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B.B. King (1925-2015): Sentado no trono

Trabalhou em campos de algodão, ficou órfão antes dos 10 anos e pedalou sozinho até Memphis aos 16. A escalada do guitarrista - que morreu ontem - até ao trono dos blues, num artigo publicado em janeiro deste ano na BLITZ.

As visitas a casa da Mima eram tão irresistíveis como penosas para o jovem Riley B. King. Se por um lado lá encontrava a única coleção de discos que conhecia, também por lá tinha de resistir aos vigorosos beijos da tia. Para tornar tudo pior, Mima, ainda mascava tabaco com a mesma convicção com que o acabava por o cuspir. "Nunca a vi falhar o recipiente. Mas ficava com bocados nos dentes, cheirava e como eu detestava aquele cheiro!", recorda em Blues All Around Me, a autobiografia que assinou como B.B. King. Ainda não tinha completado dez anos, trabalhava lado a lado com os adultos nos campos, mas já sabia o que queria tocar guitarra como o reverendo Archie Fair, mas a soar como Blind Lemon Jefferson e Lonnie Johnson, dois dos primeiros músicos de blues com direito a editora. A viagem não seria fácil. A um ano de completar 90 anos, com um documentário biográfico aclamado pela crítica internacional, King cancelou pela primeira vez uma digressão por motivos de saúde. Na década de 20, no sul dos Estados Unidos, nascer negro equivalia a uma entrada direta para o trabalho de campo. Um trabalho a que o pequeno Riley deitou mãos aos sete anos, agarrado a um arado e a reboque de uma mula. "Fiz as contas, andava uma média de 40 quilómetros por dia, seis dias por semana, durante seis meses num ano. É multiplicar por 18 anos e dei a volta ao Mundo a pé", conta em B.B. King: A Vida de Riley, documentário de Jon Brewer estreado este ano. Com dificuldades de concentração, mau aluno, namoradeiro, mas certo no trabalho, aos dez anos, altura em que perdeu a mãe, chegou a primeira promoção passaria a responsável pela ordenha das vinte vacas da quinta e com direito a intervalo para, depois de uma caminhada de seis quilómetros, ir à escola. Uma sorte para quem vinha de uma família onde os avós tinham nascido escravos e onde os direitos eram ainda menos que o pagamento. ""Mata um preto, compra outro": eis o lema sob o qual fui educado", recorda. Sobreviveu e há décadas que canta a sua história. Em casa da tia, além de Blind Lemon Jefferson e Lonnie Johnson, encontrou Louis Armstrong, Bessie Smith e Duke Ellington, mas seria em família que haveria de decidir seguir a música. Primeiro, na igreja ao domingo com Archie Fair, que acompanhava os sermões à guitarra; depois nas visitas que o primo direito da mãe, Booker T. Washington White, fazia à sua casa. A viver em Memphis, Bukka White já era um músico de blues de pleno direito, com disco editado, digressões por vários estados, um som facilmente identificável e um cognome até hoje reconhecido: "o rei da guitarra slide". "Improvisava, cortava tubos ou garrafas para deslizar sobre as cordas, mas eu nunca o consegui fazer, tinha e tenho dedos estúpidos. Era o som mais bonito que existia deste lado do céu", diz em Blues All Around Me. Mais tarde haveria de descobrir T-Bone Walker. "Era tudo o que eu queria ser, um bluesman moderno, blue como os blues mais puros, mas com a atitude que se via nas grandes cidades", conta, assumindo o fascínio por "Stormy Monday", o grande hit de T-Bone Walker. Pelo meio, definiu o som que o levaria a outro mundo sempre com as cordas bem tremidas e, nos melhores momentos, acompanhado por uma secção de metais. Se a música cresceu a ouvir os pais dos blues, também a indumentária nunca falhou. Na hora de escolher a roupa, bem ao jeito dos manuais de etiqueta dos bluesmen, o cuidado nunca foi pouco e King sempre viveu com um lema "veste-te sempre como se fosses pedir dinheiro ao banco". Admirado por titãs Hoje, contra a sua vontade coroado como o "Rei dos Blues", o som é inconfundível. Se Eric Clapton assegura que os guitarristas o reconhecem com uma única nota e Carlos Santana diz ser capaz de o ouvir mesmo com a televisão no silêncio, não haverá melhor exemplo do som de B.B. King que "The Thrill is Gone", um original da Broadway que levou ao topo da tabela R&B da Billboard em 1969. "Foi o John [Lennon] que trouxe o disco e nos fez ouvi-lo. Nunca me esqueci", contou Ringo Starr sobre o dia em que os quatro fabulosos de Liverpool descobriram B.B. King e a música que ajudou a definir o som dos blues modernos. Mas os Beatles estavam longe de ser os únicos deslumbrados com o som que os homens do Mississippi conseguiam extrair das guitarras. Os Rolling Stones voaram até Chicago para gravar no estúdio de Muddy Waters, na Chess Records, e rapidamente Eric Clapton, então o maior dos guitarristas brancos, seguiu a mesma travessia do Atlântico. "Conhecemo-nos em 66 ou 67 no Café Au Go Go [em Greenwich Village, Nova Iorque] e sentámo-nos a tocar. Foi a realização de um sonho", conta em A Vida de Riley o guitarrista que, em 2000, haveria de batizar como Riding With