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Nick Cave ao vivo no festival All Points East, em Londres, 3 de junho de 2018

Getty Images

Hoje no NOS Primavera Sound: descida aos infernos e redenção pelo mais bem preparado mestre de cerimónias do rock’n’roll, Nick Cave

O melhor espetáculo em exibição no admirável mundo velho do rock’n’roll está de novo na estrada. Mas algo mudou. Notas sobre o concerto de Nick Cave em Londres no domingo, 3 de junho, no dia em que o australiano encabeça o cartaz do festival do Porto

Que descansem os fãs mais conservadores. Ao invés do que sucedeu no domingo em Londres, onde Nick Cave atuou para uma casa cheia na primeira edição do festival All Points East, Kylie Minogue não estará no Porto. A presença da pequena loira de 'Cant Get You Out of My Head', efusivamente saudada por dezenas de milhares de espectadores no solarengo Victoria Park mas também nas redes sociais e na imprensa britânica do dia seguinte, tem uma probabilidade ínfima de se repetir no NOS Primavera Sound. Por uma simples razão, o reatar do dueto 'Where the Wild Roses Grow' entre estes dois australianos sucedeu apenas porque Kylie se encontra a promover o seu regresso aos palcos, agora que completou 50 anos (mais precisamente na passada quinta-feira, 28 de maio, dia em que fez capa de jornal surgindo sem roupa num diário inglês) preparando assim a digressão que em setembro a levará a percorrer o Reino Unido.

O dueto 'Where the Wild Roses Grow':

Respirai pois de alívio: aquilo que vai chegar ao Porto, depois de se ver o que sucedeu no concerto de Londres, ainda é a melhor reposição da velha história da descida aos infernos e correspondente redenção, interpretada pelo mais bem preparado, na atualidade, mestre de cerimónias do rock’n’roll. Tal como sucede desde a digressão em que foi divulgado o álbum “Push the Sky Away”, os espectáculos de Nick Cave & the Bad Seeds já não são concertos. Nem são sequer apresentações de determinado reportório em que se comunica a música, um estado de espírito ou mesmo um modo de vida. Há muito que Nick Cave trocou a comunicação pela comunhão e isso muda tudo quando sobe ao palco para pegar no público que tem por diante e com ele mergulhar no breu da noite mais escura para ressuscitar, no final, em direção ao dia mais claro. Se quiser tocar, mesmo que fugazmente, a mão do pregador basta estar nas filas da frente. Chega para todos.

Nick Cave ao vivo no festival All Points East, em Londres, 3 de junho de 2018
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É também provável que, à semelhança do espectáculo que decorreu este domingo em Victoria Park, esteja montada uma estrutura, a poucos metros de distância do palco, para onde Nick Cave se desloca para entoar uma ou outra canção, como 'Deanna'. É aí que deve estar se quiser sentir o seu apelo bem de perto.

A qualidade de hipnotizador de Nick Cave:

O concerto de domingo deu pistas preciosas para o que se vai passar sábado, no Parque da Cidade do Porto. Ainda que o alinhamento desta digressão não esteja completamente estabilizado, há várias conclusões que se podem retirar depois dos dois primeiros concertos. Mesmo sabendo que a sucessão de canções apresentada em Londres possa ter sido severamente prejudicada pela introdução, já depois de meio da função, do dueto com Kylie Minoguie em que, a bem da verdade, ela esteve imaculada. Uma primeira certeza desta tournée de Nick Cave: não há vacas sagradas. Lendas, clássicos ou verdades absolutas podem sumir-se do alinhamento. Em Barcelona desapareceu 'Into My Arms', em Londres apagou-se 'Mercy Seat'. Outras como 'Higgs Boson Blues', 'The Ship Song', 'The Weeping Song' ou 'Tupelo' parecem ter-se evaporado de vez. Há opções que se entendem, outras nem por isso. Na minha modesta opinião, a versão de 'Mercy Seat' tocada por este combo superiormente dirigido por Warren Ellis (espectáculo dentro do espectáculo - é bom ficar do lado direito do palco) nunca foi uma das melhores. O que se pode jurar a pés juntos é que a banda continua ensaiada! Há momentos que chegam a roçar a perfeição, como 'Red Right Hand'. Mais esotérica é a entrada em cena de 'Come Into My Sleep', “a canção preferida de Susie”, mulher de Nick Cave...

'Loverman', uma das canções que reentraram no alinhamento:

Além de várias ausências há, porém, que contar com as novas aquisições desta época estival. 'Loverman', 'Do You Love Me?' e 'Deanna' são reforços de luxo para um alinhamento que, porém, não parece ter encontrado ainda a melhor dinâmica. No festival All Points East, a primeira metade terá sido menos feliz, se é que se pode dizer isto, ainda que a interpretação de 'From Her To Eternity' se mantenha um dos pontos altos do concerto. “Deanna”, que faz todo o sentido num alinhamento que parece ser integralmente dedicado ao amor e ao desamor, veio contribuir para a apoteose final.

A invasão de palco do costume, em 'Stagger Lee':

Sim, é nos últimos lampejos que é exigida grande participação da audiência nesta enorme prédica: o trio 'Deanna' (com cânticos em coro que relembram o que sucedia com 'The Weeping Song' e com a banda a soar, inesperadamente, a Beatles!), 'Stagger Lee' (com a já conhecida subida a palco de dezenas de populares) e 'Push the Sky Away' (por vezes com coreografia a lembrar ritual de igreja batista) constituem a estocada final. Sem muita novidade para quem já viu mas capaz de provocar uma epifania nos estreantes. A canção-chave do alinhamento é, porém, 'Jubilee Street', onde, se quisermos, podemos ver o concerto todo de uma ponta à outra, prodígio de síntese de tudo o que se passa durante cerca de hora e meia.

O cântico final de 'Push the Sky Away':

Contudo, a grande, talvez a maior, diferença deste novo espectáculo é tratar-se de uma produção para festivais que decorrem ao ar livre, qual missa campal. Mas não nos iluidamos: foi assim que Nick Cave se apresentou no Porto, também por ocasião do Primavera Sound – no ano da Graça de 2013, ainda o festival era patrocinado pela Optimus – e, convenhamos, surtiu efeito. Ainda assim, não é fácil afastar a ideia de que esta banda sonora tem como habitat as salas fechadas. No Parque da Cidade será outro dia, outra hora. E no Porto, nunca se sabe! Tudo pode acontecer – talvez esta seja uma boa maneira de fechar este texto que já vai longo.

Alinhamento

Jesus Alone
Magneto
Do You Love Me?
From Her to Eternity
Loverman
Red Right Hand
Come Into My Sleep
Into My Arms
Girl in Amber
Where the Wild Roses Grow (com Kylie Minogue)
Jubilee Street
Deanna
Stagger Lee
Push the Sky Away