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Cláudia Pascoal

Rita Carmo

“As pessoas conhecem-me do ‘The Voice’ e a cantar o tema da Isaura, mas ainda não conhecem a minha música”. A entrevista com Cláudia Pascoal

Depois de concorrer a programas de talentos e de vencer o Festival da Canção, Cláudia Pascoal já começou a preparar o pós-Eurovisão. Em entrevista à BLITZ, a artista fala sobre o futuro, os cursos de ourivesaria e artes plásticas que tirou, e explica, também, por que razão se emociona a cantar ‘O Jardim’

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Quando Isaura a convidou para interpretar a sua canção no Festival da Canção, Cláudia Pascoal tinha acabado de participar no programa de talentos “The Voice”. A sua cara não era totalmente desconhecida do público português, tendo já apresentado o programa da SIC Radical “Curto-Cirtuito” e tentado a sua sorte noutro programa de talentos, o “Ídolos”. Assumia a sua paixão pelo jazz, tinha uma série de canções escritas para um álbum que nunca chegou a editar e uma banda, os Morhua, com quem cantava em inglês.

Depois de se sagrar vencedora do Festival da Canção com ‘O Jardim’, a artista de Gondomar assinou um contrato discográfico e encontra-se, neste momento, a trabalhar no seu primeiro single. “Não me estou a concentrar no álbum, estou a concentrar-me num single”, explica em conversa com a BLITZ, “uma coisa de cada vez”. Para trás, ficam um curso de ourivesaria, outro de artes plásticas e ainda um outro de produção e realização… “Neste momento é a música. Acho que nunca estive tão feliz como com a música, portanto vai ser esta profissão que vai vingar”. Independentemente do que aconteça na Eurovisão, este sábado, Cláudia Pascoal já tem projetos para o futuro: e nova colaboração com Isaura não está fora de questão.

Antes de participar no Festival da Canção, tinha alguma noção do que era o fenómeno da Eurovisão?
Zero. Sempre vi a Eurovisão, mas de uma forma muito leve. Assistia às galas e pronto. Não fazia a mínima ideia que havia este universo e este tipo de família, porque é quase uma família. Chegamos lá, somos da família. “Este é o teu primo, este é o teu tio”. É uma coisa inacreditável. Mesmo com os outros países. Estava com um bocado de medo e reticente com o ambiente que me ia receber, mas estamos todos lá pelo mesmo, pela música. Queremos fazer o nosso melhor e representar da melhor maneira o nosso país.

Qual a recordação mais antiga que guarda do Festival?
Eu e a minha mãe sempre estivemos muito atentas. Ela gosta muito de música, o meu pai também, mas a minha mãe sempre se aproximou mais. Víamos a Eurovisão com um enorme carinho e sempre gostámos da sensação de cada país trazer um pouco de si e construir algo só para aquele momento. Isso fascina-me imenso. Das atuações que me lembro mais e que achei linda… Agora não sei qual foi o país que ganhou, mas era uma coisa que não era bem jazzy, mas tinha uma vibe… Achei genial, porque era muito simples. Era uma rapariga, mesmo fofinha, a dançar e a cantar… e eu fiquei: “um dia gostava de fazer uma cena assim”. E agora estou na Eurovisão, em 2018.

E também via o Festival da Canção?
É engraçado… Sempre tomei mais atenção à Eurovisão, porque o que me fascinava eram as outras culturas e o que elas levavam para ali. Mas sempre vi, sim.

Sentiu, de alguma forma, que a sua participação em concursos de talento como o “The Voice” fez com que fosse mais difícil ser levada a sério por parte da indústria musical?
Já tinha participado noutro programa e obviamente que aprendi também com isso. O meu grande objetivo no “The Voice” era ser eu própria e levar músicas que, de facto, gostava. Claro que algumas não pude escolher e às quais não ligava assim muito, mas sempre foi tipo “OK, foi esta que me deram, portanto vou adaptar o meu estilo e a minha presença a ela”. Realmente, tinha essa necessidade de me mostrar, de ser eu própria, ao público. Sempre gostei de música e não queria desvirtuar o meu produto musical com aquilo que apresentei no “The Voice”. Faz parte. Uma pessoa que vai para um talent show tem de adaptar-se a esse produto. Acho que é normal.

“O meu grande objetivo no ‘The Voice’ era ser eu própria e levar músicas que, de facto, gostava. Claro que algumas não pude escolher”

Já conhecia a música da Isaura quando ela a convidou para o Festival?
A música sim.

E o que achava dela?
Admirava imenso a Isaura. Ela foi ao “Curto-Circuito” quando eu trabalhava lá e, ao fazer pesquisa de biografia, fiquei fascinada pela maneira como ela tinha uma carreira completamente à parte. Super importante, um trabalho super profissional. É inacreditável o que ela faz… E conseguiu tudo sozinha… Pensei “OK, se um dia seguir esta carreira musical, quero ser assim, ter o poder de produzir, de fazer as minhas músicas”. Acho impressionante o que ela fazia e faz.

Quando recebeu o convite, o que a levou a dizer que sim? Quis ouvir a canção primeiro ou aceitou de imediato?
Ela enviou-me uma mensagem sem qualquer tipo de convite. Só me disse que gostava de falar comigo… Como o Festival da Canção já estava muito próximo, fiquei logo a achar que ia ser convidada. Depois ela fez-me, então, o convite e fiquei super contente. E, claro, quis pedir-lhe logo a música… Era uma grande prioridade levarmos um uma música que as duas adorássemos. Ela mandou-me outra música, não ‘O Jardim’, que eu também adorei e que tem exatamente o mesmo tema. É muito poderoso, também, mas quando fomos gravar ela mostrou-me ‘O Jardim’ e eu disse “OK, é esta”. ‘O Jardim’ é muito eu, liguei-me imediatamente à música e senti que a poderia fazer. Fiquei muito contente. Às vezes e olho para trás e penso: “e se tivesse levado outra música?”. E se não tivesse ido ao “The Voice”? A Isaura nunca me tinha conhecido e nada disto teria acontecido. Gosto de pensar que, às vezes, é a cena do destino. Não acreditava em nada disto, mas agora acredito um bocadinho.

De onde veio a emoção que ficou bem clara na sua voz quer na semifinal quer na final? Em que pensava quando quebrou, ali no final?
É engraçado porque foi a mesma razão que levou a Isaura a escrever a música: lembrei-me da minha avó. Ela também tinha um carinho enorme pelo jardim dela, ironicamente. Era um jardim um pouco diferente, tinha a parte das flores e a parte das couves. Das coisas que adorava fazer, quando era pequenina, era ir com ela de manhã às couves e plantar. Deu-me um aventalzinho, daqueles típicos… Adorava esse tipo de rotinas. E depois também tinha o seu jardim. Lembro-me perfeitamente de estar no meio da música a ter uma memória muito específica. Eu e os meus primos adorávamos jogar futebol no jardim da minha avó e ela passava-se porque partíamos as flores todas. Então, tínhamos palitos nos nossos bolsos para encaixar no caule das flores para ela não notar que estavam todas partidas. A música é mesmo isso, é recordar coisas boas com saudade positiva, não com amargura. Ainda bem que essa pessoa me deixou aqui algo no presente.

“E se não tivesse ido ao “The Voice”? A Isaura nunca me tinha conhecido e nada disto teria acontecido. Gosto de pensar que, às vezes, é a cena do destino”

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Se não tivesse aceite este convite, o que estaria a fazer neste momento?
Questiono-me muitas vezes acerca disso. Possivelmente, estaria a trabalhar no meu projeto musical na mesma. Uma coisa completamente diferente em que estava a trabalhar no ano passado, com os Morhua. Agora, como a minha vida deu esta volta, decidi alterar o meu método musical e estou, também, a escrever em português. Estou a trabalhar no meu primeiro single… e não podia estar mais contente.

Os Morhua ficaram de lado?
Por enquanto, sim, porque acho importante focar-me em mim. Não devo deitar fora esta oportunidade, porque finalmente as pessoas reconhecem o meu trabalho… É altura de me concentrar em mim. Mas claro que os Morhua estarão sempre presentes na minha vida e talvez um dia voltemos.

Que efeitos já sentiu desta maior exposição pública que ganhou, primeiro com o “The Voice” e agora com o “Festival”?
Eu comecei no “Curto-Circuito”, depois fui aos “Ídolos”, ao “The Voice” e agora o Festival da Canção… Como foi sempre de uma forma gradual, fui-me habituando. Não me tornei conhecida de repente. E gosto, porque as pessoas que se aproximam de mim vêm sempre com mensagens super positivas e de apoio. E esta coisa do Festival e da Eurovisão é um bocado toda a gente pelo mesmo. Claro que há gente que não gosta, mas neste momento Portugal está unido para fazermos o nosso máximo na Eurovisão. Só tenho recebido energias e mensagens positivas e estou muito contente. Em Espanha, então, foi uma loucura. Nunca pensei que as pessoas também me apoiassem tanto e que gostassem tanto da música portuguesa. Fiquei mesmo muito contente.

E tem alguma canção favorita, das outras concorrentes à Eurovisão?
É engraçado porque tinha favoritas e depois de ouvir em Espanha, ao vivo, ganhei novas. Ao vivo é super diferente. Gosto imenso de várias músicas. A da República Checa já tinha assumido que era das minhas favoritas… Gostei muito de Espanha, são muito queridos. A energia da da Suíça também me impressionou bastante. O Ari, da Islândia, é muito querido. É tão ternurento e cantado com tanta emoção que as atuações ganham uma nova dimensão. A fasquia este ano está muito alta.

