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Diário de bordo dos Moonspell: 'Por que razão gostamos uns dos outros?'

Fernando Ribeiro escreve sobre o regresso a casa - a digressão dos Moonspell passou por Lisboa e Porto no passado fim-de-semana - e recorda a primeira vez no Coliseu da capital, há quase 20 anos.

Casa 1. Luz boa. Como da primeira vez Chegamos cedo e entramos directos no Coliseu. O sol, a agitação diurna fere-nos os olhos ainda semicerrados. Somos como toupeiras que submergem em terra familiar e depressa sorrimos para pregões de restaurantes, olha os Moonspell, apertos de mão e abraços. Entrar num Coliseu vazio é ao mesmo tempo esmagador e uma chamada ao sentido de responsabilidade. A primeira vez que entrámos aqui, há coisa de vinte anos, ou talvez só 19 por questões de precisão, foi para tocar num festival da EPUL com Xutos, Sitiados e Cool Hipnoise. Lembro-me de estar a almoçar na casa dos meus pais, na Brandoa, e ver o anúncio na televisão. Um excerto do nosso primeiro videoclip, "Opium". Até me engasguei... Esta foi também a primeira vez que os meus pais foram a um concerto nosso. Lembro-me de visitá-los no camarote enquanto a sala enchia. Tinha que lhe dizer que íamos tocar por último. Os Xutos tinham trocado connosco. O meu pai ficou em desespero: "quando os Xutos tocarem vai-se toda a gente embora!!!". Eu concordei mas era a nossa primeira vez. Não me interessava, estar ali já era uma conquista. A sala enchia e as vozes aqueciam num coro que parecia dizer o nosso nome. Estaríamos a ouvir mal? A sala encheu. Os Cool Hipnoise tocaram. Os Sitiados também. Lembro-me de o Aguardela a ironizar com o "darkness and evil". Esta vida de marinheiro... Os Xutos tocaram. E toda a gente ficou. Hoje foi assim. A sala encheu e, sobretudo, a noite foi fabulosa para todos. Para os Bizarra, para os Septic Flesh, para nós. E toda a gente ficou.
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Trabalhámos muito para chegar aqui. Antecipámos muito esta noite. E no discurso, que foi tudo menos da praxe e de circunstância, assinalei isso. Nem sempre o trabalho duro compensa. Afinal estamos reféns de um voto de confiança com um desconhecido que um dia nos ofereceu a sua atenção. Mas, em Portugal, há muitas caras familiares. Quando saio do palco para apertar as mãos que se ergueram para nós, reconheço-as. Vêm de muitos lados. Alguns andaram comigo na escola. Outros, ainda nem tinham nascido quando lançámos os nossos primeiros discos. O que os traz aqui, o que me traz aqui, quem nos colocou no caminho uns dos outros. Porque gostamos uns dos outros? Perdido nestas considerações, subo ao palco outra vez e olho para o lado. O nosso baixista Aires, de rabo para o ar a dar setlists, num momento muito próprio da sua consagração depois de anos a fio nas obscuridade dos bares, dos clientes mal-educados, das versões e das garras deste mundo de noite; o Mike suadíssimo, de pernas a latejar depois daquela maratona de duas horas, entre melancolia e ferocidade, a dar baquetas a pessoas que levaram cartões a pedi-las; o Ricardo que solou como nunca, a bater palmas, com o que lhe vai por dentro mas sempre concentrado; o Pedro, born again teclista, debitando o ambiente e as texturas que levam a nossa música a um sítio diferente. My gang will get you... Falamos, bebemos, fumamos e separamo-nos pela primeira vez nesta tour. Regressamos a casa, ficamos por ali, numa espécie de ilusão que amanhã se irá desfazer como uma nuvem de doce fumo. 2. Porto Sentido De cada vez que "postamos" uma data nova, seja onde for, Pequim, Las Vegas, Albufeira, a pergunta é inevitável. Então o Porto? E pareceu-me que o Porto e quem lá faz espectáculos andou um bocado a dormir na forma. A nossa última tour não passou por lá, as ofertas eram absurdas e de vez em quando ofensivas, e por muito que rodeássemos a Invicta acabávamos, sem desprestigio para ninguém, por tocar nos arredores mas nunca no coração que é o Porto. Quando subimos perante uma plateia não só esgotada como procurada por outros tantos, mas também rendida ao primeiro acorde, verificamos que o Porto realmente sentiu a nossa falta. A partir daí é só entrarmos num espírito que realmente, quando se quer, é incrível. Caramba, o Porto quer Rock, quer Metal, quer os Moonspell mas os promotores embicam com os zambujos da vida e quase que sufocam e apertam as outras vertentes. Outro dia fui ao Plano B e só me faltou ouvir o Dr. Alban na sala de baixo. Enfim, não é só aparecer nas revistas para hipster ver. Nesta noite do Hard Club - e que me desculpem porque sei bem que o novo HC é um sitio incrível (com um restaurante muito bom e black boxes que entram umas nas outras, maravilhas da engenharia) - o que se sentiu foi o espírito vivo dos nossos concertos no Hard Club antigo. Foi brutal para quem testemunhou esta harmonia e dedicação que vive bem mais do que fantasmas ou colunas nas revistas lifestyle. Quando quer, Porto rocks!!! E pode-se beber cerveja em vez de gin, pessoal!

