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As gémeas Ibeyi trazem o mundo às costas até ao NOS Primavera Sound. A entrevista BLITZ

As irmãs Díaz apresentam “Ash”, um segundo disco que amplia uma sonoridade muito particular, esta sexta no festival do Porto. A BLITZ falou com Lisa-Kaindé sobre família, morte e esperança

À primeira vista, Lisa-Kaindé e Naomi Díaz parecem iguais. Não são. Apesar de gémeas, as duas artistas que se apresentaram ao mundo enquanto Ibeyi com o efervescente single 'River', em 2014, são "muito diferentes" e as primeiras a reconhecê-lo. "Temos uma ligação especial", assume Lisa-Kaindé numa chamada que a encontra "no meio do nada", algures no estado norte-americano do Montana, na véspera de um concerto em Seattle. "É engraçado, porque levámos alguns anos a encontrar esse elo. Somos muito diferentes", desenvolve, "mas quando descobrimos a música, percebemos que estava aí a nossa ligação. Este é o laço de gémeas que nos une". Filhas do músico cubano, já falecido, Miguel ‘Angá’ Díaz (Buena Vista Social Club, Afro-Cuban All Stars) e da cantora franco-venezuelana Maya Dagnino, as Ibeyi tornaram-se um caso de sucesso quando a editora independente britânica XL Recordings – casa de nomes como Adele, Arca, Radiohead ou Jack White – reparou nelas e lançou, em 2015, o seu disco homónimo de estreia. Os elogios sucederam-se e o êxito levou-as a tocar um pouco por todo o mundo. É no rescaldo de dois anos de intensa digressão que nasce "Ash", o aguardado segundo álbum que viu a luz do dia no passado mês de setembro. "Este disco é, decididamente, mais aberto ao mundo", assume Lisa-Kaindé quando a questionamos sobre o facto de, contrariamente ao antecessor, no qual lidavam com a morte do pai e da irmã mais velha, "Ash" parecer uma celebração da vida. "O primeiro falava sobre a nossa família e o nosso luto. Este foi feito após dois anos de tour, de dois anos a conhecer pessoas… Estávamos preparadas para falar sobre o mundo e era sobre ele que queríamos falar! Sinto que nos abrimos mais. E depois de dois anos em palco sabemos bem qual a experiência que queremos proporcionar ao nosso público e as canções que queremos cantar, que tipo de emoções queremos transmitir. Isso transformou a nossa maneira de escrever". Hoje, com pouco mais de 20 anos, estão também já longe das canções que a artista escreveu durante a sua adolescência, "somos adultas, agora. Temos um emprego, eu já vivo na minha própria casa… Tudo isso é uma grande mudança na vida de um músico".

"Sempre vimos a morte mais como algo que nos protege do que algo que nos vem buscar. Não temos medo dela", Lisa-Kaindé Díaz

As diferenças entre os dois álbuns vão para lá das temáticas abordadas nas canções, mas Lisa-Kaindé garante que nada mudou na forma como encaram a morte, depois de a abordarem de forma tão íntima em "Ibeyi". "Sempre vimos a morte mais como algo que nos protege do que algo que nos vem buscar. Não temos medo dela, nem eu nem a Naomi. Respeitamo-la muito", garante a artista, "nada mudou… Aliás, todo esse álbum era sobre celebrar as mortes do nosso pai e da nossa irmã. Queríamos celebrá-los com música. Não era um álbum triste, apesar de falar de morte. É isso que gostamos de fazer: falar de assuntos que são difíceis para nós e arranjar forma de os tornar bonitos, alegres e poderosos". É daí também que surgem as canções de "Ash", registo apresentado, precisamente, com uma canção intitulada 'Deathless'. "Queremos escrever canções esperançosas, que nos façam agir e sentir coisas", acrescenta, "porque é isso que escrever nos faz sentir, é isso que criar nos faz sentir. Quando criamos, estamos ativos, temos esperança e o otimismo rodeia-nos, mesmo que criemos algo que nasce de um sentimento doloroso". Em termos sonoros, as novas canções revelam-se menos despidas do que os momentos mais intensos do registo anterior. "Sempre ouvimos música complexa, música pop muito produzida, música funk muito produzida, e, ao mesmo tempo, música muito despida, canções soul e folk… Gostamos de ambas as coisas", explica Lisa-Kaindé, "mas a razão pela qual quisemos fazer um álbum mais produzido prendeu-se, novamente, com o facto de termos andado na estrada durante dois anos… Queríamos oferecer essa experiência aos nossos fãs, canções mais viscerais, mais suadas. E, portanto, fomos buscar mais baixo, elementos mais orgânicos também. Foi uma escolha consciente, produzir mais… Ainda assim, ainda sinto que somos minimalistas, que tentamos colocar o que é estritamente essencial, aquilo que é mesmo impossível de retirar, na nossa música". Esta maior produção, confirma, é "mais desafiante na hora de levar as canções para o palco": "continuamos a ser apenas duas mas temos de tocar um bocadinho mais, temos mais máquinas. No entanto, tentamos sempre adaptar e não levar as canções para os concertos exatamente como as gravámos em estúdio. Há coisas que resultam em CD e depois ao vivo não são necessárias".

