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Dave Grohl, o homem mais trabalhador do rock and roll do século XXI

O líder dos Foo Fighters, que esta semana cancelaram a digressão europeia na sequência dos atentados de Paris, num perfil publicado na BLITZ de fevereiro de 2014.

Quando, em 1991, ouvimos a bateria de Dave Grohl pela primeira vez no portentoso "Smells Like Teen Spirit", primeiro single de Nevermind, segundo álbum dos Nirvana, estávamos longe de prever que o músico nascido na cidade de Warren, no estado norte-americano do Ohio, se tornaria um dos grandes heróis do rock nas subsequentes décadas. David Eric Grohl, hoje com 45 anos, passou pouco mais de três anos com os Nirvana (o seu percurso no trio foi interrompido pela morte do vocalista Kurt Cobain, em abril de 1994), mas percebeu cedo que queria ter uma voz própria. Ainda antes do desaparecimento de Cobain, o músico já esboçava aquilo que viria a transformar-se nos Foo Fighters, banda que lidera e que é, até hoje, o projeto em que concentra mais a sua atenção (as demos de canções como "Big Me" ou "Exhausted" foram gravadas ainda o mítico vocalista dos Nirvana era vivo). Numa entrevista ao entretanto extinto Melody Maker, em 1995, ano em que o álbum de estreia da sua nova banda saiu para as lojas, Grohl defendia que queria concentrar-se no futuro mas não o deixavam, "penso no Kurt todos os dias, todas as vezes que subo a um palco e, sabe, é difícil, mas andar em frente é uma daquelas coisas que temos de nos forçar a fazer". Apesar de propostas para continuar a sua carreira enquanto baterista de outras bandas chegou a tocar com Tom Petty e os Pearl Jam, Grohl sabia que não era esse o caminho e atirou-se de cabeça para os Foo Fighters. À época, mostrava-se ainda pouco confortável com a sua nova condição, "imagino um líder de uma banda como uma personagem bonita, carismática e glamorosa. Coisa que não sou", confessava ao Melody Maker. Era, no entanto, impossível escapar, até porque o primeiro álbum saiu única e exclusivamente das suas mãos: compôs e tocou todos os instrumentos presentes nas 12 canções que compõem Foo Fighters (à exceção da guitarra que se ouve em "X-Static", tocada por Greg Dulli dos Afghan Whigs). Desde então, Grohl tem vindo a apresentar argumentos que o levam a ser considerado um dos homens mais "porreiros" do rock, levando os seus Foo Fighters a palcos cada vez maiores e tornando-se omnipresente quando se fala de música de guitarras. A primeira grande aventura de Grohl fora dos Foo Fighters chegaria aos ouvidos dos fãs em Songs for the Deaf, terceiro álbum dos Queens Of The Stone Age, editado em 2002. O músico não só assinou a percussão dos temas gravados como seguiu numa breve digressão com a banda de Josh Homme. "O Dave já tinha querido tocar connosco antes", disse Homme em entrevista ao radialista Álvaro Costa poucos meses depois de o álbum ser editado (e num momento em que o baterista já estava de volta aos Foo Fighters). Nas palavras do líder dos Queens Of The Stone Age percebe-se bem o lugar que Dave Grohl ocupava, já na altura, no mundo do rock, especialmente quando explica que não tinha querido colaborar com ele antes porque estava ciente dos "perigos".