Foto: Paulo Mendes 3. O caminho de Santiago Saio do hotel no Porto onde deixo a minha mulher segura e aconchegada. Sei depois que me veio espreitar à janela. Isso é amor. Atravesso a estrada para entrar de volta no tourbus. Para trás ficam os cheiros, as peles, o toque, o beijo, a despedida de lágrimas que nem sempre podem ser contidas. Baixo a cabeça e adentro o autocarro. Só irei levantar a cabeça na noite a seguir, quando entrar em palco. Até lá, a escuridão do meu beliche que veio para me aconchegar a mim. A caminho de Santiago. Domingo. Santiago de Compostela. Nada ver com os últimos dias. Pouca agitação. Nada de famílias. Alguns poucos amigos, poucas caras conhecidas. Estive nesta sala, esgotada, com os Gift. Grande concerto com a Sónia grávida de sete meses. Pena muita gente não ver isto, mas adiante que se faz tarde. Ninguém espera uma sala cheia. Santiago não é o hotspot galego para Rock ou Metal mas aos poucos a sala enche. Primeiro metade, depois mais. Não fica cheia mas o promotor espanhol não quer acreditar no que conseguimos. Supera as expectativas deles. As nossas são outras: aproveitar os galegos que sendo poucos ou muitos fazem a festa, enchem a sala de uma maneira incrível mesmo que nem todos os lugares se vendam. É um Domingo que se passa bem, falando Português com o público e dizendo obrigado. O Domingo acaba com a banda toda de lágrimas nos olhos. Não, não foi o concerto. Algo terrível se aproxima. 4. Toulouse Acordo com a mulher do Ricardo Amorim, a Mary, que me dá a notícia. São 8 da manhã. O Ricardo dorme por baixo de mim no autocarro. Procuro-o, enquanto procuro forças dentro de mim para lhe dar a notícia mais triste da vida dele. Encontro-o no front lounge, sozinho. Digo-lhe tudo e recebo-o nos meus braços. Choramos agarrados. Falamos muito. Da dor, do que vamos fazer, da terrível logística que massacra as nossas vidas. Continuamos, nem sabemos como. O concerto é triste, é com voz embargada que desfilo as emoções das letras. Tudo me lembra o que aconteceu ao Ricardo. Apetece-me gritar quando o vejo solar, ele sim um guitar hero. A noite passa, a dor remete-se a um silêncio embaraçado. Estamos exaustos. O nosso sucesso nunca vem sem dor. E quem nos critica sabe lá! Permanecemos juntos até o sono nos conquistar a altas horas. Chegamos a Paris. Esgotado. Esgotados. Não nos espera um Sol Primaveril, nuvens carregadas apenas. Será que a nossa música, os nossos anos, a nossa mais profunda amizade as dissipará? Banda sonora: Gorecki - Symphony of Sorrowful Souls
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro Fotogaleria: Rita Carmo/Espanta Espíritos