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Amy Winehouse em documentário: autodestruição em 90 minutos

Amy, de Asif Kapadia (o mesmo realizador de Senna, sobre a vida do malogrado piloto brasileiro) chega a 16 de julho às salas portuguesas.

Amy, o primeiro grande documentário sobre Amy Winehouse, estreou em maio no festival de Cannes e as reações foram de intenso entusiasmo. Sobre o filme de 90 minutos, realizado por Asif Kapadia e baseado em declarações de familiares, amigos e colegas da malograda artista, escreveu a BBC: "o galardoado documentário de Kapadia sobre Ayrton Senna tinha muitos desastres de carros. É tentador dizer que o seu sucessor, Amy, é um longo desastre de carro, do início ao fim".
Nascida em setembro de 1983, Amy Winehouse foi uma criança turbulenta e marcada pelo divórcio dos pais. O documentário revela que era Amy bebé e já o seu pai, Mitch, traía a mulher, ausentando-se de casa por longos períodos de tempo. Quando a filha tinha 9 anos, o casal oficializou o divórcio e a criança, já dona de uma personalidade complexa, foi entregue aos cuidados da avó, depois de a mãe se confessar incapaz de lidar com a filha. À semelhança de Kurt Cobain, cuja mente vimos escalpelizada no recente Montage of Heck, a londrina foi uma adolescente marcada pelo insucesso do casamento dos pais e por vários problemas de saúde mental: aos 15 anos, reconhece a mãe Janis, admitiu estar a fazer uma dieta que consistia em comer excessivamente e vomitar a seguir. Farmacêutica de profissão, Janis considerou que a filha estaria a passar "por uma fase" e desvalorizou a bulimia. Para contar a história de Amy, desde a adolescência ao adeus precoce - o filme começa com imagens da jovem a cantar os parabéns a um amigo, aos 16 anos, e acaba no seu funeral, com alguns dos mesmos amigos da festa a chorar a sua morte - Asif Kapadia recorre a entrevistas e material de arquivo. O realizador terá falado com quase 100 pessoas, mas mesmo os principais intervenientes - os pais de Amy, o seu primeiro manager, duas amigas de infância, o ex-marido Blake Fielder-Civil - não surgem na câmara, ouvindo-se apenas a sua voz. Os depoimentos surgem entrecortados com imagens de arquivo, quer de entrevistas, quer de vídeos caseiros filmados pelos amigos, e também com entradas dos diários da inglesa (mais uma vez, à semelhança do que sucede em Montage of Heck). Ao passo que a relação de Kurt Cobain com a imprensa sempre foi fugidia e Brett Morgen, realizador do documentário que até há pouco tempo esteve em exibição em Portugal, teve dificuldade em encontrar aparições televisivas além das sobejamente conhecidas, a espiral descendente de Amy Winehouse foi, na era da internet, acompanhada ao minuto. Mostrar aquilo que o público não conhecia seria, por isso, a motivação de Asif Kapadia ao realizar Amy, um filme contra o qual o pai da voz de "Rehab" já se manifestou (Mitch Winehouse considera que "sai mal" no retrato e pondera mesmo processar o autor do documentário). À agência noticiosa AFP, Kapadia comentou: "muitas pessoas perguntaram-me: para que é que queres fazer um filme sobre uma drogada? É precisamente por isso que preciso de fazer este filme - que coisa horrível para se dizer de uma miúda". Sobre as causas profundas que levaram à morte de Amy, aos 27 anos, por ingestão excessiva de álcool, o realizador não aponta dedos: "há muitos problemas que começaram quando ela ainda era muito jovem: fama, dinheiro, a indústria [do entretenimento], Londres. Estas coisas juntaram-se todas numa miudinha minúscula que não comia". Entre os ilustres, o filme dá voz a Tony Bennett, com quem Amy gravou um dueto, e que compara o talento da autora de Back To Black ao de Ella Fitzgerald ou Billie Holiday. "Só que a maioria dos cantores jazz não gosta de cantar frente a 50 mil pessoas", ressalva o veterano. "Ela tinha a "embalagem" toda". Também Questlove, baterista dos The Roots, e o hip-hopper Mos Def, com quem Amy chegou a colaborar, dão um contributo valioso a uma narrativa que fascinou os críticos. "Nasceu uma estrela - outra vez", escreveu o The Guardian, considerando que o documentário é "espantosamente comovente e poderoso: intimista, apaixonado, amiúde chocante e absorvente de forma quase hipnotizante". Texto: Lia Pereira Publicado originalmente na BLITZ de junho, nas bancas. Para saber mais sobre o documentário Amy, não perca a BLITZ do próximo mês, que chega às bancas na sexta-feira, dia 26 de junho.