Cuba, Beyoncé e família

Da mesma forma que se abriram ao mundo, as Ibeyi deixaram também entrar no seu universo musical uma série de músicos com quem sentem grande afinidade estética. O saxofonista Kamasi Washington deixa a sua marca em 'Deathless', a rapper espanhola La Mala Rodríguez empresta a voz a 'Me Voy', Meshell Ndegeocello participa em 'Transmission/Michaelion' e Chilly Gonzales em 'When Will I Learn'. "Foram as canções que pediram essas colaborações", explica Lisa-Kaindé, "não tínhamos uma lista de pessoas com quem queríamos trabalhar. Fizemos muitos festivais com o Kamasi e colocavam-nos muitas vezes nas mesmas salas porque encontraram os pontos de contacto entre as nossas músicas antes mesmo de nós nos apercebermos deles. Quando estávamos a fazer a 'Deathless', tornou-se óbvio. Enviámos-lhe a música e ele devolveu-nos aquilo que saiu no álbum. Aconteceu o mesmo com a La Mala e o Chilly. Parece mágico, como se estivesse destinado a ser assim. Foi tudo muito orgânico, nada forçado". 'Me Voy' é, também, o primeiro tema escrito e cantado em espanhol que editam. "No início foi problemático, porque era a primeira vez em muito tempo que escrevia em espanhol e aquilo não estava a soar às Ibeyi", confessa, "isso incomodou-me. Se tivéssemos uma canção em espanhol ou francês, tinha de soar tão Ibeyi quanto as canções em inglês. Demorámos algum tempo a encontrar a nossa sonoridade em espanhol, mas quando aconteceu ficámos muito contentes. E a Naomi lutou muito por essa canção. Queria uma canção que fizesse as pessoas dançar". Há uma colaboração que não garantiram no disco delas, mas as Ibeyi já podem colocar no currículo que trabalharam com Beyoncé. A artista norte-americana requisitou a presença da dupla no filme que acompanhou o mais recente álbum, "Lemonade". "Ela partilhou um vídeo da sessão fotográfica que fez para a revista Vogue e tinha uma música das Ibeyi em fundo", recorda Lisa-Kaindé, "ficámos espantadas: 'ela conhece-nos? Incrível!'. Depois, recebemos um email da equipa dela a dizer que nos queria em Nova Iorque… Nem sabíamos para o que era, mas dissemos logo que íamos. E fomos. Ficámos muito lisonjeadas por ela ter pensado em nós. E foi muito especial, até porque éramos as únicas europeias naquele segmento do vídeo".

"Crescemos numa casa onde num momento estávamos a ouvir o Eminem e depois passávamos para o Coltrane… a Britney Spears, o Prince, a Nina Simone. Tudo era música e tudo era bom alimento para a nossa criatividade", Lisa-Kaindé Diaz

A abertura com que encaram a música vem de uma educação musical abrangente. "Ouvíamos todo o tipo de música quando éramos pequenas", diz a artista, "jazz, música iorubá, hip-hop, clássica, pop… as músicas dos topes. Crescemos numa casa onde num momento estávamos a ouvir o Eminem e depois passávamos para o Coltrane… a Britney Spears, o Prince, a Nina Simone. Tudo era música e tudo era bom alimento para a nossa criatividade. Tivemos muita sorte". Cuba foi-se infiltrando na música das Ibeyi através da ascendência nigeriana, "crescemos no meio da cultura iorubá em Cuba e ela sempre esteve presente na nossa música, mesmo que em algumas canções não seja tão óbvia a sua presença. Sinto que vai estar sempre lá, porque é uma grande parte de nós". A educação musical eclética encontra paralelo na forma como o pai olhava para a sua própria música, esclarece: "inconscientemente, o amor que ele nutria por misturar vários géneros musicais também nos influenciou. O nosso pai era um músico muito livre e um homem do jazz. Adorava misturar hip-hop, jazz, r&b, música africana… Tudo". Por seu lado, a mãe mantém-se presente na carreira da dupla acumulando funções de manager e co-escritora de canções. "A razão pela qual adoramos o facto de ela ser nossa manager é o facto de ser nossa mãe. Entende bem tudo o que queremos fazer em termos artísticos. Não temos de explicar quais os nossos planos e onde queremos chegar. Ela simplesmente sabe e isso é impagável", defende a artista, "claro que é difícil, às vezes. Também é difícil trabalhar com a tua irmã gémea! Tal como é difícil trabalhar com quem quer que seja. Mas não consigo imaginar isto de outra forma. Prefiro ter uma discussão com a minha mãe do que com alguém que não conheço. Quando temos uma grande vitória celebramos juntas e quando sofremos um grande falhanço vivemo-lo juntas. Isso é muito importante".