Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Diário de bordo dos Moonspell, por Fernando Ribeiro: 'Não vou para padre, mas decidi deixar de fumar'

Em digressão pela América do Norte, o líder dos Moonspell fala dos White Zombie, dos problemas na fronteira, de uma Chinatown cheia de ratos e de junkies. E faz uma confissão.

White Zombie O disco Astro Creep dos White Zombie comemorou vinte anos também há coisa de dois meses ou coisa que o valha. É um grande disco que espelha muita da cultura norte-americana de que gostamos, ou pelo menos que eu gosto: os hot-rods, as babes tatuadas, um caleidoscópio de filmes de terror, referências ao passado, algo entre o psicadélico e o vampírico, californiano e bizarro, o museu do weird, o groove. Pena a América não ser toda assim. A realidade é mais feia que a ficção. Em todo o caso, o disco inicia-se com um sample de voz que diz: perhaps, we better start from the beginning e depois aí vamos nós! Por isso, vou começar pelo fim. Hoje, estou enfiado no autocarro todo o dia. Cabin fever. São quase dois dias de viagem, dois condutores, muitas milhas. A nossa agência decidiu que havíamos de conseguir vir de Calgary, onde ontem demos um belo concerto num pub chamado Dickens, até Indianápolis. Se forem tão bons a geografia como eu, isto não vos dirá nada mas imaginem pegarem no carro em Lisboa e ir até à... Polónia, em apenas 36 horas. Das quais já perdemos duas na fronteira em North Dakota, uma cidade chamada, muito apropriadamente, Portal onde os guardas tentam nos dar um apertão. Claro que estão só a fazer o trabalho deles mas, amigos, também eu estou aqui a fazer meu e não me interessa nada viver aqui em North Dakota ou qualquer outra cidade ou estado. O visa que pagámos ao governo americano (principescamente, acrescente-se), os papéis de impostos que custam um dinheirão só para deixarmos cá 30% do pouco que já fazemos, deviam ser suficientes. Só precisariam de passar o passaporte num scan e ai saber tudo sobre nós. Mas não, aqui é old school e by the book por isso esvazio os meus bolsos e até me perguntam o que é aquele galito de Barcelos que anda comigo no bolso, por superstição (foi o meu filho que me deu). Depois de muitos minutos de bullshit, não encontrando pretexto para nos deter mais tempo, confiscam todos os citrinos do autocarro. Paranóia ao mais alto nível, na minha opinião totalmente contra o espírito inscrito na base da Estátua da Liberdade e que há muito se tornou apenas objeto de fotografia para os turistas. Mas chega do dark side of America, recuemos mais um pouco. Até Seattle. Onde apanho o susto da minha vida. Não vale a pena explicar muito. Quase perdi a voz. As razões são muitas: datas sem parar, viagens absurdas, ar condicionado americano (por exemplo no autocarro estou de casaco vestido, fora apenas de t-shirt), e tudo isto dos farhenheit faz tanto sentido como as polegadas, os pés, as libras - mas afinal vivemos ainda em Albion, as entrevistas, as centenas de entrevistas, o apetite por uma boa conversa em vez de me enfiar na net, o fumo e o vinho da Califórnia.

Algumas coisa mea culpa, outros nem por isso. Mas para mim, momentos de crise são momentos de resoluções. E fiz muitas que me parecem boas. Estou há dois concertos um pouco desorientado, confesso, mas entro numa fase monástica de silêncio, sem fumo, sem festa, sem vinho. E sinto-me estranhamente bem. A cortisona que me receitam, depois de muita negociação em Vancouver, permite a todos nós dar um concerto impecável nesta primeira data canadiana, no Rickshaw Theatre por onde já desfilaram alguns dos meus favoritos: Swans, Laibach, A Silver Mt. Zion, muito metal também. Se o clube é fantástico, e a cidade também, já a Chinatown onde este se encontra é um sítio duro, cheio de ratos que correm dos contentores abertos, e de junkies com já não se vêem na Europa, um Casal Ventoso mas numa área plana de avenidas e lojas, como uma parada zombie sem a parte divertida da irrealidade.

Fiesta times Antes da fase monástica: a festa. A Califórnia dos amigos, do vinho do Coppola, tão incrível quanto os seus filmes, as diversas espécies de erva, funcionam para mim quase como uma despedida. Sim, não vou para padre, mas decidi deixar de fumar. Esse é o meu compromisso e sacrifício pela minha voz, pela minha banda e por quem nos segue. Atenção: continuo a acreditar e a defender a liberalização da marijuana, mas se acontecer pouco vou beneficiar dela, por isso aproveitem! Mas também se celebra, porque Oakland, o mais próximo que chegamos de S,Francisco, foi, talvez, o melhor concerto até agora da touro. Para quem interessa, claro. Existe uma disposição que normalmente é complicada de obter deste público mas que é compensada também pelas diferentes nacionalidades que se apresentam no concerto. Desta vez cabe aos egípcios começar o contágio e aos americanos seguir o passo. Adorámos o concerto, ponto final. Podemos dizer o mesmo de Los Angeles se não tivesse sido um dia tão complicado e imerecido. Buraco negro Los Angeles é a cidade onde todos queremos tocar. Lá é que acontece tudo. Os media estão lá, os outros músicos também, as celebridades. Lutámos muito por este concerto e tudo o que conseguimos foi ir até ao gueto tocar num sitio medonho chamado The Black Castle. Pouco de castelo, convenhamos.

Tenho de dedicar pelo menos uma linhas ao nosso técnico Jorge Pina. Ele é o amigo que todos queremos ter. A segurança de que por muito fundo que seja o buraco - e este era profundo e mal-cheiroso - ele vai salvar-nos, a nós e ao dia. Gosto muito dele, todos gostamos. Toda a gente gosta, é daquelas pessoas que são assim. Eu não sou. E se fosse não era genuíno. Mas este Pina vale o seu peso em ouro, todo ele é energia, inteligência e perseverança. E vê-lo encharcado em suor, a fazer tudo sozinho, super sócio enquanto que os mexicanos de LA olham incrédulos, pode-me cortar o coração porque merecemos todos melhor, mas também nos inspira para assinarmos um concerto muito bom perante um público que conseguindo ultrapassar o ambiente ou a falta dele, também ajuda à celebração. O dia é passado entre autocarro e clube, nada de passeios, copos no Rainbow, ver o Lemmy a jogar aquelas máquinas de balcão no seu spot preferido, nada de compras para as esposas na Hustler. Nem sempre se tem tudo, estamos aqui é para tocar, bem sei, mas perder estas coisas é também perder o que LA tem de bom. Ser figurante no Dangerous Minds não é para mim, nem para nós. E entre futuro e passado, a nossa saga continua, pelas cervejas artesanais de Portland, as mesas de jogo de Vegas, as danças de Mahafsoun. O buffet dentro do strip, carne sobre carne, os bares de oxigénio, os concertos, esses sim sempre mais importantes que o turismo. Navegadores em naves estranhas, em saloons, perante entusiastas como em Vegas ou zombies como Spokane, Washington. As resoluções, os sustos, os fumos, os retiros. Que vida esta! Espero que a consiga narrar convenientemente, assim a musa me ajude no meu trabalho! Amanhã Indianápolis será a correr. Mas para já velocidade de cruzeiro através de North Dakota, Minnesota, Wisconsin, Illinois, e finalmente Indiana. Quatro estados num dia. Que vida esta! Nem o Kerouac. Fotos: Fernando Ribeiro, Krimh (Septic Flesh), Karina Diane (Los Angeles)