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Diário de bordo dos Moonspell: Gripes, 'a comida do heavy metal' e o caloteiro-mor

Fernando Ribeiro escreve agora sobre o início da digressão Road to Extinction, entre a Holanda, a Bélgica e a Alemanha.

Primeiros dias Holanda-Bélgica-Alemanha Na última data da etapa, cruzamos a linha com a camisola amarela de um concerto esgotado e uma noite incrível no clube Biebob, em Vosselaar, uma cidade pequena famosa por este mesmo clube, pelo seu catering (frango assado, prime quality!, a comida de sempre do heavy metal), e pelas lojas de fritura espalhadas pela rua, prometendo colesterol. Sabiam que foram os belgas que inventaram as batatas fritas? Aprendi isto nos livros dos Astérix.

Estivemos aqui há 20 anos exactamente a fazer suporte a uma outra banda. Vínhamos de Inglaterra e vínhamos esfomeados. No Reino Unido, os promotores, na altura, não davam catering. Tínhamos de nos desenrascar de qualquer maneira, que me desculpem as BPs do sítio nas quais aviei muffins de chocolate e outras coisas para entreter o pior inimigo dos Portugueses em tour: a fome. O dono deste clube e também patrão do Graspop (o maior festival Rock/Metal da Bélgica por onde já passaram nomes como Kiss, Aerosmith, Maiden, e também os Moonspell, por várias vezes) chama-se Bob e viu-nos há vinte anos, pegou em nós, sentou-nos e deu-nos de comer e beber. Nunca o esquecemos, nem ele a nós, e esta data esgotada foi quase como um regresso a uma casa fora de casa, um pequeno triunfo que nos mete mais em tour mode, reduz a dor das saudades e junta uma peça importante às várias que precisamos para conseguirmos montar todo o mosaico dos meses que se seguem.

Encontrámos, também, vários Portugueses, da nossa geração ou mais novos. Como me disseram, são bem-mandados e foram para fora ganhar a vida a mando do nosso caloteiro-mor e primeiro-ministro. Sad but true. Quando nos vêm, sorriem e falam a nossa língua em alto e bom som. Somos nós que os lembramos de casa hoje - uma sensação que bem conhecemos - e somos nós que lhes damos hoje a peça para mais uns meses de trabalho e vivência e conversa no emprego, pois também levaram os colegas para ver a banda do seu país, embaixadores sem embaixada fixa, um pouco de alma mater entre as ruas tristes e sem a luz de Portugal.

A Holanda ficou lá atrás, com um arranque que foi uns dos melhores de sempre em digressão. Hoje começamos a atravessar a Alemanha, em terra de filósofos: Heildeberg. Depois Essen, Berlin, Hamburgo, Munique numa tour dentro da tour, no território que nos acolheu primeiro como banda. Sinto-me bem. Tocar o novo disco quase por inteiro é um desafio mas que vale a pena. As reacções aumentam de dia para dia. Informam-me agora que entrámos em ambos os Tops. #84 na Bélgica e #87 na Holanda, entradas modestas mas importantes, reveladoras de que o trabalho compensa e que por vezes ter coragem é bem melhor do que despejar os "clássicos" e arrumar a casa, sem construir uma sensação nova.

O pessoal de tour passa pelas primeiras gripes e febres. Sei bem que, em breve, um vírus atingirá quase toda a gente no autocarro, quase como uma incubadora com vinte pessoas a respirar de noite e a partilhar espaços. Confirmo o meu saco de primeiros socorros vocais que a minha mulher tão carinhosamente me arranjou: Brufen 600, Rosilan, um cocktail de emergência que espero não tomar. Mas muita da vida em tour passa por estas coisas que nem sequer tiras da mala. Quase como um fato de super-herói e as suas armas de eleição.

À frente de um clube em construção, onde se fazem as necessidades à luz da vela, vejo um parque infantil pela janela. O Fausto ia gostar de brincar aqui, debaixo deste solzinho alemão. Ouço no rádio da crew: soundcheck time. Interrompo a divagação e sigo para o palco. Just another day and they are and they are all the same. Mais mais um dia que passa, menos um dia. La nave va, e nós já tão habituados a estar nesta vida, fazemos de todos os camarins as nossas salas de estar; dos nosso beliches no autocarro, toda uma king size bed; do mundo lá fora a ilusão dos outros, alheios aos acordes, aos movimentos, às nuances e às linhas curvas da estrada. Banda sonora: Talking Heads, Road to Nowhere
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro