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David Fonseca

Rita Carmo

David Fonseca, o “chato hiperativo” que nos deu um disco de festa para sexta à noite

Com disco novo acabado de chegar às lojas, David Fonseca falou uma hora com a BLITZ sobre o talento “absurdo” de Childish Gambino, a sua paixão pela rádio e pelo cinema e a timidez que nunca o abandonará por completo. “Ainda coro”, confessa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Chama-se “Radio Gemini” e é o novo álbum de David Fonseca. Depois do primeiro disco em português, “Futuro Eu” (2015), o músico voltou às canções em inglês e à vontade de fazer diferente, trocando a casa em Peniche, “berço” do álbum anterior, pela liberdade de escrever e gravar na estrada, com um pequeno sintetizador com gravador incorporado. Eternamente apaixonado pela música - a sua e a dos outros; não se cansa de elogiar Childish Gambino, Arcade Fire ou David Byrne -, David Fonseca é também um conversador de primeira água. Seguem-se os momentos altos de mais uma entrevista sumarenta.

Este novo álbum, “Radio Gemini”, tem um certo sabor a liberdade, a grito de Ipiranga... Foi esse o espírito que lhe assistiu?
O que existiu foi uma maneira muito livre de fazer música, sem questionar em que gaveta [se enquadra]. E isso acaba por se traduzir num exercício de liberdade. Mas o que me entusiasmou mais no disco foi o facto de não ter sido feito de forma estanque ou convencional. Pelo contrário: foi feito em movimento, porque graças à forma como a tecnologia hoje funciona, dei por mim a gravar sintetizadores dentro de aviões, a fazer vozes em comboios, carros ou quartos de hotel. Primeiro, por necessidade de tempo, depois [por opção]. Nesse aspeto, é um disco que traduz essa liberdade do momento; em vez de ser uma reflexão do que se passou lá atrás, foi tudo gravado no momento em que as coisas estavam a acontecer.

Quando fala em gravar em aviões ou quartos de hotel, fazia-o com o smartphone?
Não, com um sintetizador muito pequenino, que tem um gravador de quatro pistas. Dá para gravar vozes, para misturar, para samplar... No tédio das viagens comecei a fazer essas coisas, entusiasmei-me e ainda hoje ando quase sempre com esse instrumento de um lado para o outro, porque me permite ter ideias e executá-las em qualquer sítio.

Houve alguma coisa que o tenha surpreendido muito nestas gravações? Alguma canção que nunca imaginou vir a fazer, por exemplo?
Há uma canção que nunca pensei fazer: chama-se 'Anyone Can Do It' e é um tema de raiz trap, [género] associado ao hip-hop. Como é óbvio, não sou rapper, mas a canção [enquadra-se] nesse tipo de universo musical. Partiu de uma brincadeira muito simples e rapidamente se transformou numa canção muito curtinha, que me deu muito gozo.

Como tem sido a receção do público aos dois primeiros singles, 'So Get Up' e 'Oh My Heart'?
Muito boa. O primeiro tem uma raiz mais soul, o segundo é mais pop e mais variado na sua abordagem. Talvez o 'Get Up' seja mais consensual dentro do seu género, o 'Oh My Heart' recruta 20 pessoas a tocar bateria, com metais, parece uma old band americana... É diferente do que costumo fazer.

20 pessoas? Mas trabalhou com muita gente em estúdio?
Não. Trabalhei quase sempre sozinho e depois fui buscar umas pessoas aqui e ali, para alguns temas, quando não sabia tocar os instrumentos. Mas gigantesca parte do disco foi feita sozinho, com os meus próprios recursos, com os meus sintetizadores.

David Fonseca fotografado por Rita Carmo, em maio de 2018

David Fonseca fotografado por Rita Carmo, em maio de 2018

Rita Carmo

O disco segue uma ideia de programa radiofónico. Que papel teve a rádio na sua vida de fã de música?
O papel da rádio é gigantesco. Foi através da rádio que comecei a ouvir música a sério, porque até aí só ouvia - como toda a gente da minha idade, nos anos 80 - a música que passava na televisão. Quando eu tinha 12 ou 13 anos, o que passava na televisão era o que se ouvia. Só depois comecei a ouvir o “Som da Frente” e os programas mais alternativos. Quando vim para Lisboa comecei a ouvir a XFM e passei a ter uma ligação muito maior com aquilo que eles passavam, porque era música que eu nunca tinha ouvido.

