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Ricardo Camacho

Adriana Freire

Ricardo Camacho (1954-2018): o discreto 'arquiteto' da modernidade pop portuguesa dos anos 80

Ricardo Camacho foi um dos importantes pilares da modernidade que a música portuguesa começou a desenhar na década de 80, quando, já em ambiente de total liberdade conquistada com o 25 de Abril, uma nova geração começou a sacudir a mentalidade “orgulhosamente só”, a assumir que as canções não estavam obrigadas a serem espaços doutrinários e que a pista de dança podia também ser um espaço de liberdade

O músico começou, na verdade, por ser aspirante a médico quando chegou a Lisboa no arranque dos anos 70, vindo da Ilha da Madeira, onde nasceu em 1954. A primeira fase universitária não resistiu ao apelo da música, interesse que mantinha desde criança, quando iniciou estudos na Academia de Música da Madeira. Começou por trabalhar na rádio, foi realizador no programa 'Rock em Stock', de Luís Filipe Barros, e não demoraria a aproximar-se da Valentim de Carvalho.

"Ainda estudava e começou a trabalhar comigo na parte de Artista & Repertório Internacional”, recorda hoje à BLITZ Francisco Vasconcelos, atual diretor da editora de Paço de Arcos. "Ajudava-me a ouvir os discos que recebíamos, as maquetas, para planearmos as edições". Nesta editora trabalhava também, no arranque dos anos 80, Nuno Rodrigues, músico da Banda do Casaco à época a braços com um artista especial chamado António Variações. Camacho foi chamado a deixar o seu toque especial nos teclados no single de estreia de Variações, “Estou Além”, que tinha “Povo Que Lavas no Rio” no Lado B, e que chegaria às lojas em 1982.

Descrito por David Ferreira como “uma peça importantíssima na carreira de António Variações” (nas páginas da biografia do malogrado cantor, assinada por Manuela Gonzaga), Ricardo Camacho já tinha na altura trabalhado com os GNR e com Manuela Moura Guedes (é autor da música e toca no single 'Foram Cardos, Foram Prosas', que contava com letra de Miguel Esteves Cardoso) e sentia-se bastante próximo de uma vanguarda pop nacional: “Se a produção fosse minha tinha ido buscar o Tóli [César Machado] e o Vítor Rua, com quem estava mais habituado a trabalhar no âmbito dos GNR”, recordava Camacho à escritora Manuela Gonzaga, quando foi questionado sobre esse primeiro momento da discografia de Variações. “Entretanto ninguém parecia entender o que o António queria. E eu pedi: deixem-me ficar sozinho com ele, vão tomar um café. Ele queria fazer uma versão do 'Povo Que Lavas no Rio', o que era muito corajoso. Pegar numa coisa da Amália, já é corajoso, mas logo aquela! Eu pergunto-lhe, António, queres que isto soe como? E ele diz aquela frase emblemática: “entre Nova Iorque e a Sé de Braga”.

Um ano depois de Variações se estrear, Ricardo Camacho assegurou a produção de outro primeiro single, este a cargo de uma banda chamada Sétima Legião. 'Glória' era o primeiro sinal de uma novel aventura discográfica que procurava fazer a ponte entre a ainda incipiente pop nacional e as mais aventureiras propostas que iam chegando vindas de Manchester. A Fundação Atlântica, criada por várias pessoas, incluindo Pedro Ayres Magalhães, dos Heróis do Mar, e o jornalista Miguel Esteves Cardoso, contava igualmente com Ricardo Camacho a bordo desde o primeiro momento.

“Queríamos procurar alternativas ao rock português. Havia muita formatação criada pelas editoras. Havia exceções, claro, como os GNR ou o António Variações. Mas sentíamos que havia mais coisas assim e essas não tinham casa. O Miguel Esteves Cardoso tinha voltado de Inglaterra, onde observou o fenómeno das editoras independentes e se entusiasmou com esse modelo. Isso servia-me, porque nunca fui agarrado ao dinheiro. O Pedro também tinha um espírito muito independente e qualquer ideia que lhe permitisse mexer sem supervisão seria sempre atraente para ele”, recordou Ricardo Camacho à revista BLITZ em 2012.

Na Fundação Atlântica, Ricardo Camacho trabalhou em vários projectos, de Anamar e do Clube Naval aos Xutos & Pontapés – a quem produziu o histórico single de 1984 'Remar, Remar' / 'Longa Se Torna a Espera' –, mas o seu cruzamento com a Sétima Legião foi o que lhe rendeu a sua maior “pegada” no universo musical português. “Nós tínhamos tocado dois temas numa festa do segundo aniversário do Rock Rendez Vous e o Ricardo viu-nos e abordou-nos para trabalharmos com eles dizendo ‘isto é o meu sonho, uma banda assim’", contou Pedro Oliveira, vocalista da Sétima Legião, à BLITZ, em 2008.

