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Cat Power: 'A minha mãe deixou-me quando nasci, só a conheci quando tinha quatro anos e meio' [entrevista]

Antes dos concertos em Lisboa e Porto, Chan Marshall falou com a BLITZ sobre o filho, a música e muito mais. Recorde aqui a entrevista originalmente publicada na revista de novembro.

"Desculpa, não quero roubar o teu tempo", ouvimos Chan Marshall dizer, uns dez minutos depois de ter começado a falar connosco. O dia-a-dia como mãe de um bebé de cinco meses, Boaz, dominou o arranque daquilo que, mais do que uma entrevista, foi uma conversa franca e informal de quase uma hora com uma das intérpretes mais abençoadas da sua geração. Deixemo-la falar.

"Tropecei num pénis e engravidei"

"Nunca pensei que pudesse ser mãe, pensei que já não teria essa possibilidade. A vida está sempre a dar-me lições! O meu dia-a-dia agora é bastante diferente, mas divertido. É uma aventura do coração, porque não é aquela diversão maluca de quando tens 20 ou 30, mas uma diversão muito pura! (risos) Não durmo muito, mas nunca dormi. Eu vivo em Miami e a minha melhor amiga em Nova Iorque. Depois do parto, ela veio ajudar-me durante duas semanas. Tenho uma nanny que vem cá de segunda a sexta, mas durante os dois primeiros meses, tirando as duas semanas em que a minha amiga cá esteve, fiz tudo sozinha e adorei. A sociedade faz aquela ideia das crianças como sendo difíceis, dizem que não te deixam dormir e sujam tudo, mas quem diz isso são os adultos. Não pertenço a nenhum grupo de mamãs nem nada disso. Sou bastante teimosa nestas coisas, gosto de aprender por mim, mas ele está seguro! A minha mãe deixou-me quando nasci e só a conheci quando tinha quatro anos e meio. Quando era pequena estava sempre doente, por isso agora é muito importante poder amamentar. Psicologicamente, acalma-me de forma que nunca imaginei, emociono-me só de falar nisso. Nunca pensei que conseguisse sarar estas feridas antigas, mas a verdade é que resulta. Tenho 43 anos, tropecei num pénis e engravidei! Tropecei num rapaz novinho, bem bonito e esperto... fui nadar com ele na piscina e acabei grávida! (risos) Dizer que tive sorte é pouco, estou mesmo grata e sinto-me abençoada por o universo, Deus ou lá o que foi ter decidido dar-me este desconto na vida! Recebi um desconto de 50%! Um cupão de felicidade numa altura em que estava muito doente. Nunca soube o que leva o nosso sistema imunitário a virar-se contra nós, mas o stress pode ajudar. Já pensava: "OK, tive uma boa vida..." e, de repente, pumba, uma regeneração! Quando estava grávida sentia-me e parecia mais saudável e mais otimista, mais concentrada".

Em Portugal

"Vou gravar um disco em breve e, sempre que o faço, antes parto em digressão, para poder perceber, de forma intuitiva, se as canções têm valor suficiente para a humanidade e para serem gravadas. Por isso, em Portugal vou tocar muitas canções novas e outras bem antigas, de vários álbuns. E também algumas antigas, que nunca foram editadas, algumas das quais estão na internet, em bootlegs e assim".

Uma surpresa no inverno

"No Sun [álbum de 2012] trabalhei que me fartei! A minha editora, ou uma pessoa da minha editora, disse-me que eu precisava de fazer um disco que fosse um sucesso. Já tinha 15 canções, mas disseram-me que não eram suficientemente uptempo, que precisavam de ser produzidas, e que eu precisava de arranjar um produtor, um manager e essas coisas. E eu só arranjei o primeiro manager da minha carreira há duas semanas. Agora, sinceramente, quero fazer um disco a solo, como o Covers Record, mas ainda não tenho a certeza, porque tenho outras ideias, como um disco mais crossover, de que as pessoas não estejam à espera. Vou gravar já este inverno".

Viver numa garrafa

"Quando comecei a tocar, não tinha uma "imagem", e ainda hoje não tenho, mas como sou mulher sofro muito mais pressão nesse sentido. Mas, quando estava a começar, sempre quis tocar no escuro. Achava que só a palavra e a melodia importavam, e ainda acredito nisso. E fazia certas coisas não para me esconder do público, mas para me proteger, tentando ir para um nível espiritual e subconsciente. Não tenho muitos estudos, tive de desistir da escola para ir trabalhar, por isso não sei explicar, mas durante aqueles anos todos andei a projetar o meu espírito com todas aquelas almas à minha volta, a olharem para mim, a criticar, a julgar. Talvez 10% estejam mesmo acordados e a ouvir, e com vontade de apreender entender, absorver a pessoa que estão a ouvir. Sempre tive noção que estava a enfrentar um público rock, dominado por homens, etc. Então protegi-me com o cabelo, usando roupa de homem. E bebendo. Quando perdi o amor da minha vida, aos 31 anos, tinha que continuar em digressão, que era a minha vida, a minha outra relação. Até aquela altura da minha vida nunca tinha sentido aquele tipo de dor, por isso decidi, de forma consciente, viver numa garrafa. E assim vivi durante quatro ou cinco anos, com álcool nas veias. Depois tive um esgotamento causado por stress, porque não fazia nada senão trabalhar, e quando fiquei sóbria e vi [realmente] a primeira plateia estava num teatro em Tucson [Arizona, Estados Unidos]. Foi o primeiro concerto que dei sóbria - não tinha uma guitarra nem um piano para me concentrar, olhei e vi aquelas pessoas todas que me foram ver. A sensação que tive foi a de que estive a andar de montanha-russa de costas durante 15 anos, e quando me virei pensei: "oh meu Deus, vamos tão depressa!". Durante aquele tempo todo, as pessoas estiveram sempre ali, e eu a viver no inferno confortável que criei para mim, para não voltar a ser magoada. Foi aí que aprendi a cantar para as pessoas, da melhor maneira que sei".

