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Bon Iver ao vivo no Campo Pequeno, em Lisboa [reportagem + fotogaleria]

Mais uma noite "mágica" de Justin Vernon em Portugal, agora em espaço mais vasto. O que era namoro assolapado é agora casamento consumado.

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The Staves
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A música que Justin Vernon cozinha como Bon Iver parece rimar de forma particularmente feliz com temperaturas baixas e cheiro a lenha queimada. A caminho do Campo Pequeno, em Lisboa, dá para perceber que os aguaceiros do dia não chegaram para convencer toda a gente de que este já é tempo de galochas e de agasalhos mais pesados e ainda se veem muitos braços e pernas estoicamente desnudados. Mas ao menos há folhas caídas no chão e cheiro a castanhas, pormenores outonais que hoje terão que ser suficientes para enquadrarem o regresso dos Bon Iver à cidade cuja receção, há três meses, levou o autor de "Perth" a exclamar "Jesus Fuckng Christ!" no Twitter. A noite abre às 21h em ponto com as irmãs The Staves a harmonizarem docemente, acompanhadas apenas por guitarra acústica e ukelele. Emily, Jessica e Camila Staveley-Taylor fizeram alguns dos concertos da secção norte-americana desta digressão e repetem a dose na parte europeia desta aventura de Bon Iver. E fazem-no de forma competente, com harmonias celestiais que preparam o ambiente para a noite que se segue, colocando a sílaba tónica na entrega emocional e nas melodias de recorte folk que arrancam entusiasmados aplausos do público. As manas, que estudaram atentamente o cancioneiro desses outros "irmãos" Simon & Garfunkel, parecem elas mesmas genuinamente surpreendidas por serem tão bem recebidas "num sítio tão enorme". Enquanto Bon Iver não chega, e ainda a propósito da galharda entrega das Staves, uma pequena reflexão: excelentemente posicionado num dos camarotes frontais ao palco, o repórter não consuegue, no entanto, escapar ao que parece ser um mal generalizado nos concertos de média ou grande dimensão - a distração incomodativa de quem não consegue parar de falar mesmo quando a harmonia a capella parece exigir um silêncio reverente. Será que as pessoas ainda vão aos concertos para, sei lá, ouvirem música? Aparentemente cada vez menos... O que é estranho, uma vez que a oferta não tem parado de crescer. Só esta noite, em Lisboa, há Bon Iver, claro, mas também Ornatos Violeta e Six Organs of Admittance, e quase que apostamos que quanto menor a sala, maior será a concentração do público... Adiante. Entretanto, a "plateia" do Campo Pequeno enche completamente e as bancadas apresentam-se já praticamente preenchidas, confirmando-se assim a acertada decisão de programar esta "repetição" tão perto da estreia que encantou os Coliseus em Julho passado. Passam 15 minutos das 22 horas quando o pano que parece resgatado à boca de cena de um teatro em ruínas se ilumina, dando azo a uma histeria coletiva que diz muito dos favores de que a "marca" Bon Iver goza entre nós. Em palco contam-se nove almas, divididas entre percussões, saxofones gigantes, trombones, teclados, guitarras e outros instrumentos de cordas. E todos juntos, estes instrumentos parecem capazes de evocar tanto o pingo de chuva como o trovão. Por esta altura impõe-se uma confissão: isto é o mais a jeito que o autor destas linhas já se colocou perante a música de Bon Iver e, portanto, o que para muitos tem sabor de confirmação, por aqui tem ainda o estranho travo da descoberta. O que não significa que algo esteja prestes a entranhar-se. Justin Vernon parece sincero quando refere o quanto adorou a sua anterior passagem por Lisboa, cidade que descreve como sendo "do amor", facto que lhe permite apresentar "Towers", uma canção, de acordo com as suas palavras, sobre a fase da vida em que se começa a pensar em sexo, "mostly in college", como o próprio sugere. Mas a julgar pela demografia dos camarotes que me ladeiam, essa canção parece tocar mesmo quem ainda não decidiu a que curso se vai candidatar. Justin não é grande adepto dos facilitismos: as suas canções parecem deleitar-se em pormenores, inflexões nos arranjos, dinâmicas contrastantes, pequenos efeitos sonoros que servem para sublinhar os complexos estados emocionais que as canções exploram. Mas, ao mesmo tempo, a estes ouvidos pouco familiarizados com a obra do mais famoso nativo de Eau Claire, Wisconsin, as canções também parecem recorrer com demasiada frequência aos crescendos que soam a triplo ponto de exclamação no final de uma frase, o sublinhado demasiado óbvio para a dor, desencanto, desamor, solidão ou o que mais possa assombrar este compositor. Ainda assim, nada a dizer sobre a moldura sonora que rodeia todos os temas: os músicos sabem obviamente o que fazer e dizer com os seus respectivos instrumentos e isso enriquece a experiência da exposição aos temas de For Emma, Forever Ago e Bon Iver, Bon Iver. Para "Re: Stacks", Justin dispensa o octeto que o acompanha e só com a sua guitarra eléctrica vai-se entregando a um público que se divide entre "uaus" e "shhhs", entre quem quer extravasar e quem apenas quer sorver a torrente de emoções que parece desprender-se de cada palavra cantada em falsete. Depois chega "Skinny Love", tema que prova que ainda é possível sentirmo-nos como recém chegados de outro planeta, quando toda a gente canta em uníssono palavras que quem assina estas linhas desconhecia por completo. O público reage em estridente histeria e Justin parece até achar que o nosso público está a exagerar um bocado. Eu tenho a certeza que sim. Faltam 25 minutos para a meia-noite e o coletivo Bon Iver sai de palco pela primeira vez. E o público, como seria de prever, não regateia os aplausos. "Thank you so goddamn much", é o que ocorre dizer a Justin que promete no regresso ao palco "mergulhar fundo na discografia", entregando-nos mais uma das suas explosões sentimentais que espreme todo o poder dos seus dois bateristas. Justin, "the rocker", leva o Campo Pequeno ao rubro. "For Emma, Forever Ago" sublinha as despedidas. E a comunhão é (quase...) total. Para uns a revelação será total, para outros o mistério permanecerá. E isso também é bonito. Próximo encontro: Atlântico? Texto: Rui Miguel Abreu Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos