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Capicua apresenta a partir de hoje concertos para crianças no São Luiz, em Lisboa [entrevista]

A rapper do Porto levará ao mesmo teatro, na próxima semana, concertos em redor de poetas portugueses. Com Capicua em palco estará Pedro Geraldes, dos Linda Martini, autor das músicas e bases instrumentais.

Quando era criança, Ana Fernandes, mais conhecida pelo "nome de guerra" Capicua, lembra-se de ir a alguns concertos. "Os meus pais levavam-me sempre, no 25 de Abril. Eu gostava do José Mário Branco, dos outros nem tanto", recorda, entre risos. Mais do que da música, caminho que havia de seguir enquanto rapper, a portuense recorda-se da omnipresença da palavra na sua infância. "A minha mãe contava-me sempre uma história que acabava com uma lengalenga de um macaco, que eu sei de cor até hoje, e o meu pai gosta de dizer palavras ao contrário", ilustra. "Na escola primária, no dia do pai, escrevia as minhas redações e as dos meus colegas, e uma vez escrevi um poema que a professora até quis publicar num livro de português. Mais do que à música, sempre me lembro de ter, desde muito pequena, uma ligação à rima", confessa. Por isso, quando recebeu um convite do São Luiz para atuar para crianças, Capicua ficou entusiasmada: "Já andava com a ideia de fazer um livro de lengalengas [infantis], e pensei: se calhar esta é a oportunidade ideal para acabá-las e, em vez de fazer um livro, faço um concerto", conta. A possibilidade de abordar temas ecológicos pareceu-lhe igualmente aliciante, e daí à criação do conceito do espetáculo - Mão Verde - foi um ápice. "Há uma expressão em francês que é avoir la main verte, que é ter jeito para a jardinagem", explica esta aficionada das hortas caseiras e ervas aromáticas. "Falar disto às crianças não tem só a ver com achar que elas têm interesse em ouvir, mas com eu ter interesse em falar sobre isso e acreditar que este é o veículo ideal para fazê-lo. No meu trabalho normal, quando faço rap para o meu público ou letras para outras pessoas, é mais difícil encaixar estes temas; tenho medo de cair numa [toada] moralista ou panfletária. Com os putos é fácil", considera, ainda que prometa não "infantilizar" a mensagem. "Nunca conheci um miúdo que não gostasse de animais ou de plantas, que não ficasse fascinado a ver um pé de feijão a crescer dentro de um algodão molhado ou não quisesse plantar e brincar com a terra. E é estratégico, porque eles é que vão tomar conta de nós, um dia destes!", completa. Os espetáculos Mão Verde acontecem entre 10 a 13 de dezembro no Teatro-Estúdio Mário Viegas, destinando-se a crianças da escola primária. Em palco, Capicua será acompanhada por Pedro Geraldes, guitarrista dos Linda Martini, que "fez um conjunto de instrumentais que me surpreenderam, porque têm sentido de humor mas, ao mesmo tempo, não são assim tão infantis." Da junção da sua música e dos jogos de palavras de Ana nasceram "oito temas, mais duas historinhas e uma versão da "Vayorken"", êxito "multiusos" do seu segundo álbum, Sereia Louca. De 15 a 20 de dezembro, o Jardim de Inverno acolhe ainda o Concerto de Água e Sal; onde Capicua lerá, cantarolará ou rappará textos sobretudo poéticos de autores portugueses, que espelhem a presença da água no quotidiano das cidades e populações. Também com música de Pedro Geraldes, será um espetáculo "para o público mais adulto. Misturo os textos sem pudor nenhum; pode começar na Sophia Mello Breyner e acabar no Raul Brandão e passar pelo Pedro Homem de Melo e pela Maria Teresa da Horta. O Mão Verde é completamente solar, lúdico, a falar da terra e das plantas, e o outro mais introspetivo, de paisagem sonora e voz falada."

10 a 13 de dezembro Mão Verde Teatro-Estúdio Mário Viegas, Lisboa Quinta e sexta, 11h, para escolas; dias 12, 16h e 18h, e 13, 16h, para famílias

15 a 20 de dezembro Concerto de Água e Sal Jardim de Inverno Terça a domingo, às 19h

Lia Pereira Texto originalmente publicado na revista E, do Expresso, a 5 de dezembro