Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

CD inédito de DJ Ride grátis com a BLITZ deste mês - leia aqui a entrevista, na íntegra

Remixes & B Sides é o CD inédito grátis da BLITZ de outubro, nas bancas. Inclui, entre outras, remisturas para temas de Legendary Tigerman, Capicua, Gentleman, Batida e Micro Audio Waves. Conheça-o e leia a entrevista.

É provavelmente dos DJs portugueses mais premiados lá fora e junta no CD que a BLITZ lhe oferece este mês remisturas para temas de artistas como Capicua, Legendary Tigerman ou Gentleman e faixas suas que não tinham a atenção devida. DJ Ride explica a Mário Rui Vieira os desafios de trabalhar com material alheio e levanta o véu sobre o seu próximo álbum. A solo ou com Stereossauro, nos Beatbombers, DJ Ride tornou-se nos últimos anos um dos nomes mais respeitados do DJing nacional. A convite da BLITZ, reúne algumas das remisturas de que mais se orgulha e "lados B" de produções suas num disco que serve para arrumar a casa antes de mandar para as lojas o quarto álbum de estúdio, From Scratch. Falámos com o DJ e produtor não só sobre o seu trabalho com nomes como Capicua, Legendary Tigerman, HMB e Gentleman como também sobre o disco que aí vem, a sua visão dos DJs que se limitam a carregar no botão e os prémios de scratch que vem acumulando ao longo dos anos. A ideia de reunir estas remisturas e lados B num disco já estava planeada há muito tempo? Sim, sem dúvida. Ao longo dos anos, acumulei algum trabalho que tenho feito quer para amigos quer para pessoas com quem nunca estive pessoalmente. Como estava bastante disperso, sempre senti essa necessidade de compilar tudo num CD. Queria mesmo fazer uma edição física com remisturas e coisas que nunca foram editadas. Este disco tem 17 faixas e ainda ficou muito material de fora. Podia ser um duplo. Continua a produzir compulsivamente ou o facto de a agenda ter ficado mais preenchida torna isso mais difícil? É bastante mais complicado. Ainda assim, posso não estar a produzir mas tenho de estar a criar, o que acaba por ser quase a mesma coisa. Em tour, ando sempre acompanhado de alguns gadgets, do meu portátil e, se puder, da placa de som e teclado. Muitas destas remisturas também foram feitas em quartos de hotel, nos aviões e no carro, em viagem. Venho da tour de verão e estou a precisar de férias, mas estou a preparar o campeonato do mundo de freestyle, ou seja, posso não estar a produzir mas estou a criar plataforma e isso acaba por completar o círculo. De outra maneira, não conseguia. Não consigo estar quieto, tenho de estar sempre a fazer alguma coisa. Estas remisturas foram-lhe encomendadas ou contacta os artistas quando gosta de um tema e autopropõe-se para o remisturar? Por acaso, os remixes presentes neste alinhamento foram todos resultado de convites, desde o Tigerman à Capicua e aos HMB. O Gentleman, foi um desafio que o manager dele me fez, mas em 90 por cento dos casos são os artistas que me contactam. Claro que já houve vezes em que pensei "tenho de pegar naquele som", mas nunca cheguei a concretizar. O Stereossauro é que faz muito isso, com as remisturas dele, mas comigo é mais o pessoal que me contacta. Qual é o maior desafio quando o convidam para fazer uma remistura? No fundo, o que faço é estragar o máximo possível (risos), mudar completamente o registo. No caso do Tigerman queria mesmo mudar o registo dele e fazer um beat mais eletrónico. No tema da Capicua quis até pôr umas influências meio trap. Não quero pegar num artista e fazer mais do mesmo. Gosto de pegar no a capella ou nalguns elementos desse artista e transpôlo para um universo completamente diferente. Isso é que é o desafio de uma remistura: mudar o contexto e ainda assim continuar a fazer sentido. Gosto sempre de saber o feedback dos artistas e de os surpreender. Até hoje, tem corrido bem. Houve uma remistura que não foi aprovada, mas foi o único caso que voltou para trás. Legendary Tigerman, Capicua, HMB, Batida, Gentleman, Micro Audio Waves. Tudo artistas muito diferentes, que se dedicam a géneros distintos. Quando chega à hora de ouvir música também é assim tão eclético? Sim, sou um bocado esquizofrénico a ouvir música. Ouço das coisas mais pop às mais maradas e experimentais, jazz, improvisado. Se abrir a pasta das últimas coisas que tenho aqui, tenho o último de Weeknd, Jaylib, Kanye West, depois tenho cenas de Library Music dos anos 60, FKA Twigs, J Dilla. Cada pessoa acorda de maneira diferente todos os dias e há dias em que me apetece ouvir só hip-hop e outros em que me apetece só ouvir música ambiente, clássica ou só piano. Sou muito eclético e isso acaba por ser uma mais-valia no meu som e nos meus sets. 80 por cento da música que ouço acaba por ser hip-hop só que o hiphop, para mim, é uma coisa abrangente. Vejo hip-hop no jazz, no rock, no funk, na soul, portanto tudo isso faz parte do meu universo. É daquelas pessoas que ouve um som quando vai a andar na rua e automaticamente