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Eddie Vedder: A voz de uma geração [ARQUIVO]

Prestes a fazer 51 anos, o surfista que se fez estrela de rock continua sem dar sinais de abrandar. Contamos a história da voz que se apresentou ao lado de Chris Cornell, enfrentou Kurt Cobain, triunfou nos maiores palcos do mundo com os Pearl Jam e gosta de dar concertos a solo.

Será curta a passagem que a biografia do rock reservará a Andrew Wood. A história é igual à de tantos outros que, por Seattle no início dos anos 90, deixaram que a drogas lhes roubassem o caminho do estrelato. Vocalista, descrito por Chris Cornell, dos Soundgarden, como "estrela de rock", Andrew Wood dava voz e cara aos Mother Love Bone, banda de contrato assinado com a Polygram e em vésperas de lançar o primeiro disco. Seria póstumo. Wood ainda passou numa clínica de reabilitação, mas à saída o vício pela heroína vinha consigo. Em março de 1990 foi encontrado em estado comatoso pela namorada e, ainda que tenha estado três dias ligado às máquinas no hospital, não regressou. Com a overdose tinha chegado um aneurisma cerebral e todos sabiam que recuperar seria impossível. Stone Gossard, guitarrista, e Jeff Ament, baixista, perdiam a sua estrela e grande parte da vontade de continuar entre palcos e guitarras. A ajuda viria de Chris Cornell que insistia em fazer um disco de homenagem ao primeiro dos heróis caídos do grunge. Enquanto Cornell desenhava os Temple of the Dog, Gossard e Ament procuravam vocalista. A solução chegaria por cassete. Ganhar a "lotaria" Longe do estado de Washington, na Califórnia, Eddie Vedder sustentava uma vida ligada à música e ao surf com trabalhos de segurança quando Jack Irons, baterista dos então obscuros Red Hot Chilli Peppers, lhe entregou uma cassete com três temas instrumentais de uma banda à procura de vocalista. Reza a lenda que depois de uma sessão de surf, Vedder deulhes letra, cantou-as e devolveu o material por correio. A reação foi a esperada que se apresentasse rapidamente a um estúdio em Seattle. "Não o conhecia, mas quando o ouvi percebi que era especial. Estava ali uma voz a sério, uma pessoa que não estava a tentar soar como qualquer outra", contra Chris Cornell no documentário Pearl Jam Twenty, sobre o momento em que decidiu partilhar o microfone nos Temple of the Dog. Mas seria com Gossard e Ament que Vedder começaria o seu verdadeiro caminho. Já com a companhia da guitarra de Mike McCready, bastaram cinco dias de ensaios para que a primeira maqueta ficasse gravada. As três músicas a que Vedder tinha dado letra? "Once", "Alive" e "Footsteps", dois dos singles futuros de Ten e o lado B de "Jeremy". "Depois de perder um amigo muito próximo, o Andy [Wood], estava a sair de um período de tensão e reflexão. As primeiras três músicas que o Eddie escreveu eram mais negras e acho que fomos os dois atraídos por isso. À superfície, os Mother Love Bone eram felizes, divertidos, mas identificámonos com toda a travessia do Eddie", disse Jeff Ament à revista Q. Ninguém estava preparado para a viagem em que todos embarcariam a seguir. Edward Louis Severson III nasceu em Evanston, subúrbio de Chicago, filho de Karen Lee Vedder e Edward Louis Severson Jr. Ainda antes de completar o primeiro ano de vida, os seus pais separam-se e foi a ver em Edward Mueller, o segundo marido da mãe, um pai que Vedder cresceu. Ao verdadeiro, um músico sem qualquer sucesso, via-o como amigo da família e só depois da sua morte saberia a verdade. Até aos 15 anos, a viver com a família e três meios-irmãos na Califórnia, a infância foi feliz. Aos 12 anos, da mãe recebeu a primeira guitarra e, por casa, raro era o dia em que não ouvia o seu disco favorito, Quadrophenia, dos The Who. Mas tudo mudaria. Se a vida numa casa em que também funcionava um lar de acolhimento para órfãos o tinha habituado a viver sem grande atenção, o divórcio da mãe acabaria por