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AC/DC: "O segredo da nossa sobrevivência é termos ignorado todas as modas", diz Angus Young [ARQUIVO]

Há cerca de um ano, a BLITZ viajou até à Alemanha para entrevistar Angus Young e Cliff Williams (um dia depois de anunciada a prisão de Phil Rudd). Recorde aqui essa conversa com os AC/DC.

O hotel é de luxo e nada faz crer que, abrindo-se as portas de um dos seus salões, a música que se vá escutar seja o rock robusto, contundente e inconfundível dos AC/ DC. Sentados à volta de uma longa mesa de vidro, vários jornalistas europeus escutam e tomam notas sobre as 11 canções de Rock or Bust, o primeiro álbum dos australianos desde Black Ice, o surpreendente sucesso de 2008. Minutos mais tarde, três a três, os repórteres serão levados, elevador acima, a um quarto onde Angus Young e Cliff Williams aguardam todas as perguntas. Todas, menos qualquer uma que mencione Phil Rudd, o baterista que, horas antes, fora detido na Nova Zelândia, acusado, entre outros delitos relacionados com estupefacientes, de ameaçar matar um colaborador. Qualquer jornalista que tentasse abordar o assunto - e o nosso camarada norueguês tentou a sua sorte - seria convidado a abandonar a sala. A verdade é que Phil Rudd, que já entre 1983 e 1994 fora afastado da banda, por conflitos com Malcolm Young, não aparece nas novas fotos promocionais dos AC/DC nem no vídeo de "Play Ball", onde é substituído por Bob Richards. Durante meia hora, a conversa na cidade alemã de Düsseldorf seguiria contudo por outros caminhos, desde a preparação do novo disco com o produtor Brendan O'Brien ao segredo da longevidade dos AC/DC, uma das maiores instituições do rock dos últimos 40 anos. Se forem Angus Young, de 59 anos, e Cliff Williams, de 64, a decidir, não será a ausência confirmada e definitiva do fundador, guitarra-ritmo e compositor Malcolm Young, internado com demência, nem o aparente afastamento do baterista Phil Rudd, a braços com a lei, a parar esta locomotiva.

Depois de tantos anos e tantas gravações, qual é o vosso maior desafio, quando estão em estúdio? Tentam criar algo de novo? Angus Young: Eu sei que muitas pessoas dizem que há muito tempo que os AC/DC fazem o mesmo álbum, só muda a capa. (risos) O que nos importa são as canções propriamente ditas. Gostamos de criar canções novas. O estilo não vai mudar: é AC/DC. O Brendan O'Brien [produtor] costumava dizer que queria que as pessoas percebessem, logo na primeira canção, que quem está a tocar são os AC/DC e mais ninguém. E acrescentava: vocês têm de olhar para mim como se eu fosse um fã de AC/DC, mas com dois ouvidos gigantes!

Esta colaboração faz lembrar o período que tiveram nos anos 80, com Robert John "Mutt" Lange... Cliff Williams: O Brendan O'Brien é um grande músico, tal como o Mutt, que também tocava. A colaboração com ele insere-se nessa linha de pensamento, que funcionou bem connosco. E o Brendan O'Brien é rápido, gosta de despachar as coisas. AY: Demorámos umas quatro semanas nas gravações. Eu fiquei um pouco mais de tempo, até ao fim do processo - talvez mais umas duas semanas. O Brendan O'Brien ofereceu-me esse período de tempo para que eu pudesse "respirar"; se nós não gostássemos de algo, ainda teríamos tempo para fazer quaisquer mudanças. E o mesmo se aplicava ao trabalho que ele desenvolveu: podia sentar-se a ouvir e dizer "se calhar fazemos antes isto e aquilo". CW: Ele faz as coisas rolar, de maneira a que todos nos sintamos envolvidos. É uma boa experiência. AY: E tem formas únicas de fazer as coisas. Mesmo sem falar da parte tecnológica, mantém tudo equilibrado quando estamos a gravar. Como ele diz, temos de ser capazes de tocar naquele momento. Não podemos falhar. O Brendan é capaz de criar uns equilíbrios naturais espetaculares, até nos coros! É muito rigoroso, não só em relação ao som mas também à "onda" com que estás a tocar.

