Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Amy Winehouse: vida trágica, grande música, talento desperdiçado

Para Amy, falecida há quatro anos anos e capa da BLITZ deste mês, o sofrimento foi sempre o combustível da inspiração, o coração partido a condição insuperável de uma vida feita de vendas de milhões, de intoxicações diversas, de degradação pública. Um artigo publicado na edição especial Amy Winehouse, publicada em julho de 2011.

Todos os que se ocupam de procurar coincidências de proporções cósmicas não poderão deixar de anotar a ironia profunda contida na provável banda sonora que Mitch e Janis Winehouse terão tido enquanto se encaminhavam para o hospital Chase Farm em Enfield: seria lógico que no rádio do táxi que os levou até à maternidade tocasse o tema que dominava as tabelas a 14 de setembro de 1983, o dia do nascimento da pequena Amy "Red Red Wine", dos UB40. Esta popularíssima versão de um tema de Neil Diamond colocou nos ouvidos de toda uma geração uma letra que indicava o vinho tinto como o único alívio para o sofrimento causado por um amor perdido. Anos mais tarde, Amy encontrou o sucesso a cantar amores perdidos, dores de alma e como adormecer todo esse sofrimento.  E em público foi-se apagando, num grotesco espetáculo amplificado pelos tabloides. Mas em 1983 o mundo parecia diferente e o "red red wine" da canção era bem mais inocente do que o crack que Amy veio notoriamente a consumir.  Nas páginas de Amy Amy Amy A Vida de Amy Winehouse (ed. Quinta Essência, 2008), Nick Johnstone, jornalista com obra publicada em jornais como o Guardian e revistas como a Mojo ou a Uncut, biógrafo de Patti Smith e historiador da pop com diversos livros publicados, pinta um retrato denso e negro de uma estrela em rota de colisão com a sua própria personalidade destrutiva. Mas vai ao início da história para revelar a visão de Janis, mãe de Amy, citando declarações suas à imprensa inglesa, memórias vívidas dos primeiros anos da futura estrela de Frank e Back To Black: "Era uma criança linda sempre ativa, sempre curiosa. Era muito alegre, mas também tímida. Nunca foi uma criança fácil", revelava Janis Winehouse ao Daily Mirror em 2007, adiantando ainda pistas para se perceber a sua turbulência futura: "Quando ainda era bebé, no carrinho, quase asfixiou com celofane. Numa outra ocasião, desapareceu no parque. É rija, como eu vejo-a como uma dádiva minha".  Dos Wham ao teatro  Esta criança complicada entrou para a pré-primária na escola Osidge, em Southgate, o bairro da zona norte de Londres onde a comunidade judaica há muito se instalou.  Filha de judeus, Amy frequentou uma escola multicultural aberta a múltiplos credos e aí conheceu Juliette Ashby, também cantora e a sua primeira amiga. Johnstone cita uma declaração ao Observer, em 2007, em que Amy se refere a essa amizade e a uma inclinação musical que se manifestou muito cedo: "Conhecemo-nos em Osidge quando tínhamos uns quatro anos. Uma das minhas primeiras memórias é de um jogo que jogávamos em que Juliette era a Pepsi e eu a Shirley, as coristas dos Wham!. Acho que nos demos bem por sermos as duas um pouco estranhas".  Dada a tropelias de toda a espécie, o que parecia já indicar uma personalidade agitada e diferente, Amy, de acordo com as memórias de Juliette, nunca se encaixou totalmente. No entanto, as duas amigas partilhavam o facto de terem irmãos mais velhos Alex, no caso de Amy e uma clara inclinação para o showbusiness. O pai de Juliette, Jonathan Ashby, foi o fundador da World Entertainment News Network, para onde Amy haveria de trabalhar brevemente como repórter ainda na adolescência.  Apesar de a família a enviar para a escola judaica aos domingos e de frequentar a sinagoga durante o Yom Kippur, Amy não cresceu com uma forte identidade religiosa, mas culturalmente sentia-se parte da comunidade judaica: "Para mim, ser-se judeu é estarmos juntos como uma família a sério. Não é acender-se velas e dizer uma brachah", explicava ela a uma publicação judaica em 2005, usando o nome de uma oração para fazer valer a sua ideia.  