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Diário de bordo dos Moonspell: 'Não há, nem nunca vai haver, um clube assim em Portugal'

Fernando Ribeiro e companhia são recebidos com emoção naquele que é "talvez, o melhor clube da Europa", na Suíça. E sonha algo parecido em Portugal.

Diáspora Anno 2015 Entramos na Suiça e no segundo dia somos recebidos pela chuva. Não interessa. Dentro do clube não chove e o conforto é tanto que há ovos à lá carte para o pequeno-almoço. Quando entro, reconheço o sítio. O Rocking Chair, em Vevey. Estivemos cá na nossa primeira tour, como banda de suporte. Lembro-me de estacionar a carrinha e ir a uma rua beber uma bica que pedi em Português e uma salada de atum que me soube pela vida. Ha! Estou em Vevey, Suiça, e já passaram 20 anos entretanto. Há 20 anos as coisas eram diferentes: não havia ovos, nem podíamos ocupar a parte de cima como estamos a ocupar hoje. Ontem, estivemos a tocar no - talvez - melhor clube da Europa, o Z7 em Pratteln, na parte alemã da Suiça e foi incrível.

Ultrapassadas as dúvidas e o temor, a banda entra agora numa mecânica que é fruto do tocar todos os dias. Se bem que se com este disco tentámos sair de uma mesmidade ou de uma zona possível de conforto, o concerto não lhe fica atrás. Muitos temas novos, mudanças de alinhamento, automatismos que se têm de ganhar. Foi a décima terceira vez que tocámos neste tal de Z7 que nos viu crescer, e nós a ele, e é um abraço grato que se troca entre nós e o dono do clube, Norbert um alemão de pelo menos 70 anos ou cinquentas e muito pela cronologia rock.

Se calhar voltamos para o Verão - muitas vezes os negócios fazem-se pelas emoções da noite e esta foi bonita. Claro que vamos sempre a pensar "não há, nem nunca vai haver um clube assim em Portugal". Não são as bandas que o vão fazer, de certeza: nós é chapa ganha, chapa gasta mas (e não, não estou armado num daqueles tipos que tem um projecto de clube de rock entre mãos e que está à espera que o staff do António Costa o receba) mas quem lucra a sério da música, we know who you are, cooperativas, sponsors, promotores, porque não? Seguir o exemplo do desgoverno e não reinvestir na música que alimenta o negócio desde a primeira moeda.

E não, não falo em takeovers hostis, apenas em alguém que pegasse num milhão (quem o tiver) ou coisa que o valha e fizesse um clube e depois o alugasse. Em pouco tempo, esse dinheiro seria recuperado, canalizando os alugueres (muitas vezes proibitivos) para um só sítio. Escalas à parte, é quase a mesma decisão que comprar uma carrinha ou alugar ad aeternum. Se há concertos suficientes, as bandas apostam em transporte próprio; ora público sedento e sonhador de um clube assim em Lisboa, particularmente, é coisa que não falta. Vejam por vocês mesmos. Capacidade: 1600 pessoas. Estatuto: Perfeito para tocar.

A realidade, no entanto, é bem mais dura que o sonho e quando se mistura com ele guia-nos a paradoxos que a estrada fortalece, pelo seu ritmo incessante, pelo contacto inevitável com as pessoas (mesmo que não apeteça), pelos problemas e soluções que são um exercício diário. É impressionante como as relações em tour são assim tão fortes. São cheias de abraços, confidências, planos, intriga, com pessoas que nem sabemos se fazem parte da nossa vida quando não conseguimos, por timidez, abraçar um amigo de há anos, mas estendemos os braços para quem simplesmente revemos de ano a ano, na temporada da caça.

Ontem desci do palco em Pratteln, para cumprimentar o público e detive-me bastante tempo com os emigrantes portugueses, jovens na sua maioria, que faziam um grupo barulhento e agitavam as primeiras filas para espanto divertido dos suíços, franceses e alemães que preenchiam a sala. Depois do banho e recuperar forças, ainda os procurei mas tinham ido à vida deles e eu fui à minha. Mas deu para termos aquelas conversas entre fosso e público, com abraços à mistura, e muitas palavras de orgulho e simpatia. Não é fácil ver estes jovens desterrados e, parecendo que não, quando vêm com aquela conversa de embaixadores para cima de nós, ninguém sabe verdadeiramente o que diz.

A verdadeira embaixada é dar este abraço, estas palavras, este Portugal que vem até eles e é o deles, não o dos pais, o dos Tonys, omnipresentes e admirados por todos, o fado de vez em quando mais sentado que sentido. Não! Este é o mundo deles, os Moonspell, os nossos concertos na Voz do Operário, ou no Johnny, pessoas que querem rock ou metal que conseguem ler melhor que todos os outros estilos, por pura vivência. Querem electricidade, estão fartos de música à luz das velas, e de mel. Querem outra coisa que os faça sentir vivos. Se somos nós esta noite, é para isso que aqui estamos. Lá fora, entre prédios pintados com o Chaplin, a chuva e a promessa adiada desde o nosso concerto de Lausanne (há dois anos) de um fondue especial de corrida, a hora aproxima-se e para além do merci bien da ocasião, muitos obrigados sairão dos meus lábios esta noite em Vevey, Suiça, um pequeno Portugal para onde os jovens fogem do grande. Banda sonora: "Alma Mater", Moonspell
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro