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Atentados de Paris: o vosso terror não matará a nossa paixão pela música

Entre as dezenas de mortos do Bataclan, muitos dedicavam a sua vida à música. Recordamo-los na crónica desta semana. (Na foto, uma repórter japonesa segura um jornal com as fotos de algumas das pessoas que morreram no concerto de Eagles of Death Metal).

Sexta-feira à noite, linha azul do metro de Lisboa. Sigo com uma amiga para o Cais do Sodré quando começo a receber mensagens de outros amigos. Já viste?, perguntam uns. Estás a trabalhar?, insistem outros. Não estou e não percebo. Sem querer interromper a conversa da vida real, espreito discretamente o mural do Facebook, esse agregador de novidades públicas e privadas, e vejo um vocábulo repetido: Paris. Os corações de uns amigos estão com Paris, os de outros estão chocados com o que se passa na Cidade Luz. A conversa tem mesmo de ser interrompida e, dois ou três minutos mais tarde, também nós estamos horrorizadas com o que pensamos estar a acontecer - infelizmente, a dimensão real do que se desenrolava àquela hora só mais tarde se nos tornaria evidente. Por ironia, depois de sairmos de um concerto. No Musicbox, os portugueses Pista apresentaram naquela noite o seu primeiro álbum. A sala estava cheia, os espíritos animados, o palco a transbordar de energia e vontade de partilhar canções que os fãs mostravam já conhecer e querer celebrar. Além da banda do Barreiro, apresentou-se, naquela noite amena de novembro, uma seleção nacional da mais fina estirpe: Nick Nicotine, o incansável faz-tudo daquela cidade da Margem Sul do Tejo, o ex-Walter Benjamin, agora numa curiosa carreira em português, como Benjamim, o frenético Alex d'Alva Teixeira, verdadeira força da natureza em qualquer palco que pise. É possível que não me esteja a lembrar de tudo pois, enquanto me tentava concentrar nas canções oferecidas com tanta generosidade, espreitava o telefone, buscando e temendo mais informação sobre o atentado. À minha volta, amigos e desconhecidos faziam o mesmo.

Radialistas, fotógrafos, jornalistas de música e certamente membros de editoras - o Musicbox estava cheio de todos os espécimes que gravitam em torno da indústria musical e a mantêm não só viva como vibrante. Acima de tudo, estava cheia de músicos e de fãs, a verdadeira seiva de um mundo que, independentemente dos contratos milionários que ainda possam existir numa era pós-tudo é grátis, não sobrevive sem a paixão. A paixão pela música, que poucas pessoas terão resumido tão bem como Sapphire, uma das groupies do filme Almost Famous quando, em melancólico fim de digressão, suspira: "Eles nem sabem o que é ser fã. Adorar uma cançãozinha ou uma banda de tal forma que até dói". A coisa de 1500 quilómetros do Cais do Sodré, ou a duas horas e meia de avião, milhares de pessoas faziam exatamente o mesmo que nós. Celebravam o regresso dos Eagles of Death Metal (que, ao contrário do que por aí circulou, não são a banda de "Hotel California" nem tocam death metal) a solo francês, preparando-se para uma noite de diversão e rock and roll. De depravação, segundo os autores de um atentado - massacre ou carnificina são expressões que também têm sido usadas e não destoam do espírito do que aconteceu - que escolheram o Bataclan como cenário principal do terror que instalaram em Paris a 13 de novembro.

Por muito que sintamos empatia por todos os humanos que perderam a vida desde sexta-feira à noite, o efeito de identificação é inevitável. Entre as vítimas estão numerosos membros do meio em que nos movemos, uma espécie de congéneres franceses da vida que levamos em Portugal e que queremos continuar a levar, em liberdade. Primeiro soubemos que Nick Alexander, responsável pelo merchandising dos Eagles of Death Metal e também de bandas como Black Keys, Sum 41 ou Panic at the Disco, perdera a vida no Bataclan. Dos últimos minutos do britânico de 36 anos, diz a imprensa inglesa que os terá passado nos braços de uma antiga namorada, que tentou desesperadamente trazê-lo de volta à vida. Seguiu-se a notícia da morte de Thomas, Marie e Manu, três funcionários da Universal França, que certamente haviam acorrido ao Bataclan entusiasmados com a perspetiva de verem ao vivo uma das bandas do seu catálogo. Também Guillaume B. Decherf, jornalista da Les Inrockuptibles, especialista em rock e metal, foi morto numa sala que provavelmente frequentava com assiduidade e prazer. Ontem, o Diário de Notícias avançava a notícia de que a terceira vítima portuguesa do 13 de novembro deverá ser Christine Gonçalves, também funcionária de uma grande editora, a Mercury, e o Liberation publicou uma lista de vítimas onde se encontram o músico chileno Luis Felipe Zschoche, guitarrista e vocalista da banda stoner Captain Americano, e Thomas Duperron, responsável pela comunicação da sala Marroquinerie, em Paris, onde em março passado tive a sorte de assistir a um fervilhante concerto de Father John Misty.

Quando os terroristas entraram no Bataclan, muitos dos espectadores que enchiam a sala centenária pensaram que o ataque era uma brincadeira, parte integrante do espetáculo dos foliões Eagles of Death Metal. Assim pensa, naturalmente, quem cresceu em liberdade e está habituado a usufruir dela numa sexta-feira à noite. Quem não vive em medo.

Numa altura em que a repercussão destes ataques é incerta - a segurança nas salas de espetáculos deverá ser reforçada, mas os contornos das medidas são por enquanto nebulosos -, recordamos abaixo o nome dos músicos e profissionais do meio que perderam a vida na passada sexta-feira. Independentemente das inevitáveis ondas de choque (difícil imaginar, por exemplo, o que passa pela cabeça da banda, que sem saber como se viu no epicentro de uma catástrofe de repercussões bélicas internacionais), que não nos quedemos nós, também, vítimas do medo que nos querem incutir. Há muitos concertos a precisar da nossa alegria neste mundo que, por vezes surpreendentemente, continua a girar. Nick Alexander: chefe de merchandising de Eagles of Death Metal, Black Keys, Sum 41 ou Panic at the Disco, 36 anos Thomas Ayad: chefe dos projetos internacionais na Mercury desde 2009 Manuel Perez: antigo assessor de imprensa e chefe de projeto na Polydor/Universal Marie Mosser: assistente de marketing digital na Mercury/Universal Thomas Duperron: encarregado pela comunicação da sala de espetáculos Marroquinerie Guillaume B. Decherf: jornalista musical da Les Inrockuptibles, Hard Rock Mag e Libération Luis Felipe Zschoche: músico chileno, guitarrista e cantor do grupo Captain Americano Christophe Lellouche: compositor e guitarrista da banda Øliver Grégory Fosse: programador musical da rádio D17 Lia Pereira Foto: Getty Images