No disco, a rádio apareceu porque estava muito interessado na ideia de frequência. De uma pessoa estar a viver numa determinada frequência de pensamento, de ação. Pensei chamar-lhe “Frequência Gemini”, mas não funcionava tão bem. “Radio Gemini” era mais abrangente, porque o disco funciona como uma playlist. Não é por acaso que o disco tem exatamente uma hora - é uma hora de programa, como se eu fizesse o meu próprio programa de rádio. Como fiz rádio durante muito tempo, e adorava e planeava aquilo até ao milímetro, agradou-me voltar à ideia de construir uma sequência.

Inicialmente, o disco era para se chamar “Gemini”. Porque era um disco sobre uma dualidade, sobre elementos contraditórios. Mas à medida que o fui fazendo, percebi que não tinha dois elementos contraditórios, mas vários, à luta uns com os outros. Daí a ideia de frequência.

Gémeos é o seu signo. Qual a sua relação com a Astrologia?
Eu sou Gémeos, por isso é que chamei ao disco “Gemini”. Mas sinceramente não ligo nenhuma aos signos. (risos) Mas gosto da metáfora: a luta entre os dois [lados], a existência de um lado negro e de um lado positivo... É um simbolismo que dá jeito.

O vídeo de 'Oh My Heart' foi filmado no Japão. Como teve essa ideia?
Quis fazer o vídeo num sítio onde a minha figura parecesse tão diferente do resto que [de imediato] eu estaria a habitar um sítio diferente. O vídeo seria, então: acerca de duas coisas: da pessoa que está à frente da câmara e de tudo aquilo que me envolvia. Não é a primeira vez que faço um vídeo acerca de cidades: há alguns anos fiz o 'Hold Still', sobre a cidade de Londres, e desta vez fiz sobre o Japão, o que é mais fácil, porque para um europeu tudo soa deslocado da nossa realidade, então é muito fácil ter um um pano de fundo radicalmente diferente da pessoa que está no centro.

Estava à procura disso e também de um vídeo que fosse divertido, o que não é muito comum. Apesar de a minha música me apontar como pessoa muito melancólica, não o sou, de todo, por isso achei que era altura de fazer um vídeo que retratasse a minha forma de ser, mais natural. Sem grandes filtros, sem ser um ator. Simplesmente punha-me à frente da câmara e cantava a música, como a pessoa que sou.

Depois aproveitei para viajar [como turista no Japão], mas foi um vídeo muito trabalhoso, porque para conseguir aquelas imagens tão diversificadas fui a muitos sítios, nas cidades de Osaca, Cobe, Quioto e Tóquio. São sete horas de gravação!

No último álbum, falou em realizadores como David Lynch ou os irmãos Coen. Se o novo disco fosse um filme, quem o realizaria?
Este é mais bicudo. Punha o Spike Lee. Porque é um álbum com muitos confrontos. Parece que há ali coisas que não estão bem resolvidas e entram numa certa jigajoga emocional. O Spike Lee ou o Wes Anderson, só porque gosto muito dele e dos seus filmes. (risos)

Falou em coisas mal resolvidas e confrontos internos... Está a passar por uma fase dessas?
Quando fiz o disco estava, provavelmente. Mas a música é um subterfúgio maravilhoso. Acho que toda a gente os tem, e quando não os temos a vida é muito violenta. Eu sou um grande defensor dos hobbys. Tenho a vantagem de a música ser o meu hobby e também a minha profissão. Mas gosto muito de fotografia e uso-a como hobby. Todos precisamos de um subterfúgio para encontrarmos uma calma emocional.

Para mim, a música funciona nesse sentido. A vantagem, ou desvantagem, é a exposição; ponho-me a jeito para ser analisado ou observado. Cada um poderá tirar a sua ilação. No entanto, sou vago o suficiente para deixar lugar a outras interpretações. É um truque simples, mas que funciona para mim. Todos os meus discos têm uma força muito específica, mas o que acontece no fim é torná-los mais vagos.


A música pop também é isso: tornar tudo mais vago de forma a poder assentar noutros territórios, noutras vidas que não necessariamente a minha, noutras situações que não a que eu vivi, porque não percebo que interesse teria para uma pessoa ouvir uma coisa que fosse particular à minha pessoa - seria um exercício narcisista e desinteressante.

Num disco pop, que as pessoas vão ouvir em situações radicalmente diferentes, que eu não posso controlar, acho que devem servir todas as circunstâncias possíveis.