pensa naquilo que pode construir a partir dali? Sim, sou. Isso e também um lado muito experimental e uma percentagem muito grande de sampling e pequenos erros. Por exemplo, às vezes estou sentado a tocar Rhodes toco muito mal piano, aliás toco mal qualquer instrumento tirando o scratch, modéstia à parte e ponho a gravar o take e por vezes há pequenos erros que fazem a música toda. A minha música vive muito desses erros, de experimentar. Às vezes, estou dias e semanas inteiras no estúdio e não sai nada, mas é importante continuar a gravar. Passados uns dias volto àqueles takes e há pequenos pormenores nos quais pego para fazer músicas. À parte disso, o sampling é mesmo extremamente importante. Continuo a comprar muito vinil e a samplar muita coisa. Algumas músicas podem não ter propriamente um sample, um loop, mas foram feitas à base de um estímulo que recebi de um loop que se calhar depois não apareceu na música final mas no processo me inspirou. A música que faz com o Stereossauro surge sempre quando estão juntos ou também cria coisas sozinho que são mais indicadas para um disco dos Beatbombers? É metade/metade. Infelizmente, temos pouco tempo para estar juntos, ele continua a viver nas Caldas da Rainha e eu há alguns anos em Lisboa, mas continuamos a fazer muita música à distância. Há coisas, principalmente mais ligadas ao scratch e ao turntablism, que faço e penso "OK, isto faz sentido é com o Stereossauro". E mesmo em termos de produção. Há pouco tempo ajudámos o Valete, também para uma edição BLITZ, e o convite foi feito a Beatbombers. Realmente fazia mais sentido do que ser Ride ou Stereossauro sozinhos. Ele está quase sempre presente no que faço. Mesmo agora nos treinos para o campeonato tenholhe pedido dicas e ele vai-me mandando samples e a capellas. Mas claro que há coisas que penso que são de Beatbombers e outras que são só minhas, a solo. Da mesma maneira que há coisas que penso que é produção e outras que posso utilizar para os DJ sets mas que em produção não têm nada a ver comigo. Separo bem as gavetas. Num momento em que há cada vez mais críticos da figura do DJ que recebe muito dinheiro para apenas carregar num botão, o que pensa ser necessário para as coisas mudarem? Nos últimos anos, o produtor começou a ter mais destaque que o DJ. Os produtores começaram a ser DJs e antes era mais o contrário, começavas como DJ, tinhas milhares de discos em casa, e depois é que, por acréscimo, te tornavas produtor. Agora, no mainstream, é o contrário: os produtores que fazem um hit depois tornam-se DJs para promovê-lo. E claro que há excessos e surgem aqueles vídeos virais na internet com o pessoal a fazer playback ou com as tais pens e a carregar no play. O mercado está completamente saturado, mas o público não é assim tão burro e já abriu os olhos para esse lado que se calhar, há uns anos, era mais obscuro. Isso é muito bom, porque também consigo ver que há cada vez mais pessoas a dar valor a quem continua a usar pratos, a fazer um live act, a misturar e a fazer os remixes em tempo real. Não querem ver um DJ apenas a bater palmas, com os braços no ar, e aquele jogo todo de luzes, vídeo e fogo-de-artifício. Ou a mandar bolos, como alguns fazem. Sou DJ há 12 anos e muita coisa mudou. Há 10 anos, só passavam vinil. Hoje o sistema digital está muito em moda e quase toda a gente o usa, mas, no fundo, vejo outra vez o pessoal a dar valor a quem se aplica mais em cima do palco. Que impacto real tiveram os prémios de scratch que já recebeu? Abriram-lhe muitas portas? Sim, sem dúvida. Provavelmente, ter ganho o campeonato do mundo de scratch foi o que mais me ajudou até hoje, mais até do que os álbuns porque é um prémio internacional e maior parte dos meus álbuns foram editados em Portugal. Essa projeção internacional ajudou-me dentro da comunidade de scratch e cá dentro. Muitos músicos dizem que é preciso ir lá fora para nos darem valor quando voltamos e tanto o Stereossauro como eu sentimos um bocadinho isso na pele. As pessoas começaram a olhar para nós de outra maneira. É sempre ma grande motivação. Estes campeonatos têm a parte da competição, que às vezes é injusta, mas estarmos com os nossos ídolos ajuda-nos muito. Sem o treino para esses campeonatos não tínhamos evoluído tanto. Se lhe perguntar em que está a trabalhar neste momento consegue responder em menos de um minuto ou é demasiada coisa? Consigo (risos). Acabei há pouco tempo o meu quarto álbum, From Scratch, que sai em final de outubro, penso eu, e tem Capicua, Valete, Jimmy P, Dengaz, muitos rappers e artistas portugueses, e também Free The Robots, nome ligado à editora do Flying Lotus e com quem queria muito trabalhar. À parte disso, estou a preparar o mundial do Thre3Style, quero também voltar a entrar noutros campeonatos. Como terminei agora a tour só estou a preparar essas duas ou três coisas. Mas já estou a pensar no próximo ano e tenho aqui uma lista de dezenas de coisas que quero fazer.

