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Josh Homme (Queens of the Stone Age)

Getty Images

O dia em que Josh Homme dos Queens of the Stone Age quis desabafar connosco. A entrevista exclusiva

Volta a Portugal esta semana para um concerto no NOS Alive. Em entrevista exclusiva à BLITZ, no ano passado, o vocalista e guitarrista partilhava certezas e inquietações, falava de Chester Bennington e Chris Cornell, elogiava Iggy Pop e explicava, detalhadamente, o seu conceito de honestidade

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A entrevista estava marcada há alguns dias, mas continuava a mudar de data e de horário com preocupante frequência. Quando, ao cabo de várias chamadas falhadas, conseguimos ter Josh Homme do outro lado da linha, tivemos pouco tempo para nos apresentarmos – ou congratularmos. Com o ruído de automóveis ao fundo, o norte-americano exclama o nosso nome de forma efusiva, antes de fazer um pedido. «Posso só desabafar muito rapidamente?».

Como recusar não nos pareceu uma opção, ouvimos então o timoneiro dos Queens of the Stone Age a barafustar – felizmente, não éramos nós o alvo da sua fúria controlada. «Como é que estou hoje? Olha, estou muito interessado por ter descoberto que a minha editora não sabe passar uma chamada telefónica», revela, misturando a assertividade do queixume com um riso seco. «Ontem aconteceu dez vezes consecutivas!», reclama, quando tentamos responder que este tipo de percalço acontece. «Dez vezes consecutivas que me desligaram o telefone. E eu até estou a tentar deixar de fumar!». Mais um riso, nenhum fucking até ao momento. «Das primeiras vezes que me desligaram a chamada ainda pensei: “OK…”. E até sugeri: “liguem antes para o meu telemóvel”. Mas entretanto só pensava: “porque é que isto me está a acontecer? Isto é tudo culpa minha, devo estar a fazer alguma coisa mal”. À décima vez, já só parecia um animal raivoso. Estava tão zangado! Zangado com o mundo, sabes como é?». Rimo-nos, assentindo, e ele continua. «Não estava zangado com ninguém em particular, só com o mundo. E pus-me aos saltos, para cima e para baixo». E da mesma fora brusca com que encetara a «denúncia», assim lhe põe um ponto final. «Obrigada por me deixares desabafar». Ora essa.

Nas lojas desde o final de agosto, Villains, o sétimo álbum dos Queens of the Stone Age, viria a ser, minutos mais tarde, o tema principal da nossa conversa com Josh Homme, um entrevistado mais expansivo do que talvez temêssemos, e um interlocutor surpreendentemente atencioso. Quando nos apresentamos, dizendo que ligamos de Portugal, o californiano interrompe-nos. «Deixa-me só perguntar uma coisa: como está Portugal, agora? Ouvi dizer que houve muitos incêndios florestais». Explicamos que a situação ainda não está – no início de agosto – ultrapassada, que o incêndio de Pedrógão Grande foi a maior tragédia da história recente do país, fazendo um grande número de vítimas mortais. «Lamento muito saber disso. Não só pela morte das pessoas, claro, mas também pela beleza da zona rural do vosso país, que bem conheço», faz questão de dizer o homem que, com os Queens of the Stone Age, já visitou Portugal várias vezes, dando concertos em salas fechadas e também nos festivais Rock in Rio, Super Bock Super Rock e Paredes de Coura, por três vezes (em 2001, 2003 e 2005). «Fico muito triste».

Foi neste tom atento que se iniciou a nossa entrevista, que passaria não só pelo novo, e excitante, Villains, como pelo passado dos Queens of the Stone Age e por aquilo que motiva o seu capitão a continuar viagem, independentemente das tormentas que encontre pela frente.

Villains, o primeiro álbum dos Queens of the Stone Age em quatro anos, está aí. Qual o seu grau de excitação com o facto de as pessoas estarem, por fim, prestes a descobrir as novas canções?
Mal posso esperar. A partir do momento em que o disco sai, o problema passa a ser vosso. (risos) Penso que a parte mais excitante disto tudo ainda é mesmo a antecipação. Estas coisas todas ainda me deixam meio desnorteado com a emoção. Não vou fingir que fico [imita voz afetada]: «ah e tal, é só mais um disco a sair, não é nada de especial…». Eu também sou fã [de outros artistas] e, no fundo, o que tento fazer é aquilo que gostaria que as minhas bandas favoritas fizessem. Gostaria que me elas me surpreendessem pela positiva, que fossem lançando umas coisinhas aqui e ali, que me deixassem agarrado. Mas agora chegou a altura de lançarmos o nosso álbum e deixá-lo ir à sua vida, sabes?

Já têm apresentado algumas das canções novas ao vivo. Como têm reagido os vossos fãs?
Na verdade, tem corrido muito bem. Às vezes pode ser um pouco traiçoeiro. Uma das canções novas que tocámos tem seis minutos e é um pouco… complicada, julgo eu. Às vezes, quando assim é, pode não correr bem. Mas, para dizer a verdade, acho que as pessoas que nos vêm ver já estão à espera que assim seja, por isso está tudo a correr bem.

O novo álbum soa muito descontraído e é bastante dançável. Foi um disco divertido de fazer?
Quando começo a falar de um disco, antes de ele sair, gosto de usar palavras que deixem as pessoas… [hesita] No fundo, acho que tenho um certo fascínio por frustrar as pessoas. Por isso, gosto de dizer: «ei, o disco é muito dançável, e é isto e aquilo», esperando que assim os nossos fãs fiquem a pensar «oh, não!». Penso que, de certa forma, é uma maneira que tenho de baixar a fasquia [e as expectativas]. Mas a verdade é que o disco é, realmente, bastante dançável – no bom sentido; não é uma coisa má. Em resumo, foi um disco divertido de se fazer, embora por alguma razão, à medida que o tempo vai passando, se tenha tornado cada vez mais difícil fazer discos. Foi divertido e gostei do processo, mas fácil não foi.

O álbum foi produzido pelo britânico Mark Ronson, que é um grande fã dos Queens of the Stone Age, mas cujo percurso tem passado mais pela pop. Ele ficou surpreendido quando recebeu o vosso convite?
Sim, acho que ele provavelmente teve a mesma reação que alguns dos nossos fãs. Não parava de dizer: «mas porquê? Não te quero levar a retirares o convite, mas porque é que queres fazer isto? Não achas que alguns dos vossos fãs vão ficar chateados?». Quando o convidei, ele aceitou logo, mas mais tarde disse-me: «tens de me explicar o que queres que eu faça». Porque é um tipo esperto e sabia que eu andava atrás de alguma coisa. Como venho dizendo, usar a palavra «dançável» confunde e deixa frustrados alguns dos nossos fãs – tal como dizer que o Mark Ronson produziu o nosso novo disco surte o mesmo efeito. Mas a ideia é essa: aparecer às pessoas pelas costas, bater-lhes no ombro e, quando elas se viram, tu já não estás lá, mas continuam a ouvir-te… Não sei. A minha necessidade de me infiltrar e de estar onde não devo estar sempre me incentivou a desafiar as pessoas, até mesmo aquelas pessoas que já gostam de nós. Não sei porquê, mas sinto que a música deve fazer isso. Talvez esteja errado, mas… Se assim não fosse, as pessoas esperariam que fizéssemos a mesma coisa uma e outra vez, e eu cá não sou capaz de fazer isso. Então tento fazer com que as coisas soem diferentes, divertidas e bizarras! (risos)

É um resquício de uma certa atitude punk rock?
Sim, é uma versão do dedo do meio espetado! E também uma versão do «que se foda o mainstream e que se foda tudo o que tu pensas que sabes». E do «eu não trabalho para ti». É isso tudo misturado.

Quão livre se sente hoje em dia? A banda é representada por uma editora independente [a Matador], já há muito que são suficientemente grandes para não terem de dar justificações a ninguém…
Bem, eu sempre me senti livre. E estou contente por já não ter de lutar. Porque não quero perder o meu tempo a lutar com alguém que nem sequer faz música, mas que finge saber quem é que nós devemos ser, para poder vendê-lo. É o mesmo disparate que termos um DJ dizer a uma banda o que é que ela deve tocar, para ele poder passar [a música no seu set]. Fico satisfeito por não desperdiçar a minha energia a explicar porque é que não quero saber o que é que essas pessoas pensam. Em vez disso, posso concentrar-me em levar esta banda além do que qualquer outra pessoa levaria. Há sempre uma parte de mim que pensa que me tenho saído muito bem. E sinto-me grato [pelo que já obtive]. Mas sinto que não o mereço – o que talvez seja bom, porque isso obriga-me, a mim e aos rapazes da banda, a procurar sentir que merecemos, que conquistamos aquilo que temos. É como se fôssemos um jogador e disséssemos: «OK, se nos está a correr tudo bem, então vou arriscar tudo! Porque sinto que, se não arriscarmos tudo, estarei a desiludir toda a gente. Eu disse ao Ronson: «se 50% das pessoas não te detestar, é porque não prestas». E ele: «vou tentar que sejam só umas 45%». (gargalhada) Não me importo de ser divisivo. Penso que isso é positivo.

Josh Homme, dos Queens of the Stone Age

Josh Homme, dos Queens of the Stone Age

Andreas Neumann

Honestidade acima de tudo

Ler entrevistas com Josh Homme é encontrar a palavra «honestidade» repetida com significativa regularidade. A própria inspiração por detrás do título Villains – que nada tem a ver com política, explicou desde logo, mas com a procura de uma terceira verdade ou versão dos factos – parece refletir essa obsessão. Na história de alguém, somos sempre os vilões («villains»), argumenta no texto de apresentação do álbum. A franqueza no seio da banda é condição obrigatória para se pertencer a esta trupe que, no ano da graça de 2017, conta com Troy Van Leeuwen (guitarra, teclas, percussão), Michael Shumam (baixo, teclas), Dean Fertita (teclas, guitarra, percussão) e o mais recente recruta, Jon Theodore (bateria, percussão). Quanto a Mark Lanegan ou Nick Oliveri, o carismático baixista expulso da banda por Josh Homme após a era Songs for the Deaf, pertencem a um tempo que não vai voltar, avisa sem contemplações, e sem que lhe perguntemos, o mais conhecido ruivo do rock, que recentemente começou a fazer meditação transcendental para não andar sempre «tão zangado com o mundo».

Refere muito a palavra «honestidade» nas suas entrevistas. É um dos princípios que norteiam a sua vida e o seu trabalho?
Penso que a criação da música representa um momento em que podemos ser verdadeiramente honestos. E onde essa honestidade não está sujeita a interpretação. As preocupações que nós temos, como a justiça, a perfeição e a verdade… isso são ideais pelos quais lutamos. Mas, na relação que temos com as pessoas à nossa volta, por vezes temos dificuldade em encontrar aquela «terceira verdade». Não é a tua verdade, nem a minha, mas sim aquilo que realmente aconteceu. É uma visão que ambos os lados sejam capazes de compreender. Na vida, eu tenho alguma dificuldade em chegar a esse entendimento. Mas na música sou capaz de ser honesto e saber que aquela é a verdade. Posso saber que isso é inegável. Fico ali [a insistir] até saber que aquilo é verdadeiro, e é honesto. Mas fazemos isto para todos [os membros da banda], tem de alcançar um consenso. Depois disso, já posso deixar a música ir à sua vida. Tu podes fazer o que quiseres com ela, que eu fico tranquilo. Por isso é que, se alguém odiar [o que eu faço], eu não me importo. Não é assim tão importante, posso viver com isso. Porque adoro o que fiz, fui honesto e estou de consciência descansada – posso avançar. Para mim, isso é muito importante.

