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António Zambujo e Júlio Pereira agraciados no 10 de Junho

O artista plástico Vhils também recebeu uma distinção, explicando por que razão decidiu aceitá-la.

António Zambujo foi ontem agraciado com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, nas comemorações do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que este ano tiveram lugar em Lamego.

A Comenda da Ordem do Infante D. Henrique distingue aqueles que prestam serviços relevantes a Portugal, dentro e fora do país, contribuindo para a divulgação da cultura portuguesa, da sua história e dos seus valores.  Na sua página do Facebook, António Zambujo comentou a distinção: "Nunca me passou pela cabeça que o que mais gosto de fazer na vida, seja também reconhecido como um serviço ao país e à nossa cultura. Estou muito emocionado e grato. Dedico à minha avó Joaquina e aos meus filhos, João e Diogo, e quero partilhar esta comenda com toda a equipa que me ajuda a crescer todos os dias". Outro músico distinguido foi Júlio Pereira. O multi-instrumentista, compositor e orquestrador, ligado à revitalização do cavaquinho, recebeu do Presidente da República, Cavaco Silva, o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Também Vhils, premiado artista plástico que trabalha frequentemente com música, tendo realizado um vídeo para os U2 e feito a capa do disco a solo de Carlão, foi agraciado, usando a sua página para explicar a razão pela qual aceitou a distinção. Leia aqui a sua longa mensagem:

"Hoje, dia 10 de Junho de 2015, fui agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago da Espada, a mais antiga ordem honorífica de Portugal, usada para distinguir o mérito literário, científico e artístico de cidadãos portugueses.

Perante a responsabilidade que representa a aceitação de tal reconhecimento, enquanto português e enquanto artista, foi inevitável questionar-me sobre a legitimidade e o fundamento desta distinção. Após a surpresa inicial e após um longo debate interno, decidi, com humildade, aceitá-la. Faço-o por respeito à sua longa história assim como pelo orgulho que sinto em passar a fazer, modestamente, parte da História do meu país. Faço-o como um gesto patriótico para com o país que estimo e que fez de mim a pessoa que sou hoje.

Um país não é uma circunstância. É por este motivo que a aceitação desta distinção não visa dar voz nem força a nenhum contexto ou posição política. Vejo-o antes como uma oportunidade para a aceitar em nome daquilo em que acredito, para expressar o amor que tenho por Portugal, assim como o desamor que tenho pela forma como as prioridades daquilo que deveria ser um país empreendedor, avançado, justo e socialmente equitativo têm sido continuamente confundidas com os interesses daqueles que querem que tudo fique na mesma.

Aceito esta distinção em nome da geração mais qualificada de sempre que se vê forçada a emigrar por falta de oportunidades. A geração desprezada. A geração das famílias fragmentadas. A geração do talento desperdiçado, cuja educação, suportada pelo país, se vê agora investida noutros cantos do mundo.

Aceito esta distinção para dar voz a um país onde a educação e a formação cultural são valorizadas. Um país onde cada jovem é visto como um bem e uma oportunidade digna de investimento e não como um problema. Um país que acredita na arte e no seu enorme poder como educador social.

Aceito esta distinção em nome de um país inclusivo e acolhedor. Um país solidário. Um país heterogéneo, composto por pessoas com raízes e origens em outros cantos do mundo. Um país que acredita e promove a participação cívica e política dos seus cidadãos.

Aceito esta distinção como reconhecimento do meu trabalho e aquele da minha equipa, como prova de que vale a pena resistir contra a condescendência e o tipo de mentalidade que nos tenta convencer que somos pequenos.

Aceito-a, ironicamente, numa altura em que a nova lei que estabelece o regime aplicável aos grafitos e outras formas de alteração de superfícies no espaço público, introduz o conceito de "picotagem", dando-lhe especial relevo no contexto desta regulamentação. Uma lei que não foi alvo de discussão pública e que não soube envolver os vários actores que visa contemplar.

Por fim, aceito esta distinção porque acredito que este país que descrevo já existe na vontade das pessoas e que um dia, através do nosso esforço, será materializado.

Um profundo e sentido obrigado a todas as pessoas que têm apoiado o desenvolvimento do meu trabalho ao longo dos anos.

Com plena consciência de que muitos outros artistas deveriam ter sido distinguidos antes de mim, gostaria de estender esta honra a todos aqueles que nunca irão ser oficialmente reconhecidos, principalmente aos artistas de rua, do graffiti, e todas as crews de Lisboa. Estendo-a ao meio onde iniciei o meu percurso e que me apontou um caminho, o meio que fez de mim a pessoa que sou hoje e ao qual devo muito.

A todas as periferias deste país, a todos aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades, a todos aqueles que são menosprezados, à primeira crew de Lisboa, ao Seixal, à Arrentela, à luta do Bairro de Santa Filomena, à Quinta do Mocho, ao Bairro Verde, à comunidade indígena de Araçaí, ao Morro da Providência, à Ladeira dos Tabajaras. Esta honra é também vossa".