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Como David Fonseca descobriu os Sonic Youth numa pista de dança em 1992

Há 23 anos, o músico de Leiria descobriu a instituição do rock sónico, capa da BLITZ deste mês, de uma forma que hoje seria "praticamente impossível". Leia o relato, na primeira pessoa.

"A música dos tops raramente aparecia nas colunas desta discoteca [Alibi, em Leiria] e o rock alternativo era a bandeira principal de todas as noites. E foi entre a luz recortada da bola de espelhos e os flashes dos strobes que ouvi o tema "100%", dos Sonic Youth, pela primeira vez, num volume ensurdecedor no centro da pista. No final do tema, dei por mim já inclinado na cabine do DJ a perguntar-lhe o que é que tínhamos acabado de ouvir. Ele levantou um vinil que dizia o nome da banda e o título do disco: Dirty. E tão claro foi o meu entusiasmo que o DJ resolveu passar outra canção do disco, "Sugar Kane", passada integralmente nos seus 6 minutos de duração para uma pista de dança vestida de preto e cinzento, dividida entre shoegazers e discípulos dos Bauhaus e Joy Division. O instrumental explode logo no início para se instalar em poucos segundos, o refrão a subir mais um degrau a cada volta ("And I know, There's something down there sugar soul, Back to the cross a twisted lane, There something down there sugar kane") seguido de um outro caos sónico instrumental. Aos 3m45s, a canção abranda inesperadamente e mergulha numa acalmia liderada pelo leve tilintar dos pratos da bateria. Ninguém abandona a pista, o DJ não muda de canção. Ficamos todos ali à espera do que vai acontecer, o flash da luz strobe parece mais lento, o fumo dos cigarros envolve todo o espaço. A dança que até ali tinha sido pautada pelos empurrões e quedas do costume, dá lugar a corpos que se balançam lentamente na expectativa de que algo vai acontecer. E naquele compasso de espera, podíamos estar em qualquer lado. Já não estávamos numa cidade pequena no subsolo de um centro comercial, mas sim nesse sítio invulgar que só a música sabe identificar no mapa, um sítio que ia ao nosso encontro e que, de forma inesperada, falava de nós." Excerto de um texto assinado por David Fonseca, publicado na íntegra na BLITZ de abril, nas bancas