Como funciona a criação de um disco nos Queens of the Stone Age? Suponho que o Josh escreva todas as canções… mas qual a contribuição dos restantes membros da banda?
Essa é uma boa pergunta, porque acho que a maior parte das pessoas têm uma perceção errada de como o processo funciona – pelo menos, as pessoas que se importam com isso. Desconfio que não sabem, mas a verdade é que, para nós, tudo se baseia no consenso. E sempre foi assim. Era assim quando o Nick [Oliveri, despedido em 2004] ainda estava na banda. Quem levava a maior parte das ideias [para o estúdio] era eu, mas depois todos davam o seu contributo. A analogia mais importante, aqui, seria a de uma receita. Uma receita, às vezes, exige que uma pequena parte faça toda a diferença. E numa receita que seja mesmo muito boa, não podes tirar a mais pequena parte, sob risco de destruíres tudo. Por isso, não importa o tamanho do papel que desempenhas, se o teu papel for vital. Nós funcionamos com base no consenso e, em 99% das ocasiões, conseguimos alcançá-lo. No novo disco, temos uma canção chamada «The Evil Has Landed» e alguns dos seus riffs já têm uns 15 anos! E a primeira parte do tema era uma coisa completamente diferente [do que está no álbum]. Andávamos a tocá-la na sua antiga versão, com uns versos diferentes, e o pessoal da banda estava entusiasmado, mas não suficientemente entusiasmado para continuarmos a tocá-la. E era por causa do Mickey [Michael Shuman, o baixista]. Então eu disse-lhe [imita voz de comando]: «tu não gostas destes versos? Ou não estamos a fazer isto bem?». E ele reconheceu: «isto não é para mim». E eu [novamente duro]: «muito obrigada!». E começámos a trabalhar em versos novos. E lá conseguimos [mudar a música]. Mas isto só aconteceu porque ele se sentiu à vontade para ser honesto. Eu sinto que este é o exemplo perfeito de como funciona a nossa banda: toda a gente se sente em segurança para ser honesto.

Na vida «real», fora do contexto de uma banda, a honestidade é sempre importante para desbloquear situações e tentar melhorá-las…
Mas eu olho para isto da seguinte forma. Comecei a fazer meditação transcendental, porque me ajudou a deixar de estar tão zangado com o mundo. (risos) E uma das coisas que aprendi foi a redirecionar a minha compreensão. A razão pela qual uso a palavra «honestidade» quando estou a fazer discos é porque eles são um microcosmos de uma boa situação na vida, ou de uma má situação na vida. Depende de como os fazemos. Sei que, se formos honestos a fazer discos e na forma como nos tratamos uns aos outros, não só comeremos as papas na cabeça à maior parte das bandas (risos), mas também poderemos aprender coisas sobre nós mesmos e tornar-nos pessoas melhores. Quando completamos um disco [com sucesso], podemos livrar-nos de coisas horríveis, podemos crescer, e… Porque nós estamos sempre ou a crescer, ou a morrer. Por isso é que, quando o Nick [Oliveri] estava na banda, o [Mark] Lanegan [que saiu em 2005] estava na banda… São grandes momentos na nossa história, mas estávamos a morrer, a afastar-nos uns dos outros a toda a hora, sabes? Tentámos aguentar isso o máximo de tempo que conseguimos, mas nunca poderia ter durado. Quando as pessoas me dizem: «quero o Nick de volta à banda», eu respondo-lhes: «tu queres é agarrar-te a esse momento para sempre, mas não é possível. Não é assim que funciona». E a banda, agora, é mais forte do que nunca. Nunca fomos tão bons ao vivo. Corremos grandes riscos e, ao mesmo tempo, somos como uma máquina. (risos)

Uma máquina sexy…
Pois, mas corremos grandes riscos, e tudo no momento! Estamos sempre a alterar coisas [nos concertos], e eu tenho orgulho nisso, porque não vejo isso a acontecer em muitas [bandas]. E isto só é possível graças ao sentimento de segurança que todos temos e que nos permite ser honestos. É muito importante podermos contar com isso. Porque esta merda não vai durar para sempre, mas está aqui, agora, e isso é maravilhoso.

Queens of the Stone Age em 2017

Queens of the Stone Age em 2017

Andreas Neumann

Guitar hero ao vosso dispor

Além de «dono» da banda, para a qual reconhece levar a maior parte das ideias que dão origens aos álbuns, Josh Homme é altamente apreciado enquanto guitarrista. Nascido em maio de 1973 em Joshua Tree, o californiano cresceu com o deserto em redor e começou a tocar música para se entreter; na altura, imaginava que viria a seguir os passos do pai, tornando-se empreiteiro, não sonhando com um futuro como estrela rock. Aos nove anos pediu uma bateria, mas «só» recebeu uma guitarra; aos 12, criava a primeira banda, os Autocracy, e aos 14 delineava o primeiro esboço de um outro grupo – os Katzenjammer –, que viriam a metamorfosear-se naquilo que viríamos a conhecer como Kyuss. Inicialmente, nos Katzenjammer, Josh Homme era o guitarrista. Só mais tarde, já nos Queens of the Stone Age, assumiria, com relutância, o papel de vocalista principal e frontman, cargos em que hoje é reconhecido pela sua excelência. Contudo, pressentimos pela forma como comenta os seus méritos nesse campo, é muito provável que, ainda agora, Josh Homme se veja fundamentalmente como guitarrista e agitador, mais do que como cantor.

