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Nos bastidores do Campo Pequeno com os Arcade Fire a pensarem em Pastéis de Belém e Paredes de Coura. A entrevista BLITZ com uma banda única

Numa conversa antes do concerto em Lisboa, Win Butler e Richard Reed Parry recordaram o primeiro concerto em Portugal, falaram sobre a receção pouco entusiasta ao álbum “Everything Now” e os planos que não gostam de fazer para o futuro

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Estrearam-se em Portugal com um concerto memorável no festival Paredes de Coura, em 2005, e criaram, entretanto, uma relação forte com o público luso. Os canadianos Arcade Fire regressaram recentemente a Lisboa e o reencontro foi explosivo. Momentos antes de subirem ao palco, os multi-instrumentistas Will Butler e Richard Reed Parry falaram com a BLITZ não só sobre “o espírito diferente” dos fãs latinos como também sobre as más reações ao álbum “Everything Now”, editado no ano passado, as raízes da banda e as diferenças entre atuar em festivais e dar concertos em nome próprio. “Se ficássemos mais um dia seria bom sair da cidade, mas é tão agradável estar em Lisboa”: foram estas as primeiras palavras que ouvimos da boca de Will Butler. “Queríamos ter ido aos Pastéis de Belém”, mas ficava um pouco longe de onde estamos”, continuou o colega.

Já andam a tocar as canções de “Everything Now” há uns meses… Sentem que mudaram muito? É normal os vossos temas transformarem-se noutra coisa em palco?
Richard Reed Parry
– As canções não mudam assim tanto, para ser sincero.
Will Butler – O espírito delas muda, mas é algo que, normalmente, acontece de forma muito rápida.
RRP – Sim, acabam por assentar, por criar uma identidade mais forte, mas não se tornam algo completamente diferente. Tornam-se, simplesmente, um pouco maiores.

Olhando para trás, diriam que os Arcade Fire estão muito longe da visão que tinham para a banda no início?
WB
– Eu penso que nunca imaginei nada além dos três dias seguintes.
RRP – Sim…
WB – Tendo dito isso, é como um peixe que nunca imaginou que se transformaria num esquilo… mas aqui estamos nós. Temos esquilos em todo o lado.

Quando este álbum saiu, alguns fãs mais ferrenhos ficaram um pouco zangados com o facto de ser um pouco diferente daquilo a que os habituaram inicialmente. Costumam prestar atenção àquilo que as pessoas dizem sobre a vossa música ou preferem não ligar a isso?
RRP
– Um pouco de ambas. Prestamos atenção ao facto de isso estar a acontecer, mas preferimos não nos preocupar demasiado com essas coisas.
WB – Quando tocámos a ‘Wake Up’ pela primeira vez, em 2003, metade dos nossos fãs detestaram-na. Disseram coisas como “OK, é o vosso ‘We Will Rock You’. Vão-se lixar”… e é uma ótima canção. Temos fãs fantásticos. Mesmo os que estão zangados connosco tendem a ser bastante simpáticos, também. Portanto, tudo se resolve.
RRP – E fãs a abandonarem bandas porque elas fazem coisas que os deixam chateados é algo que faz parte do ciclo de vida natural da música, das bandas e fãs de música.

Já estão a pensar em música nova? É algo que é fácil de fazer quando andam na estrada?
WB
– Ando a pensar em música nova, mas em termos de música clássica contemporânea (risos)… Não, as composições dos Arcade Fire não acontecem na estrada. Vamos para casa, dormimos durante um ano e então aí elas começam a borbulhar.

Como tem evoluído a dinâmica de trabalho no seio da banda? As coisas mudaram muito, ao longo do tempo?
RRP
– Depois de aprenderes a fazer uma coisa, o processo não pode manter-se igual ao que era quando não sabias fazê-la. Há algo de muito precioso ali quando fazes algo sem saber bem como fazê-lo. Algo que nunca consegues recuperar. Faz parte da vida... Penso que tentamos sempre encontrar uma versão daquela certa ingenuidade que há no início. Procuramos um sentimento, algo mais cru, inesperado ou mesmo ingénuo nalgumas das coisas que fazemos. Mas nunca conseguimos mesmo voltar a isso. Assim que fazes o primeiro álbum, aprendes a fazer um álbum.

