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Diário de bordo dos Moonspell: Lombo de porco tipo leitão, a fã polaca e o melhor público

Fernando Ribeiro escreve sobre um concerto 'ao lado' de Robbie Williams, a Babilónia de Londres e a chegada à última paragem da digressão europeia: a Páscoa dos Moonspell.

A Páscoa dos Moonspell Morte e Ressurreição Por alturas da Páscoa, Paris foi o nosso local de ressurreição. É impossível ficar indiferente a um público que reúne a energia e a sensibilidade certa para nos acolher, in our time of need. Uma mistura étnica que enche a sala de franceses e portugueses, entre outras nacionalidades, Paris sempre cosmopolita e sempre cultural. Não é à toa que por aqui a Mísia, ou a "Misiá", conforme o sotaque original, é uma espécie de Deusa (e merecidamente na minha humilde opinião de súbdito e seguidor da fadista mais avant-garde do País); e faz sentido que tantos gravem por aqui os seus DVDs e álbuns ao vivo (Depeche Mode, por exemplo).

A sala [Le Trabendo] esgotou há semanas e ainda há procura, e a nossa fila rivaliza, à devida escala, com a do Robbie Williams, que se apresenta aqui ao lado na sala irmão mais velha, o Zenith. A palavra de ordem é superação e catarse dos males que se abateram sobre nós, especialmente a morte do pai do Ricardo Amorim. Nunca a música nos soube a tanto, nunca o aplauso nos fez tão felizes, nunca os olhos, a reverência prestada e o respeito absoluto pela banda nos levou tanto para cima. E nem levámos três dias a regenerar o que fosse preciso e continuar a olhar em frente, moving on a straight line into depths unknown.

Iniciamos o encore com a nossa única canção em Francês, "La Baphomette", e o ambiente chanson française meets ocultismo dançante, instala-se numa folie que nos encanta. Thank you Satan. Arrumamos os sacos e rumamos ao Luxemburgo, onde tocamos um dia perante uma plateia óptima, onde muitos portugueses se incluem. "Sabiam que um quarto da população do Luxemburgo é portuguesa?", afirma-se como o mote para o dia e até ir para o palco ainda me conseguem dizer isso mais dez vezes. Bem, não mais esquecerei, um quarto da sala falava em português. É fantástico tocar aqui por várias razões. Há uma "matança" de saudades mútua. Os fãs, já falei deles, as novas gerações emigradas do rock, metal e afins, matam a saudade da "alma mater", e por momentos estão connosco na nossa terra e pode-vos parecer a todos uma sensação ultrapassada, quase piada de emigrante, mas o facto é que isso acontece e para nós, muito mais que carregar bandeiras, essa é a embaixada que pretendemos. De volta à verdadeira Finisterra, em viagem interior.

No dia seguinte, matamos nós as saudades. O Ricardo viaja para se despedir do seu Pai e estar com a família. Nós ficamos a aguardar. Sempre. Para nos distrair: o supermercado. E a lista de compras, que se acumulam no nosso carrinho, inclui: lombo de porco tipo leitão (haha) vindo da Bairrada; pastéis de nata, bolo de arroz, carcaças, vinho Alentejano e do Douro, chouriço, queijo, Compal. Passamos o dia neste festim e noutros menos lusitanos, talvez. Sabe-nos bem este dia único de descanso e temos sorte em estar aqui e não nas traseiras de um Aldi na Alemanha a comer salada de batata. O dia passa e rumamos a Calais para apanhar o ferry para Dover e depois Londres, noutra data (esgotada), noutra noite quase babilónica onde "londoners" se misturarão com iranianos, egípcios, portugueses com alto sotaque londrino, paquistaneses, e quem sabe quem mais, e de onde. Sexta-feira Santa/Good Friday Sei bem como é Londres. Aliás a nossa primeira internacionalização foi Londres. Em 1995 fizemos data dupla no George Robey (carinhosamente chamado the "worst shithole in London") e Borderline. Na altura fizemos ainda Bradford mais a norte e foi como perder a virgindade. Dormir no chão de apartamentos em Camden, chá na panela, Nando's e a galinha piri-piri "portuguese style". Uma senhora da idade da minha mãe na altura com uma t-shirt de Black Metal, as compras em Camden, o turismo acidental, os concertos plenos de ingenuidade e algum mau inglês, "hello how r yu londone". Por isso, levanto-me cedo, tomo um banho, café e vitaminas e ponho-me logo ao trabalho. Primeiro fazer som. Não é fácil neste clube mas lá nos orientamos. A seguir, meet and greet. E aí sim a primeira imagem nítida da Babilónia que nos espera.

A fã polaca a tirar dez fotos porque parece que nenhuma ficou boa, o paquistanês com ar de sultão das mil e uma noites que nos oferece pinturas das nossas caras e um Porto Dow's de 2004, o fã egípcio que me pede conselhos para um livro de filosofia que está a escrever, o português poeta que apresentou uma letra minha ao professor e foi "apanhado" por ele. Depois, quatro entrevistas a abrir e chega a hora de aquecer para o concerto. Até parece inusitado já que o calor no palco nos leva nós a uma tontura de quase duas horas no palco perante uma energia que só se consegue em Londres sempre um destino que nos aguarda em alta voz e de braços abertos.

Por fim, mais conversa, mais fotos, mais abraços, mais histórias, mais mil fotos com a fã Polaca, e seguir para dentro do autocarro e fazer o percurso inverso com lua cheia a iluminar a noite. Londres-Dover-Calais. Segundo pequeno-almoço inglês. Ovos, bacon, café, feijão, torrada, manteiga, comprar uma prenda ao Fausto em alto mar, recolher ao autocarro e dormir o sono dos justos. Ainda não é Domingo Amanhã acabamos a tour. Nem vou dizer que foi um turbilhão. Nem vou dizer que tivemos tudo; sucesso, trabalho, lágrimas seguras por abraços, reconhecimento, erros, superações. Tudo acerca da extinção é intenso e nunca parámos. Podemos até chegar a um muro negro por vezes mas fomos lestos a trepá-lo. Muitas vezes nos embalámos nos braços dos fãs, nos seus olhares, nas suas palavras de conforto. Conhecem-nos bem melhor agora. Ainda bem. Todos ganhamos.

Chegamos a Colónia. Acordo com o Sol. Sorrio. Saio para a rua de t-shirt. Fui enganado. Está frio. Corro para dentro, para o depressing room e aí vou recuperando as minhas cores. Dois dias. Duas noites. A minha casa. O meu melhor público. Banda sonora: Ozzy Osbourne - "Mama, I'm Coming Home"
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro