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Eddie Vedder: Estrela rock ou homem de negócios?

Numa altura em que se afigura como garantido o regresso dos Pearl Jam a Portugal, em 2016, recuperamos um artigo da autoria de Lia Pereira acerca das indecisões de há 20 anos.

Em 1996, o império recente dos Pearl Jam ameaçava desmoronar-se. Preocupada com os humores de Eddie Vedder, a editora temia que o vocalista abandonasse a banda mas, num artigo polémico, a Rolling Stone mostrava o lado mais frio do ex-Eddie Mueller, recorda Lia Pereira. Qual a primeira imagem que lhe ocorre, quando pensa em Eddie Vedder? A de surfista despreocupado, amigo dos Red Hot Chili Peppers, cujos músicos conheceu quando ainda vivia na Califórnia? A de miúdo angustiado, ventilando as frustrações da infância em verdadeiros hinos rock dos anos 90 como "Alive"? Ou a de estrela rock contrafeita, lutando contra um sistema cujos valores desprezava? Em 1996, a revista norte-americana Rolling Stone publicava um longo artigo no qual oferecia uma perspetiva diferente sobre Edward Louis Severson III, nascido no Midwest, mais precisamente em Evanston, no estado norte-americano do Illinois, dois dias antes do Natal de 1964. Antes de mais, o contexto importa. Na altura em que a Rolling Stone levou à estampa aquela peça de investigação, os "amuos" de Eddie Vedder haviam-se tornado motivo de preocupação na editora com a qual os Pearl Jam tinham contrato, a Epic. Temia-se que, se demasiado pressionado, o volátil cantor e compositor abandonasse a banda, que naturalmente não conseguiria sobreviver na sua ausência. "Os Pearl Jam sem o Eddie Vedder seriam como os Mother Love Bone com um vocalista morto", vaticinou uma fonte próxima do grupo de Ten à Rolling Stone, numa referência mordaz a um dos grupos dos quais os Pearl Jam desabrocharam e cujo cantor, Andrew Wood, foi vítima de uma overdose. Vista como controversa à época, a reportagem apresentava o "outro lado" de Eddie Vedder. "Será que a estrela grunge é uma criação de um miúdo branco?", refletia, pouco depois, a MTV, num artigo em que lembrava que outros ícones da música popular - os Rolling Stones, David Bowie, Jim Morrison - também haviam criado uma persona algo distante das suas raízes (Mick Jagger e Richards não eram velhotes dos blues, Bowie não viera do espaço, o homem dos Doors não tinha uma única escama de lagarto). Todavia, numa década marcada por uma certa obsessão pela autenticidade, naquela que terá sido uma reação ao artificialismo dos anos 80, a ideia de que Eddie Vedder não era um rapaz torturado caiu mal junto de muitos fãs. Crime: ser um miúdo feliz Numa peça assinada pelo premiado jornalista canadiano John Colapinto, atualmente parte da equipa da revista New Yorker, a Rolling Stone mergulha no passado remoto de Eddie Vedder, que até desistir do liceu respondeu pelo nome de Eddie Mueller. Mueller era o nome de família do homem que o cantor cresceu a acreditar ser seu pai. Só depois de o seu pai biológico, Edward Louis Severson, Jr., falecer, vítima de esclerose múltipla, é que Eddie soube a verdade: o amigo de família, de quem tinha apenas uma memória distante, era o seu verdadeiro pai, de quem a mãe, Karen Lee Vedder, se divorciara pouco depois do nascimento do filho. A descoberta marcou o jovem Eddie, que passou a assinar Vedder (nome de solteira da mãe) e não se esquivou a usar canções como veículo de catarse. Contudo, a infância e a juventude do músico, desde cedo obcecado por grupos como The Who e artistas como Bruce Springsteen, foram perfeitamente pacíficas, "desenterrou" a Rolling Stone. No liceu, o adolescente era o típico miúdo giro por quem todas as garotas tinham uma paixoneta. Mais do que a música, a representação era o seu passatempo predileto, levando muito a sério a participação no clube de teatro da escola, onde chegou a ser premiado. O único sinal daquilo a que poderia chamar teenage angst que Colapinto, auxiliado por outros dois jornalistas, conseguiu encontrar foi a forte ligação que Eddie estabeleceu com o seu professor de teatro. "Lembro-me que ele vinha muito cá a casa, falar com o [professor] Clayton sobre assuntos pessoais", contou a viúva do docente a um jornal de San Diego, em 1995. "Não sei se andava à procura de uma figura paternal, mas sei que precisava de alguém com quem falar, e o Clayton estava sempre lá para ele". Anos mais tarde, quando já liderava os Pearl Jam, o antigo aluno foi ao funeral de Clayton, possivelmente tentando reencontrar as raízes de que entretanto se afastara. No último ano do liceu, porém, a estabilidade emocional do aspirante a ator foi comprometida, quando a namorada, Liz Gumble, o deixou. Durante dois anos, Eddie estabeleceu-se na zona de Chicago, de onde a família era natural; foi nessa altura que mudou de nome, de Mueller para Vedder, e que terá, na crença dos mais desconfiados, arquitetado a carreira que começaria a descolar pouco mais tarde, na Califórnia. Sonho californiano Não foi em Los Angeles, mas sim em La Mesa, um subúrbio de San Diego, que Eddie Vedder iniciou a sua escalada para o sucesso. Na Califórnia, a futura estrela fez pela vida, assegurando o turno da noite em estações de serviço ou hotéis, onde trabalhava como segurança, sem nunca abandonar os seus sonhos rock. Terá começado a dar nas vistas, apurou a Rolling Stone, como bootlegger, ou seja, o fã que