levar ao degradar da relação com o padrasto. Com a mãe e irmãos de regresso a Chicago, Vedder ficou-se pela Califórnia para terminar os estudos e só com o padrasto a convivência seria violenta. Uma discussão haveria de o marcar para sempre. "Tinha sangue nas mãos, o pescoço magoado por ter sido atirado das escadas, a minha Telecaster e o meu skate. Não sabia o que ia fazer, mas disse, literalmente, à minha guitarra: "vamos fazer alguma coisa"", recordou, em 2002, à revista Uncut. Mas Vedder nunca foi uma personagem simples de entender. Vocalista da banda grunge de maior sucesso da história, mas surfista. Monstro de palco, mas tímido. Porta-voz de uma geração, mas sem afinco na hora da guerra de estrelas. Na referida entrevista à Uncut também não escondeu que acreditou na ínfima possibilidade de sucesso. "Foi quase loucura ter pensado nisso como uma possibilidade real, mas funcionou. Ganhar a "lotaria", trabalhar duro durante dez anos e ter a oportunidade que eu tive em 1990. Quando algo assim surge, há que estar pronto". Se já completou o último ano de liceu a viver sozinho e pagar as próprias contas, Vedder ainda regressaria brevemente a Chicago, só para depois voltar à Califórnia na companhia da namorada Beth Liebling, com quem viria a casar em 1994. Nessa época, o surf começava a ficar relegado para segundo plano. Primeiro o trabalho, como segurança em hotéis ou bombas de gasolina, e depois a música, a gravação de maquetas com bandas mais ou menos condenadas ao fracasso. Enquanto ganhava reputação de roadie, tão calado como barato (trabalhava de borla), Vedder passou pelos Surf and Destroy, The Butts e pelos Indian Style, onde teria outra futura estrela como colega, Brad Wilk, hoje baterista dos Rage Against the Machine. E também longe dos palcos tornava-se companheiro de Jack Irons na hora dos confrontos de basquetebol. Se a amizade com Irons acabaria por se revelar a sua "lotaria", a paixão pelo basquetebol acabaria por marcar o arranque da nova vida. Ainda que metade da banda viesse dos Mother Love Bone e que o baterista ainda estivesse por definir, era preciso um novo nome para a banda. A primeira escolha não disfarçava a predileção pelo desporto de cestos e "afundanços", Mookie Blaylock, o nome do base dos New Jersey Nets. Mas a Epic Records, editora pela qual a banda assinaria em 1991, não aprovou e o acordo acabaria por ficar em Pearl Jam, nome supostamente decidido à custa da compota feita pela bisavó de Vedder. A homenagem ao base dos Nets ficaria guardada para o disco de estreia, Ten, o número da camisola. "Mais tarde mandeilhe um disco de ouro, ele respondeu com uns ténis pintados a spray", recordaria Ament à Q Magazine. Lançado em agosto de 1991, Ten teve de lutar pela escalada nas tabelas de venda. No ano em que os Metallica lançaram o maior de todos os seus discos, o afamado álbum preto, com os Guns N' Roses em velocidade máxima com os seus Use Your Illusion, os U2 e Achtung Baby, Michael Jackson com Dangerous, e a explosão dos Primal Scream com Screamadelica, seria Nevermind, dos vizinhos Nirvana, a roubar a atenção e a assumir a frente do pelotão grunge. "Quando estávamos a gravar o álbum preto andava a ouvir o primeiro disco de uma banda pequena, mas de que gostava muito. Conheci o cantor que me disse que era fã, que gostava muito do Ride the Lighting e da "Whiplash". Quando lançámos o álbum preto, o Kurt [vocalista dessa "banda pequena", os Nirvana] lançou o Nevermind e o grunge passou a estar em todo o lado", comentaria sobre a época, Kirk Hammett, guitarrista dos Metallica. Os Pearl Jam seriam levados na enxurrada. Ten só chegaria ao dez primeiros da Billboard em maio de 92, mas em fevereiro de 93 já a máquina de Vedder estava na sua máxima força em vendas, ultrapassou o "monstro" Nevermind e na edição desse ano dos MTV Vídeo Music Awards o vídeo de "Jeremy" já valeria quatro prémios. O choque era inevitável.