DJ Ride lança grátis com a BLITZ de outubro, já nas bancas, o CD Remixes & B Sides.

O disco reúne remisturas para canções de outros artistas e temas do produtor e DJ num total de 17 faixas.

Conheça o álbum, faixa a faixa, nas palavras de DJ Ride.

1. DJ Ride - "Here Before" com Sarah Linhares (Scratch Take) A versão que está no Life in Loops tem um videoclip com videomapping e houve necessidade de, numa parte, fazer scratch no vídeo. Esta é a versão com scratch.

2. The Legendary Tigerman - "Do Come Home" (DJ Ride Remix) Foi um desafio do Tigerman e é, sem dúvida, uma das faixas de que gosto mais e de que tenho mais orgulho. Foi influenciada pela sonoridade que o Flume costuma explorar.

3. Capicua - "Amigos Imaginários" (DJ Ride Remix) Já gostava bastante deste tema antes de produzir para a Capicua e de a convidar para o meu álbum. Fiquei muito contente quando ela me enviou o desafio, porque era daquelas que tinha aqui na lista.

4. DJ Ride - "Time Travel" com Helena Veludo É um beat que entrou no meu álbum Psychedelic Sound Waves na versão instrumental. A Helena Veludo, cantora das Caldas, um dia mandou-me um email a dizer que gostava bastante do tema e que tinha estado a cantar por cima dele. Fiquei com muita pena de não a ter convidado para o álbum porque fazia todo o sentido ali. 

5. HMB - "Como Eu" (DJ Ride Rework) Produzi esta faixa, que entra também no álbum deles, a meias com o HMB. Já tinham gravado e a bateria estava com um feeling mais acústico, só que queriam um swing mais ligado ao J Dilla ou Madlib, uma sonoridade mais suja. Tentei dar esse input mais Detroit ao som.