A Sétima Legião nos anos 80. Ricardo Camacho é o terceiro a contar da direita

A Sétima Legião nos anos 80. Ricardo Camacho é o terceiro a contar da direita

Arquivo BLITZ

O sonho foi cumprido com "A Um Deus Desconhecido", o primeiro álbum da Sétima Legião, editado em 1984 pela Fundação Atlântica e já com Ricardo Camacho como membro de pleno direito. Sobre esse trabalho, o teclista haveria de se pronunciar mais tarde, em entrevista ao 'Público': “É um disco muito diferente de tudo o que se fazia na altura, que recuperava algumas coisas do passado mas que ao mesmo tempo estava completamente integrado no seu tempo.” Esse foi o início de um percurso muito particular na música portuguesa: os álbuns "Mar d’Outubro" (1987) e "De Um Tempo Ausente" (1989) fecharam a década de 80 em alta, graças aos sucessos radiofónicos de 'Sete Mares' e 'Por Quem Não Esqueci'. Os anos 90 trouxeram mais três lançamentos – "O Fogo" (1992), "Auto de Fé" (trabalho ao vivo de 1994) e "Sexto Sentido" (1999). Nesse período mais tardio da vida da Sétima Legião, a marca de Ricardo Camacho foi aliás ficando mais pronunciada no som geral da banda, aproximando-se de algumas experiências eletrónicas que iam rasgando novos terrenos no plano internacional, com um imaginativo uso do 'sampling'.

Para lá da Sétima Legião, Ricardo Camacho foi realizando trabalho pontual de produção, tendo inscrito o seu nome em fichas técnicas de trabalhos dos Diva ou dos Pop Dell’Arte e até dos Da Weasel – assinou, em 1997, ao lado de Amândio Bastos, uma remistura para o tema “Duia” do álbum "3º Capítulo".

Sobre o trabalho de Ricardo Camacho, pronunciou-se um dia António Sérgio nas páginas da BLITZ. O radialista, com quem Camacho haveria de colaborar, assinando o memorável indicativo de 'A Hora do Lobo' (programa de Sérgio na Comercial e depois na Best Rock entre o final dos anos 90 e o início dos 00), não se poupou nos elogios a 'Glória', o clássico primeiro single da Sétima Legião: “alguém me mostrou o tema num walkman ainda antes da edição e eu recebi-o com um rasgado entusiasmo, tal como acontecera com o primeiro single dos GNR. Foi em pleno e longo corredor da Comercial, e esperei apenas pela cópia para rodá-lo no 'Som da Frente'” recordou então o radialista, que acrescentaria ainda que “apesar de ter sempre dado grande apoio aos rockers nacionais, a Sétima trazia-me algo de fresco, de cosmopolita, o som hoje ‘roufenho’ ligava-nos irremediavelmente ao que de melhor nos chegava das Ilhas Britânicas e aquela capa era sem dúvida muito ‘savilliana’”. Para António Sérgio aquele era, definitivamente, o nosso som da frente, a nossa grande marca de vanguarda pop. E muito graças ao trabalho de Ricardo Camacho.

O teclista voltou a pisar os palcos com a Sétima Legião em 2012, celebrando, no Coliseu dos Recreios três décadas de uma história singular. Na ocasião, Mário Rui Vieira escreveu na BLITZ que, findo o concerto, “os sorrisos estampados nas caras dos Sétima Legião encontraram espelho nas de todos aqueles que reavivaram memórias com décadas de existência”.

No palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 2012. Rodrigo Leão em segundo plano

No palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 2012. Rodrigo Leão em segundo plano

Rita Carmo

Nas últimas décadas foi, no entanto, a medicina que concentrou boa parte da sua atenção. Depois de concluir o curso, Ricardo Camacho tornou-se um sério investigador de questões de imunologia e virologia, tendo contribuído bastante para estudos em torno da sida. Trabalhou em departamentos de investigação no Hospital Egas Moniz e, na Bélgica, no Rega Institute for Medical Research, em Lovaina. Foi nesse país, onde há anos residia e dava aulas ao nível universitário, que foi hospitalizado com um cancro nos pulmões a que acabou por sucumbir.

Ricardo Camacho, médico

Ricardo Camacho, médico

Inácio Ludgero/Visão

Ricardo Camacho ausentou-se agora, definitivamente, aos 64 anos.