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Capicua: o mundo, o corpo e o coração no FMM Sines

A rapper animou a multidão na noite de sexta-feira, no Festival Músicas do Mundo, em Sines, que termina hoje.

Capicua foi à luta desde o primeiro tema que colocou em palco. Abriu ao ritmo do tema "Medo do Medo", enquanto esse medo se expurgava também nas ilustrações que Vítor Ferreira foi produzindo e projetando até ao final do concerto. A rapper subiu ao palco do Castelo de Sines à hora marcada (sexta-feira, 00H15) com MC7 e D-One, criando desde logo um caminho que não deixou de lado a própria agenda política mas também não renunciou à vontade de divertir a audiência e colocar toda a gente a dançar. Confiante, Capicua, passou por Sereia Louca, que, como disse, também pode ser "serei a louca", e foi insistindo: "Vamos, lá Sines! Quero ver as duas mãos no ar!". O público não se encolheu. Antes aceitou o seu comando de guerrilheira cor-de-rosa, balançando-se ao ritmo do mundo de Capicua e das suas letras mais politizadas. Num alinhamento que, como a própria nos explicou, procurou o cruzamento entre o seu "mundo, o corpo e o coração", Capicua cumpriu 60 minutos exemplares.

Temas do álbum Sereia Louca (2014) e do trabalho de remisturas que lançou um ano depois, Medusa, organizaram-se numa narrativa que incluiu preocupações sociais do mundo dela, do seu discurso sobre as mulheres e contra a violência sobre elas, e do mundo que a rodeia. E foi, por isso, provavelmente, que depois do sonho romântico da casa no campo, que partilhou com Elis Regina, vieram as palavras de Sophia de Mello Breyner Anderson e Sérgio Godinho para gritar liberdade, e reclamar atenção para todos os que não a têm; e "para os tempos difíceis que se vivem na Europa, no Brasil e em Angola". E se "Vayorken" não podia ficar de lado de modo algum, também não foi nesse regresso à infância de mini-comunista que se despediu. Com os beats na sua máxima expressão, fez muito barulho: "Vamos fazer barulho! Pum-pum-pum. Para a polícia de choque". A meio do concerto, de resto, já tinha dito que o nosso "Fado já não faz chorar as pedras da calçada, faz atirar as pedras da calçada".

A noite de sexta-feira ficou ainda marcada pelo concerto de Bruno Pernadas, no Castelo de Sines, com a Francisca Cortesão e Afonso Cabral nas vozes, ao que se seguiu uma viagem ainda mais instrumental conduzida, pelos 15 músicos de Flat Earth Society do belga Peter Vermeersch, e pelo seu improviso e bom humor. Antes de Capicua esteve ainda em palco o virtuosismo do indiano Niladri Kumar, filho de um discípulo de Ravi Shankar. O FMM de 2015 despede-se hoje prometendo um concerto com aquele que poderia ter sido a capa de um cartaz muito diverso. Salif Keita (00h15) fará um espetáculo acústico, no qual pretende regressar às raízes do seu país, o Mali, de onde também são originários Toumani Diabaté e o seu filho Sidiki que subirão a palco às 23h00. Texto: Cristina Margato (jornalista do Expresso) Fotos: FMM Sines