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Blur são cabeça de cartaz, hoje, no Super Bock Super Rock: saiba o que esperar

Estiveram mais de uma década sem editar um disco e, de repente, lançaram as sementes de um novo álbum em cinco dias. Fazemos o 'filme' dos últimos tempos da banda inglesa e mostramos-lhe o alinhamento provável.

Do nada, sem que ninguém estivesse a prever, os Blur voltaram aos discos em 2015. Sem aviso prévio, sem preparação. Doze anos depois de Think Tank, o disco que os britânicos gravaram com um Graham Coxon ausente, Damon Albarn e companhia tiraram um The Magic Whip da cartola. Quase literalmente. "Presos" em Hong Kong durante cinco dias depois do cancelamento de um concerto num festival, os Blur fugiram à tentação do luxo e do descanso, enfiaram-se num estúdio e gravaram material que, à altura, não sabiam se alguma vez veria a luz do dia. Estávamos em 2013, no mês de maio mais precisamente. As canções ficaram a marinar durante largos meses, quase como um segredo, quase como um mistério. E de repente, da curiosidade do que foi gravado naqueles cinco dias, fez-se um disco. Ninguém quis desperdiçar essa oportunidade regresso aos discos. Nos finais de 2014, no décimo primeiro mês desse ano, os Blur pegaram nessas gravações e ergueram o oitavo disco das suas carreiras. Nunca tinha passado tanto tempo desde o disco anterior. E no entanto foi como se tempo algum se tivesse passado. Este novo disco é o disco da falta de compromisso, do imediato, do não querer fazer planos. E isso, como tantas vezes acontece, terá feito necessariamente a diferença. Alex James não acha de todo estranho que os quatro Blur estejam de novo juntos com novas canções. E a razão é muito simples: "as gravações não estavam no nosso diário há meses, por isso estar em estúdio não tinha a obrigação de ser algo incrível", contou numa entrevista à The Quietus. A rotina não foi naturalmente um problema. Tantos anos depois, isso pode ter ajudado. Isso e o deslocamento geográfico, o "desconforto" da distância. The Magic Whip acabou por ser um disco sobre estar numa outra cidade. De tal forma que o tema acabou por exigir um regresso ao local onde tudo começou. Depois de ouvir o que Graham Coxon e o produtor Stephen Street fizeram com as gravações, Damon Alburn regressou a Hong Kong para filmar, tirar notas e escrever letras que falam sobre a ideia de estar deslocado, fora do habitat natural. O oitavo disco dos britânicos tem essa sensação de pressão e urgência, a claustrofobia de estar num outro lugar, um lugar desconhecido, a horas de distância do sítio a que os Blur chamam casa. Mas este é um disco com mais significados, com diferentes entendimentos, com diferentes perspetivas. Para cada um dos membros dos Blur, a partir de cada ângulo que se possa adotar. Para Damon Albarn, The Magic Whip é também uma metáfora para o controlo: "significa coisas diferentes a cada vez que é mencionado. Quero dizer, é um disco bastante politico, admitiu na mesma entrevista publicada no The Quietus. "Existem referências aos últimos dias do regime de Pyongyang, aos protestos em Happy Valley, a canção "Ice Cream Man" podia ser acerca de um polícia, de um protestante...". Muito para além do seu tema, do seu fio condutor, The Magic Whip é para os Blur uma espécie de gravidez milagrosa, um filho tardio que alegrou a vida da banda. É um feliz acidente na vida adulta do quarteto britânico. Um regresso inesperado mas mesmo assim é um regresso legítimo. "Muitos grupos regressam e isso não provoca sempre o maior dos entusiasmos. Mesmo para os fãs mais duradouros. No entanto existe a ideia estranha que simplesmente por teres uma certa idade terás de parar", disse Graham Coxon ao jornal The Guardian. "Isto não são os anos 50, a era dos adolescentes. Eu penso sempre nos velhos homens dos blues que continuam a fazer música e a ter filhos até terem oitenta anos. E a música pop também não tem de estar dependente da idade", disse. The Magic Whip consegue essa proeza de ser um