Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Isaura

Rita Carmo

Um álbum partido ao meio, a provação da Eurovisão e um futuro que pode ser “em português”. Isaura em entrevista

Na conversa com a BLITZ, Isaura recorda a relação de grande proximidade que mantinha com a avó e explica a decisão de trabalhar com vários produtores no seu primeiro álbum “Human”, acabado de editar

Até chegar a “Human”, o álbum de estreia editado recentemente, Isaura foi construindo um percurso musical seguro, mas pouco regular. Deu-se a conhecer ao público português no concurso televisivo de talentos vocais “Operação Triunfo”, em 2010, editando cinco anos depois o primeiro EP, “Serendipity”, no qual mostrou a sua queda para a pop eletrónica. Há dois anos, começou a trabalhar em “Human” e, depois de mostrar os singles ‘I Need Ya’ e ‘Busy Tone’, embarcou, já este ano, numa nova experiência: participar como compositora no Festival da Canção. O seu tema, ‘O Jardim’, escrito para se despedir da avó, falecida no ano passado, e interpretado por Cláudia Pascoal, acabou por ser escolhido pelo público português para representar o país na Eurovisão.

Em entrevista à BLITZ, a artista fala não só sobre a experiência “sem preço” da Eurovisão, como também sobre aquilo que a fez dividir “Human” em duas partes, a decisão de colaborar com uma série de produtores (entre os quais Diogo Piçarra, de quem é amiga e com quem já colaborara no dueto ‘Meu É Teu’), a relação de grande proximidade que mantinha com a avó e a possibilidade de, no futuro, gravar um álbum totalmente em português. “Foi um ano com muita informação, muitas experiências novas e ainda não parei para fazer o meu balanço”, confessa depois de revelar, também, que já começou a pensar em música nova.

O processo que levou a este “Human”, o seu primeiro álbum, parece mais longo do que foi realmente?
Acho que foi longo… Foi um processo longo, não só pelo tempo mas pelas experiências todas que fui tendo e vivendo. A questão de o álbum estar agendado para abril e, por causa do Festival e da Eurovisão, ter sido adiado faz com que pareça uma eternidade porque estava tudo construído para um momento. Chega ali um momento em que sentes que é o prazo de validade: tens que mostrar aquilo naquela altura ou então vai começar a ficar demasiado distante daquilo que escreveste. Eu estava a começar a sentir isso, portanto acho que foi mesmo no momento certo.

Porquê “Human”? É um “sou apenas humana” ou um “sou humana e isso acarreta estas coisas todas”?
As duas coisas. Cheguei a essa palavra porque queria representar esta coisa de programar um álbum a pensar que ia ser de uma maneira, queria que soasse a isto e àquilo e a outra coisa qualquer, e de achar que tinha tudo controlado, mas depois, de repente, as coisas mudaram. Tudo muda e tens de arranjar convicção e forças e focares-te para levar as coisas a bom porto. Esse processo não é fácil, mas conseguimos. Assim cheguei a “human”.

Na canção que dá nome ao disco começa por cantar algo como “não sou de pedra”, mas termina com “não vou partilhar mais os meus segredos, sou humana”. Encara a exposição das suas fragilidades com cautela?
Não encaro como uma limitação. Não faço canções que não sejam verdade ou baseadas em algo que não conheça ou veja. Acho extremamente difícil escrever sobre coisas que nunca vivi. Já tentei, já pensei “quero escrever uma canção sobre isto”, mas se não tiver qualquer tipo de relação com o assunto é como se soubesse que, espremido, não há ali nada, não se extrai nada. Portanto, é ponto assente, a partir do momento em que escolho fazer canções e partilhá-las com o mundo, que tenho de as fazer sobre mim, a minha vida, a vida dos meus amigos, aquilo que vejo, que me diz alguma coisa. É o que é.

