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Antony and the Johnsons dão espetáculo litúrgico no NOS Primavera Sound

À semelhança do que já víramos na semana passada, em Barcelona, Antony Hegarty (que não se deixou fotografar) e a orquestra que o acompanhou montou um espetáculo ambicioso, mas pouco festivaleiro. Spiritualized em fogo no palco ATP.

Antes de mais nada, uma palavra de respeito e consideração para com o público que, esta noite, acorreu ao concerto de Antony and the Johnsons no palco principal do NOS Primavera Sound: assistir a um espetáculo desta envergadura - intimista, por vezes minimal, repleto de silêncios - num festival onde os estímulos à dispersão se multiplicam não é fácil. No entanto, durante boa parte da apresentação a plateia manteve-se atenta, postura que contrastou com a dos mais efervescentes espectadores espanhóis, há uma semana, no Primavera Sound de Barcelona. Acompanhado por uma orquestra de quase 50 músicos, Antony mostrou-se confiante na sua vulnerabilidade. Vestindo uma longa túnica branca, o cantor defendeu com galhardia um espetáculo audiovisual ambicioso - ao centro do palco eram projetadas imagens de teatro japonês, que ajudavam a sublinhar o dramatismo sinfónico das composições do homem de I Am a Bird Now. Pelo Parque da Cidade, cuja verde serenidade se revelou uma moldura indicada para este concerto, sucederam-se "I Am The Enemy", "Ghost" ou "Cripple and the Starfish" (no Porto como em Barcelona um dos momentos mais celebrados pelos fãs). A forma como revestiu os seus temas de arranjos orquestrais e todo o embrulho conceptual da atuação dão a entender que, cinco anos depois de Swanlights, Antony poderá estar às portas de uma nova fase na sua carreira, porventura mais próxima de um certo classicismo do que da pop, universo ao qual (também) nunca pertenceu verdadeiramente. Afinal, este é o artista que canta precisar de outro espaço, de outro mundo (em "Another World") - e passados poucos minutos, uma mulher partilha com o namorado o seu espanto: "Meu Deus, isto é um homem grande como criança? Up-set-ting", soletra. Também a identidade sexual de Antony despertou dúvidas em muitos espectadores mas, aparentemente indiferente a todas as indagações do público e a um eventual desfasamento do contexto festivaleiro, Antony ofereceu "Cut the World", "I Fell in Love with a Dead Boy", "You Are My Sister" e até "Blind", a sua colaboração com Hercules and Love Affair, com o misto de pureza e estranheza que naturalmente lhe assiste.  Pouco antes, chegámos ao palco ATP quando os Spiritualized de Jason Pierce faziam amor com a eletricidade das suas guitarras. A uma "Shine a Light" elegíaca seguiu-se uma longa jam psicadélica, e depois um momento autenticamente rock 'n' roll ("She Kissed Me"), e depois uma canção delicadamente desenhada ao piano ("Oh Baby"), e depois... e depois, o senhor Spaceman - arrumado de forma modesta num canto do palco - há de ter continuado a flutuar no espaço do Parque da Cidade, com os acólitos que encontrámos, ainda em êxtase, horas mais tarde. A sobreposição de concertos não nos permitiu ver mais do que algumas canções dos Spiritualized mas, pela amostra a que tivemos acesso, difícil terá sido a plateia não ter saído em pleno estado de graça de um concerto onde tantos sonhos elétricos ganharam vida. Lia Pereira