Como foi a sua educação musical?
Nem sei como ouço jazz, para ser honesta. Cresci com o Marante. O CD dele era algo constante no meu carro e sei as músicas todas. A minha mãe gosta imenso de Roberto Carlos. Portanto, nada a ver com o meu gosto musical… mas a verdade é que a minha mãe sempre se relacionou muito de perto com a música. Aliás, quando estava grávida de mim, comprou uma guitarra e teve aulas de guitarra, mas nem conseguiu ter uma semana de aulas porque sempre que fazia um acorde eu dava imensos pontapés e ficava toda pisada. Portanto, ela disse “vou guardar esta guitarra para quando a minha filha crescer”. E foi assim. Nunca me disse “tens de ter aulas de música”, nem nada. Peguei na guitarra quando me apeteceu e fui autodidata. Tive umas aulinhas mas pouca coisa. Sempre me envolvi com música porque sempre gostei muito de comunicar algo com alguém. Tanto sendo apresentadora, como fazendo teatro… Gosto de partilhar uma mensagem com alguém e a música tem essa sensibilidade num ponto extremista, porque a reação é imediata. Isso sempre me fascinou. A música sempre foi um bocado um part-time, um hobby, mas agora está muito presente… Nunca pensei chegar a este ponto e ter estas oportunidades. Estou notoriamente muito cansada, mas mesmo muito feliz.

Ourivesaria, artes plásticas, produção e realização… Gosta de tanta coisa que depois fica com dúvidas sobre aquilo que quer realmente fazer?
A minha mãe diz-me “és uma indecisa”… Não sou indecisa, porque levo sempre até ao final as decisões que tomo. É diferente. Gosto de todo o tipo de artes e quero experimentar ao máximo. Depois, tenho aquele pavor que tudo acabe de repente e não tenha oportunidade de experienciar. É um dos únicos medos que tenho, tirando fobia a cães. Então, tenho aquela necessidade extremista de… “Gosto de pintar, este ano. Vou tirar um curso”, “agora quero fazer cinema”, “agora quero ser apresentadora”. E é um bocado assim. Tento levar sempre até ao final e quando me sinto realizada com essa área, passo para outra. Neste momento, é a música… E acho que vou ficar na música agora. Acho que nunca estive tão feliz como com a música, portanto vai ser esta profissão que vai vingar.

Diz que tem um disco pronto que nunca foi editado. Vai pegar nessas canções ou o que está a preparar para depois da Eurovisão é outra coisa?
Algumas delas… Fiz aquilo quase por brincadeira e pus na gaveta. Agora pensei: “’bora fazer isto a sério”. O álbum vai ter uma história de início ao fim, exatamente como pretendia naquele álbum… E acho que vou manter o nome porque está muito engraçado. Vou pegar em algumas músicas, aquelas que acho que realmente estão bem e que gostava de trabalhar de uma nova forma, mas tenho muitas músicas novas e estou a trabalhar com muitas pessoas que admiro, portanto…

Mas o disco, com o festival, vai ficar um pouco em stand by, não?
Tem sido difícil, não vou mentir, conciliar estes dois projetos ao mesmo tempo… Por isso não me estou a concentrar no álbum, mas num single. Uma coisa de cada vez. Vou dar o meu melhor e quero que saia o mais rapidamente possível, mas claro que agora a minha prioridade é a Eurovisão. Portugal está a contar comigo… Tenho de dar mesmo o meu melhor. E eu e a Isaura somos muito perfeccionistas, portanto é dar o nosso melhor para que tudo esteja perfeito.

E que tipo de coisas a inspiram a escrever música?
A forma como componho em inglês é completamente diferente da forma como componho em português. Em inglês pode ser qualquer temática que me esteja a irritar… às vezes, falo sobre economia. Em português, tenho de contar uma história que me aconteceu. E, às vezes, é mesmo do género: “de manhã acordei e fiz isto e isto e a noite acabou assim”. Gosto de contar uma história física, presente. Isso fascina-me. E é só assim que acho que consigo compor. Tem de ser muito real em português, porque o português é real para mim, é a língua que falo, portanto não posso imaginar tanto. Em inglês consigo falar de assuntos mais sérios. Em português, como é tão real, quero distanciar-me dessa parte da dor e da mágoa. Apesar de, às vezes, falar de assuntos mais tristes, tento brincar ao máximo com isso, da forma mais leve possível. A língua portuguesa é muito séria e muito pesada por si… Acho que tem de ser cantada de forma muito leve.

Imagina-se a colaborar com a Isaura no futuro?
Resultou tão bem, por que não? Temos falado muito sobre isso. Claro que estamos em dois pontos de carreira completamente diferentes. Ela está a lançar já o primeiro álbum, eu a começar o meu primeiro single. Portanto, tão cedo isso não irá acontecer. Mas por que não? Não só a cantar, mas em termos de composição ou outro tipo de participações. Parece-me bem.

Os seus objetivos de carreira foram mudando com as experiências diferentes que já teve?
Completamente. O que queria da música há três meses atrás não é o que quero agora, definitivamente. A minha vida tem dado uma volta tão grande que é normal que vá mudando de ideias. Mas, agora, o meu objetivo é mesmo agarrar aquela necessidade de cantar em português que tinha há três anos e pôr cá para fora. As pessoas conhecem a Cláudia do “The Voice”, a cantar covers, a Cláudia a cantar a música da Isaura, mas não conhecem a Cláudia a cantar a música da Cláudia. E, portanto, o meu grande objetivo é que as pessoas me conheçam verdadeiramente, nesse sentido.