É um disco feminino ou feminista, de alguma maneira? No tema ‘Closer’ há um “she” muito presente, depois a sua avó…
Por acaso não sinto isso. Ainda ontem respondi a uma pergunta parecida, sobre a questão da igualdade de género e, de facto, no mundo em que vivo inserida a desigualdade de género ou essas questões não são um assunto, portanto acho que nunca penso sobre isso. O que pode ser perigoso, porque vivemos num mundo em que não somos todos iguais. Há desigualdades, a vários níveis, e às vezes até me preocupo porque não quero desligar-me desses assuntos e dessas questões que são tão pertinentes. Todos temos de ser ativos a resolvê-las.

Curiosamente, e vendo as coisas por outro prisma, todas as pessoas com quem trabalhou neste disco são homens. Ainda é difícil encontrar mulheres produtoras em Portugal?
Não sei se não há mulheres na música porque não querem estar, se não há mulheres na música porque há menos oportunidades… E não vou dizer que não tive um ou outro episódio desagradável ou que nunca tenha sentido que parece que a minha opinião tem de ser dita três ou quatro vezes porque não é ouvida à primeira… E que não sinta que isso possa ter a ver com questões de género. Mas, no final do dia, rodeio-me de pessoas que me fazem sentir que isso não é um assunto. De facto, nunca pensei no disco como tendo ali um papel ou selo feminista, mas até pode ter e se calhar isso é pertinente.

A decisão de trabalhar com outros produtores deveu-se à vontade de aprender ou foi falta de confiança nas suas capacidades?
Foi a vontade de aprender, sem dúvida, mas acima de tudo o facto de eu reconhecer nestes produtores características muito específicas. Todos eles são super versáteis, fazem trabalhos em vários géneros, com artistas muito diferentes. Reconheço-lhes valências muito específicas que me cativam neles. Na minha cabeça, era engraçado imaginar-me a pegar num beat do Lhast e pôr-lhe as minhas melodias mais pop e a minha forma mais mellow de cantar para ver o que acontecia. Se trabalhasse com o Diogo Piçarra, que é muito mais pop do que eu, o que é que isso me ia trazer de bom? Como ia encaixar uma canção do Cut Slack num caminho novo para onde queria ir? Tudo isto eram quebra-cabeças que eu considerava interessantes. Sentia-me capaz de delinear o círculo, as barreiras, trabalho que gosto muito de fazer: “estas são as balizas e vais trabalhar aqui dentro, fazer tudo o que quiseres. És livre e é como tu quiseres, mas só podes trabalhar com este círculo de sons”. Ser eu a fazer o trabalho de coerência, é muito giro. Muitas vezes, o facto de eu ser coprodutora ajuda logo. E, depois, ter oportunidade de me sentar com estes produtores, que para mim estão no top dos que temos em Portugal, aprender com eles e perceber como é que eles fazem… Foi isso que me deu confiança para produzir metade do disco sozinha. Se não tivesse estado com eles antes, não tinha tido essa coragem.

‘Don’t Give Up’, que abre o álbum, parece mais expansiva do que aquilo que tinha vindo a mostrar. No entanto, é produzida por si…
Eu a produzir, se calhar, sou a mais "diferente". Produzindo sozinha tenho tendência a ir buscar sons mais estranhos, beats mais agressivos… Isso sou eu. É engraçado. Como songwriter, porque parto da guitarra e dessa simplicidade, tenho tendência a fazer as coisas o mais polido e limpinho possível, mas depois, no momento de brincar com a produção sinto sempre vontade de experimentar. Isso também tem a ver com o facto de ter deixado o que tinha que ser eu a fazer para o final: “OK, quais são as partes do puzzle que me faltam?”. Eu é que ia unir as pecinhas. Como já havia muita coisa feita, senti mais liberdade para abrir aquelas balizas de que estava a falar.