disco com o som clássico dos Blur mas ao mesmo tempo um disco que, até pelo peso das circunstâncias, força-se a si mesmo a querer ser mais do que isso. Os Blur não querem voltar a repetir o passado; esses tempos ficaram bem ali para trás. The Magic Whip é também um disco para todos - incluindo os próprios - se questionarem acerca do que são realmente os Blur em 2015, para onde querem ir. Ainda que os próprios pareçam querer evitar essa pergunta. Para trás estão anos de alguns desentendimentos, de excessos, de abusos, de problemas adiados. Os Blur querem resolver tudo agora; mesmo que esteja tudo já perto de estar resolvido, como conta Damon Albarn ao The Quietus ao falar da relação entre os quatro músicos: "é diferente porque o Graham e o Dave estão ambos profundamente completos agora. O Graham assentou e é muito feliz com a sua companheira e com a sua belíssima filha e eu estou muito aliviado que ele esteja nesse lugar agora. O Alex tem cinco filhos, mas está pronto para tudo, como sempre; é uma força da natureza, aquele rapaz. Nós não estamos sempre juntos, todos nós, mas sempre foi assim connosco. Sempre tivemos amigos diferentes. Também não gosto de dar entrevistas com o resto da banda", admitiu. Tudo mudou mas ao mesmo tempo nada parece ter mudado. "Eu sei que é um cliché, mas somos todos quase irmãos ainda", confessou Dave Rowntree ao The Quietus. Todos nós temos uma irmã e não temos irmãos, por isso tornamo-nos irmãos uns dos outros. E tal como acontece com os irmãos, cumprimos diferentes papéis uns para os outros, acabamos por nos conhecer extraordinariamente bem, e também sabíamos como pisar os calcanhares de cada um, como mexer uns com os outros. Mas ao mesmo tempo, gostamos muito uns dos outros e estamos presentes uns para os outros. Mesmo nas más alturas... Eu sinto sinceramente que se me acontecesse alguma coisa terrível que podia ir à casa do Graham, a chorar, e que ele me daria um grande abraço e uma caneca de chá. Eu nunca senti que as coisas estavam separadas a um nível pessoal. É por isso que eu estava sempre otimista que algo aconteceria de novo", confessou, referindose ao novo disco. "Ainda temos a capacidade de nos deixarmos desnorteados com aquilo que dizemos, e isso é muito importante", disse Graham Coxon numa entrevista ao The Guardian. "O mais assustador é que não nos juntamos para fazer um disco enquanto quarteto em mais de dezasseis anos. O nosso som e aquilo que dizemos é relevante para alguém?", perguntou. Os Blur podem já não ser rapazes com pouco mais de vinte anos mas não existe nenhum problema com isso. A única agenda dos Blur é não ter propriamente uma agenda. Independentemente do passado ou do futuro, os Blur continuam a funcionar, a produzir, a entender-se criativamente. Até ao momento em que tudo isto ainda possa fazer sentido. Sem pressões nem pressas. A felicidade do imediato e a beleza do imprevisto parecem chegar perfeitamente para o quarteto britânico. O que conta é o hoje, muito mais do que ontem ou o amanhã. E por falar em agora, The Magic Whip terá a sua estreia absoluta em território português no festival Super Bock Super Rock, em Lisboa, onde os britânicos atuam no dia 17 de julho. Um concerto inserido numa digressão que até ao final do ano os levará à Austrália, América do Sul, Hong Kong e, naturalmente, a Europa. Será certamente uma boa altura para medir o pulso ao presente criativo dos Blur. Alinhamento provável (beaseado no último concerto da banda, a 20 de junho, no festival inglês British Summer Time) Go Out There's No Other Way Lonesome Street Badhead Coffee & TV Out of Time Beetlebum Thought I Was a Spaceman Trimm Trabb He Thought of Cars End of a Century I Broadcast Trouble in the Message Centre Tender Parklife Ong Ong Song 2 To the End This Is a Low Stereotypes Girls & Boys For Tomorrow The Universal Veja aqui "The Universal", ao vivo no festival British Summer Time, a 20 de junho
Texto: André Gomes Foto: Getty Images Originalmente publicado na BLITZ Fest de julho, nas bancas