O mundo todo no Instagram

"Tento estar atenta às notícias, mas aqui há muita coisa que não vemos na televisão, porque as agências noticiosas são detidas por corporações multinacionais. Acabo por descobrir muita coisa através do Instagram e do Twitter. É difícil acreditar no que leio, porque sei que há jornalistas pagos para criarem histórias que não são verdade. Eu acredito em jornalismo livre, pessoa a pessoa. Penso que só consigo acreditar nessas pessoas, em cidadãos reais. O meu cérebro quer pensar: o mundo é muito grande, mas não é, é minúsculo. No Twitter e no Instagram, tento publicar algumas coisas sobre o que se está a passar. Há ano e meio, no México, quando 22 estudantes foram assassinados por se manifestarem, eu fiz reposts sobre isso. Penso que um quarto da população norte-americana é do México: as pessoas têm lá família e querem saber, mas ninguém falava disto na América, nem a BBC America, nem a NPR. E o Instagram fechou as minhas contas durante duas semanas. Devem ter achado que a mais pequena não representava uma ameaça, por isso liberaram-na passada uma semana. Mas a oficial continuou bloqueada, durante duas semanas não pude postar nada. As pessoas diziam-me: Chan, estás paranoica, então contactei o dono da Vice, Shane [Smith], que me perguntou: "queres dar uma entrevista? Mas eu estava grávida e em digressão remarcámos e acabámos por não fazer nada. Arrependo-me de não ter tido força física ou tempo para me dedicar a fazer esse artigo, até porque a Vice agora foi comprada pela HBO e chega a mais pessoas. Mas um amigo meu que é da Ucrânia e vive no Brasil postou o que tinha acontecido aos estudantes mexicanos e eles fecharam-lhe o Instagram e alguém ligou para a família dele na Ucrânia, a ameaçá-la" [Poucas horas depois desta entrevista, Cat Power partilhou na sua página do Instagram a causa de Luaty Beirão, ativista e rapper preso em Angola, bem como a petição da Amnistia Internacional pedindo a sua libertação]. "Até os U2 têm de fazer em digressões" "Do que sinto saudades na música antes da internet? Dos lucros! Quando o The Greatest saiu, foi quando a internet se expandiu, e eu perdi 75% dos lucros que alguma vez poderia vir a ter. Teria muito mais segurança de outra forma; os meus colegas que estavam bem antes disso, hoje em dia têm essa segurança. Não têm de andar em digressão, limitam-se a lançar grandes discos. Já não ganho dinheiro com os discos, só a dar concertos. Hoje até os U2 têm de fazer digressões! E a Madonna!". Metade macacos, metade marcianos

"Adoro todos os animais: macacos, cobras... Quando fui à Grécia tentei salvar dois cães e um gato, trazê-los comigo para a América. Mas, quando tenho essa intuição de fazer alguma coisa, como ficar com um cão, 99% das vezes os meus amigos impedem-me. E 100% arrependo-me! Eu sinto que todos os seres vivos sofrem. Quero ser budista mas, ao mesmo tempo, não me quero sentar no cimo da montanha a meditar, sem tentar ajudar na minha vida quotidiana. Adoro gatos; tive uma gata que morreu depois de o Moon Pix ser gravado, e isso "matou-me". Tinha um ano e foi atropelada por um camião. Era a gata mais fixe: não era bem um gato doméstico, não tinha rotinas. Era livre e andava à solta na quinta, na Carolina do Sul. Fazia xixi e cocó lá fora, subia às árvores, atacava-me os pés... era um pouco selvagem, mas era a mais calma no sítio onde os matam. Onde os salvam, mas os matam... no abrigo! Todos os outros gatinhos estavam malucos e ela era a única completamente descontraída, e eu pensei: "esta vai ser a gatinha mais fixe". E era incrível. Tenho três cães e adoro-os a todos, de forma diferente. Cada forma tem a sua cor, as suas recordações e as suas relações. A minha cadela Mona, que está aqui comigo sinto que ou vai ser um humano, ou já foi um humano maltratado, e talvez tenha vindo ter comigo para poder ter paz. Os animais são incríveis, mandam no planeta. Ou deviam mandar. Sinto que o planeta é deles. Sinto que somos metade macacos, metade marcianos! (risos) Senão, como é que, de repente, fomos evoluir mais depressa do que as outras espécies no planeta, que já estavam cá há milhões de anos?" Lia Pereira 

Publicada originalmente na BLITZ de novembro