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Diário de bordo dos Moonspell: 'Chama o Fernando!'

Em Madrid, Fernando Ribeiro fala-nos de 'cenários de reforma', bandas que se reinventam e as solicitações a que é sujeito em digressão. A próxima paragem no Coliseu de Lisboa, esta noite. Amanhã é a vez do Porto, no Hard Club.

Chama o Fernando É inevitável constatar que o queixume se apodera de nós, à medida que a nossa idade avança. Começamos a imaginar cenários de reforma. Mais cinco anos. Mais dez. Ponto de interrogação. Começamos a pensar nos livros que finalmente vamos ler. Na casinha na Costa Vincentina. No retiro. Mas, a realidade é diferente e tudo é delírio. Madrid está esgotado. Maravilhoso. Já são algumas datas assim. É uma sensação que também se apodera de nós. Divide-nos. E faz-nos pensar noutro tipo de reforma. A das bandas que, volta e meia, se reinventam e as pessoas pagam o devido tributo a essa reinvenção, em vez de a olhar de lado, possuídos apenas pelo espírito do que é novo e fresco, sem contemplações pelos veteranos. Quantos discos vos passaram ao lado de bandas que, por decreto de terceiros, foram dadas como acabadas e o seu tempo e momento considerados irrecuperáveis? Lembro-me de ver os Cult no SBSR na tour do disco Beyond Good and Evil. Fantástico disco. Grande concerto. E as pessoas preocupadas, comentando se o Ian estava mais gordo e se já não era aquele índio sexy dos 80... Quem já ouviu o disco novo do Peter Murphy? Este sim, "cuts you up". Data vénia, os Moonspell não são, nem serão estes vultos mas a nossa história já permite reflexões do género. Fãs que vão para ouvir apenas temas antigos, para recordarem bons e velhos tempos. E nós a apostar e a ganhar a aposta com o disco novo. Conseguindo espaço para passado, presente e quiçá futuro, distante da calmaria que se vai desejando. Não me lembro de ter trabalhado tanto para um disco. Sou honesto. Centenas de entrevistas, ao ritmo diário que não abranda em tour, produções, contas, projecções, banhos frios de caldeira esgotada, coisas e mais coisas, merch para aqui, para ali, para acolá. O cansaço é uma coisa que escondo porque tenho - temos - uma missão. E essa é justificada pelos concertos todas as noites, que são para as pessoas que pagam, mas também para nós. Ali, em palco, ninguém me vai perguntar se a comissão do merch é x ou se podem marcar mais uma entrevista mesmo na hora em que poderia jantar. Ali, os que chamam o Fernando querem outra coisa bem menos material.

Desejo para depois da tour: um dia sem perguntas. Apesar de tudo, as noites são cada vez mais calorosas. Itália: sala cheia num Domingo. Muitas ganas de nos verem. Suiça: novos recordes de bilheteiras para os Moon. Lyon: complete! Não, não me gabo, apenas analiso a correspondência directa do lançamento do disco, das vendas físicas, dos vinis que já se foram, dos bilhetes que estavam nas bilheteiras à espera de dono e questiono-me: cada vez que se decreta a morte de tudo quanto é old school na indústria musical, quando o manifesto é "parem de fazer discos!!! façam singles e vão lançando, spotify para a carola", o que devo pensar quando vejo a mole humana a cantar as letras de um disco que só saiu há pouco? Como se explica isto? Esta paixão de investir só neste mês, entre disco, concerto e merchandise quase 100 euros em Moonspell? Tive de interromper este texto porque tive de arranjar uma coisa do chuveiro aqui em Madrid. Chama o Fernando. Mas talvez a resposta para a pergunta acima seja simples e que, como o Lovecraft diria, haja uma espécie de estado "dead but dreaming" na cena. Não sei. Só sei que com Extinct renasci. Irá a carreira dos Moonspell seguir este exemplo? So far so good. so what? Banda-sonora: Type O Negative, "I Don't Want To Be Me"
Texto e fotos (salvo assinalado): Fernando Ribeiro