Uma das primeiras canções que escreveu para este álbum, «Villains of Circumstance», começou por ser apresentada de forma acústica, no festival Meltdown, em 2014. Não costumamos pensar em si de guitarra acústica em punho – também costuma tocá-las?
Sim! Costumo dizer que, se uma canção não resultar em acústico, não vai resultar noutro formato. Quando reduzimos as canções à sua versão acústica, ou quando as tocamos apenas ao piano, elas até ficam melhores, de uma forma estranha e extrema. Mas um dos donos da nossa editora, o Chris Lombardi, disse-me que achava que as pessoas não sabem que nós tocamos em acústico, embora até já tenhamos dado muitos concertos acústicos. E eu: «a sério? As pessoas não sabem disso?». Por isso, acho que, no futuro, vamos tentar emendar esta ideia que fazem de nós, [atuando mais nesse formato].

Quando era miúdo, quais os guitarristas que mais o impressionaram e deram vontade de pegar, também, no instrumento?
Na verdade, tudo começou com o Jock, dos GBH [Colin «Jock» Blyth, guitarrista dos Charged GBH, banda punk inglesa formada em 1978]. E depois o Greg Ginn, dos Black Flag, que eu, de certa forma, sempre considerei um guitarrista de jazz. A ideia que eu retirei deles foi: estas pessoas estão a ser elas próprias. Então e quem sou eu, neste instrumento? Também há um guitarrista da minha terra que, quando estava a começar a tocar, me ensinou essa filosofia, essa maneira de pensar. O seu nome é Mario Lalli e a sua banda, na qual ainda toca, são os Fatso Jetson [soletra o nome da banda]. Ele tinha uma forma de encarnar a sua personalidade, através da sua guitarra, que me levou a pensar que eu tinha de encontrar a minha. Porque quero que qualquer pessoa perceba logo que sou eu a tocar, nos primeiros três segundos [da música]. O guitarrista dos B-52’s, [Ricky Wilson], com a sua guitarra de quatro cordas, também era espetacular. Eu era um miúdo e pensei: «uau, ele não parece mais ninguém! Creio que romantizei a ideia de nos encarnarmos na guitarra, sem [a pressão] de um grupo de pares. Pareceu-me uma forma romântica de dizer: «isto sou eu».

Também como vocalista, tem uma voz muito especial, sendo capaz de momentos mais agressivos e de outros mais doces, sempre de forma muito melódica. Sempre retirou prazer de cantar?
Obrigada, é muito simpático da tua parte dizeres isso. Na verdade, eu não sei muito sobre [o ato de] cantar. Nunca tive aulas, nunca andei na escola para aprender – na verdade, o que tenho feito é lidar com a ferramenta que tenho. Por exemplo, não consigo berrar. Já houve alturas em que me apeteceu gritar: «aaahhh!». E não consigo, fica a parecer que tenho 13 anos. Sinto que cantar é um pouco como andar às escuras. Estou a tentar perceber o tamanho do quarto – da minha voz – enquanto estou no escuro. No início, não gostava de cantar e não gostava da ideia de vir a ser na banda «o tipo que canta». Mas, à medida que os anos foram avançando, essa noção tola desvaneceu-se e hoje posso dizer que adoro cantar para os meus filhos [Josh Homme é pai de uma menina, Camille Harley Joan, de 11 anos, e dois rapazes, Orrin Ryder, de 6, e Wolf Dillon Reece, de 1]. Adoro poder cantar sobre os meus medos e sobre as coisas que me dão alegria ou sobre aquele sentimento de «aleluia!». Sinto que há instrumentos que podem chegar a determinados sítios que outros instrumentos não alcançam. Da mesma forma, há certos sítios a que podemos chegar cantando. Não sei, acho que o meu objetivo passa por fazer alguém chorar, a certa altura. Não sei por que razão a minha fantasia tem esse lado negro, mas a verdade é que tem.

