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Diário de bordo dos Moonspell: 'Os nossos camarins cheiram a Voltaren e não ao perfume de groupies'

Em digressão europeia, Fernando Ribeiro fala hoje de 'um dia difícil' em Berlim.

Berlim foi um dia complicado. Sétimo dia da tour. Mas ninguém descansou. Isto dos concertos seguidos é uma necessidade que tem muito a ver com a dinâmica financeira e logística da tour. Sai-nos do corpo e da voz, mas é assim. Realpolitik. Estar num tour bus e com boas condições ameniza as coisas. Fazer concertos todos os dias e voar para os destinos no próprio dia é pior. No verão ou em tours na América Latina mudamos de rotina e passamos a viver de noite e a dormir de dia. Agora só me apetecia dormir mas não... há coisas para fazer... Ontem foi um dia complicado, com pequenas fífias vocais. Ninguém nota, mas noto eu - e, para mim, isso faz toda a diferença. Fica-se triste e nem se sabe apreciar condignamente a sala cheia em Berlim, a fantástica resposta, o aplauso contínuo. É estranho isto em mim. Podemos ter uma sala rendida mas se há algo que corre mal, o feitiço quebra-se. Ou o contrário: podemos ter uma sala indiferente e eu estar on fire. Sou um pouco egoísta na apreciação dos Moonspell. Não que não me interesse o que as pessoas pensam - afinal sou eu que estou ali para as fazer felizes e não o contrário. O mesmo para os discos. Aprecio criticamente Moonspell num sentido muito pessoal que nem sempre é o mesmo de quem nos ouve ou vê. Ao vivo, não possuo o fascínio com que os fãs nos possam ver ao vivo. Estou lá sim para canalizar energias, contar pequenas histórias e tentar ao máximo que nada do que possa ser problemático passe cá para fora. Dentro desses limites e circustâncias, Berlim foi um dia difícil para mim.

O mais estranho foi que Berlim até foi um dia cheio de boas novas: as entradas nos Tops Europeus; os números 1 nas criticas de várias revistas da especialidade (Metal Hammer, Spark, etc.), as novas datas para Outubro. Mas nem isto quebrou o meu spleen. Saí do palco com dúvidas e com muita coisa para fazer aqui em Munique onde me fechei num quarto entre mezinhas vocais, silêncio e palavras escritas. Esse é o meu papel: o de me fortalecer mental e fisicamente para enfrentar o que realmente interessa que são as noites de Berlim, Paris, Lisboa, Barcelona... E aqui ficarei até ao concerto, ignorando o sol lá fora, a Marienplatz e o seu relógio, as maravilhas da capital Bávara. Porque faço isto? Simples. Ontem quando regressei do palco, tive de atravessar o público pois o camarim era ao fundo da sala. Ia meio cabisbaixo mas parei e posei para as fotografias que me pediram. Um casal brasileiro e fãs sírios. De resto, caminho a direito por entre a civilização educada dos fãs alemães. Ressurgi depois para falar com as pessoas no bar, beber uma cerveja com a nova geração de emigrantes, arrancada ao seu país e triste com isso (cada vez há mais portugueses da nossa geração ou da geração a seguir nos nossos concertos). Não me queria esconder, precisava de saber. Toda a gente foi unânime a apontar o brilhantismo do concerto. Menos eu, segundo parece, hahah! Sim, é verdade que as pessoas não notam etc...mas houve um fã alemão, um pouco mais velho que eu, que me disse, talvez, as mais belas palavras que ouvi proferidas da boca de um fã. Eu tenho a mania que sou velho. E sou. Ou pelo menos sinto-me velho. Bastantes vezes, até. O ritmo da minha vida é supersónico. E sou só um. Também me lembro de tempos em que consegui estar a beber e a fumar toda a noite e no outro dia impecável, a berrar e a uivar que nem um lobo. Isso acabou. Para mim e para muitos dos músicos da nossa geração. Os nossos camarins cheiram a pomada Voltaren e não a perfume barato de groupies. Estava eu a pensar nisto, quando um rapaz da minha idade, talvez mais velho se aproxima e com um sotaque carregado me pede um aperto de mão e um autografo no poster que trazia. Depois virou-se para mim em inglês e disse-me: "o que vi no palco não foi um homem velho a tentar mostrar as pessoas como era e como se fazia no seu tempo. O que eu vi foi um homem jovem, uma banda rejuvenescida, luminosa, como nova". Este fã era old school. Pelo aspecto, pela t-shirt que trazia vestida. Fiquei eu sem palavras, só algumas para lhe agradecer, e dei-lhe um abraço. Fomos ambos à nossa vida decerto mas, apesar das entradas em tops, e números 1 em revistas, talvez tenham sido estas as palavras que mais me animaram nesta grande saga que tem sido escrever, produzir, lançar, tocar e viver o Extinct. Não cheguei a saber o nome do fã. Mas aqui na minha clausura forçada em Munique farto-me de pensar nele e o meu dia todo vai ser dedicado a tornar-me esse ser de que ele fala. E estou certo de vou conseguir. Dia após dia. Noite após noite. Banda sonora: Swans, "God Damn the Sun"
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro Foto destaque: Rita Carmo/Espanta Espíritos