the King o disco gravado a meias. Jimi Hendrix também não escapou. "Conheci-o quando tocava na banda do Little Richard e nessa altura mal tocava blues. Veio ter comigo aos bastidores e disse-me que me ouvia há muito tempo. Fiquei espantado. Era um rapaz calado, ainda nem bebia ou fumava, uma pessoa muito simpática", contou numa entrevista televisiva. Em 1968, King e Hendrix haveriam de tocar juntos num concerto hoje disponível, em versão bootleg, no YouTube, mas nunca oficialmente editado. "Perguntavam-nos porque queríamos soar como eles. Bom, é simples, porque o som era mesmo muito bom", confessa Keith Richards. E se de Inglaterra se reclamavam dicas, nos Estados Unidos agradecia-se ajuda. Esmagados pela popular música branca, impedidos de tocar ou passar nas rádios nacionais, os bluesmen tiveram de esperar que Londres mudasse de ritmo para serem reconhecidos. "Há alguns que gostavam de mim e estou-lhes grato por isso. Abriram portas que eu já tinha desistido de ver abertas", agradeceria B.B. King numa das entrevistas já como músico consagrado. E as portas demoraram a abrir. Mesmo editando o primeiro disco em 1949, foram preciso mais de vinte anos para que a guitarra "Lucille" (ver caixa) atravessasse o Atlântico. A passagem, comprada em 1971, haveria de ficar imortalizada em B.B. King in London, disco em que a bateria é entregue a Ringo Starr. "No final, fez-me um grande elogio, disse-me que a tocar eu era certo como um relógio", conta o ex-Beatle. Mas nem tudo foi fácil e o choque cultural entre quem crescera a receber 2 dólares e meio por mês a apanhar algodão e quem fazia vida em Londres era inevitável. "Ficava perturbado quando via um grupo como os The Who partir as guitarras contra os amplificadores. Estou certo que tem a ver com a minha educação, mas arrepiava-me só de pensar em magoar a "Lucille"", escreve na autobiografia. Tocar, acima de tudo Se King é nome de família e se Riley recebeu em homenagem ao irmão que o pai perdera em criança, o B nunca representou mais que uma letra. O segundo chegou pela rádio. Na década de 50, já em Memphis e a cumprir a peregrinação a tocar por bares e esquinas da célebre Beale Street, foi na WDIA, a ouvir Sonny Boy Williamson, que decidiu o próximo passo. Em busca da carreira com bluesman já tinha deixado o Mississippi com menos de três dólares no bolso e agora estava na hora de voltar a arriscar. Era preciso alargar a audiência. Na WDIA, a primeira rádio norte-americana completamente gerida por negros, Rufus Thomas apresentava um concurso de músicos e o prémio, de cinco dólares, não podia fazer mais falta. B.B. King tentou e tentou, mas após semanas de insistência e, mesmo que sem nunca conseguir a vitória nas "noites de cinco dólares", acabaria por conseguir um emprego como DJ. Depois viria o direito a conhecer Sonny Boy Williamson e com ele, a alcunha, Blues Boy, e o primeiro concerto com um cachê digno, doze dólares. Um valor que lhe pareceu uma fortuna, mas que ao longo da década se multiplicaria. Nos primeiros anos, uma semana equivalia a 85 dólares, enquanto no final depois de lançar "Woke Up This Morning", "Whole Lotta Love", "Ten Long Years" ou "Sweet Little Angel" já faturava perto de três mil e passara a ser apresentado como B.B. King. E King nunca mais deixou a estrada. "Tem o recorde de ter tocado 365 dias num ano. Já lhe disse que pode ficar com esse, não quero esse recorde", conta Buddy Guy, outro dos sobreviventes das primeiras gerações de músicos de blues. Além de obcecado com trabalho, desde pequeno que King dedicava uma especial atenção ao sexo feminino. Se em pequeno ganhou uns açoites da mãe ao ser apanhado na cama com a filha da vizinha, em adulto não melhorou e as relações foram-se sucedendo. À primeira mulher, Martha, dedicou o disco de estreia, mas o casamento não chegou aos seis anos. Sobre a segunda, cantou "Sweet Little Angel", ou não fosse Sue Carol Hall menor à altura do começo de namoro. O casamento, celebrado por C.L. Franklin, pai de Aretha Franklin, duraria oito anos. Em 2004, orgulhosamente com estatuto de solteirão quase octogenário, a contagem impressionava: 15 filhos, 50 netos e um número indeterminado de mulheres. Quarenta anos passados da estreia, em 1987 voltariam a ser uns rapazes da ilha de Sua Majestade a garantir um novo fôlego à carreira. Para Rattle and Hum, o sexto disco, os U2 decidiram chamá-lo a cantar numa música, "When Love Comes to Town". "Ouvi um som como se fosse um 747 a descolar. Depois, apercebi-me que à medida que se afastava do microfone o som ficava mais alto", relatou Bono. E se em estúdio a voz de King impressionou, o dueto em palco também não o deixou mais confortável. "No arranque da canção, dei tudo naquele uivo. Depois veio o B.B. King, abriu a boca e senti-me como uma menina". Já na casa dos 60 anos, chegava o impulso que ainda o haveria de o fazer tocar 225 concertos em 1998 e em 2011 a ser chamado ao festival de Glastonbury. Texto: Filipe Garcia Originalmente publicado na BLITZ 103, de janeiro de 2015.