Eu percebo a ideia das pessoas que se querem sentar a ouvir música, mas também a das que põem música a tocar a caminho da praia, como pano de fundo. A música pop tem de servir ambas as situações, não pode ser estranha em nenhuma delas. Quando me dizem: “mas a música é para ser ouvida com atenção!”, eu acho que não. Acho que deve ser o que é. Deve servir para as situações onde cai, de forma às vezes totalmente inesperada, e tornando as coisas sempre diferentes do que eram antes de a música entrar em cena.

Como aquelas pessoas que só querem ouvir música em vinil ou num sistema de som muito sofisticado?
Confunde-se muito ouvir música com audiofilia. Isso é uma doença! É indiferente estarem a ouvir música ou outra coisa qualquer. Há quem retire muito prazer da natureza dos sons, e eu também trabalho essas coisas! Em estúdio, trabalhamos a equalização dos sons, onde eles se colocam. Mas, do ponto de vista artístico, é pouco interessante estar demasiado focado nisso, porque no final a maior parte das pessoas vai ouvir as canções no telemóvel.

Tal como os vídeos...

Exatamente. Uma pessoa pode fazer o vídeo com a maior qualidade possível, para ser visto nos ecrãs todos xpto, mas eles vão ser vistos em ecrãs deste tamanho [dos telemóveis]. Estranho é quando as pessoas escolhem ver concertos nesse ecrã, também. No sítio do concerto e no momento do concerto! Isso é que não consigo entender bem. Mas são fases. Se eu num concerto for ter com o público, são mais os telemóveis que vejo do que as mãos e as caras. E eu estou ali, frente às pessoas. Nunca compreenderei, mas se calhar dali a dez anos as pessoas vão pensar que não fez muito sentido e mais valia terem estado ali, no momento. Sinais dos tempos.

A 14 de junho, David Fonseca faz 45 anos

A 14 de junho, David Fonseca faz 45 anos

Rita Carmo

E a capa do disco, também é da sua autoria? Como nasceu o conceito?
Sim! Procuramos sempre soluções que unam todo o processo, e geralmente começa na capa. E a capa é um pouco como o disco: parece uma pessoa meio dandy, mas vi as várias fotografias que tinha tirado e aquela sobresssaiu logo. Tem uma boa disposição e é isso que não costumo ver na capa dos meus discos. Tem uma certa autoironia. Não é propriamente séria nem brincalhona e combina com a letra das canções - eu não queria aparecer meio nu na capa, não tinha nenhuma atração por fazer isso! Por isso, achei que a melhor [solução] era tapar aquilo tudo com as letras e daí nasceu uma espécie de conceito do disco. Foi uma coisa em andamento.

Quem é a Alice Wonder que canta no tema 'Resist'?
Em todas as digressões, costumo fazer concertos em Espanha. E, numa dessas digressões, a minha agência pôs uma miúda, a Lucia Scansetti, a fazer a primeira parte dos meus concertos em Madrid e Barcelona. Nessa altura, ela tinha 15 ou 16 anos. Eu conheci-a lá, trocámos contactos, comecei a segui-la nas redes... E certo dia ela postou um vídeo no Instagram a cantar com outra miúda, que se chama Alice Wonder. Ela começa a cantar e eu fiquei atónito: mas quem é esta miúda? Comecei a segui-la nas redes e vi que tinha um canal do Youtube, e fiquei fascinado pela voz dela. Ela tinha 17 anos, mas se eu fechasse os olhos parecia a Ella Fitzgerald, misturada com a Nina Simone, a Adele e a Amy Winehouse! Decidi que tinha de fazer alguma coisa com ela. Quando esta canção apareceu, convidei-a para fazer um dueto. Mandei-lhe um email e entretanto ela já assinou pela BMG - vai lançar um disco a solo no final de agosto. Acho que ainda vamos falar muito dela, é uma estrela em ascensão. Eu tive a sorte absurda de me ter cruzado com ela quando ainda era uma desconhecida, e de ela ter aceitado.

Recentemente, a Rita Redshoes partilhou um desabafo no Facebook, lamentando um certo declínio na sua popularidade... Alguma vez sentiu o mesmo?
Qualquer percurso artístico é duro. Quando quis ser músico, o meu pai perguntava muitas vezes se eu tinha a certeza, porque achava que era um caminho muito difícil. Claro que isto foi no início, antes de tudo acontecer, antes do sucesso dos Silence 4. Mas a ideia do sucesso é muito difícil de entender. Como fazemos isto continuamente, percebemos que é difícil mantermo-nos numa espécie de “onda” - uma pessoa nunca pode ser o artista do momento em todo o momento, isso não é possível. E tem de saber dialogar todas essas partes e mudanças que acontecem nas vidas artísticas. Confesso que nunca me coloquei nessa posição de achar que as coisas são tremendamente difíceis, porque nunca estou muito preocupado se as coisas estão a correr assim tão bem ou tão mal. Estou mais preocupado com o que vou fazer a seguir: sempre.

