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Arca no NOS Primavera Sound 18

Rita Carmo

A chicotada de Arca doeu bem no fabuloso e inesperado ponto final do NOS Primavera Sound

Punk, pop e até reggaeton metralhados na direção dos grandes resistentes ao dilúvio que se abateu sobre o festival do Porto. O que se passou em palco mesmo? Nem o próprio produtor venezuelano - que não se deixou fotografar - parece conseguir explicar

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Sabíamos que havia uma grande probabilidade de o NOS Primavera Sound guardar o melhor para o final, mas se muitos estavam preparados para coroar Nick Cave, outros (muito menos, certamente) estariam ansiosos por ver o que o venezuelano Arca traria para oferecer. O cansaço era muito, a chuva continuava a cair forte, mas nada disso importou quando o homem com o currículo mais invejável do momento (Björk, Kanye West, FKA Twigs, Kelela...) subiu ao palco Pitchfork para arrasar com os últimos restos de energia que os corpos ainda tinham para dar.

A verdade é que já sabíamos que dele podíamos esperar o inesperado, mas sair da atuação (um misto de DJ set com performance artística e terrorista) sem uma gigante pena de não ter ouvido canções magistrais como ‘Reverie’ ou ‘Desafío’ era praticamente impensável. E, contudo, foi isso que aconteceu. Arca fez o que quis e bem lhe apeteceu e a nós só nos restou sorver cada momento como se a nossa vida estivesse nas mãos dele.

Entre momentos que parecem saídos de um episódio do reality show “Drag Race”, vídeos com um tanto ou quanto de perturbador, gritos de ordem atirados ao vento e muitas provocações aparentemente gratuitas, o artista e produtor mostrou que a festa era dele… e ninguém como ele consegue atirar os confettis e deixar a lixeira que fez para os outros limparem. “Vocês enfrentaram a tempestade, meninas. Vocês enfrentaram a chuva. Vocês ficaram até ao ponto em que não dá para voltar atrás”, foram algumas das primeiras palavras que lhe ouvimos. Rapidamente percebemos que aquele não seria um “concerto” convencional.

Coube de tudo numa das atuações mais intensas a que o festival do Porto assistiu este ano. “A chuva é boa para lavar” e um espetáculo de Arca é sempre bom para dançar, quer seja ao som de um êxito menor de Madonna (‘Hollywood’), da violência das batidas, sons eróticos e melodias fantasmagóricas que já se tornaram sua imagem de marca. A facilidade com que o produtor favorito da rainha das eletrónicas islandesas (do mundo?) salta do seu imaginário sadomasoquista (chicote incluído) para a inocuidade de um dos momentos mais disco da carreira da australiana Kylie Minogue (‘Love at First Sight’) é admirável. E no momento em que resolve pedir ao público “mais energia maquiavélica”, já ninguém lhe consegue resistir.

“Isto é uma porra de uma piada, certo?”, ouve-se em palco… Automaticamente imaginamos essa mesma questão a formular-se na cabeça dos menos preparados para o que se estava a passar. Mas nem esses parecem ter dado muita importância aos muitos “wtf?” que terão soltado nos, vá, 10 minutos iniciais da atuação. Pop, violência, punk, disco, drones, reggaeton… Isto e muito mais condensado na hora e picos que vimos Arca em palco. “Estou a divertir-me demasiado… O que se está a passar?”. Mais uma vez a ler-nos os pensamentos. “Sabem o quão entediante é a vida diária? Dancem e não reprimam nada”. Sujo, inesperado, incrível e, no entanto, tão certo: que belo ponto final.