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Dave Matthews: "O nosso concerto em Portugal, em 2007, foi um dos maiores da carreira da banda, de todos os tempos"

Em 2009, a Dave Matthews Band atuou no festival Alive. Horas antes do espetáculo, a BLITZ falou com o músico e fotografou-o. Recorde aqui esse artigo, dias depois do concerto da DMB na Meo Arena.

É o dono de uma das marcas mais populares da música americana. Fala com modéstia sobre os milhões de discos vendidos e mostra uma preocupação algo obsessiva com a honestidade. Só não gosta que lhe chamem normal. Horas antes do triunfal concerto no Optimus Alive!09, DAVE MATTHEWS falou à BLITZ sobre os Beatles, Michael Jackson e como aprender a lidar com a morte.

O cenário é opulento, mas pacífico. Num hotel de luxo em Lisboa, a calmaria de um soalheiro sábado à tarde é pouco, ou nada, perturbada pela presença da Dave Matthews Band. Cabeça de cartaz do último dia do Optimus Alive!09, o grupo está em Portugal para aquela que é, também, a derradeira data ao vivo na Europa, antes do regresso aos Estados Unidos ou, no caso do baixista Stefan Lessard, de uma semana de férias na costa alentejana, com a família. Nem sempre a sorte bafejou da mesma sorte a Dave Matthews Band no Velho Continente; quando, na década de 90, discos como Under The Table and Dreaming e Crash rebentavam nos Estados Unidos, o grupo da Virgínia não passava de uma curiosidade em países como Portugal. Ao carismático Dave Matthews, o sul-africano que há quase 20 anos criou uma das bandas mais bem sucedidas de sempre na América, começámos por perguntar: quando é que o seu grupo se tornou tão popular fora do seu habitat natural?

A Dave Matthews Band já é quase tão popular na Europa como nos Estados Unidos. O que é que aconteceu nos últimos 10 anos? Penso que fomos crescendo lentamente, graças ao passa-a-palavra. No fundo, um pouco como nos Estados Unidos, mas nos Estados Unidos tocávamos mesmo muito. Andávamos sempre metidos num autocarro, a tocar por toda a parte, pelo que se tornou mais fácil [darmo-nos a conhecer]. Penso que só agora é que começámos a chegar àqueles media e àquelas rádios que estão associados à fama mais rápida. Nunca coubemos muito bem nesse modelo, não sei bem porquê não é intencional! Nos Estados Unidos, os nossos contratos discográficos, a nossa presença na rádio e na televisão, só apareceram depois [de sermos conhecidos], o que é o inverso do que costuma acontecer. Penso que precisávamos de passar bastante tempo a fazer a mesma coisa, a alimentar o mesmo tipo de crescimento, na Europa. Acho que vamos passar a concentrar-nos cada vez mais deste lado do oceano, porque é uma forma de nos rejuvenescermos e é muito divertido tocar para um público novo, um público diferente. Um público em crescimento. Nos Estados Unidos é divertido, porque o nosso público é cada vez mais novo; aqui é divertido porque há sempre pessoas "novas", independentemente da sua idade.

Primeiro concerto da DMB em Portugal: Atlântico em 2007 A primeira vez que tocaram em Portugal foi há dois anos, na maior sala de espectáculos de Lisboa, o Pavilhão Atlântico. Recorda-se bem desse concerto? Sim, foi um dos maiores concertos da carreira da banda, de todos os tempos. Nessa altura, a banda estava, de certa forma, a renascer. As nossas amizades estavam a florescer novamente, a nossa ligação uns aos outros e à música estava cada vez mais forte e fresca. Quando tocámos em Portugal e encontrámos um público que respondia de forma tão explosiva à nossa música, foi espectacular. Serviu para nos dar a certeza de que estávamos realmente confortáveis com a nossa carreira e a nossa relação uns com os outros. Pensámos: OK, passámos por uma década complicada, mas ainda estamos todos juntos. E voltámos a encontrar-nos, e voltámos a descobrir uma razão para tocarmos música juntos outra vez. Encontrar um público assim foi uma grande inspiração; um momento que irei sempre recordar como um ponto alto da nossa carreira. também porque ainda cá tínhamos o nosso amigo LeRoi [saxofonista], que partiu no ano passado, e ele ainda conseguiu ver isso: nós a termos uma grande recepção na Europa, em Lisboa. Para nós foi óptimo e nunca mais me vou esquecer.

Discreto mas muito brincalhão, Dave Matthews fez as delícias da imprensa e, mais tarde, dos fãs, no recinto do festival. No hotel onde a BLITZ o encontrou, interagiu com admiradores que o esperavam para um autógrafo e dois dedos de conversa, com as equipas de filmagem e com todos os que, em trabalho ou lazer, o abordavam para um elogio ou um pedido mais extravagante. A avalanche de fotos que, nos dias que se seguiram, surgiram no Facebook, de fãs abraçados ao cantor prova a sua afabilidade. "Manter a cabeça no lugar" é, garante-nos, a sua maior preocupação.

As suas músicas são a banda-sonora da vida de muita gente. Estão sempre a dizer-lhe isso, não? Há pessoas que me dizem isso, mas a minha responsabilidade é continuar ligado à minha música, ser honesto e encontrar novas formas de inspirar a banda, e inspirar-me a mim mesmo. Aí sim, podemos merecer isso das pessoas. Sei que quando era miúdo, e mesmo em adulto, tinha músicas que associava à minha vida ou a alguma época da minha vida. Dizerem-nos isso é uma grande honra. A minha única responsabilidade tem de ser não pensar muito nisso e continuar honesto à minha música.

Dave Matthews no festival Alive, em Algés, em julho de 2009

A primeira banda que o fez sonhar com música foram os Beatles, aos cinco anos... Era um pouco mais velho. Descobri-os quando vivi em Inglaterra: devia ter uns sete anos e encontrei os Beatles na colecção de discos dos meus pais. Quando tinha cinco anos eram os Jackson 5, porque achava graça a eles terem um 5 no nome! Além da música, [nos Beatles] gostava da ideia daqueles quatro homens, aqueles trovadores. Mas sobretudo da música, toda a música. A harmonia, a simplicidade. Eu não consigo fazer coisas assim tão simples, mas faço a música que faço, tento ser honesto. Como dizia o LeRoi, [imita voz grave], "tens de ser honesto".

As menções a LeRoi Moore, o saxofonista da Dave Matthews Band e um dos seus fundadores, falecido no ano passado após um acidente de moto-quatro, permeiam com naturalidade a conversa com Dave Matthews. Eis um homem a quem a morte bate à porta com inusitada frequência: perdeu o pai, vítima de cancro, quando tinha apenas dez anos; em 1994, quando já vivia nos Estados Unidos, a irmã foi assassinada pelo marido, que depois se suicidou. Dave Matthews e a irmã mais nova encarregaram-se da educação dos dois sobrinhos. No ano passado, a morte de LeRoi Moore voltou a apanhá-lo de surpresa.

Tem perdido pessoas muito próximas ao longo dos anos. Como é aprendeu a lidar com a mágoa? Acho que não é possível ultrapassar a mágoa. Andamos em frente, levando a mágoa connosco. Não devemos desistir da mágoa, porque ficar triste e chorar com a morte de alguém é natural. Não há razão para querermos derrotar a mágoa. Mas também não devemos deixar que a mágoa nos derrote a nós. A mágoa é natural mas desistir. pode ser uma coisa egoísta. Porque as pessoas, ao morrerem, não nos matam. E penso que, na maior parte dos casos, não gostariam que morrêssemos com elas. A minha mãe diziame sempre: "go and garden", [que significa] que quando perdes alguma coisa profunda, deves meter as mãos na terra, escavar no quintal. O importante é continuares, de forma simples. Não ficares a chorar agarrado à almofada, porque não adianta nada. E nem sequer honra a pessoa que morreu. Toda a gente tem perdas na sua vida e toda a gente tem que lidar com isso. Para mim, a forma mais fácil é andar em frente, continuar. Talvez não seja a forma mais perfeita, mas comigo resulta.

Esta foi a primeira vez que perdeu um companheiro de banda... Nós ainda começámos a gravar o disco com o LeRoi e quando ele teve o acidente estávamos em digressão. Já tínhamos tanta música dele para o disco, que tive muita pena que ele não estivesse cá para acabá-lo. Mas ele achava que este era o nosso melhor trabalho, e isso é muito motivante. Agora só tentamos continuar, fazendo o nosso melhor, com a mesma ideia. Não pode ser a mesma banda sem ele, mas pode ser a mesma ideia de banda. Podemos continuar a ter a mesma crença na música, quando tocamos. Toda a gente tem uma abordagem diferente à música; nós temos a nossa, não por sermos especiais mas porque é assim que fazemos as coisas e isso é o que inspira a nossa banda, sermos espontâneos e divertirmo-nos a tocar.

Homenageou Michael Jackson tocando ao vivo uma música dos Jackson 5. Ficou chocado com a morte dele? Sim, porque a morte é mesmo assim. não estamos à espera e lá vem ela. Há pessoas que sofrem muito antes de morrerem. Mas com outras, é "zás, morreu!" [estala os dedos]. Fiquei surpreendido, mas há pessoas a morrer todos os dias. E ele até era uma das pessoas com sorte, mesmo que no final da sua vida andasse confuso. Ou nós é que estávamos confusos. Mas ele pôde dar tanto, fazer tanto, ser visto e ouvido muito mais do que a maior parte das pessoas alguma vez será. Podemos lamentar a sua morte mas também podemos celebrar o facto de nos ter deixado tanta música boa quantas pessoas têm essa oportunidade? É uma tragédia relativa. Há mortes bem mais trágicas no mundo. Acho que podemos prosseguir a morte dele deu na televisão. Já chega. Toda a gente conseguiu os seus 15 segundos de fama à conta disto, a cantar e a dançar. Às vezes faz-me confusão: o que é que isso ainda tem a ver com ele?

