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Cartazes de festivais: quem disse que o tamanho não importa?

Artistas, agentes, managers e produtores negoceiam até à exaustão pormenores como o tamanho das letras nos cartazes dos festivais. Americano Coachella, que começou este fim de semana, é um dos que tem 'letrinhas pequeninas'.

Há três batalhas importantes travadas por artistas, agentes e, do outro lado da barricada, produtores de festivais: a primeira, claro, é a batalha dos números os cachês são debatidos quase até ao último tostão; por outro lado, os "time slots", ou os horários em que cada banda vai atuar, são disputados com idêntico fervor tocar demasiado cedo tem óbvias implicações no estatuto dos artistas; a última batalha, no entanto, pode apanhar desarmado o mais desatento: o tamanho da fonte das letras usadas nos cartazes de promoção. Será apenas picuinhice? Citado pela Billboard, Tom Windish, diretor de uma agência de artistas (tem no seu "roster" nomes como Andrew Bird, Beirut ou Neneh Cherry), admite que gasta "tempo e recursos consideráveis a tentar encontrar o melhor posicionamento possível". O posicionamento a que o executivo se refere reside, claro, no arranjo gráfico dos cartazes de festivais. "Quando se listam mais de 50 nomes, quem aparece antes de quem pode ser um assunto de extrema importância", adianta outro agente. Outro exemplo vem de Jordan Wolowitz, um dos responsáveis pelo festival novaiorquino Governor's Ball, que este ano contará com nomes como Flying Lotus, Florence + The Machine, Little Dragon, Future Islands ou Drake: "há alguns anos, tivemos uma banda estabelecida a retirar-se formalmente do festival, um dia antes de avançarmos com os nomes, porque odiava o posicionamento no cartaz promocional. O bom senso imperou e cedi aos seus desejos: subirem três posições". Estas exigências podem parecer fruto de egos e vaidades, mas na verdade têm repercussão no estatuto da banda: "recebi uma chamada de um agente que representa um grande artista", prossegue Wolowitz, "que me disse que outros festivais estavam a usar o posicionamento do seu cliente no nosso cartaz como desculpa para pagarem cachês mais pequenos". A "dança" habitual, explica Wolowitz, é: "poster é divulgado, artista reclama com manager, manager reclama com agente, agente tem de reclamar com promotor". No final, a palavra final pertence ao promotor e "requer um certo nível de pragmatismo", já que é o dinheiro deste que está em jogo. Andreia Criner, profissional ligada à comunicação de festivais como o Vodafone Paredes de Coura ou o NOS Primavera Sound, garante que esta é uma realidade distante das bandas portuguesas, "talvez por ser raro chegarem à posição de cabeças de cartaz, como aconteceu com os Ornatos Violeta em Paredes de Coura ou quando os Da Weasel tocaram antes de Red Hot Chili Peppers no Rock In Rio". A especialista em comunicação adianta ainda que, neste assunto particular, não é dada margem de manobra a artistas internacionais que não se tenham afirmado na primeira linha. No fim de contas, vigora sobretudo a vontade do "patrão", vulgo organizador do evento. Texto: Rui Miguel Abreu Publicado originalmente na BLITZ de março de 2015