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Cat Power em Lisboa: Pura e sem gelo

Se no ano passado deu um mini-concerto no Meco, esta noite Chan Marshall tocou cerca de 20 canções e deixou a alma no palco do CCB. Muitos renderam-se-lhe, outros saíram mais cedo. Leia a reportagem e veja as fotos.

À entrada de um concerto, é habitual ouvirmos os fãs conversarem sobre os espetáculos que já viram daquele artista. Com Cat Power, o fenómeno é o oposto: os seus seguidores recordam os concertos que não viram, ou seja, aquelas noites em que até marcaram presença, mas cujo resultado ficou aquém, ou ao lado, do esperado. Se deste lado recordamos sempre o épico serão no Blá Blá de Matosinhos, em que Chan Marshall passou horas em palco sem terminar qualquer canção, ontem, à porta do Centro Cultural de Belém, duas amigas lembravam a aparição de Cat Power no Meco, no ano passado; na noite do Super Bock Super Rock em que a chuva caiu com vontade e Eddie Vedder tocou três horas, a norte-americana só teve tempo de apresentar meia dúzia de canções. Com tantos concertos "não" vistos, seria a noite de Halloween a grande oportunidade de a cantora e compositora oferecer, por fim, um espetáculo à medida do que os seus fãs sonham? Sim e não.

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Mesmo à saída do concerto, pela meia-noite, o público, aturdido, parecia não saber o que pensar. Exceção feita aos mais convictos (atrás de nós, duas senhoras mostravam intenção de pedir o dinheiro dos bilhetes de volta, argumentando com a "loucura" da artista), as opiniões ainda se encontravam em formação. Afinal, após duas horas "a sós" com a música e a insegurança de Cat Power, emoções e impressões precisam de ser digeridas. Foi pouco depois das dez da noite que, de franja e fato escuro, Chan Marshall apareceu no horizonte dos espectadores portugueses. Recebida com uma daquelas ovações que se dispensam, apenas, aos velhos amigos, a mulher de "You Are Free" começou por dedilhar suavemente a guitarra elétrica, da qual, mercê de um pau de incenso preso no braço dos instrumento, nos parecia sair fumo. Mentira: é da sua voz, misto de consolo e inquietação, que sai todo o calor, todo o fogo que vamos ver esta noite. "Old Detroit" e "Satisfaction", a espectral versão do clássico dos Rolling Stones, à qual esta noite devolveu o refrão que lhe subtraiu em Covers Record, mostraram que, haja o que houver, este timbre será sempre a sua imagem de marca e a boia que lhe vale quando lhe falta o pé. Por outro lado, desde o início foi também visível a inacreditável insegurança da artista: aos 43 anos, após duas décadas de estrada, Cat Power continua a pôr a alma a cru, não conseguindo ocultar os seus estados de espíritos e deixando, por vezes, que os mesmos perturbem a sua prestação. Nos dois primeiros atos, chamemos-lhe assim (à guitarra elétrica e, depois, ao piano), a insatisfação com a acústica foi uma constante. Interpretando as canções quase de enfiada, com brevíssimas pausas entre cada uma, Miss Marshall não parou muito para falar com o público, mas pediu incontáveis vezes que lhe subissem a voz ou o reverb. A frustração atingiu níveis constrangedores quando, já mais perto do final do segundo ato, deitou a cabeça no piano, depois de desabafar e explicar que, embora se sentisse muito honrada por tocar numa sala como o CCB, detestava o "sistema digital" que a impedia de projetar a voz como desejado. E foi assim que vimos uma das intérpretes mais abençoadas da sua geração a cantar colocando a mão à volta do microfone, procurando desesperadamente que a voz lhe saísse como planeado. Do lado de cá, nada a apontar: Cat Power continua a ser uma cantora excecional, e esta noite deixou de parte a faceta de cantora de charme que, de certa forma, adotara nos concertos dos coliseus, privilegiando as facetas mais espectrais e enigmáticas do início de carreira. As intensas "Hate", "Names", "I Don't Blame You" ou "3, 6, 9", do mais recente Sun, quase irreconhecível de tão despida, soaram belissimamente, pelo menos a quem estava sentado na plateia. À semelhança do que tem feito nestes concertos a solo, Cat Power apresentou ainda uma mão cheia de versões: "What The World Needs Now", de Burt Bacharach, "Can I Get a Witness", de Marvin Gaye, "Hit The Road, Jack", de Percy Mayfield, e "He's a Mighty Good Leader", da mais imberbe fase de Beck, surgiram quase todas no terceiro ato do concerto, novamente à guitarra. Introduzindo comentários autodepreciativos ou pequenas histórias nas letras, a mãe de Boaz - bebé de seis meses sobre quem falou longamente na entrevista à BLITZ - aparentava já ter perdido algum do controlo que parecia ter imposto a si mesma, na primeira fase do concerto. Mas, mostrando a mesma incapacidade de abandonar o palco do que há sete anos anos, no coliseu, avançou: ainda tivemos o privilégio de ouvir "The Greatest", título que tão bem lhe assenta, e "Good Woman", cuja improvisada tirada final - "It's not easy being a good woman, why is it so easy to be a bad man?" - daria um excelente encerrar de concerto. No entanto, enquanto alguns abandonavam a sala e outros se agitavam impacientemente nas cadeiras, Cat Power seguiu em frente: recebemos assim "Moonshiner" na frente do palco, a capella, e uma brincadeira escrita em Paris num momento de "muita fome", "Framboise je T'Aime". E ainda um relativamente curto monólogo sobre querer salvar o mundo e não saber como, com referências dispersas ao menino sírio afogado na Turquia e às imagens que, todos os dias, nos massacram os olhos, no Youtube e nas notícias. Depois de reconhecer que as mesmas a fazem sentir uma profunda desorientação ("o que é que estamos a fazer aqui,  a sério?"), despediu-se, embaraçada, com um repetido: "Que Deus vos abençoe e vos mantenha a salvo, a vocês e às pessoas que vocês amam".

Os aplausos que, nas pequenas pausas entre canções e neste final emotivo, irrompiam na plateia pretendiam, estamos certos, premiar mais do que aquela voz que, vinda de um tão evidente lugar de solidão, transmite uma tão paradoxal companhia. Com as palmas, os fãs, aqueles que resistiram até ao fim de mais uma noite com Cat Power, aplaudiam o facto de ela existir. E sobreviver. Que Deus a abençoe a ela também. Uma breve nota para a primeira parte do concerto, que não fora anunciada: perante uma plateia já repleta (a hora de começo do espetáculo - 21h - era, afinal, a da abertura), a francesa Anne-Laure Keib, do projeto Appaloosa, deu um dos espetáculos mais inqualificáveis de que temos memória. Surgindo em palco sozinha, foi disparando as canções ("some electronic dance music...", "this is very naughty...", ia apresentando) no seu Mac, cantando por cima dos instrumentais - e de algumas vozes gravadas - em modo quase karaoke. Espantando, o público começou por aplaudir a medo, acabando por rir e até vaiar a gaulesa, com a mesma falta de pudor com que a artista desafinava. Ver em palco alguém com quem nos identificamos é sempre bom; ter de ouvir alguém que canta como nós no duche matinal não é tão gratificante. Texto: Lia Pereira Fotos: Dário Cruz