está nos concertos a gravar tudo para mais tarde vender o recuerdo (na altura, certamente em cassete). Pouco a pouco, Eddie foi-se imiscuindo no meio da música. O seu destino começou a moldar-se quando, em 1986, respondeu a um anúncio no jornal, através do qual a banda Bad Radio procurava um vocalista. Impressionados com a energia e o carisma do novato, os seus futuros comparsas acolheram-no de braços abertos, mas Eddie Vedder não era apenas o vocalista deste modesto grupo funk-rock. Além de ter chegado com algumas canções já escritas, entre elas uma versão primitiva de "Better Man", sobre a relação infeliz entre a sua mãe e o seu padrasto, o norte-americano tinha ideias e punha-as em prática. Fazia os posters, fotocopiava-os e distribuía-os, tentava (e conseguia) marcar concertos, falava com meio mundo e acabava por cativar quase toda a gente. O empreendedorismo do rapazola, então com 22 anos, foi inicialmente apreciado pelos companheiros dos Bad Radio, mas acabou por contribuir para alguma insatisfação no grupo. Já na altura, Vedder mostrava apego por várias causas solidárias, ajudando sem-abrigo, inscrevendo a banda para tocar em eventos de caridade e, regra geral, falando por todos. Descontentes com o facto de não serem tidos nem achados neste "grande plano" do seu vocalista, não foram os Bad Radio, todavia, a dispensar Vedder, mas o próprio a decidir que estava na altura de seguir em frente. A decisão terá sido ajudada pelo facto de, à época, o cantor namorar com Beth Liebling; a nativa de Chicago, que em 1993 formaria a banda Hovercraft, estava então a estagiar na editora Virgin Records, em Los Angeles, e teria uma ambição à altura da do namorado. Juntos, mudaram-se para a grande metrópole, na qual estariam quando Vedder respondeu ao convite para ser cantor de uma certa banda de Seattle. Já antes, porém, e ainda em San Diego, o nosso herói estabelecera uma impressionante rede de contactos. Oferecendo-se para todo o tipo de trabalho (muitas vezes não remunerado) relacionado com a música, desde transportar material de palco a contactar agentes, Eddie Vedder apresentou-se a Joe Strummer, aos Red Hot Chili Peppers, ao ex-Police Stewart Copeland, e a Evan Dando, dos Lemonheads (aparentemente o único que não lhe passou cartão). A quase todos seduziu com uma presença intensa e insistente, que havia de manter durante muitos anos. "É mesmo verdade", confirma Kim Warnick, vocalista e baixista dos Fastbacks, por quem Vedder e Liebling professavam o seu amor após os concertos. "Quando ele fala connosco, sentimos que somos a única pessoa naquela sala. Ele aproxima-se e olha mesmo para nós, é muito intenso". Juntos, Eddie Vedder e Beth Liebling construíram uma rede de influências que, não sendo naturalmente a única razão do êxito dos Pearl Jam, ajudaria a explicar o seu impacto. "90% dos tipos que têm bandas de garagem ficam sentados à espera que alguém os descubra. O Eddie não tinha essa atitude", disse à Rolling Stone um veterano da cena musical de San Diego, corroborado por uma outra fonte: "Ele era o melhor networker do meio". Foi a conselho de Jack Irons, o baterista que conhecera ainda nos Red Hot Chili Peppers, que Eddie Vedder foi tido em consideração para o lugar de vocalista do que viriam a ser os Pearl Jam; foi graças ao seu caráter "carismático e enigmático" que os responsáveis da editora se mostraram interessados em contratar o grupo de "Jeremy". E foi, naturalmente, graças às suas letras e ao seu magnetismo como performer de palco que os Pearl Jam alcançaram um estatuto invejável com os três primeiros álbuns: Ten (1991), Vs. (1993) e Vitalogy (1994). Apesar de todo o sucesso, à banda parecia faltar uma certa aura de credibilidade; vistos como a versão "fofinha" ou reacionária dos vizinhos Nirvana, os Pearl Jam adotaram gradualmente uma política anticomercial, que os fez recusar vídeos, lançar numerosas edições exclusivas para o clube de fãs e, por fim, encetar uma infrutífera guerra legal com a Ticketmaster, que dominava o mercado dos concertos nos Estados Unidos. O que por muitos foi encarado como uma luta pela justiça poderá ter resultado, segundo os mais céticos, da simples casmurrice de Eddie Vedder e da sua tendência para o controlo de tudo o que tivesse a ver com a banda (em 1994, despediu o baterista Dave Abbruzzese, aparentemente irritado com o seu gosto pelo protagonismo, substituindo-o pelo amigo Jack Irons). Hoje, sabemo-lo bem, os Pearl Jam souberam resistir à adversidade (e à marcha de bateristas), estabelecendo-se como aquela que é, possivelmente, a maior instituição de rock dos anos 90 ainda em atividade. Em meados dessa década, porém, a Rolling Stone pintava um quadro cinzento, no que tocava ao futuro da banda, e acima de tudo deixava uma pergunta, evidente logo no título da peça: "Who Are You?" (trocadilho com a música da banda que Vedder mais adora, os The Who). Os amigos Krist Novoselic, dos Nirvana, Chris Cornell, dos Soundgarden, ou Michael Stipe, dos R.E.M, saíram em sua "defesa", mas na verdade, e como resumiu a MTV num editorial de abril de 1994, "o que a Rolling Stone revela é que Eddie Vedder, superestrela torturada do grunge e do rock, é a criação de um miúdo branco da classe média chamado Eddie Mueller". Conseguimos lembrar-nos de pecadilhos mais imperdoáveis. Originalmente publicado na edição nº 97 da BLITZ, de julho de 2014