse concurso: Xeg, Sam the Kid, Valete. Jorge Lopes Originalmente publicado na revista BLITZ de julho de 2014 Foto: Rita Carmo / Espanta Espíritos