Como se fosse um fã muito exigente? AY: Sim! A cada momento, ele perguntava-se: será que eu quero ouvir os AC/DC a tocar uma canção destas? E às vezes ouvia o material que tínhamos e dizia: adoro, isto tem mesmo de entrar no disco! É sempre bom ver uma pessoa com quem trabalhamos entusiasmada com o que está a ouvir.

Depois do grande sucesso de vendas do Black Ice, que expectativas têm para o novo álbum?

AY: Esperamos que toda a gente ouça o disco... CW: Nunca sabemos o que vai acontecer, só esperamos que corra bem. AY: Às vezes até nós ficamos chocados [com o nosso sucesso].

Qual o segredo para terem sobrevivido durante 40 anos, e para terem resistido a todas as revoluções musicais ao longo dessas décadas? AY: Basicamente, ignorar todas as modas que iam aparecendo. Neste mundo da música, há sempre alguém à procura da última moda, e nós tivemos muita sorte, porque começámos como uma banda que fazia música rock, passámos aqueles anos todos a definir aquele estilo e continuamos a fazê-lo. Há sempre espaço para o bom rock and roll?

AY: Bem, isso é algo que nunca desaparece. Eu ainda fico todo maluco se ouvir o Little Richard, ou o Chuck Berry, na rádio. Se der alguma música deles, eu ponho mais alto! Quando cria riffs de guitarra, alguma vez se pergunta: será que já toquei este antes?

AY: Às vezes, sim, um riff pode parecer-me familiar... Mas ao longo dos anos houve muito material que o meu irmão Malcolm e eu nunca usámos. Às vezes ouvia um certo riff, achava que já o conhecia, ia vasculhar e afinal era uma das ideias do Malcolm.

O Malcolm Young ainda participou neste álbum, antes de ser internado?

AY: Participou, sim. Foi ele que escreveu muitas das canções que aqui se ouvem. Há muitas músicas nas quais eu e ele trabalhámos ao longo dos anos. Achámos que eram boas canções, e também tinham bons riffs, que nunca tínhamos usado... era assim que fazíamos. O Malcolm era muito organizado, tinha bons riffs e guardava tudo tudo muito limpinho e organizadinho. Já eu, sou bem desorganizado! Por isso, ele ajudava-me com as músicas, dizendo-me: "olha que tens aí uma bela ideia".

Qual a sensação de entrar em estúdio com o Stevie Young, sobrinho de Malcolm, que agora substitui o seu tio?

CW: Em 1998 o Stevie já tinha andado connosco na estrada. Esteve com a banda durante algum tempo. Já tínhamos tocado com ele, já o conhecíamos e o Stevie cresceu com a nossa música e com o estilo de tocar do Mal [Malcolm], que é único. No estúdio, não ficámos a perder. Claro que temos muitas saudades do Mal, mas há que dizer que o Stevie Young fez um belo trabalho.

Lutas passadas

Depois de Bon Scott morrer, em 1980, entraram em estúdio muito rapidamente. Fizeram um pequeno concerto de ensaio na Holanda, com o Brian Johnson, o novo vocalista, e foram para os Compass Point Studios com Robert John "Mutt" Lange...

AY: Na altura em que o Bon morreu, nós tínhamos andado a escrever. E o Bon tinhanos dito: na próxima semana vou aí e junto umas letras. E até tocou nalgumas demos, comigo e com o Malcolm, porque o Bon também era bom baterista! Geralmente o Malcolm saltava para a bateria e eu tocava bateria - não toco bem bateria -, mas também pegava no baixo - e o Malcolm inventava uns riffs. E um dia o Bon entrou em estúdio e o Malcolm disse: era mesmo de ti que precisávamos! Estávamos a tentar desencantar uma boa parte de bateria para uma das canções...

Ainda com Bon Scott (à direita) Quando o Bon Scott morreu, chegaram a pensar acabar com a banda ou decidiram que tinham canções tão boas que tinham de continuar?

AY: A princípio ficámos todos em choque. Fomos à Austrália para o funeral e foi o pai do Bon que pegou em mim e no Malcolm e nos disse: "vocês ainda são novos, e o Bon iria adorar que vocês continuassem!". E soube-nos bem ouvir isto. Mal voltámos, o meu irmão Malcolm disse-me: "vamos continuar a fazer música nova. Não penses no que estamos a fazer, mas vamos juntando ideias para canções e não nos preocupemos com coisas exteriores à banda". E até foi o nosso manager que nos sugeriu: se quiserem experimentar trabalhar com uma pessoa nova, vamos ver se funciona... Na altura, rejeitámos a ideia porque pensámos: "vamos é continuar a escrever".

O Back in Black é um dos álbuns mais bem-sucedidos da história do rock, tendo vendido mais de 50 milhões de exemplares. Acham que esse tipo de êxito ainda seria possível hoje em dia, tendo em conta o estado da indústria discográfica?

AY: Quando fazes alguma coisa, esperas que a mensagem passe e desejas causar um impacto. Mesmo com o Back in Black, demorámos bastante tempo para atingir o sucesso. Na verdade, foi preciso um par de anos! Eu soube que estava a ter sucesso porque, quando acabámos a digressão do álbum, alguém na Austrália me disse: "sabes que o disco vendeu uns dois milhões de cópias?". E eu: "ah, que bom!". Fiquei muito impressionado. E ele: "tu não estás a perceber bem, isso foi só em Los Angeles!". (risos) Eu fiquei mesmo estupefacto. Mas às vezes também é preciso ter sorte, ou apanhar o momento certo. Nessa altura [1980] a música tinha passado pelos anos do do disco sound, e de repente a coisa muda para a música rock outra vez. Nós tivemos muita sorte, porque aparecemos com esse álbum no momento certo.

O Black Ice tinha muitas canções, mas desta feita têm apenas 11 temas...

CW: O Brendan O'Brien quis que fosse um disco breve e direto ao assunto. Sem grandes esticanços, só tocar as canções e despachar a cena.

AY: No Black Ice gravámos muitas músicas, porque já não gravávamos nada há muito tempo [desde Stiff Upper Lip, de 2000]. E o Malcolm e o Brendan disseram: isto vai ser bom...

Neste novo álbum têm uma canção chamada "Dogs of War", na qual se canta "soldiers of war, just a pretty name for the game". Essa é a posição política do Brian Johnson sobre a guerra?

AY: Para mim, essa canção é sobre Aníbal [general e estadista de Cartago, do século II antes de Cristo] e a sua travessia dos Alpes. Eu li que ele era genial porque conseguia levar todas as pessoas que liderava, de países diferentes, conseguindo coordená-las todas numa unidade. Eu não trabalho no negócio da guerra mas quando era novo li muito sobre Aníbal e sempre me pareceu um caso muito especial, porque inspirou pessoas como o Napoleão. E isso foi uma grande conquista. Atravessar os Alpes sem ninguém ver, especialmente os romanos! (risos) Sempre me pareceu uma boa ideia para uma canção. E é assim que vejo essa letra, não é no sentido moderno.

E quanto a "Play Ball", primeiro single do novo álbum, que foi usada numa campanha publicitária da liga norte-americana de baseball?

AY: Eu sempre gostei dessa expressão: "play ball". Para mim, tem o mesmo significado que "let's rock and roll". Não tivemos qualquer intenção de associar a música ao baseball, eu cá só gosto quando eles batem com o taco na bola e dizem: "play ball!" (risos) Quando estávamos a gravar o álbum, havia uma máquina de flippers - era do engenheiro de som e tinha um jogo dos AC/DC. E geralmente, quando tens uma coisa patrocinada, perguntas-te: será que presta? (risos) Ele tinha lá aquilo e toda a gente jogava. Eu também, porque quando era mais novo estava sempre a jogar flippers. Mas o jogo era bom, já encomendei um para mim!

Qual a vossa opinião sobre serviços de streaming como o Spotify?

AY: Eu sei que toda a gente diz que o streaming é uma coisa nova, mas na verdade é antiga. A forma como funciona é um pouco como quando tinhas os clubes do disco e as pessoas escolhiam os discos e pediam para ouvir aqueles de que gostavam. Não me parece que tenham reinventado a roda. Tal como o iPod: quando apareceu, para mim era só um walkman digital.

Vão fazer uma nova digressão mundial em 2015?

AY: Se tudo correr bem, sim! Mas é algo que ainda está a ser planeado e coordenado.

Será estranho estar em palco sem o Malcolm?

AY: Sim, mas com o Stevie, para ser sincero, nem dou pela diferença, porque ele toca como o tio. O Malcolm e o Stevie têm aquele ritmo... Eu comecei a tocar com o Malcolm muito novo e sei que ele tem um estilo muito singular. Eu punha-me a imitá-lo, a ver se conseguia fazer como ele, e ele dizia-me: "sim... está parecido, mas não é a mesma coisa!". (risos) E quando o Stevie se juntava a mim e ao Malcolm, eles pareciam gémeos, porque tocavam da mesma maneira.

