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António Sérgio: A Voz da Frente

Numa altura em que passam seis anos da morte do importante radialista e divulgador, recuperamos um artigo publicado na edição de dezembro de 2009 da BLITZ em que Rui Miguel Abreu conta a história da vida do Mestre.

Quando se abre o microfone, numa estação de rádio, não se tem, normalmente, ninguém pela frente - o auditório é invisível e isso é quase sempre ponto fulcral na hora de se tentar explicar a magia deste meio. Mas nem a invisibilidade contraria a certeza de que do outro lado há sempre uma multidão à escuta. Para António Sérgio, no entanto, bastava que uma só pessoa o escutasse para que aquilo que fazia valesse a pena. Cada pessoa que o ouviu ao longo das últimas décadas terá sentido pelo menos uma vez que Sérgio lhe falava ao ouvido, naquela voz grave e segura que revestia qualquer sugestão de uma improvável nobreza. Ana Cristina Ferrão, sua mulher desde 1979, confirma esta ideia na hora de fazer o balanço de uma vida: "Claro que ele tinha a noção de que estava a falar para muita gente, mas nunca ligou muito a isso. Penso que privilegiava mais a comunicação singular. Aliás, costumávamos brincar e dizer às vezes "será que esta noite temos um ou dois ouvintes?" E depois alguém telefonava a dizer que nos estava a ouvir e nós brincávamos: "afinal já são três"". Eram muitos mais. Continuam a ser muitos mais. No passado dia 1 de novembro, as redes sociais, na Internet, propagaram muito rapidamente a notícia do desaparecimento da voz que agora chegava a uma imensa minoria a partir dos emissores da Radar, onde assinava o programa Viriato 25 e a rubrica SOS Radar. A morte de António Sérgio deixa órfãs as várias gerações que com ele aprenderam a descobrir música de uma forma muito militante. E se a descoberta funcionava, se a sua voz nos enviava a todos em busca dos discos que recomendava, isso acontecia porque o seu gosto era certeiro, claro, mas também porque a convicção e um genuíno entusiasmo estavam sempre à espreita em cada frase que anunciava nova banda ou disco. Esse empenhamento individual já quase não se usa na rádio formatada dos nossos dias, o que fazia de António Sérgio um homem de outro tempo que marcou o nosso tempo. Caso raro. TUDO COMEÇOU EM ÁFRICA Foi em África, na distante província de Benguela, Angola, que António Sérgio nasceu, a 14 de Janeiro de 1950. Os pais, António Joaquim dos Santos Ferrão e Odete Ferrão, partiram do Portugal do Estado Novo para a ex-colónia em busca de um sonho de prosperidade. António Joaquim era um verdadeiro "self made man" e fez de tudo em Angola, como recorda Ana Cristina: "Carregou barris de vinho, foi um vitrinista premiado. Era um homem cheio de talento que procurou sempre crescer e melhorar como pessoa. Quando o conheci, já ele tinha 50 e tal anos, ele era um perfeito dandy, no vestir e no estar. E o Sérgio era a antítese do pai, nesse aspecto". O casal Ferrão teve um primeiro filho que morreu à nascença e que também recebeu o nome António Sérgio. Santos Ferrão era um admirador do político e pensador António Sérgio e chegou mesmo a adoptar esse nome como seu pseudónimo nos primeiros tempos da Rádio que chegaram quando o casal trocou Benguela por Silva Porto, pouco tempo depois de nascer, certamente à hora dos lobos, a futura voz do Som da Frente. A família Ferrão entrou no universo da rádio nesta altura, com um convite para ajudar a lançar o Rádio Clube do Bié. "Na altura, lá no Rádio Clube, eles recebiam muitos discos da África do Sul, o que permitiu ao Sérgio começar desde cedo a ganhar uma cultura diferente. Há fotos do Sérgio muito pequenino a meter discos com o pai na rádio". António Sérgio "foi muito feliz em Silva Porto", prossegue Ana Cristina, "estudou nos Maristas, numa escola mista em que não se fazia distinção entre as crianças brancas e as crianças pretas. Jogava à bola com todos e recebeu uma formação a esse nível muito correcta que lhe deu valores com que se manteve até ao fim da vida". O Rádio Clube do Bié emitiu, como nos conta Ana Cristina, "até 1960 ou 1961, altura em que começaram os ataques", o que forçou o regresso a Lisboa. Antes disso, já Santos Ferrão, como é recordado em Angola, tinha tido alguns "desaguisados" com as autoridades que "validavam os conteúdos: decidiu fazer emissões em umbundu e quimbundu, línguas locais, e as autoridades não aprovaram. E ele ficou muito desanimado", explica Ana Cristina. Em 1960, os pais de António Sérgio voltaram para Lisboa e a mãe, Odete Ferrão, foi para a Emissora Nacional. Mas Sérgio não veio logo, quis ficar em Angola com os tios onde se manteve durante dois anos até terminar essa fase dos estudos. Só depois viajou, por insistência dos pais, com quem manteve sempre uma forte ligação. "O Sérgio contava muitas vezes a história da viagem de avião de Luanda para Lisboa, com umas freiras que tomaram conta dele durante a viagem. Lembrava-se das paragens, de estar sozinho em países estranhos, do sentido de aventura". De olhos iluminados pela emoção, Ana Cristina continua a desfiar o novelo da extraordinária história de António Sérgio: "Ele tinha uma grande atracção pela terra em África, pela ligação que existia entre as pessoas e a terra, pelos sons que ele considerava serem únicos em qualquer sítio desse continente". António Sérgio nunca regressou a África, mas costumava manifestar o desejo de lá levar a família, quando os tempos fossem "mais seguros". O PUNK MUDOU TUDO Já em Lisboa, o futuro radialista estudou no liceu D. João de Castro. E foi ainda na adolescência que finalmente adoptou o mesmo ofício dos pais: "Começou por fazer um estágio como operador de som na Renascença. E também trabalhava com o pai que era produtor independente e que fazia o programa Encontro Para Dois. E isso levou a que dada altura tenha sido convidado para fazer as férias de alguém, penso que de José Manuel Nunes. Mas levou tempo: o pai costumava dizer-lhe: "Ó rapaz tu não tens voz para isto"". Só aos 18 anos é que António Sérgio chegou aos microfones. O percurso foi longo até Sérgio chegar à "primeira divisão" dos programas de autor, em que se iniciou com Rotação, em 1977, já depois de um agitado 25 de Abril que teve consequências na Renascença. "O Sérgio", conta Ana Cristina, "foi uma das pessoas que ajudou a reabrir a Renascença depois de a seguir ao 25 de Abril terem rebentado os emissores. E foi Albérico Fernandes que lhe deu a oportunidade de se afirmar como autor na rádio. Até aí ele fez vários programas, com o Luís Filipe Barros, com os pais, com o José Manuel Nunes. Mas o Rotação foi, de facto, o primeiro programa de autor dele, com que ele se impôs". A paixão pela música levava António Sérgio a investir bastante em viagens que invariavelmente serviam para medir o pulso à cena internacional, para ver concertos, comprar discos e livros. Mas na década de 70, essa sede de música também era colmatada com o seu trabalho na Valentim de Carvalho, primeiro como promotor e, mais tarde, como label manager: "Esse trabalho fascinava-o. Ele adorava levar os discos para casa, ouvi-los com atenção e depois decidir quais se deviam lançar por cá". Esse trabalho na Valentim teve um fim em 1977, quando a bomba punk também explodiu por cá e deu origem a um processo em tribunal que marcou a vida de António Sérgio durante alguns anos. Na base do processo, um episódio descrito por António Duarte no livro 25 Anos de Rock em Portugal e que se prende com a edição voluntariosa da compilação Punk Rock 77, "um acto de cultura e de coragem", segundo o autor. "Quando eu conheci o Sérgio, ele ainda andava às voltas com o processo em tribunal por causa da compilação Punk Rock 77. Aquilo arrastou-se anos e implicou peritagens aos contratos e foi tudo muito doloroso porque o Sérgio não fazia ideia de que estava a fazer um disco pirata. O Sérgio tinha um contrato com um senhor inglês, comprou o master e formou uma empresa que por acaso tinha o nome Pirate Dreams, mas naquela época todas as editoras tinham nomes estranhos e aquele Pirate era mais Jack Sparrow que outra coisa qualquer. A verdade é que ele tinha esse contrato e sempre pensou que o que estava a fazer era um acto de cultura", assegura Ana Cristina. O processo de tribunal foi movido pela editora PolyGram, que então distribuía o catálogo da Virgin, onde se encontravam algumas das bandas escolhidas para a compilação. O disco, com uma tiragem singela de 500 exemplares e capa desenhada artesanalmente pelo próprio António Sérgio, por José Guerra e por Joaquim Manuel Lopes, foi mandado fazer na fábrica da Valentim de Carvalho e esse acabou por ser o argumento para um despedimento que Ana Cristina caracteriza, mais de três décadas depois, como "muito duro". "O que houve ali", refere a mulher de António Sérgio, "foi muita ingenuidade e muita vontade de apresentar novidades". AS CAUSAS DE SÉRGIO As consequências negativas do episódio da compilação não demoveram António Sérgio nem de insistir em procurar novidades, nem de continuar a erguer em Portugal a bandeira do punk. Não só se aliou aos pioneiros Faíscas que se transformariam em Corpo Diplomático, primeiro, e em Heróis do Mar, mais tarde como continuou a procurar parceiros no universo da edição. "O Sérgio era um rebelde com causas", explica Ana Cristina Ferrão. "Ele teve uma educação muito formal, os pais dele eram pessoas um pouco austeras e muito exigentes. Mas por outro lado vinha de África, experiência que lhe tinha aberto os horizontes, e até o serviço militar o levou a olhar o mundo com outros olhos. Isso levou-o a romper com as normas, usava o cabelo muito comprido e abraçou primeiro a aura hippie que em Portugal se manifestou tardiamente. E toda a contracultura, do Ginsberg ou do Timothy Leary, marcou-o profundamente. Foi uma altura em que se assumiam posições e ele ficou daquele lado da barricada, assumindo que se podia ser diferente. E isto num momento em que aquele pensamento hippie está institucionalizado por cá. E ele, apesar de ter imenso respeito por algumas personalidades específicas como o José Mário Branco, o Zeca Afonso, o Fausto, o Luís Cília, já olhava para outras entidades como para o fenómeno do bandwagon, de quem se junta tardiamente a uma causa". Sérgio, pelo contrário, começa cedo a deixar claro que prefere estar à frente do seu tempo. "Nesse período 78/80 os músicos começam a aproximar-se do Sérgio, o Bairro Alto começa a crescer e ele passa música nalgumas festas. Também se torna amigo da Paula e do Paulo Nozolino que têm uma loja ao lado da Trindade por onde passa também muita da gente que se vai juntando a esta modernidade o Pedro Ayres, o Paulo Pedro Gonçalves". Os passos seguintes do envolvimento de António Sérgio com o mundo da música levam-no até à editora Nova onde lança uma série de discos da etiqueta americana Sire e o seminal álbum Música Moderna dos Corpo Diplomático. "Na altura, os empregados da Renascença achavam muito estranhas as pessoas que lá iam ter com ele", mas ainda assim Sérgio nunca perdeu a confiança dos seus coordenadores. A seguir à Nova foi para a Rossil, onde propôs criar a etiqueta Rotação para editar nova música portuguesa. Entretanto, em 1980, Sérgio trocou a Renascença pela Rádio Comercial a convite de João David Nunes que lhe propôs a feitura do programa Rolls Rock. "É aí que o Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, aparece com uma cassete", recorda Ana Cristina. "Eles já se conheciam desde o tempo em que o Zé Pedro escrevia e o Sérgio era promotor da Valentim de Carvalho. Quando o Sérgio ouviu a cassete e descobriu o tema "Sémen" não teve dúvidas de que haveria de ser um estoiro e quis gravar o tema. Fomos na altura ouvi-los a Pedrouços e ele ainda mais convencido ficou ao testemunhar a coesão que havia entre o Kalú, o Tim, o Zé Pedro." Este episódio surge detalhado no livro Conta-me Histórias, que Ana Cristina escreveu a propósito da carreira dos Xutos e que recentemente mereceu reedição por parte da Assírio & Alvim. Zé Pedro: "A sala de ensaios era em Pedrouços, por trás das piscinas, ao lado do campo de basquete. Uma salinha pequenina, onde mal cabiam os instrumentos (...). Quando o Sérgio lá foi estávamos muito nervosos: "Vem aí o pessoal da editora!"". Não deixa de ser sintomático que a discografia do mais sério caso de sucesso e longevidade rock no nosso país tenha sido lançada por António Sérgio, com a edição na Rotação dos dois primeiros singles, "Sémen" e "Toca e Foge", e até um crédito de produção no primeiro álbum 78-82. O HOMEM DA FRENTE O programa que acabou por servir de livro de estilo para toda uma geração que cresceu na década de 80, Som da Frente, começou em 1984. "O João David Nunes e o Jaime Fernandes resolveram dar uma volta à antena e o Sérgio passou para a tarde com o Som da Frente, a exemplo do que se passava em Inglaterra. O John Peel também estava a fazer emissão à tarde nessa altura", recorda Ana Cristina. Data desta altura a comparação ao mítico radialista inglês que, como qualquer comparação, é sempre redutora. António Sérgio soube traçar o seu próprio caminho sem precisar de modelos exteriores: aliás, em paralelo com o Som da Frente assinava, aos fins de semana, uma emissão dedicada "às sete vidas do Heavy Metal", o Lança Chamas". O programa Som da Frente durou até 13 de Agosto de 1993 e foi seguido atentamente por milhares de pessoas que trocavam cassetes e acatavam religiosamente as recomendações de Sérgio, perfeitamente sintonizado com a modernidade indie que emanava do Reino Unido e da América. "O Som da Frente contava com muitas colaborações: eu própria a fazer os "Sinais de Fumo" e alguns especiais e a destacar fanzines, o Rui Neves, o Nuno Dinis, o Ricardo Camacho", explica Ana Cristina dando conta de outra faceta importante de António Sérgio: o seu gosto em integrar equipas. Paralelamente, a "Lista Rebelde" do Som da Frente e o suplemento "Manifesto" editado por Ana Cristina foram durante muito tempo publicados no então semanário BLITZ. Em 1993, António Sérgio embarcou noutra aventura e rumou à recém criada XFM, apesar de ter sido igualmente convidado para fazer parte da equipa instaladora da Antena 3. "Uma das razões para não ter aceite convite da Antena 3", revela Ana Cristina, "foi porque isso implicava estar parado uns seis meses, enquanto a rádio estava a ser preparada. O Sérgio não suportava estar parado fora de antena". E de facto manteve-se activo até ao fim. Depois do final da XFM e do seu Grande Delta, em 1997, regressou à Rádio Comercial para fazer A Hora do Lobo e foi premiado com um Globo de Ouro de Rádio no ano 2000. Ainda passou pela Best Rock FM, canal do grupo da Comercial, mas acabou vítima do avanço da rádio em direcção aos formatos rígidos que pouco ou nenhum espaço consagram à imaginação e à independência. Actualmente dava voz ao programa Viriato 25 e à rubrica diária SOS Radar, na Radar. Mas como era um homem de outro tempo, gostava de pensar o futuro: "Descobri agora, ao procurar uma mala de discos que o Sérgio também usava, que ele deixou o SOS Radar planeado até 5 de Março de 2010", revela uma emocionada Ana Cristina, "e eu vou tentar dar-lhe voz e cumprir o que ele pensou". Publicado originalmente na BLITZ de dezembro de 2009.