Will, diria que a sua carreira a solo influencia aquilo que faz com os Arcade Fire?
WB
– Não de forma muito concreta, apesar de, obviamente, me afetar enquanto artista… Sou uma pessoa diferente quando estou com eles em estúdio, mas não de uma forma que consiga categorizar.

Quando eram mais novos, o Will e o Win [Butler, irmão e líder dos Arcade Fire] gostavam do mesmo tipo de música?
WB
– Tínhamos gostos menos parecidos quando éramos mais pequenos e ficaram mais parecidos quando saímos de casa. Fomos ambos para um colégio interno quando fizemos 15 anos… Quando o Win saiu e depois ia a casa, eu já estava mais interessado naquilo que ele andava a ouvir. Mas ele dava importância àquilo que passava nas rádios de uma forma que eu nunca dei. Começámos a simpatizar mais com os gostos um do outro naquele pico dos Radiohead e Björk, dos álbuns “OK Computer”, “Post”, “Homogenic”, “Kid A”. Estávamos muito mais no mesmo comprimento de onda nessa fase, o que ajudou a criarmos uma espécie de protótipo dos Arcade Fire muito antes de eles existirem. É óbvio que muitas dessas coisas permaneceram connosco.

E sempre quiseram ter uma banda? Era algo de que falavam?
WB
– Não, não. Tal como disse, nunca pensei mais do que três dias para o futuro. As coisas começaram a acontecer e pensámos “isto é uma boa ideia”. E continuou a funcionar bem.

Vão regressar a Portugal em agosto para tocar no festival Vodafone Paredes de Coura, o mesmo onde fizeram a vossa estreia em solo nacional. Têm alguma recordação desse espetáculo?
RRP
– É aquele que fica numa encosta.
WB – Aquele em que nos esgueirámos para a encosta para assistir ao concerto dos New Order…
RRP – Não, não vimos os New Order, mas havia uma colina. Foi a primeira vez que tocámos para o público português e tínhamos uma encosta cheia de pessoas a cantar. Deixaram uma marca muito forte em nós, sem dúvida.

E como evoluiu a vossa relação com o público português? Já tocaram em festivais tão diferentes e para públicos tão diferentes…
RRP
– Muito mesmo. Os países que falam português e os países que falam espanhol são bastante diferentes entre si mas mais próximos uns dos outros do que do público alemão ou holandês. Percebemos mesmo quando estamos num país onde se fala português ou espanhol. Fizemos uma digressão pela América Latina, em novembro e dezembro, e o que vivemos lá é mais parecido com aquilo que encontramos em Portugal ou Espanha do que aquilo que encontramos no Reino Unido ou a América do Norte. Sentimos que há um espírito diferente. Dependendo de onde as pessoas vêm, há uma vibração completamente diferente. E é ótimo.

Tocar num festival pode ser, por vezes, mais gratificante do que dar um concerto em nome próprio?
WB
– São paisagens emocionais totalmente diferentes. E, sim, pensamos em abordagens diferentes. Tendemos a tocar muito as mesmas canções numa mesma digressão, mas num campo ao ar livre cheio de pessoas há um entusiasmo e distrações que, geralmente, são uma coisa positiva. As pessoas não estão ali necessariamente para te colecionar como se fosses uma carta de Pokémon. Estão ali de espírito aberto para novas experiências. Mas nos nossos concertos em nome próprio, estão muito concentradas, e é bastante gratificante jogar com isso. São coisas muito diferentes.

O que querem os Arcade Fire da música? É o mesmo que queriam quando começaram?
RRP
– Não penso que seja assim tão diferente. Queremos fazer algo que seja genuíno, que seja cativante, mas em que também nos possamos perder, quer enquanto performers quer enquanto espectadores. Queremos tomar decisões musicais e performativas baseadas naquilo que nos possa permitir, e à nossa audiência, ter esse tipo de experiência.