A sombra do "amigo" Se Cobain cantava letras impercetíveis, em palco Eddie Vedder revelava-se um monstro difícil de controlar e na hora de cantar fazia-o de alma destapada. Em "Jeremy" cantou a história verídica de um adolescente que se tinha suicidado em frente aos colegas; em "Why Go" fala sobre hospitais psiquiátricos; em "Even Flow" sobre sem abrigo. Em "Alive", por sua vez, apresentou-se ao mundo e os versos ficaram até que o disco dobrasse a marca dos dez milhões de exemplares vendidos: "Son she said / Have I got a little story for you / What you thought was your father / Was nothin' but a fool / While you were sittin' / Home alone at age thirteen / Your real father was dyin' / Sorry you didn't see him / But I'm glad we talked". Mas se em palco as posturas não podiam ser mais diferentes, por trás da fama, bem no centro dos holofotes de uma geração à procura de anti-heróis, os conflitos eram mais parecidos do que se poderia imaginar. À fama, Vedder reagiu com violência. Depois de "Jeremy", recusou mais vídeos de promoção e assegurou que durante anos os Pearl Jam só lançavam vídeos de atuações ao vivo. Mesmo quanto à promoção do disco, as regras eram apertadas pouco dado a singles, assim que se apercebeu que as rádios passavam insistentemente "Black", a balada do álbum, ligou para as estações de forma a assegurar-se que não tinha sido ideia da editora. Nada que pudesse evitar que a música chegasse, também ela, ao número 3 da Billboard. "É sobre deixar ir. É muito difícil para uma relação aguentar a gravidade da terra, para onde puxam as pessoas e para onde a terra as leva a crescer. Disseram-me que o verdadeiro amor não pode ser correspondido. É duro, porque esse é o que nunca poderemos manter para sempre", explica Vedder em Pearl Jam Twenty. Cobain levaria a sua aversão à fama bem mais longe. Se o maior lobo rosna, a alcateia acata e, confrontado com o sucesso dos Pearl Jam, Cobain rosnou. "Sempre detestei a banda", "os Pearl Jam são uma banda comercial", duas frases, dois tiros certeiros na credibilidade dos Pearl Jam e o arranque de uma guerra bem ao jeito da protagonizada por Beatles e Rolling Stones. Mas tal como entre os quatro de Liverpool e os mal comportados rapazes de Londres, nos bastidores a guerra foi bem menos violenta que a descrita nos jornais. Cobain não gostava da concorrência, Vedder não gostou do ataque, mas ambos rapidamente fizeram as pazes. O momento ficaria para a história das galas da MTV. Nos bastidores da gala de 1992, Cobain e Vedder dançaram abraçados ao som de "Tears in Heaven", o hit de Eric Clapton, e enterraram o machado de guerra. "Foi um momento sagrado, não gosto de falar disso. Dançámos o slow e ficou tudo bem. Foi como um pedido de desculpas", contaria mais tarde garantindo que a reconciliação não tinha envolvido "qualquer droga pesada". Menos de dois anos depois, quando já reconhecia ser admirador dos Pearl Jam e via em Vedder "um bom tipo", Cobain suicidava-se. Se até aí, Vedder mal lidava com a fama, no topo da hierarquia, bem em frente do pelotão, tudo piorou. E a imprensa não facilitou. No dia seguinte à morte de Cobain, em Seattle uma pequena publicação de música titulava "Porque não foi antes o Eddie Vedder?", uma frase mais tarde repetida por Courtney Love e uma ideia que não chocava o próprio. "Sempre pensei que iria eu antes" foi a primeira reação captada a Vedder depois da morte do único rival. "Lembro-me de quando adoeceu em Roma. Não me apercebi que tinha sido uma tentativa de suicídio. Tinha ido comer, vi as notícias de que estava em coma e passei-me. Fui para casa, comecei a fazer chamadas para perceber o que se passava e comecei a chorar. Só conseguia dizer não vás, não vás. Se ele vai, estou lixado", reconheceu em entrevista à Melody Maker pouco depois do suicídio e no seu último concerto da digressão. Quando soube da morte? "Estava num hotel em Washington, num quarto de hotel que destruí". Agora estava sozinho, a enfrentar os demónios que tinham levado Cobain à mais desesperada das medidas. "Éramos pessoas muito diferentes, mas também com muito em comum, nas origens, nas coisas que aconteceram nas nossas famílias e acho que isso transparecia nas músicas que escrevemos. O que nos tornava mais parecidos foi a forma como as pessoas