Michael Jackson era um dos sortudos. Mas também não se pode queixar, com o sucesso da Dave Matthews Band. Não nos podemos acostumar. Temos sorte por nos pagarem para fazermos uma coisa como esta. É uma loucura, sei que é uma coisa rara, e toda a gente terá a sua resposta a isso. Para mim é tentar manter a cabeça no lugar e continuar fiel à música, o que quer que isso seja. Ainda nem sei bem o que isso é.

Tem conseguido evitar bem o lado negro da fama? Tenho muito mais amigos do que teria se não fosse famoso. Mas tudo bem, sei porque é que isso acontece. Sei que a celebridade tem aspectos muito feios, mas tento não me deixar apanhar por eles. Há armadilhas às quais tento escapar. Não gosto de tapetes vermelhos, entregas de prémios, revistas de celebridades. Mas gosto de música e de tocar música e gosto que as pessoas me digam "olá!" na rua e fico feliz por a minha música poder entusiasmar as pessoas. Essas são as coisas que me agradam. E até certo ponto consegui evitar muito do que não me agrada na fama. Parece que os paparazzi não me acham muito interessante, o que para mim é perfeito!

Há alguma ideia que as pessoas façam de si e que ache particularmente errada? Há muitas pessoas que dizem que sou uma pessoa "muito normal". Mas eu acho que toda a gente é muito normal ou então, ninguém é normal. Não sei o que é que isso quer dizer. Penso que, por vezes, as pessoas confundem normal com respeitoso. Não me sinto normal, mas ninguém sente. Isso é aquilo que estamos sempre a tentar ser: normais. Estamos sempre a tentar adaptarnos uns aos outros. E a tentar sentir que pertencemos a algo e pertencemos! Mas daí a sentir-me normal. As pessoas estão sempre a dizer-me: és um tipo tão certinho! E eu digo-lhes: mas eu não sou normal, e tu também não!

Essa ideia acaba por colar-se à música que faz? Não será mais perturbada do que parece? Não acho que escreva coisas bonitinhas e simpáticas. As pessoas parecem pensar que sim. Até acho que as minhas canções são mais negras do que a maior parte das canções, só que encaixo-as em música que não é negra de uma forma muito óbvia o que se calhar as torna ainda mais negras. Penso que canto mais sobre a morte e a obsessão do que a maior parte dos músicos; que canto sobre a obsessão física de uma forma mais agressiva do que ouço por aí. Tenho noção que as pessoas acham que a minha música é muito feliz, mas isso é porque não prestam atenção às letras. Não acho que a minha música seja feliz acho que é alegre. Alegria é uma coisa diferente. Não sei se é uma distinção só da minha cabeça, mas tocar música com alegria não significa que a música seja sobre coisas felizes e sorridentes. Pode ser sobre sofrimento, sobre tristeza, sobre solidão. Quando estou realmente feliz não quero escrever, quero sentar-me lá fora, a apanhar sol! Se estou feliz quero ir beber uma cerveja, e estar na risota. Se estou triste, magoado, ou obcecado, aí sim, quero fazer música.

O músico fotografado por Rita Carmo no Pestana Palace

Quem és tu, Dave Matthews?

A sua música chega a milhões, mas a sua vida é um mistério. Conheça o homem por detrás da obra.

Nascido em Joanesburgo, África do Sul, em 1962, David John Matthews passou a infância e juventude entre o seu país natal, Inglaterra e Nova Iorque, "a reboque" do pai, físico e funcionário da IBM. Depois de acabar o liceu, e para escapar ao serviço militar na África do Sul, mudou-se para Charlottesville, no estado norteamericano da Virginia, onde começou a trabalhar como empregado de bar. Entre os músicos que actuavam no seu local de trabalho encontrava-se o guitarrista Tim Reynolds, que um dia o deixou subir ao palco para mostrar o que valia. O resto é história, já que pouco tempo depois, em 1991, nascia a Dave Matthews Band. Casado desde 2000 com uma médica de nome Ashley, o músico, que em jovem começou por fazer teatro amador, já participou em alguns filmes e também num episódio da série House, onde fez o papel de um pianista. Tem três filhos: as gémeas Stella Busina e Grace Anne, de 14 anos, e August Olivier, de 8. Entrevista: Lia Pereira Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos