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Diário de bordo dos Moonspell, por Fernando Ribeiro: Pequeno guia para entender os alemães

O líder dos Moonspell fala agora do país que primeiro abraçou os Moonspell: a Alemanha.

Foi na Alemanha que nos estreámos e que nos provámos primeiro como banda. Sempre tivemos uma história incrível com este país. A primeira vez que voei na vida para gravar o nosso primeiro disco, Wolfheart, há vinte anos, foi para a Alemanha, para a região de Dortmund, e desde aí que praticamente percorremos se não todas, quase todas as cidades daqui. Todas vêm no mapa. Umas mais que outras. Hamburgo, Berlin, Munique, Leipzig, Frankfurt, Nurenberga, mas também Schweinfurt, Bischofswerda e outras com nomes mais complicados. Tenho mesmo a certeza que nunca houve país onde mais tocássemos. Por isso ainda levamos com aquela "pois na Alemanha é que vocês são grandes". Colou à banda.

Bem vistas as coisas, é quase como na Comunidade Europeia, com a vantagem de a nossa relação ter protagonistas bem mais agradáveis que a Merkl ou o Passos; e também porque é baseada noutro tipo de valores bem mais nobres e desinteressados. Mas a Alemanha é o mercado mais importante para todas as bandas, sem excepção. Aqui existe tudo. Até desodorizante com aroma de cerveja nos festivais. Isto só para falar da comunidade metaleira. Os góticos bem, esses juntam-se em encontros aos 50.000 em cidades como Leipzig, para celebrarem o estilo de vida, ouvir musica, ver cinema antigo, tomarem só um bocadinho de Sol no parque enquanto fazem um pic-nic vitoriano. Pensar que aqui em Lisboa nos enfiávamos todos nos cantos escuros da Jukebox. Triunfar aqui ou pelo menos ter uma presença forte perante este público habituado a tudo e todos, com um rigor de exigência brutal, é uma tarefa gigante e uma responsabilidade ainda maior.

Por isso nos perguntamos sempre como vai ser. Por vezes, é complicado ler as emoções nos alemães. Mas, por outro lado, eles têm uma emoção incrível dentro deles que se liberta quando as luzes se apagam. Um headbanging como nenhum outro no mundo. Um apetite voraz por música e por diferença. Sabemos muito pouco dos alemães e muito facilmente nos deixamos contaminar pela história recente e por clichés e killing jokes. Caramba, as vezes que me ri com piadas feitas por alemães! Terá sido o Jeigermeister? Não sei. Mas sei que os alemães são pessoas como nós em directa comparação. Até a Merkl e o Passos estão bem um para o outro, nos seus maliciosos intentos.

Depois de Hamburgo, "red light district", movemo-nos para Berlim, a cidade entre as cidades, e finalmente a calma pacata de Munique, Bavária. É a nossa tour dentro da tour, mais uma vez: cinco cidades, cinco dias, cinco noites de tiros certeiros que quebram o gelo, que é só aparente, nestes teutónicos que até gostam de nós à brava e compram os nossos discos... e puseram-no top em 39º!!! Por isso, lembrem-se de que eles até escreveram o Fausto e a Montanha Mágica, inventaram Valquírias, Anticristos e os decotes da Oktoberfest, e são muito mais que os fantasmas do passado ou que os carrascos do presente. Ah para Berlim já tenho uma t-shirt dos Mão Morta para usar. Com orgulho.

Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro