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Diário de bordo dos Moonspell: 'O rock é confiança. O resto são mentirinhas para entreter o povo'

Digressão europeia da banda portuguesa chega ao fim. No fim de abril, é a vez do continente americano. Leia aqui a crónica de Fernando Ribeiro.

El ritual de lo habitual A coisa mais estranha é que num discurso repleto de saudades, de referências a casa, à ansiedade do e pelo regresso, se intrometa aquilo que fazemos há 20 anos, tours, back to back, como se permite dizer em gíria da estrada, sem anos sabáticos, sem períodos de descanso para nos reencontrarmos. A nossa habituação, a nossa experiência e sobretudo a nossa adaptação às circunstâncias. Penso nisto enquanto me estico e faço alongamentos em cima de uma toalha, fazendo do espaço contíguo dos camarins do Underworld em Londres, todo um ginásio, com tapetes de yoga por toda a parte e aquelas bolas gigantes vermelhas onde os mais cansados se sentam e rebolam até ao chá, ficando por lá, tontos das luzes fluorescentes.

É nesta altura que se começa a dizer: agora fazia mais um mês. A máquina está oleada, o corpo formado ou conformado às exigências do beliche do tourbus, dos seus tectos baixos e do seu movimento perpétuo. Já nos deitamos a altas horas e acordamos de tarde, post meridian, e tomamos pequeno-almoço que nos chega até ao concerto. Tocamos melhor, estamos unidos, conseguimos relaxar. Se não tivéssemos os tesouros que temos em casa, com certeza continuaríamos. E, já estando para lá da linha da exaustão ou do aborrecimento, faríamos como os marinheiros de Julio Verne ou Edgar Allan Poe, ultrapassando a barreira de gelo, contornando por entre icebergs gigantes. Sim, leio sempre livros de aventura quando faço digressões. Misery loves company, e sabe bem saber, ou imaginar, que se o Robinson Crusoé (que li, talvez, pela décima vez nesta tour), ou o Gordon Pym ou o Comandante Guy, ou até o naufrago Tom Waits, conseguiram, nós também conseguiremos. Tudo é motivação e não, a motivação não está nos livros que se escrevem sobre ela. Mas que penso eu? Que espírito de lobo em tour se instala dentro de mim? Daqui a duas semanas, estarei outra vez a tentar recuperar a forma, a olear, a passar dias a fio deitado sobre algo que se move, e todo o tempo entre família saberá a pouco. Não sei se vive um navegador dentro de mim e, mesmo se vivesse, não teria hipóteses numa luta contra o homem de família que sempre fui e agora mais como pai e marido. Fui filho, irmão, tio, pai. Sempre de regresso. Mas isto é o que fazemos e não conseguimos explicar. E as melhores coisas não se explicam.

Não temos explicação para aguentarmos vinte e quatro datas seguidas. Não temos explicações para o facto de nem as tragédias nos deterem. Não temos explicação para o que nos está a acontecer com todas as boas novidades que também se sucedem dia após dia: mais bilhetes vendidos, Rock in Rio Brasil, entradas nos tops, nas rádios, nas magazines, no coração dos fãs, a quem tanto temos a agradecer, tanto. Porque embarcam connosco em todas as viagens, loucas, trágicas e difíceis. Posso estar imbuído das imagens náuticas, mas sinto mesmo que eles são a vento que sopra as nossa velas, sem desanimar. Depois de salas esgotadas, Coliseu de Lisboa cheio e outros pontos altos, quis o destino que acabássemos a tour num clube punk em Osnabruck, na Alemanha, num Domingo de Páscoa. Contraste. A história da nossa vida. Que também é a de tornar as fraquezas em força - e hoje sei que, apesar de ter um daqueles postes/colunas mesmo em frente da minha cara, nos vamos divertir, tocar bem, entusiasmar e sair de cabeça erguida. Chamem-me convencido ou arrogante, fuck it, o Rock é confiança. O resto são mentirinhas para entreter o povo. Banda sonora: Sisters of Mercy - "Lucretia My Reflection"
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro