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David Fonseca com CD BLITZ grátis este mês: 'Só ao terceiro Natal é que percebi que as pessoas queriam isto todos os anos'

As releituras de clássicos de Natal que ganharam fama na internet são agora reunidas num CD especial, disponível unicamente com a BLITZ. Leia a entrevista com o "Pai Natal BLITZ 2015" e conheça o alinhamento do CD, comentado pelo artista - contém 'aperitivos' de 3 temas!

Há dois Natais, a BLITZ dava início a uma oferta regular de CDs mensais com o muito apreciado Fuck Christmas, I Got The Blues, de Legendary Tigerman. O disco era histórico: ali se registava o último concerto (anti-)natalício do alter-ego blues de Paulo Furtado na lisboeta Galeria Zé dos Bois, antes de um prolongado interregno. Com a BLITZ deste mês, em vésperas de novo período de festas, é David Fonseca que nos traz as canções de Natal que amealhou nos últimos dez anos, que é como quem diz, as versões de tradicionais e clássicos pop natalícios com que presenteou os seus fãs casos de invariável sucesso na internet. Quem não se recorda dos múltiplos Davides do vídeo de "Last Christmas", viral em 2009? Ou da distorção da guitarra de um elétrico "Little Drummer Boy", logo em 2006? E ainda a recriação a uma só voz de uma canção cantada por tantos vultos pop como "Do They Know It's Christmas", recuperada em 2013? Para não ficarmos por aqui, não podia faltar uma cover do clássico dos clássicos, um "Jingle Bells" transfigurado para o Natal 2015. É todo seu. Quando fez a primeira versão de uma canção de Natal, previa que tal se viria a tornar um hábito anual? Não, tanto que a primeira não está no disco. Era a "Silent Night", nem sequer sei onde está o ficheiro. Foi feita apenas para uma mailing list, por brincadeira. A resposta a esse pequeno vídeo, uma coisa muito patética feita em minha casa, foi tão massiva que no ano seguinte quis fazer a sério. E foi assim que começou esta saga. Só ao terceiro é que percebi: "pelos vistos, as pessoas agora pedem isto todos os anos". Já me começaram a perguntar como é que vai ser este ano. Tornou-se uma tradição e não quis deixar as pessoas mal. A sua relação com o Natal é pacífica? É um tempo em que recorda a infância? O Natal era uma época muito alegre quando eu era miúdo. Havia um certo misticismo à volta da ideia do Pai Natal. A melhor coisa do Natal é aquela noção de reunião, de encontrar pessoas que não vemos há algum tempo. Durante muitos anos, aproveitámos o Natal para fazer um encontro de malta amiga, não necessariamente família. É uma tradição que vem até hoje. Nessa altura toda a gente está um bocadinho mais disponível. Quem lhe entregava os presentes, o Pai Natal ou o Menino Jesus? O Pai Natal é o capitalismo a entrar pela Teologia (risos). Apesar de vir de uma família católica, a figura do Pai Natal era mais poderosa do que a versão do Menino Jesus. O Menino Jesus não conseguia concorrer com um homem que vinha com um saco de prendas num trenó puxado por renas. O Menino Jesus era um bebé! Tinha de esperar pela manhã de dia 25 para abrir os presentes? Era na noite da véspera. Quando era miúdo, passei a maior parte das noites de Natal em casas de familiares e [abriam-se os presentes] sempre nessa altura. Os meus filhos é que só abrem as prendas na manhã de dia 25. Há uma certa história, uma expectativa. Confesso que também gosto daquela manhã, em que uma pessoa acorda normalmente cedo - não há nada a fazer. Quando é que se tornou óbvio para si que o Pai Natal era, afinal, alguém que já conhecia bem? Não me lembro porque ninguém se vestia de Pai Natal. O Pai Natal era sempre uma pessoa que descia pela chaminé sem que ninguém o visse. E quanto menos se vê, mais se acredita! Em Leiria e em quase todo o país não há neve... Ainda hoje estou sempre à espera... e nem é preciso ser Natal. Nas três ou quatro vezes em que nevou [na minha infância] a escola estava fechada. E não era porque estávamos impedidos; era porque ninguém queria lá ir. Ficava tudo doido. Como tudo na vida, a novidade hoje é menos sensacional do que há 30 anos. Hoje toda a gente já viu neve. Na altura, as pessoas viajavam menos, as estradas eram péssimas, não havia a mesma vivência do mundo que há hoje. Das versões de Natal que fez, qual é aquela que, no seu original, lhe parece mais completa? A que eu gosto mais será a da Mariah Carey, "All I Want From Christmas Is You". "Last Christmas" foi a primeira versão que fez de um tema não tradicional... [No original] sou remetido logo para o vídeo, que deu inúmeras vezes na televisão portuguesa. Toda a gente conhece a história trágica daquele casal: a neve, aquela cabana, uma ideia romantizada dos anos 80. Não há ninguém no mundo que ouça o "Last Christmas" e não seja imediatamente transportado para o sítio onde ouviu aquilo frequentemente pela primeira vez. Ninguém escapou a esta canção e nesse sentido é um bocadinho como os Ferrero Rocher no Natal... Acontece-lhe descobrir novas canções de Natal e ficar aborrecido porque só pode fazer uma por ano? Cada vez que vou fazer uma versão, pesquiso muito. No início era fácil, o "Little Drummer Boy", a da Mariah Carey, a "Last Christmas"... O problema é quando passaram já tantas canções e tenho de arranjar uma nova. Depois dessas procuras, encontro muitas canções que não conhecia, mas são essas que evito: não só eu não as conhecia como ninguém as conhece. A piada de fazer estas versões é pegar em canções que as pessoas conhecem verdadeiramente bem e transformá-las em algo um bocadinho diferente. Na capa do disco está vestido de pinheiro de Natal e - decerto não será coincidência - é fotografado no que parece ser, indisfarçavelmente, o Pinhal de Leiria... É, de facto, o Pinhal de Leiria. Isto é algures na estrada entre Vieira de Leiria e São Pedro de Moel... Comprei o fato na internet. Olha para este disco e para as canções que o compõem como quem passa em revista um álbum de fotografias. Reencontra-se com o David Fonseca que era, em cada momento? Lembro-me de fazer todos estes vídeos em situações muito diferentes da minha vida ocorre-me logo pensar nos discos que estava a tocar na altura. São 10 anos de canções que foram pensadas para serem acompanhadas com vídeos: por isso, também existe um registo videográfico da minha pessoa ao longo desses anos todos. É um álbum de recordações. Leia aqui o faixa-a-faixa de Christmas Songs, pelo próprio David Fonseca, e não perca, na BLITZ 114, a entrevista com o autor de Futuro Eu.