respondiam ao que escrevíamos e cantávamos. Acho que foi um choque para ambos ver que tantas pessoas passavam pelo mesmo", dizia sem esconder a falta de otimismo quanto à saúde mental dos próprios fãs: "uma geração que escolhe o Kurt e eu próprio como porta-vozes só pode ser uma geração muito lixada. Mesmo muito, muito, lixada". Para a história, do rock e da entrevista, ficou o reconhecimento de Vedder de que não conseguia corresponder "às expectativas de milhões de pessoas", que lidava mal com as acusações de falta de credibilidade e que tinha recebido cartas assustadoras de fãs. Também para a história ficou o ataque de fúria que, logo depois do desabafo, o fez lançar uma cadeira contra a parede do camarim do Madison Square Garden. "Se ao menos não tivéssemos tido tanto medo um do outro, se tivéssemos falado... Estávamos a passar por tanta coisa parecida que, se o tivéssemos feito, podíamos ter-nos ajudado um ao outro". Adrenalina e testosterona Só nos Estados Unidos, Ten já tinha vendido mais de cinco milhões de cópias e sobrevivera durante dois anos nos tops. Com Vs (1993), o segundo disco da banda, os Pearl Jam golearam na primeira semana vendeu 1,2 milhões, destruiu o recorde que o Use Your Illusion I estabelecera em 91 (777 mil) e envergonhou a concorrência na primeira semana, In Utero, o último dos discos dos Nirvana, não foi além das 200 mil cópias vendidas. Eddie Vedder tinha a batalha ganha quando Cobain morreu, mas nenhuma vontade de a celebrar. Em 1995, o ativismo do vocalista começava a revelar-se. Na lista de alvos, onde os candidatos presidenciais republicanos George W. Bush e Mitt Romney viriam a merecer lugares de destaque, estava a Ticketmaster, a empresa que detinha o monopólio das vendas de bilhetes nos Estados Unidos. Apostados em manter o preço dos bilhetes abaixo dos 20 dólares, os Pearl Jam lançaram-se independentes, na estrada, sem qualquer paragem pelas principais salas do país. Ao mesmo tempo, cancelavam ações de promoção, reduziam as entrevistas e decretavam o fim dos vídeos. Em Vitalogy (1994), provavelmente o melhor álbum da banda, Vedder voltou a assumir as feridas. "Immortality", uma discreta faixa do disco, motivou a pergunta do LA Times é uma canção sobre Kurt Cobain? "Nada no disco é escrito diretamente sobre o Kurt e não quero falar sobre isso porque poderia parecer um aproveitamento. Mas há letras que podem ser lidas para responder a algumas perguntas ou, pelo menos, ajudar a perceber as pressões de alguém que vai num comboio paralelo". Aproximava-se o ponto de rutura. "Basicamente, abrandámos porque o Ed queria uma vida mais confortável. Nenhum de nós alguma vez tinha passado por algo parecido e ele muito menos. O lado negativo da vida em banda estava a desfazêlo e acabámos por lhe dizer "como queiras, paramos". De outra forma acho que a banda teria implodido", contou McCready à Uncut, sobre a digressão em que o vocalista já viajava sozinho de carrinha enquanto todos os outros voavam de jato privado. Mas seguir sem Vedder nunca foi opção. A voz que convenceu Cornell, que apaixonou milhões ao ponto da loucura um fã chegou a tentar entrar na sua casa derrubando o muro com um jipe e que serviu de banda sonora à vida dos fãs do grunge, órfãos de Cobain, nunca poderia ser desperdiçada. E os ataques de loucura também se tinham tornado na imagem de marca da banda. Tinha sido imediata a transformação de Vedder no centro das atenções. A primeira passagem da banda no festival Lollapalooza, em 1992, que ficou para a história. Vedder começou o dia, de capacete militar na cabeça, megafone na mão e a alertar o público: "se alguém se divertir, mesmo que ligeiramente, será imediatamente preso". Mais tarde, no palco, a descarga de energia contagiou milhares e Vedder não escapou. "Acordei no meu hotel, de capacete e t-shirt. Ouvi uma banda e fui ver se era ao vivo. Saí do quarto para espreitar, quando ouvi a porta fechar. Dei por mim e estava no átrio do hotel", contou à Rolling Stone, sem esquecer as dificuldades acrescidas para voltar ao quarto. "Só com a t-shirt amarrada atrás e o capacete militar na frente, desci no elevador de vidro e apercebi-me que era domingo de Páscoa. Tudo bem vestido e eu a parecer uma versão do Tarzan no Vietname. A parte divertida é que havia fila para a receção e eu fiquei à espera, atrás de duas pessoas. Só me desfiz a rir quando, depois de explicar o que tinha acontecido, a empregada me pediu a identificação". Em palco, a loucura era bem mais perigosa e o hábito de subir às estruturas do palco tão difícil de controlar como o ímpeto de se lançar sobre o público. Mais tarde, reconheceria que era alimentado a "adrenalina e testosterona" e que a ideia era saltar sempre de cada vez mais alto. "Decidimos levar os concertos a um nível que as pessoas não esquecessem. Se fosse preciso arriscar a vida, que fosse. Sei que chegava ao hotel a sentir-me bem, para só depois do banho me aperceber que tinha milhares de arranhões nas costas", contou no documentário. E valia tudo. Se na edição de 1992 do festival Pinkpop saltou de uma grua de televisão diretamente para o público, em 2000 o excesso de energia foi trágico no Roskilde Festival, na Dinamarca, o concerto da banda acabou com 9 mortos e 26 feridos depois de quedas e esmagamentos contra os gradeamentos. A idade adulta Para Vedder, o palco nunca foi só música. Logo nos primeiros anos, o microfone começou a ser aproveitado para lutas bem diferentes das travadas com os Nirvana. Em 1992 assinava um artigo na Spin a defender a despenalização do aborto e, dois anos depois, os Pearl Jam tocavam no Rock For Choice iniciativa a que ao longo de dez anos também aderiram Nirvana, Radiohead, Red Hot Chilli Peppers, Foo Fighters ou os Bad Religion e não deixou de participar em várias campanhas pela libertação do Tibete. Em 2000, apoiava publicamente Ralph Nader, candidato ecologista, à Casa Branca, quatro anos depois estava ao lado de John Kerry, e em 2008 seria, juntamente com Bruce Springsteen, um dos mais mediáticos apoiantes de Barack Obama. "Às vezes sinto-me como um trabalhador de uma doca. Não quero perder o contacto com esse meu lado, foi assim que cresci e não estou pronto para ser o tipo que consegue encontrar-se com os líderes mundiais. É tremendo o que o Bono faz e não sei se o conseguiria fazer. Fisicamente é impressionante, por exemplo, encontrarse com [François] Mitterrand e, na mesma noite, tocar na Suécia", confessava numa entrevista à Rolling Stone, em 2006.

Quase vegetariano a exceção assumida à dieta é o fiambre e casado desde 2000 com a modelo Jill McCormick, Eddie Vedder cresceu além do grunge. Como influências, tanto apontava a Springsteen, como aos Fugazi, aos Ramones ou aos Talking Heads. Nas paredes dos camarins desenhava o carimbo dos Who, mas assim que pôde gravou com Neil Young. E nunca deixou de agradecer aos Nirvana. A voz, pela garra, pela capacidade de transformar um sussurro em feroz uivo, é comparada à de Jim Morrison. Mas Vedder sobreviveu ao rock. A solo, com a banda sonora de Into the Wild, experimentou o sucesso, pela primeira vez, sentado em palco. E ao surf, juntou o ioga "um sítio onde me consigo refugiar". "Conheci um grupo de pessoas que se impressionavam não pelo que tens ou por quem és, mas sim pela idade a que chegas ou pelo pouco de que precisas para viver. Falo de gente de 85 anos com corpo de trinta ou quarenta a fazer posições de ioga que ainda não faço. É uma forma respeitável de viver", contou. Vocalista de uma banda rock de enorme sucesso a última contagem dava 21,5 milhões de discos vendidos pelos Pearl Jam contra 20 milhões dos Nirvana Vedder toca ukelele no seu último disco, Ukelele Songs, de 2011. Com os seus Pearl Jam, lançou em 2013 Lightning Bolt e dois singles, a acelerada "Mind Your Manners" e a balada "Sirens". Também agora, a explicação pode estar escondida no mundo que sempre gostou de manter secreto, o privado. Foi quando nasceu a primeira filha, Olivia, que contou à Rolling Stone: "toda a gente me dizia que eu iria ver o mundo com outros olhos, que tudo ganharia uma capa de felicidade. Não aconteceu. Apercebi-me que estava a ficar cada vez mais zangado, comecei a ver este Mundo como o dela e estavam a estragálo. Irritou-me". A meses de completar cinquenta anos, Vedder canta para os sobreviventes do grunge, para fãs de boas histórias de rock, para surfistas e fãs de ukelele. Com os Pearl Jam ou a solo, Vedder canta para mais do que uma geração. Texto: Filipe Garcia Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2014