Qualquer percurso artístico tem altos e baixos. A natureza da profissão é essa e eu aceitei isso há muito tempo. Comparando com os meus pais: o meu pai foi bancário a vida inteira, a minha mãe professora primária. Eram profissões muito estanques; hoje não, ser professor já não tem nada de seguro. Eu escolhi uma profissão que já sabia não ser segura. Mas como estou sempre à espera que alguém me “cuspa” desta profissão, para voltar a ser o que eu queria ser, que era fotógrafo, nada para mim é uma surpresa! (risos) Sinto sempre que há alguma coisa boa a retirar da minha profissão.

Como antigo nerd, vítima de bullying na escola, alguma vez imaginou que, aos 44 anos, estaria aqui a falar da sua profissão como músico?
Nunca! Como todos os miúdos de 20 anos, eu achava que as pessoas [na casa dos 40] eram extremamente chatas, e que eram muito velhas! E tinha razão. Porque geralmente aos 40 a maior parte das pessoas parece que quer encostar à box. “Já fiz tudo o que queria fazer, agora quero viver uma vida sossegada”.

Há uma expressão muito usada na tira do Calvin and Hobbes, “o agulhão do gado”. Eu sinto que o “agulhão do gado” não me deixa entrar nesse rame-rame da vida. Não consigo, porque a vida não me deixa. Isso manteve-me uma pessoa diferente do que eu achava que me ia tornar. Achei que ia ser uma pessoa tão chata como as outras. Não é que não seja chato, sou é um chato muito hiperativo, com uma vontade muito grande de fazer coisas. Sou uma pessoa diferente, naturalmente, mas a vontade e o ímpeto de fazer as coisas são os mesmos.

Agora, se pensar no miúdo que fui, e se alguma vez pensava que ia andar aqui a fazer estas coisas, não. De todo. Achava que ia ter uma vida muito calma e que ia ser remetido para uma daquelas profissões que adoro, como o contraponto do teatro. Coisas que nunca ninguém vê! Eu via-me sempre a fazer essas coisas, porque era uma pessoa muito tímida. Aos 14 anos, queria ser cameraman. E não existe trabalho mais anónimo! Queria ser o tipo que estava lá atrás a fazer as coisas dele, para quem ninguém olhava, que tinha o seu trabalho técnico, meio artístico, mas que era ausente de tudo aquilo. Com o tempo, percebi que era demasiado agitado para ser ausente, que tinha muitas coisas para dizer e que queria fazer parte de qualquer coisa que fosse... Quando esse desejo existe, já não podemos ser o cameraman. Por mais timidez que se tenha, temos de passar para outro sítio qualquer.

Essa timidez ainda subsiste?
Muitas vezes! Na minha profissão consegui banalizá-la e pô-la de lado. Mas às vezes surge nos momentos mais horríveis, nas situações em que menos antevejo. Na minha vida pessoal, quando aparece uma pessoa nova, numa situação que acho embaraçosa, a minha timidez aparece toda e só me quero enfiar num buraco e desaparecer. Luto muito contra isso. E coro muito. Acho divertido, uma pessoa com 44 anos ainda corar, mas coro imenso e fico atrapalhado. Mas é a minha forma de ser e acho que as pessoas compreendem; é como se lá dentro ainda houvesse um miúdo, e isso é positivo.

Ainda faz coleção dos insultos mais originais que recebe na internet?
Claro! Adoro isso. E refreio-me muito para não responder. Tenho muito mais vontade de responder aos insultos do que aos elogios. Mas tento não fazê-lo por consideração pelas pessoas que me elogiam. Vou dar mais importância aos que não gostam de mim? Mas continuo a achar tão divertido como no início, porque não levo nada disso muito a sério e porque acredito que a relação que temos com os media não pode ser muito séria. É impossível: eu não conheço aquelas pessoas, elas não me conhecem a mim, então há apenas uma ideia que se faz de uma coisa qualquer.

Acompanhou a saga do Festival da Eurovisão em Portugal?
Seria impossível não acompanhar! Não sou o maior ouvinte da Eurovisão, mas acompanhei porque se passou cá e porque tinha muitos colegas presentes. Vi um bocadinho da final, fui júri da eliminatória portuguesa... da minha zona, de Leiria. Mas não acompanhei o fervor das polémicas, acho que isso é tudo folclore. Quando apareceu aquela coisa toda do Diogo [Piçarra, acusado de plágio], fiz questão de lhe mandar mensagem, porque conheço-o. Mandei mensagem a dizer: “não ligues, porque este folclore nada tem a ver com o teu percurso”. Eu achava que não havia razão nenhuma para aquele alarido, mas quando o alarido chega àqueles níveis, já não há razoabilidade nenhuma, é mais fogo de artifício do que outra coisa.

Não gostaria de participar no festival, portanto?
Fui convidado e pensei sobre isso… Não vou dizer que nunca hei de participar, porque não sei o futuro, mas não tenho grande vontade de participar, especialmente depois desse tipo de polémicas. Essa parte nada tem a ver com música e ser sugado por um mundo que nada tem a ver com música custa-me, porque a única razão pela qual faço isto é musical. E a coisa do concurso também não me agrada muito.

Fui júri, concorrer é que seria mais complicado. Eu pergunto-me: o que é que aconteceu às outras canções que concorreram ao festival? Parece que desaparecem num ato inglório. As canções da Isaura, do Júlio Resende e tantas outras teriam merecido mais tempo de antena. Mas depois a Eurovisão acaba por se tornar uma coisa radicalmente diferente, com um alcance diferente, que às vezes tem a ver com a música e outras não. Isto é uma visão de fora, mas se calhar se o Salvador ou a Luísa [Sobral] te falassem, dir-te-iam a mesma coisa.

Deve ser muito violento estar dentro daquilo, é uma coisa dura, com um impacto absurdo. E no festival deste ano viu-se que não [tem a ver com a] música, porque se tivesse não se viam muitas das coisas que lá se veem, que têm mais a ver com o folclore do que com o ato musical, de criação. Talvez um dia [a ideia participar] me atraia pela ironia de toda a situação. E não seria o primeiro concorrente a fazê-lo. Já vi artistas de renome internacional a concorrer ao Festival da Canção. Mas teria de achar o meu espaço para o fazer, e ainda não o encontrei.

O que tem ouvido nos últimos tempos?
Quando estou a ensaiar e a gravar, não tenho muito tempo, mas nos intervalos vou ouvindo o que consigo. Confesso que a última coisa que ouvi com atenção foi o Childish Gambino, que é absurdo - aquele vídeo, com aquela canção, é tudo inacreditável, em bom! Eu vejo muitos vídeos, e quando carreguei no play estava a fazer outra coisa. Nos primeiros 20 segundos, quando ele dispara o primeiro tiro, voltei atrás e pensei: espera lá, que acho que vou ver uma coisa diferente! Não estava à espera de uma coisa assim. E espanta-me que a América não produza mais Childish Gambinos. É um sítio onde nunca os opostos se viveram de uma forma tão absurda! Depois até tive curiosidade em ver a música fora do vídeo, a ver se sobrevivia, e é incrível! Tudo aquilo é fora de série. Ele é um artista absurdo, de vários pontos de vista.

Seguindo o exemplo do Ryan Adams, que no Instagram anda a escolher um dos seus discos para cada dia da semana, o “Radio Gemini” é um disco para que dia? Sexta à noite?
É claramente um disco de sexta à noite. É um entrar pelo sábado violento e depois repetir tudo no sábado, para ter um domingo muito difícil! Apesar de conter alguma melancolia, não é acerca disso. Por norma, os meus temas estão muito encostados a essa parede, mas também a muitas outras coisas que acho interessantes e nunca tinha explorado. Mas o disco vive num sistemático clima de festa; mesmo não está em clima de festa, o ambiente à volta é um ambiente de festa, o que às vezes tem os seus momentos mais complicados. Mas é um disco agitado, não é um disco de quarta ou quinta-feira. É um disco agitado à séria, daquelas festas que começam a acontecer numa sexta às 3h da manhã… como o [filme] “Nova Iorque Fora de Horas”. É assim que eu vejo este disco: começou a acontecer uma coisa e nunca mais parou de acontecer…

“Radio Gemini” já estás nas lojas. A 29 de maio, David Fonseca atua no Convento de São Francisco, em Coimbra; a 9 de junho na Casa da Criatividade de São João da Madeira e a 19 de junho no Cine-Teatro Louletano, em Loulé. Datas aqui.