A digressão do Black Ice foi uma das mais bem-sucedidas de sempre, com vários concertos esgotados. E ainda se notava a vossa eletricidade e energia. Como é que isso se alcança, numa banda veterana como os AC/DC?

CW: Fazemos o melhor que conseguimos, todas as noites... e tentamos aguentar-nos!

São exigentes convosco e criticam-se mutuamente, quando as coisas não correm bem em palco?

AY: Temos um bom apoio técnico e fazemos isto noite após noite. Se alguma coisa se estragar, por exemplo, a nossa equipa faz o seu melhor para consertá-la. Sempre tivemos essa possibilidade, porque as pessoas não querem estar a olhar para uma pessoa a afinar a guitarra. É mais: deem-me já uma nova! Sempre funcionámos bem nesse aspeto.

Quantos conceros planeiam dar? Falou-se em 40, a propósito dos 40 anos de carreira...

AY: Sempre fomos uma banda que, onde as pessoas nos quiserem, estaremos lá. Vamos tocar tanto quanto conseguirmos, fisicamente.

40 anos depois, toda a gente ainda quer ver os AC/DC em grandes salas. No final dos anos 80, todas as bandas rock passaram um mau bocado, e vocês não só se safaram como surgiram mais fortes do que nunca...

AY: Porque a música rock está sempre lá. Tem tido uma longa vida, desde o seu berço. Se pensares nos verdes anos, com Elvis, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino...

Continua a viver na Holanda, relativamente perto do local desta entrevista?

AY: Tenho uma casa na Holanda, mas sempre que posso estou na Austrália, é lá que gosto de estar. Mas quando vivi na Holanda, anos e anos a fio, ninguém me chateava. Por isso é que eu gostava tanto: era sossegado, só eu e umas vaquinhas!

40 anos depois do arranque da banda, do que tem mais orgulho?

AY: Enquanto banda, tenho orgulho de podermos continuar a tocar o que tocávamos no início, que era música rock, e de termos posto o nosso carimbo naquilo que fazemos. Definimo-lo como o nosso próprio estilo, ou seja, as pessoas ouvem e pensam: olha, são os AC/DC, não pode ser mais ninguém. Disso tenho orgulho.

O caso Phil Rudd

O baterista está a braços com a lei e não é certo que continue na banda.

Apesar do entusiasmo com que, na pessoa de Angus Young e Cliff Williams, os AC/DC apresentaram na Alemanha o novo Rock or Bust, duas nuvens escuras ensombram o futuro próximo da banda. Depois de confirmado o internamento de Malcolm Young, irmão de Angus e grande âncora do grupo, foi o baterista Phil Rudd a causar especulação junto dos fãs e imprensa. A BLITZ encontrava-se a caminho de Düsseldorf quando a notícia rebentou: Rudd, que em 1983 já fora afastado dos AC/DC por conflitos com os outros músicos e consumo de estupefacientes, foi detido na Nova Zelândia. As acusações que sobre ele pendiam espantaram o mundo: além de posse de droga, Phil Rudd era suspeito de ter mandado matar duas pessoas. No dia seguinte, esta queixa foi retirada, mantendo-se as demais, e os AC/DC fizeram saber que não falariam sobre o assunto nas entrevistas de promoção de Rock or Bust. A dúvida vai, porém, além dos problemas do baterista com a lei: Phil Rudd não aparece nas novas fotos de promoção nem nos vídeos de "Rock or Bust" ou "Play Ball", onde é substituído por Bob Richards. Inicialmente, a banda lançou um espartano comunicado sobre o assunto, garantindo que a ausência do baterista não afetaria a edição do álbum ou a respetiva digressão; mais tarde, confessaram que a inconstância do músico prejudicou as gravações: "Não podíamos avançar, [pois perguntávamo-nos]: será que o gajo aparece? Será que está em condições de fazer o seu trabalho?", lamentou Cliff Williams. "E nós sempre fomos uma unidade sólida, de confiança". Na mesma entrevista ao USA Today, Angus Young acrescenta: "Ele é o responsável por esta situação. É complicado: é um grande baterista e já fez muito por nós. Mas parece ter-se perdido. Já não é o Phil que conhecíamos"".

Lia Pereira Entrevistada publicada em dezembro de 2014