A música esteve desde cedo presente no quotidiano de Amy. O pai, Mitch, era fã de Frank Sinatra e de jazz e a mãe preferia escritores de canções como James Taylor ou Carole King; talvez esses dois universos ajudem a explicar a génese da arte da própria Amy. Com um tio trompetista de jazz profissional e uma avó que chegou a ser namorada do famoso Ronnie Scott, um dos nomes centrais da cena jazz britânica e fundador do mítico clube londrino com o mesmo nome, é fácil de entender que essa terá sido a sua primeira paixão e a mais forte linha condutora daquele que viria a ser o seu álbum de estreia, Frank, editado em 2003.  No início dos anos 90, Amy e a família mudaram-se para uma casa vitoriana, mais próxima da escola de Osidge, ainda na zona de Southgate. Pouco depois veio a separação de Mitch e Janis, com a mãe de Amy a revelar em entrevistas que apesar de nunca ter discutido com o marido, o casamento não podia ter resistido ao facto de ele estar quase sempre ausente e de ter outra mulher, com quem aliás viria depois a casar-se.  Entretanto, Amy ia crescendo e percorrendo o panteão da pop em busca de referências: depois dos Wham! veio Michael Jackson, por quem a cantora admitiu ter uma pequena obsessão, declarando não ter a certeza de querer casar com ele ou ser como ele, e, mais tarde, Madonna: "Ouvi o Immaculate Collection da Madonna todos os dias até ter uns 11 anos. Depois descobri as Salt'n'Pepa e as TLC", contava Amy à Blender em 2007.  A mistura de rap e R&B das Salt'np'Pepa e das TLC levou Amy e Juliette a criarem o seu próprio projecto, as Sweet'n'Sour, que a cantora haveria de descrever mais tarde como "as pequenas Salt'n'Pepa, brancas e judias". Na verdade, tanto o grupo de "Let's Talk About Sex" como o de "Waterfalls" tiveram um grande impacto na pop, oferecendo uma perspetiva feminina e moderna das questões do romance, criando uma linhagem de canções particular onde se abordava o jogo do amor de uma forma franca e honesta.  Essa franqueza haveria, aliás, de estar presente no título do disco que inaugurou a discografia de Amy Winehouse.  Entretanto, talvez como uma forma de compensar a ausência do pai, Amy começou também a ouvir jazz de forma mais séria, estudando a forma como Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughan usavam a sua voz como um instrumento, emprestando outro tipo de emoção às palavras. Nessa altura, Amy iniciou o seu percurso por escolas de artes performativas, dando assim uma atenção mais séria ao que até aí era uma mera inclinação musical. Primeiro veio a Susi Earnshaw Theatre School, até aos 13 anos, e depois, por um breve período, a Sylvia Young Theatre School. Os responsáveis dessa escola foram mais tarde entrevistados por jornais ingleses, em busca de pistas sobre o período formativo daquela que foi provavelmente a maior estrela inglesa da última década. Julia Young não lhe poupou elogios: "É díficil exagerar sobre o quanto ela me pareceu única", contou a pedagoga ao Daily Mail, em 2007, "como compositora e como artista, desde o momento em que entrou na escola, aos 13 anos, exibindo o mesmo penteado característico que usa agora. As capacidades dela podiam incluíla na mesma categoria que Judy Garland ou Ella Fitzgerald". Ainda assim, nem tudo foram rosas na escola e o seu talento andava de mãos dadas com uma tendência natural para quebrar regras, desde permitir-se liberdades a mais com o uniforme escolar até adornar a face com piercings, algo que as regras de conduta da instituição não permitiam. Mas foi no âmbito dos seus estudos na escola de Sylvia Young que Amy teve a sua primeira aparição pública, no programa de televisão The Fast Show, onde participou num sketch. Foi em 1997, no mesmo ano em que descobriu Erykah Badu em Baduizm, porta de entrada para um universo onde a soul e o hip-hop se cruzavam que um ano mais tarde a levou a abraçar o álbum do projeto Black Star, de Mos Def e Talib Kweli.  Trabalho e droga  É nesta altura que Amy abandona a escola de Sylvia Young. Em declarações à imprensa, a sua mãe, Janis, referiu um contacto da escola e uma reunião onde lhe teria sido sugerido que retirasse de lá a sua filha devido a um baixo desempenho académico.  