Decidiu “partir” o álbum a meio… Chegou a ter vontade de fazer, efetivamente, dois álbuns diferentes?
Senti que não conseguia continuar o “lado a”. Comecei a fazer as primeiras canções há dois anos. Eram coisas mais uptempo, os assuntos mais fáceis, mais leves e as canções eram muito mais pop… Não havia uma carga emocional tão grande nelas. E, de repente, quando perco a minha avó, aquilo deixou de fazer sentido para mim. Não me apetecia fazer aquele tipo de canções. Voltei a sentar-me e tentei continuar os rascunhos que tinha e não consegui. Portanto, ou começava de novo, porque se acabasse ali tinha um EP, não um disco, ou assumia que, de facto, havia uma mudança de estado de espírito muito grande e continuava de outra forma. E foi isso que fez sentido, porque tinha uma história incompleta. Assim, tenho uma história completa, em que passo por sítios diferentes. Não sabia como as coisas iam soar umas com as outras, mas acabei por encontrar um sítio que me fez mais sentido. Houve um momento em que tive vontade que o “lado b” fosse praticamente só guitarras. Depois, consegui que a ‘The Crossover (Intermission)’ marcasse essa diferença. Apesar de não ser só guitarras, encontrei o estado de espírito certo usando sintetizadores mais fechados, mais escuros, beats mais agressivos. Encontrei, assim, essa coerência.

A sua avó era um dos seus maiores pilares?
Sem dúvida. Cresci com a minha avó. Há pessoas que só vão visitar os avós fim de semana sim, fim de semana não. Eu vivi com a minha avó até vir para a faculdade, era mais minha mãe do que minha avó e, portanto, tinha essa proximidade com ela. Quando digo que a minha avó era a minha melhor amiga, é mesmo verdade. Era aquela pessoa que estava sempre ali. Tenho amigos que me dizem “não vejo o meu avô há um mês” e sou a primeira a dizer “mas como? Por que não vais almoçar com o teu avô”. Não percebo isso. Tínhamos uma relação mesmo muito próxima. Desapareceu e deixou um vazio muito grande porque representava muitas coisas… O ir a casa, as refeições, a comida, esse conforto todo. Era essa pessoa.

O ProfJam participa em ‘I Keep Persisting’. A questão de ele cantar em português colocou-lhe algumas dúvidas?
Cheguei àquela parte do disco e senti que precisava da voz de outra pessoa. E nos meus ouvidos só podia ser um rap. Gosto muito da forma como o ProfJam escreve e do flow dele. Nas primeiras ideias que me mandou, estava mesmo a cantar e vê-lo naquela posição era giro. Percebeu muito bem a história praticamente sem eu lhe dizer nada e adoro o que ele escreveu. Encaixa perfeitamente. Quando me enviou a ideia em português, ouvi, fez-me sentido e pensei “também vou cantar umas frases com ele em português”. Eu não fujo do português, nunca parei de escrever em português e gosto mesmo muito. Tinha era esta vontade de explorar uma sonoridade específica com o EP e agora com o álbum. Na realidade, vou-me sentindo cada vez mais próxima do português e com vontade de explorar isso. Portanto, tê-lo ali no álbum a dizer coisas em português, que eu também tinha para dizer em português, soube-me bem.

Imagina-se, então, a gravar um álbum em português no futuro?
Sim, imagino. Quando acabei o EP senti logo isso, do género “já está. Já explorei isto”. E agora, acabei o álbum e tenho sentido “bem, queria experimentar e já está”. Isso vai-me libertando de coisas, é quase a minha bucket list. E depois de, com o ‘Jardim’, perceber que as pessoas em cinco minutos sabiam a minha canção de trás para a frente… É mesmo muito bonito e uma sensação que não me é indiferente. Senti que havia ali mesmo qualquer coisa de especial. Em inglês também acontece, mas as pessoas em vez de cinco se calhar precisam de 20 minutos. É diferente. A língua impõe uma distância. Eventualmente, há de acontecer porque tenho muitas coisas escritas em português e é um desafio: “como é que a Isaura vai soar em português?”. Não sei a resposta nem faço ideia de como vou resolver esse mistério, mas tenho vontade de perceber.

