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Ozzy Osbourne na Altice Arena, Lisboa, 2 de julho de 2018

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Será que já é outra vez 'cool' gostar de Ozzy Osbourne? Depois do concerto de 'despedida' na Altice Arena, a resposta só pode ser uma

Aquela que é a segunda digressão de despedida da voz dos Black Sabbath passou esta segunda-feira pela maior sala do país, a Altice Arena, não tendo sido autorizado o registo de imagens pela imprensa. Vimos um 'tio excêntrico' ou o último gigante do heavy metal?

José Miguel Rodrigues

Cinco décadas de carreira e já na segunda digressão de despedida, torna-se cada vez mais relevante discutir o que será o legado de Ozzy Osbourne. Como vocalista e frontman dos inimitáveis Black Sabbath, líder da sua banda a solo e figura de proa nos círculos do heavy metal, por esta altura o músico nascido John Michael Osbourne a 3 de Dezembro de 1948 em Aston, Inglaterra, é uma figura incontornável. E é senhor de um percurso feito de altos e baixos, triunfos e fracassos, quase todos dignos de hipérbole, a que poucos são os que conseguem ficar realmente indiferentes. O trabalho que o duplo-O desempenhou com os Black Sabbath, cujos primeiros seis álbuns desempenharam um papel crucial na criação do evangelho a partir do qual o heavy metal foi moldado, é intocável. Assim como parte da carreira “a solo”, que – muito graças à sua associação a guitar heroes do calibre de Randy Rhoads, Jake E. Lee e Zakk Wylde – acabou por revelar-se tão, se não mais, influente. O problema é que, a dada altura, o jogo mudou, quiçá à força dos dólares ou da relevância.

Quando, em 2002, a MTV transmitiu o primeiro episódio do reality show The Osbournes, o mais certo é que ninguém – nem Sharon, a mulher – pudesse prever o que esse tipo de exposição poderia fazer à reputação de Ozzy. E, de rompante, o Prince of Darkness, movido a doses cavalares de drogas e álcool, capaz de arrancar a cabeça a uma pomba com os dentes frente aos executivos de uma editora, transformou-se num alvo fácil de memes e piadas tristes. Não vai ser fácil esquecer aquela cena em que o músico fica perdido, a tremer como varas verdes e a chamar em desespero pela mulher, no jardim da sua mansão. É, no entanto, simples desculpar os negócios questionáveis graças a uma ética de trabalho a que ninguém se pode sequer atrever a apontar o dedo e, hoje, o músico está outra vez na mó de cima e a protagonizar uma segunda digressão de despedida, apelidada No More Tours II, que, antes de chegar à Europa, moveu multidões do outro lado do Atlântico. Será que, em 2018, é outra vez cool gostar do Ozzy?

A resposta a essa questão vai ter de ficar para depois, uma vez que, antes de vermos Ozzy em palco, ainda havia que sentir o pulso aos Judas Priest do Séc. XXI. Às 20:00, os convidados subirem pontualmente ao palco e atacarem de imediato uma sala já muito bem composta com 'Firepower', tema de abertura e de título do mais recente registo da banda de Birmingham. É sabido que, misturando tudo o que de bom fizeram ao longo da sua longa carreira, o álbum marcou um regresso à forma para Rob Halford e companhia. Em palco, reforçaram essa ideia, com uma entrega de heavy metal musculado que, nos clássicos como 'You Got Another Thing Coming' ou 'Turbo Lover', nunca descarta uma atitude que continua a estar enraizada nos 70s e 80s. Apesar de ter “perdido” os seus dois icónicos guitarristas nos últimos anos – K.K. Downing afastou-se em 2011 e, no início do ano, Glenn Tipton viu-se forçado a abdicar dos palcos devido à progressão da Doença de Parkinson de que padece –, o grupo continua ainda a conservar a sua identidade intocada.

A dupla Faulkner e Sneap nas guitarras e a secção rítmica composta pelo discreto (mas sempre sólido) Ian Hill no baixo e Scott Travis na bateria, imprimiram uma energia notável a um alinhamento que resumiu de forma equilibrada uma carreira brilhante e (quase) tão influente como a do cabeça-de-cartaz desta noite. Foi, de resto, Travis que acabou por dar o mote para 'Painkiller' que, com a capa do álbum de 1990 como pano de fundo do palco, foi um dos pontos mais altos da atuação. Os outros foram a confirmação de que, tantos anos depois e mesmo com a ajuda de doses generosas de delay no micro, Halford continua a conseguir abanar estruturas só com a voz; a sequência inicial composta por 'Grinder', 'Sinner' e 'The Ripper'; a Harley Davidson em palco para 'Hellbent For Leather'; e, na reta final do concerto, a aparição surpresa de Glenn Tipton em palco, que se juntou aos seus ex-companheiros e que, verdade seja dita, merecia ter sido ainda mais aplaudido. A fechar, 'Metal Gods' e 'Breaking The Law' soaram “no ponto” e, dúvidas restassem, os veteranos britânicos serviram para, na hora das contas, reforçar a ideia de que o heavy metal tradicional está vivo e de boa saúde. Os fiéis curiosos para vê-los em nome próprio podem regozijar porque, segundo uma enorme projeção no cenário, “THE PRIEST WILL BE BACK”.

Passavam poucos minutos das 21:50, os Judas Priest tinham saído de cena há três quartos de hora e, tendo em conta a antecipação quase palpável no ar, não é preciso sequer ouvi-lo cantar para perceber que, muito provavelmente, nunca deixou de ser cool ver o Ozzy ao vivo e a cores – num palco, e não num ecrã de televisão. Só isso e aquele aniversário da Rainha de Inglaterra, que nos impediu de vê-lo em 2002, podem justificar o estrondo que o pequeno filme com imagens vintage que, com 'O Fortuna' de Carl Orff a providenciar o caráter épico que se pretendia do momento, provocou. Quando o músico entra em palco, decorado com uma enorme cruz e um ecrã, se dirige ao microfone e dá as boas noites já tem o público na mão e, depois, dois dedos de conversa bastam para acender o rastilho... “I want you to go crazy tonight”, diz ele como se esta gente estivesse aqui para outra coisa. “The crazier you go... The crazier I go!”, explica. “Are you ready?!?!” A plateia responde em uníssono, mas o Ozzy não está satisfeito e o “LOUDER!!!” que se seguiu, como se de um apelo primordial se tratasse, seguido pelos primeiros acordes da 'Bark At The Moon', deram o tiro de partida certeiro para uma atuação que encheu as medidas dos fanáticos e dos curiosos, calou más línguas e, na essência, serviu entretenimento de qualidade superior.

Pese a ocasional nota ao lado (o que acaba por ser pouco relevante se tivermos em conta que nunca foi o cantor mais afinado ou técnico do mundo), Ozzy fez, como sempre, valer o sentimento e o divertimento face a tudo o resto, mas também fez por mostrar que a voz está muito melhor do que alguns previam. A sequência de abertura, que ficou completa com 'Mr. Crowley', 'I Don't Know' e 'Fairies Wear Boots', a primeira (e muito aplaudida) recordação do legado Black Sabbath, serviram para perceber isso. Nesta No More Tours II é por altura do quarto tema, 'Suicide Solution', e com o avançar da setlist, que o foco da atenção deixa de estar só no frontman. 'No More Tears' e 'Road To Nowhere', em versões bem sólidas, servem para mostrar o talento e versatilidade dos músicos que acompanham Ozzy. Rob “Blasko” Nicholson é o baixista sólido que já sabia da associação a Rob Zombie e Adam Wakeman – nos teclados e ocasional segunda guitarra – parece ter herdado parte do talento do pai (Rick Wakeman dos Yes), mas as verdadeiras “estrelas da companhia” são Tommy Clufetos e Zakk Wylde.

Por muito elaborado que seja um espetáculo de luzes, como foi o caso nesta noite, algo que nunca vai deixar de suscitar admiração é ver uma estrela a iluminar os seus petizes, ainda mais quando isso dá liberdade a um virtuoso como Wylde para descer para uma das pontas do fosso da segurança, destilar lá o solo de 'War Pigs' e, primeiro com a guitarra atrás das costas, depois a tocar com os dentes, percorrer a extensão da boca de palco sem falhar uma nota, protagonizando um daqueles momentos para mais tarde recordar. Dando também tempo ao vocalista para recuperar o fôlego, os instrumentistas atacaram de seguida um medley com partes de 'Miracle Man', 'Crazy Babies', 'Desire' e 'Perry Mason', sendo que o endiabrado Tommy Clufetos acabaria ainda por rematar esta dose de auto-indulgência própria de um grande concerto de rock com um solo estrondoso. Com Ozzy revigorado, daí ao final do espetáculo as coisas aconteceram num ápice, sucedendo-se 'I Don't Want to Change the World' e 'Shot in the Dark', que culminariam de forma algo vertiginosa em 'Crazy Train', numa emotiva 'Mama, I'm Coming Home' e numa versão muito rápida (quiçá demasiado) de 'Paranoid', outra recordação, esta de 1970, para os Black Sabbath.

São 23:30, soam os últimos acordes de 'Changes', em versão gravada, através do P.A. e, depois de ver Ozzy a suar literalmente as estopinhas no palco da Altice Arena durante pouco mais de 90 minutos, é impossível dizer que não vimos um grande espetáculo. Mesmo que ainda haja por aí quem insista em vê-lo como o tio excêntrico, com um parafuso a menos, que gosta de ser o bobo da festa e de dizer uns disparates sem filtro, não há como negar que, apesar dos altos e baixos, das decisões questionáveis, e até da idade, este homem continua a ser o gigante que mais ninguém é, hoje em dia, no universo da música pesada. Apoiado num alinhamento escorreito, composto pelos maiores êxitos do seu percurso a solo, algumas escolhas menos óbvias e três canções do repertório dos Black Sabbath, naquele que foi um proverbial “Olá! Adeus!” aos fãs portugueses após o cancelamento da participação naquele longínquo Ozzfest, Ozzy não só provou a sua relevância pessoal em vésperas da reforma como a do rock como género musical válido – e, mais importante, intemporal – numa altura em que se voltou a vaticinar a sua morte.

Alinhamento:

Bark at the Moon
Mr. Crowley
I Don't Know
Fairies Wear Boots (Black Sabbath)
Suicide Solution
No More Tears
Road To Nowhere
War Pigs (Black Sabbath)

Medley: Miracle Man / Crazy Babies / Desire / Perry Mason
I Don't Want to Change the World
Shot in the Dark
Crazy Train
Mama, I'm Coming Home
Paranoid

NOTA: A imprensa foi impossibilitada de fotografar o concerto de Ozzy Osbourne.