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Carlão hoje no Lux: leia aqui a crítica da BLITZ ao álbum 'Quarenta'

O músico português apresenta hoje o primeiro disco a solo, Quarenta, no Lux, em Lisboa. Leia a entrevista na BLITZ de maio, amanhã nas bancas, e veja aqui a crítica a Quarenta.

Um dos nomes históricos do hip-hop português, Carlão atua hoje no Lux, em Lisboa, em apresentação do primeiro disco a solo, Quarenta. A entrada no Lux faz-se mediante compra do disco (10 euros). O ex-Da Weasel, que nos últimos anos gravou com Dias de Raiva e 5-30, além de manter o projeto O Algodão Não Engana, é um dos artistas em destaque na BLITZ de maio, amanhã nas bancas (capa: Metallica). Na BLITZ 107, poderá encontrar um dossiê sobre hip-hop português, com entrevistas e sessões fotográficas exclusivas com Carlão, Capicua, Regula, Jimmy P e Tribruto. Leia aqui a crítica de Rui Miguel Abreu a Quarenta, de Carlão, publicada na BLITZ 106.

A IMAGEM NO ESPELHO

Carlão faz da imagem no espelho o tema central do seu disco de estreia em nome próprio: rimas que funcionam como autorretrato de um veterano em topo de forma.

Carlão Quarenta FNAC

4/5

No documentário Lusofonia a (R)evolução, trabalho que já está quase com uma década em cima e que procurava unir pontos entre o fado, Brasil, África e o que eram então novidades na nossa música urbana, Carlão, que à época respondia ainda ao nome Pacman, explica a alguns interlocutores numa esquina do Bairro Alto que o hip-hop se devia abrir aos sons de Cabo Verde e de Angola porque a riqueza de samples guardada nos discos desses países era enorme. Em 2015, pode dizer-se que a realidade pós-Buraka (que também surgiam nesse documentário, então a darem ainda os primeiros passos) tornou presente essa vocação africana que esteve sempre latente na nossa pop. Dos Octa Push ao projeto Batida, de Marfox e do exército Príncipe às propostas festivas de Celeste Mariposa ou Rocky Marsiano, do fenómeno Anselmo Ralph à enxurrada de compilações de kizomba que disputam espaço nos expositores das bandas de gasolina, há, sem a menor sombra de dúvidas uma nova paisagem musical impregnada de África no horizonte urbano português. Pensar que Carlão vem a reboque de alguma coisa é, no mínimo, pura ingenuidade. Ele é, sem dúvida, um dos arquitetos dessa renovação urbana, dessa gentrificação musical: a vizinhança afro antes desprezada está agora altamente valorizada e cheia de toldos negros (não é piada...) e propostas gourmet. Com beats de Fred (dos 5-30) em dupla com King Kong (a fatia de leão), Holly Hood, Branko, DJ Glue e Agir, Quarenta é surpreendentemente pouco expansivo no departamento dos "features" - Sara Tavares, Dino D'Santiago (que reforçam a vocação africana do trabalho) e New Max são as únicas vozes extra deste álbum - o que sublinha ainda mais a condição de autorretrato de alguém que é inteligente e não quer parecer um dos novos miúdos do bloco, antes afirmar-se como homem, com experiência e bagagem, sabedor e matreiro. O lado curioso é que Carlão faz isso sobre música que traduz não a extensão do seu percurso, mas a urgência do presente. Beats urbanos, com algumas marcas da modernidade mais ligada a África, com o hip-hop a entrelaçar-se com ecos de kizomba, com a soul que também existe em Carlão a assumir ligações a Cabo Verde. E isso é sinal de saudável maturidade. De Carlão e da pop nacional que já não se quer parecida com a de Londres ou Nova Iorque, mas apenas igual à imagem que todos vemos no espelho.  Rui Miguel Abreu