1. Little Drummer Boy Tradicional (2006)

Foi a primeira música que eu fiz a sério para este "postal de Natal" e a primeira vez que filmei também o projeto de fazer música em casa. A maior parte das pessoas não têm a noção de que a grande parte destes instrumentos são gravados por uma pessoa só e Acho que até aí as pessoas olhavam para mim como cantor. A abordagem é simples, muito caseira, e usa aqueles truques do livro dos Pixies de há 25 anos, que é começar tudo muito lento, ir montanha acima e depois montanha abaixo. É uma fórmula que acaba por funcionar muito bem, porque torna a canção épica na forma como se desenrola.

2. Amazing Grace Tradicional (2007)

Um desafio gigantesco. É feita com o som retirado da câmara de filmar, não há nenhum som profissional aqui. A ideia era tocar vários instrumentos em vários sítios diferentes, em movimento, dentro do carro... E todos eles juntos darem origem a uma canção. No primeiro dia de filmagens devo ter feito cerca de 200 quilómetros ali na zona Oeste, mas quando fui ver nenhuma das imagens tinha som - houve um engano com a câmara. No dia seguinte, comecei tudo do zero e o que ouvimos no CD é a segunda versão, desta vez com som.

3. O Come All Ye Faithfull Tradicional (2008)

Abordagem radicalmente diferente. Em 2008, estava a fazer a digressão do Dreams in Colour, em que eu entrava com um fato de astronauta em palco para tocar o "Rocket Man". Resolvi fazer uma versão da "O Come All Ye Faithfull" do ponto de vista do homem que vem do espaço e que canta uma canção de Natal. Daí a forma espacial como foi produzida, com um coro meio estranho. É a versão mais experimental de todas.

4. Last Christmas Wham! (2009)

Era muito difícil tocar nela porque é um clássico. Durante muito tempo evitei os clássicos porque achei que as pessoas não iam gostar. É tocada com piano, guitarra a vozes, uma espécie de versão acústica [a que se acrescentam] pequenas percussões e pouco mais. Foi um dos mais vistos de todos os meus "postais de natal". Teve a ver com a popularidade da música e com a abordagem acústica, meio folk.

5. All I Want From Christmas Is You Mariah Carey (2011)

O original é uma música festiva, com guizos... Quando isolei a letra da música, percebi que era sobre algo difícil, duro, por isso interpretei aquilo à minha forma. Transformou-se numa música melancólica, meio trágica, mas que se cola bem ao Natal - é quentinha, tem qualquer coisa de muito próximo.

6. Happy Xmas (War Is Over) Plastic Ono Band (2012)

Essa foi uma das abordagens mais radicais à canção original: é uma espécie de electro/Pet Shop Boys. Deu-me algum prazer a fazer porque é uma produção de estúdio muito maior - estou a gravar uma canção como se fosse para um disco. Elevo a ideia de gravação a um sentido muito mais profissional. Teve um trabalho muito longo. Queria transformar a canção em algo mais dançável, [característica] que não está no original.

7. Do They Know It's Christmas? Band Aid (2013)

Essa canção foi das mais complexas de abordar. Experimentei várias ideias e a que gostei mais era a mais despida. Como a canção original é tão conhecida e tem tantas vozes, achei que seria interessante tocá-la em regime de surdina, no fundo da sala - um tipo com uma guitarra pequenina a tocar da forma mais simples possível. Fi-lo na tentativa de fazer sobreviver a letra, que é efetivamente interessante para a altura do Natal.

8. Oh Christmas Tree Tradicional (2014)

Nasceu por uma razão muito simples: ao navegar na internet encontrei à venda um fato de árvore de Natal. Foi assim que foi decidida a canção. Achei o fato tão estúpido, mas tão estúpido, que pensei assim: "vou comprar este fato e fazer uma versão do "Oh Christmas Tree"". Fiz a versão de uma forma muito egoísta - só porque queria vestir aquele fato.

9. Jingle Bells James Lord Pierpont (2015)

Há uns anos, o diretor da escola [de um filho] perguntou-me se eu podia fazer uma canção para um CD para oferecer na escola no Natal. Fiz o "Jingle Bells" e na canção eu conto até 10 porque a ideia era que os miúdos aprendessem [os números] em Inglês. Inseri uma personagem diferente, a rena Rodolfo, para tornar o momento caricato. Ao fazer isto, lembrei-me de uma versão do "Hurdy Gurdy Man" pelos Butthole Surfers que está na banda-sonora do Dumb and Dumber.

Entrevista: Luís Guerra Foto: Rita Carmo/Espanta Espíritos