Em 2016 trabalhou com o Iggy Pop em Post Pop Depression, aquele que o próprio diz ser o seu último álbum de sempre. E também andaram juntos em digressão. Hoje em dia, mantêm o contacto?
Que dia é hoje? [Era terça-feira] Ainda no domingo falei com o Iggy, porque senti saudades e quis falar com ele. Então ficámos à conversa uma hora. Eu simplesmente valorizo a oportunidade de poder ouvi-lo a falar. (risos) Sempre que posso pegar no telefone, fazer a chamada e ouvir a voz do Iggy Pop, e sentir toda a sua experiência de vida a vir do outro lado [do telefone]… Dou mesmo muito valor ao simples facto de ele atender sempre o telefone quando lhe ligo!

Quando andou em digressão com o Iggy Pop, tocava guitarra. Não era o vocalista nem o frontman. Foi estimulante ter essa experiência?
Mais uma vez, fiquei foi todo contente por poder dançar! Já não acontecia há tantos anos… Nos Eagles of Death Metal toco [bateria] sentado, e adoro, mas já há muito tempo que não tinha liberdade na cara e nas pernas. (risos) Essa liberdade de cara e de pernas é maravilhosa. E até nos olhos… Porque posso ficar a ver o efeito daquilo que se está a passar. Permite-me fazer parte do espetáculo, ou seja, estou a tocar na banda e, ao mesmo tempo, faço parte do público. É, decididamente, a coisa mais fixe que já me deixaram fazer.

Recentemente, o rock perdeu Chris Cornell e Chester Bennington, vítimas de suicídio. Parece-lhe importante debater a saúde mental no mundo da música?
(Pausa) Não sei. Tenho dúvidas… Penso que, quando estamos dispostos a dedicar a nossa vida à arte, a instabilidade faz parte daquilo que aceitamos. Não é por isso que é mais fácil, mas torna-se parte da rotina diária de estarmos vivos. No fundo, o que tu fazes [enquanto artista] é tentar amplificar as coisas. Então nunca pensei nessa discussão, da forma como te referiste a ela. Porque amplificar desgostos e alegrias é o nosso trabalho. É isso que fazemos. Sentamo-nos na beira do precipício, com os pés a balouçar e os tornozelos bem firmes no chão, a documentar o que vemos. Algumas pessoas caem. Sempre foi assim. E outras pessoas afastam-se do precipício e não chegam a ver. E eu sinto… Não quero parecer frio, mas penso que talvez seja esse o preço que aceitas pagar. Não quero que ninguém se mate, e Deus sabe que já estive num buraco o mais fundo possível. Mas, mais uma vez, eu não espero que o mundo seja bonzinho. Bonzinho para mim. Essa talvez seja a exigência mais tola de entre todas aquelas que fazemos ao mundo.

Em entrevista à Rolling Stone, este ano, disse que, independentemente do que aconteça, continuará sempre a fazer o que sempre fez. «Podem dizer que é porque sou livre, porque sou americano, porque sou do punk rock ou porque sou um palerma. Mas vou continuar a fazer o que faço». Sempre foi assim tão determinado e seguro do que pretende fazer? Esta força de vontade acompanha-o desde sempre?
Eu sinto que persigo sempre alguma coisa. E, se parar, vou perdê-la para sempre. Pelo contrário, se continuar a correr, posso vir a alcançá-la. Na digressão que fiz com o Iggy Pop, consegui tocar-lhe. Com os Queens of the Stone Age já cheguei perto. Com os Eagles of Death Metal já estive muito perto. É quase como se estivesses a olhar para uns círculos que estão a girar. A certa altura, vão estar todos alinhados e tu consegues ver o que se passa do outro lado. Depois de conseguires ver para o outro lado, se souberes que consegues passar para o lado de lá e se não o fizeres, isso faz de ti o quê? O que me motiva não é… [hesita] Eu não estou aqui para tentar fazer amigos, nem estou aqui para tentar ganhar dinheiro. E não estou a tentar ter a maior banda do mundo. Estou [sublinha] a tentar ter a melhor banda do mundo. Não sei o que isso significa, mas sei que não posso ficar em casa, sentado a ver televisão, e a sentir-me bem em relação a isso. Se eu tivesse uma alternativa… A questão é que sinto que não tenho alternativa alguma. Por isso, sigo viagem agarrado ao volante [«chained to the wheel it is].

Publicado originalmente na BLITZ de setembro de 2017