6. Nery - "Paris" (DJ Ride Remix) O Nery é um dos meus DJs preferidos e é um amigo. Esta faixa vai ser do próximo álbum. Como aconteceu com a faixa da Capicua, ouvi e pensei "OK, quero mesmo mexer nisto". É uma das remisturas de que gosto mais do CD.

7. Pernas de Alicate - "Mosca" (DJ Ride Remix) É sempre mais complicado pegar numa faixa rock do que numa de hip-hop ou eletrónica. Acabei por tirar quase as guitarras todas, usei só uma com um toque mais funky e dei mais destaque aos teclados originais, que depois dupliquei.

8. Gentleman vs? DJ Ride - "Heart of Rub-a-Dub" (Rework) Foi um trabalho a meias porque deram-me alguns exemplos da sonoridade que queriam. O Gentleman já teve bastante remisturas e disse que este foi o remix de que gostou mais até hoje. De todas as faixas, é a que provavelmente funciona mais no clubbing porque tem um toque meio Major Lazer.

9. DJ Ride - "Always Remember" É um daqueles beats que às vezes faço e dos quais gosto bastante mas tenho dificuldade em editar. Pus no Soundcloud e depois retirei... Sinto necessidade de editar a música em formato físico, pôr só na net é uma coisa um bocado volátil, e então esteve aqui à espera de viver em CD.

10. Batida - "Ka Heueh" (DJ Ride Remix) Na altura, estava a tentar produzir dubstep, aquele mais agressivo. Esta remistura foi uma dessas experiências. Peguei na parte orgânica de Batida e pus ali uma parte mais agressiva do dubstep.

11. Holly - "La Vie" com Wemvny & DJ Ride Foi a primeira faixa que fiz a meias com o meu irmão, que é dez anos mais novo do que eu. É um sentimento único. Ainda por cima fazemos música parecida. É brutal.

12. Susana - "A Different Look" (DJ Ride Remix) Foi um desafio dos Octa Push, que estavam a fazer um projeto no qual pegavam em artistas a gravar as primeiras músicas das suas carreiras. Mais uma vez, era um tema mais rock/pop e tentei dar-lhe uma vibe mais Shlomo, um dos artistas que gosto mais.

13. Lewis M - "Cure" (DJ Ride Remix) O Lewis M é um dos elementos dos Salto, um dos melhores produtores que temos, com beats mesmo muito fora. Influenciei-me por cenas footwork e DJ Rashad. Funciona também muito bem na pista de dança.

14. Beatbombers - "LFO Player" Tinha que incluir alguma com o Stereossauro. Esta é do vinil Tuga Breaks, muito refundida porque só saiu numa edição de 300 exemplares. Aqui tenho oportunidade de mostrá-la a mais pessoas.

15. DJ Ride - "Serbia Interlude" É um bom exemplo daqueles beats que faço em hotéis. Fi-lo antes de tocar no Exit Festival, na Sérvia, quando estava a preparar o live act no quarto. Gosto bastante mas ainda não o tinha posto em nenhum álbum.

16. Kika Santos - ?"U Fill Me" (DJ Ride Remix) A Kika é uma das minhas vozes favoritas e os Loopless foram um grupo que me influenciou bastante. Não a conhecia e um dia ligou-me a perguntar se queria trabalhar com ela. Foi um sonho tornado realidade. A Kika está ligada àquela soul e funk mais clássicos e puxei-a para uma sonoridade que andava a ouvir, ligada aos Sa-Ra Creative Partners. Ia ser a remistura mas tornou-se o single oficial e passou na rádio.

17. Micro Audio Waves - "Long Tongue" (DJ Ride Remix) O "Long Tongue" é um dos melhores temas de música eletrónica feita em Portugal e é uma grande viagem. Foi um privilégio pegar nas pistas e pôr aqui a minha assinatura. É provavelmente o beat mais antigo do CD, de 2007 ou 2008.