"Teria destruído a banda. As pessoas só se interessariam pela sua presença e ia parecer que estávamos a tentar aproveitarnos dele", defende Homme, "era demasiado cedo. O Dave é um grande ser humano, um homem divertido e um dos melhores bateristas de rock de sempre, e a sua contribuição para este álbum é imensa". A abertura de Grohl para colaborar com outros músicos acabaria por fazer com que o quinto álbum da banda, o duplo In Your Honor, de 2005, contasse não só com a colaboração de Josh Homme como também com a de John Paul Jones, dos Led Zeppelin, e de Norah Jones. Isto, um ano depois de ter saído para as lojas um disco de heavy metal que o músico andara a congeminar durante anos. Probot foi o nome escolhido para um projeto que incluía colaborações de Lemmy Kilmister dos Motörhead, Conrad Lant dos Venom ou Max Cavalera (Sepultura, Soulfly). "Muitas pessoas que falam comigo sobre este projeto ficam surpreendidas com o meu amor pelo heavy metal porque consideram que os Nirvana foram a banda que acabou com ele", disse o músico em entrevista ao Independent, "quanto a mim, o que aconteceu foi que todas as bandas que não significavam nada desapareceram. As bandas que tocavam heavy metal verdadeiramente underground nunca se afastaram". O impacto pode não ter sido gigante, mas Grohl sabia que o facto de carregar a sua assinatura levaria, necessariamente, o metal a ouvidos menos acostumados a ele. Numa outra entrevista, à revista Spin, o músico recordava um episódio "engraçado": "quando estava na digressão com os Queens Of The Stone Age, uma mulher com uns 50 anos veio ter comigo (...) e perguntou-me 'hey, quando sai o álbum dos Probot?'. Respondi que não sabia mas que não tinha bem a certeza se ela iria gostar, ao que ela disse, 'não, não, já ouvi falar dele. Li as entrevistas e fui comprar Dimension Hatröss dos Voivod. Adoro!'. Foi aí que pensei 'oh, meu Deus... O que fui eu fazer?'". Após colaborações em discos dos Killing Joke, Nine Inch Nails, Cat Power ou Prodigy e em palco com Bruce Springsteen, Paul McCartney ou Norah Jones, nascia, em 2009, mais um projeto paralelo. O supergrupo Them Crooked Vultures juntava Grohl novamente a Homme e John Paul Jones e, claro, colocava o músico atrás do kit de bateria: "adoro ser o cantor e líder dos Foo Fighters, ter grandes salas cheias de pessoas que se juntam à festa, mas sentar-me à bateria sem um microfone sabe-me mesmo bem". Era de forma simples que assumia, em entrevista à revista Q, que os outros elementos da sua banda entendiam estas aventuras "extraconjugais", "eles percebem que são a minha família e que os adoro muito mas que [também] tenho de ser baterista para me sentir confortável e feliz enquanto cantor dos Foo Fighters". No ano passado, o músico deu um salto ainda maior ao assumir o papel de realizador e produtor do documentário Sound City, que conta a história dos Sound City Studios, onde, entre muitos álbuns históricos, foi gravado Nevermind, dos Nirvana. A banda-sonora do filme, produzida por Butch Vig (também produtor do mítico álbum dos Nirvana), conta com colaborações de Grohl com nomes tão díspares quanto Corey Taylor (Slipknot), Stevie Nicks (Fleetwood Mac), Paul McCartney ou Trent Reznor (Nine Inch Nails). E é com "Cut Me Some Slack", que juntou Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear (ambos dos Nirvana) a McCartney, a ser nomeado para o Grammy de Melhor Canção Rock que chegamos ao presente de um músico que promete continuar a surpreender. "Estamos a fazer algo que ninguém sabe e que é... Radical", disse recentemente à Rolling Stone sobre o futuro álbum dos Foo Fighters, "vamos gravar de uma forma que nunca foi experimentada antes e estamos a escrever o álbum de um modo que também penso que nunca foi feito antes". Mário Rui Vieira Artigo publicado originalmente na BLITZ de fevereiro de 2014

  • Alex Turner, um dos guardiões do rock do século XXI

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    No dia em que Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, primeiro álbum dos Arctic Monkeys, celebra dez anos de vida, recuperamos o artigo de capa da BLITZ de fevereiro de 2014, em que Alex Turner, Josh Homme ou Dave Grohl surgiam no papel de 'Guardiões do Rock'.