A diretora da escola, no entanto, negaria esses factos, adiantando outra versão, em que terá sido revelado à mãe de Amy que ela estaria prestes a chumbar, tendo então Janis optado por inscrever a filha noutra escola. Amy acabou o liceu aos 16 anos na escola de Mount Hill, teve depois uma série de empregos - o biógrafo Nick Johnstone enumera trabalhos numa casa de piercings, num salão de tatuagens e numa loja de roupa, tudo marcas distintas do visual que mais tarde ostentaria já como estrela pop, e voltou aos estudos noutra escola de artes, a BRIT.  Não durou sequer um ano, mas Sylvia Young continuava a olhar por Amy, arranjando-lhe uma audição com a Orquestra Nacional Juvenil de Jazz que prontamente a admitiu, abrindo-lhe as portas dos clubes de jazz. É nessa época que nasce também o hábito de consumir drogas. Ao Observer, Amy contou que costumava sair com a sua amiga Juliette: "Depois de chegarmos aos 16, começámos a encontrar-nos sempre em minha casa e a fumar charros".  Essa época, no início da década passada, foi passada com os concertos de fim de semana com a orquestra de jazz, que lhe permitiram desenvolver os seus dotes vocais, e num breve trabalho para a World Entertainment News Network, que também aborreceu Amy muito rapidamente, mas que lhe permitiu embarcar na sua primeira relação séria com um homem sete anos mais velho. Do rompimento desse namoro nasceu a matéria emocional que iria inspirar boa parte das canções de Frank.  Essas canções começaram a surgir, interpretadas de forma algo atabalhoada à guitarra, mas com qualquer coisa de diferente dentro delas. Tyler James, colega da escola de Sylvia Young, assinou em 2001 um contrato com uma agência ligada a Simon Fuller, gigante da indústria inglesa que esteve por trás do sucesso das Spice Girls. Tyler então ajudou Amy a gravar algumas maquetes rudimentares e entregou-as a um dos caça-talentos da empresa para que trabalhava, Nick Shymanski, que as mostrou depois a Nick Godwin, outro executivo da mesma casa. O sucesso em torno de Norah Jones, que na altura assinou contrato com a Blue Note, terá levado os dois agentes a estarem atentos a possíveis vozes com uma conotação jazz. A cassete de Amy surgiu no momento certo e convenceu-os a irem-na ver a cantar ao vivo. As poucas dúvidas que porventura pudessem ter existido desfizeram-se quando Amy subiu ao palco e, pouco depois, a mesma agência, a Brilliant 19, lhe ofereceu um contrato de representação.  É curioso perceber os passos de ligação de Amy Winehouse à indústria. O seu primeiro contrato foi de agenciamento e management, ou seja, foi o seu talento de palco que primeiro lhe permitiu entrar no mundo do espetáculo. A Brilliant levou-a depois a assinar um contrato de publishing com a EMI, levando assim a que a sua segunda ligação à indústria acontecesse como compositora. Os discos seriam a última parte desta equação, o que revela que Amy, de facto, era tudo menos a típica cara bonita que primeiro é recrutada pela editora e depois aprende a cantar, se tiver sorte. Aliás, Amy era mesmo tudo menos a típica cara bonita.  O despertar  O caminho para Frank foi também um caminho de descoberta para Amy, com a Brilliant 19 a proporcionar à cantora todas as ferramentas necessárias para moldar o que até aí se mostrava em estado bruto.  O primeiro passo passou por Major, um produtor ligado aos Soul II Soul com quem Amy começou por trabalhar para a criação de uma maquete cujo principal objetivo seria o de despertar a atenção das editoras.  Major trabalhava essencialmente no idioma do hip-hop e das bases que criou surgiu material suficientemente intenso para que a Island, etiqueta da Universal, cedo manifestasse o seu interesse através do A&R Darcus Beese. Há diferentes versões sobre a forma como Beese terá chegado até Amy. Major garante que terá sido ele a falar a Beese sobre o trabalho "secreto" que estava a desenvolver com Amy a pedido da Brilliant 19. O próprio Beese referiu já que depois de ter ouvido rumores sobre uma nova artista terá conduzido uma espécie de operação de espionagem nos escritórios da agência para chegar até Amy. E a Brilliant 19 pode ter colocado as maquetes realizadas com Major a circularem para atiçar o interesse das maiores editoras de Londres, com o objetivo de criar uma guerra de ofertas que a beneficiasse. Fosse como fosse, Beese chegou até Amy e organizou uma audição ao vivo nos escritórios da Universal em frente de um painel de altos executivos que se renderam à voz e à personalidade de Amy, que nessa audição se apresentou simplesmente acompanhada à guitarra.  Com o contrato assinado, havia que começar a trabalhar em Frank. Amy tinha já avançado alguma coisa com os compositores Skarbek e Matt Rowe que a ajudaram a dar forma a canções como "Amy Amy Amy" e "October Song". Mas era preciso ir mais longe. A ligação à Island elevou a fasquia da produção e Darcus Beese pensou imediatamente em Salaam Remi para a cadeira de produção. Em primeiro lugar, a experiência com Major garantia que a forma de trabalhar de um produtor ligado à escola hip-hop garantia frutos muito rápidos a Amy, por outro lado o próprio Remi parecia ter um toque especial ao trabalhar com cantoras britânicas, como já tinha demonstrado com o seu envolvimento criativo com Ms Dynamite. Havia ainda o "pormenor" de Remi incluir gente como os Fugees ou o rapper norte-americano Nas no seu currículo, nomes de que Amy gostava bastante. Gordon Williams, outro produtor com forte currículo hip-hop, foi outro dos nomes recrutado pela Universal para trabalhar com Amy. A editora esperava desta forma estimular mais a cantora, que trabalhou para Frank entre Miami e Nova Jérsia, uma fórmula que resultou e que haveria de ser novamente utilizada para Back to Black, com Remi a dividir os créditos de produção dessa vez com Mark Ronson.  É possível argumentar que Frank ainda mostrava uma cantora em busca da sua própria identidade. A capa não é realmente indicadora do conteúdo, na sua foto algo neutra de uma jovem com top cor-de-rosa. No obituário assinado para o New York Times, Jon Pareles descreve a Amy de Frank como uma discípula de Erykah Badu, Esther Phillips, Sarah Vaughan e Dinah Washington e a produção como apontando ao jazz e até à bossa nova. "Certamente não era R&B pop delicodoce", garante o jornalista, que adianta que, apesar dos colaboradores na composição, o seu olhar crítico e demolidor já era notório neste trabalho. A semente do génio já era visível.  Numa entrevista disponível no site Access All Areas, Amy refere que passou o ano e meio seguinte à edição de Frank na estrada, algo que certamente contribuiu para o assinalável sucesso da sua estreia que chegou ao número 13 das tabelas britânicas em 2004, alcançando o estatuto de dupla platina e garantindo-lhe alguns prémios, como o troféu Ivor Novello, além de nomeações para os mediáticos Brits mas que a esvaziou criativamente. "Não tinha nada sobre o que escrever. Quer dizer, ninguém quer ouvir um segundo álbum sobre como promover o primeiro, pois não? Mas um ano e meio depois penso que me apaixonei e fiquei com o coração destroçado e aí pude escrever sobre isso. Yeah! Eu escrevo canções honestas. Já todos sofreram com um coração partido e sabem o que quero dizer.". E talvez esteja aí, nessa simples explicação, o verdadeiro segredo na base do tremendo sucesso de Back to BlackCorações destroçados  Amy conheceu Blake Fielder-Civil no início de 2005, na zona boémia de Camden onde tinha começado a viver. O encontro deu-se, claro, num pub, nem de propósito equipado com uma jukebox preenchida com clássicos da Motown e pérolas pop de grupos como as Shirelles, as Crystals e as Ronettes, exemplos avançados da arte particular de Phil Spector. Como Blake não fumava charros, Amy começou a acompanhá-lo na bebida.  O rompimento da relação seis meses depois só levou a que Amy se afundasse mais ainda na garrafa. E a única coisa que beneficiou dessa condição foi mesmo a sua inspiração. "Back to Black", explicou Amy ao Sun em 2006, "é quando acabamos uma relação e voltamos aquilo que nos é confortável. O meu ex voltou para a namorada e eu voltei para a bebida e para os momentos sombrios".  A vertigem da bebida, as pressões da sua agência para se internar num centro de desintoxicação e os próprios conselhos do pai foram a inspiração para o tema que a tornaria numa estrela pop global platinada. O seu abismo foi igualmente o seu topo da montanha.  "Rehab" nasceu daí e aquele "no no no" um claro indício do que viria a revelar-se o final desta história. Back to Black é, afinal de contas, um álbum sobre a sua separação de Blake. Com o material a surgir em catadupa, a editora optou por voltar a contratar Salaam Remi e a apostar no talento emergente de Mark Ronson. E foi ao lado de Mark, numa caminhada pelo Soho, em Nova Iorque, que Amy teve a ideia para "Rehab". O envolvimento posterior dos Dap Kings, banda que ainda este ano visitou Portugal a acompanhar a cantora soul Sharon Jones, deu a aura final ao disco, conferindo-lhe o toque de soul clássica que a diferenciou de tudo o que se encontrava nas tabelas de vendas em 2006 e 2007. Jon Pareles, uma vez mais nas páginas do New York Times, sobre Back to Black: "Em canções escritas maioritariamente a sós, a menina Winehouse cantou sobre o seu sofrimento após uma separação e sobre tentações que não conseguia combater: álcool, drogas, sexo e namorados viciados. Mas com harmonias de grupos femininos à sua volta e arranjos que remetiam para a Motown, a Stax e o ska, ela soava sábia, uma mulher que reconhecia todas as suas fraquezas e que via para lá delas".  O princípio do fim  Em junho de 2009, as vendas de Back to Black já tinham ultrapassado os três milhões de cópias só no Reino Unido, uma marca absolutamente excecional que sublinhava o incrível potencial de Amy Winehouse. Mas nem no topo a vida era fácil para Amy. Depois da edição de Back to Black, começou a namorar com Alex Jones-Donelly, um executivo da Radio 1 que depois se tornou cozinheiro. A relação foi breve, mas nesse período, que durou até março de 2007, Amy deixou de fumar erva, passou a alimentar-se melhor e até recuperou a forma indo ao ginásio.  Mas Blake Fielder-Civil regressou à esfera de Amy, que deixou Alex e voltou aos excessos anteriores, aparecendo bêbeda em público e transformando aparições em programas de televisão em autênticos desastres mediáticos, como aconteceu em outubro de 2007, ao lado da cantora Charlotte Church. O espetáculo valeu-lhe cabeçalhos em jornais como "Amy Wino" no Daily Mirror.  Em maio de 2007, Amy e Blake casaram-se. Em agosto do mesmo ano apareciam fotografados em jornais a sangrar. Amy sem um dente, Amy visivelmente intoxicada, Amy a vaguear pelas ruas, semi-despida. Para o público português, esta espiral de decadência atingiu um ponto alto em maio de 2008, quando Amy Winehouse se apresentou no Rock in Rio. Mas na verdade, esse concerto foi uma mera confirmação dos acontecimentos ecoados na imprensa internacional, sobretudo na britânica. Meses antes da passagem pela Bela Vista, Amy deu entrada numa clínica de desintoxicação após a divulgação de um vídeo que a mostrava a fumar crack. Terá sido a primeira de pelo menos três tentativas de desintoxicação em três anos. A última aconteceu em maio [de 20011]. Pelo meio, ainda assim, Amy foi arrecadando prémios, troféus de vendas, Grammys, tudo sinais da promessa que a sua voz encerrava, mas que a sua personalidade não permitia cumprir. Com o marido preso, Amy aprofundou a sua crise pessoal, apesar de uma breve paixão pelo ator Josh Bowman a ter levado a declarar em 2009 que não precisava de drogas e que o seu casamento se baseava apenas no abuso de substâncias ilícitas. O seu pai terá percebido o rumo da vida de Amy e em 2008, nas páginas do News of the World, jornal recentemente envolvido num escândalo de escutas com severas repercussões políticas no Reino Unido, apelou à lei da saúde mental britânica para tentar forçar o internamento da filha, a única forma, afirmava, e impedir que Amy se matasse com drogas.  Amy poderá, muito simplesmente, ter desistido de viver. Ou desistido de sofrer, que parecia ser a única condição em que sabia criar. (...) O efeito perverso da morte de uma estrela pop nas vendas dos seus trabalhos é bem conhecido e recentemente fez-se sentir com a obra de Michael Jackson. Nos dias que se seguiram à morte de Amy Winehouse, as lojas físicas e online também registaram um acréscimo significativo de vendas, sobretudo de Back To Black, mas também de Frank e de canções individuais como "Love is a Losing Game" e "You Know I'm No Good". A maior prova do talento de Amy está na forma como nos fez acreditar em todas essas palavras, na classe com que as entregou, na alma enorme que demonstrou ter. E por muita duras que fossem as palavras em todas essas canções, a vida real provou ser ainda mais dura.  Texto: Rui Miguel Abreu