Há artistas em Portugal que parecem ter medo da palavra pop… De onde vem esse amor pelo género?
Eu acho que pop é uma excelente característica. Gosto de cantar as minhas canções, mas antes de qualquer coisa, sou escritora de canções. É isso que faço desde sempre, que gosto mesmo de fazer. E quando ouço uma canção pop penso “isto funciona, está muito bem feito”… Os resultados que as tais canções pop têm não são à toa. Há ali uma estrutura, uma forma de transmitir as coisas, uma simplicidade que é boa. Nem toda a música pop é boa, ou eu não gosto de toda a música pop…

Nem toda a música dita alternativa é boa…
Exatamente… Mas, realmente, há coisas muito bem feitas. Para mim, ser pop é a capacidade de agarrares as pessoas e a tua canção tornar-se popular, chegar a muita gente. Isso é uma excelente característica. Na minha música, às vezes, vacilo. É um pop que vai buscar coisas um bocadinho mais alternativas na minha forma de interpretar, porque tem a ver com as terminações, as palavras, a forma como gosto de largar a mensagem, mas quero sempre que a minha música seja pop.

Encerrando o capítulo Eurovisão, o que sentiu no dia a seguir à final? Suponho que um misto grande de emoções…
Primeiro, senti-me mesmo muito grata pela experiência, porque não tens muitas oportunidades de fazer música e estar como músico num palco com aquelas condições e aquela visibilidade. Isso põe-te à prova. Gosto dessas coisas. Já quando estava na Operação Triunfo, aquilo de que mais gostava era de, todos os sábados, pisar um palco cheio de câmaras, com grandes condições. Isso dá-te uma estaleca diferente. Na Eurovisão… Estás cansada, mas tens entrevistas e muitos ensaios, vais repetir aquilo dez vezes e das dez vezes vais ter que fazer bem. Todo aquele ciclo faz-te crescer e aprender. Sentes-te mesmo à prova. Gostei disso, de perceber como reagia nesse ambiente, como me sentia aí. Não estava à espera de ganharmos o Festival da Canção. Aceitei mesmo compor uma canção e foi só isso. Quando aconteceu, era uma oportunidade e não faria sentido querer continuar com o álbum… Devemos concentrar-nos e fazer bem o que quer que seja, portanto, foi inevitável adiá-lo. Foi por uma boa razão, porque é uma experiência que não tem preço. A questão de representar o nosso país… Fogo, que orgulho! É mesmo uma coisa de que nunca me vou esquecer. Claro que acarreta também uma atenção à qual não estava habituada. As pessoas são muito ligadas ao Festival, ainda por cima a Eurovisão era cá, portanto a atenção foi muita. Agora, dali para o meu trabalho há um salto muito grande e não acho que todas essas pessoas se convertam em pessoas que ouvem a minha música. Não é isso… Mas, humanamente, foi uma experiência gigante.

E como reagiu ao facto de terem ficado em último lugar?
Tinha perfeita noção de que ia ser muito difícil. Ao mesmo tempo, ouvia as outras canções e pensava “epá, acho que temos um top 10, pelo menos”. Mas era a minha opinião pessoal e só sou representativa de mim própria. Não sei o que ouvem nos outros países, não sei de que gostam, quem vai votar naquele dia… Não sei isso. A minha convicção, como música e pessoa que gosta de ouvir canções, era que tínhamos uma canção com tudo para ter uma boa pontuação. Era muito difícil ganharmos ou termos pontuações altas, claro, mas achava que iríamos ficar OK. Isso não aconteceu, mas também não acho que a qualidade da canção esteja dependente do resultado e, portanto, senti-me bem porque tanto eu como a Cláudia fizemos tudo o que podíamos, tudo o que nos era pedido. Ainda por cima, tínhamos a responsabilidade de sermos os anfitriões. Isso implicava uma agenda super carregada e fizemos isso tudo. Lá sentada no sofá a ver os ecrãs gigantes, comecei a perceber “vamos ficar em último”. Claro que um último lugar é pesado, mas nunca fiquei triste. Se tivéssemos feito uma atuação em que, por alguma razão, tivesse havido um deslize ou não tivéssemos cantado bem, aí ficava um bocado chateada porque não estávamos a ser avaliadas no nosso melhor. Mas não aconteceu. Foi o que foi. É fácil saber ganhar e acho que é muito importante, também, saber ter resultados que não são bons. O que fazes com isso? Olha, continuas e a seguir vais trabalhar o dobro. E as pessoas são super carinhosas. Sempre que alguém vem ter comigo é para me dizer coisas boas. Isso é bonito.