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Carolina Deslandes

Rita Carmo

“Tenho 26 anos. Quero tudo e tenho o direito de querer tudo”. Carolina Deslandes só não quer ouvir o que dizem dela “duas mesas ao lado”

Carolina Deslandes abriu o livro sobre a relação com os fãs (e com os 'haters'), o que se diz sobre ela (“e eu a ouvir!”), a presença da família na sua música, a importância da passagem pelo Ídolos e o “sensacionalismo” que se criou à volta do Festival da Canção. Tem disco novo acabado de sair, “Casa”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Nos últimos meses, tornou-se presença inescapável nas rádios portuguesas, graças a uma canção que escreveu para o marido, Diogo Clemente, que é também o seu produtor e parceiro musical. Apesar do enorme sucesso, 'A Vida Toda' é apenas uma das canções que a cantora compôs para “Casa”, o seu terceiro álbum, já nas lojas. Sobre o seu percurso até agora, os planos para o futuro próximo e também sobre o dia em que quis desistir da música falou-nos Carolina Deslandes numa tarde de abril, à beira-Tejo.

O seu terceiro álbum chama-se “Casa”. Tem a ver com uma ideia de conforto, de paz doméstica? Porquê este título?
A razão é mais literal do que as pessoas pensam. O disco tem 15 temas e arrisco-me a dizer que dez foram feitos em casa. O Santiago [filho mais velho] ainda era muito pequenino quando engravidei do Benjamim e, depois do nascimento dele, passei muito tempo em casa. Achei que também fazia sentido por ser um disco super simples, não no sentido pejorativo, mas por ter uma sonoridade simples - é todo orgânico, sem componentes eletrónicos. É um disco que fala das coisas mais banais do quotidiano e todas as canções trazem-me a um sítio de conforto. Quero que as pessoas sintam que estão a conhecer o mais íntimo de mim e que podem ser elas próprias, podem ser honestas na forma como sentem e vivem as coisas.

Ainda antes da chegada do álbum, o tema 'A Vida Toda' obteve um grande sucesso. Lembra-se como nasceu esta canção?
Eu ofereci a canção de presente de anos ao Diogo [Clemente, seu marido]. No seu dia de anos, tive um concerto em Portimão. Fui e vim no mesmo dia, para vir ter com o meu filho, que era muito bebé, e no carro pensei que gostava de lhe dar um presente que não se perdesse, não se estragasse, não envelhecesse. Decidi que queria fazer uma canção. Mas, para fazer uma canção, tenho de estar inspirada. E foi essa tristeza de ter de sair de casa no aniversário dele que me fez querer escrever e fazer-lhe uma surpresa. Então escrevi esta canção, que fala sobre como vou contar a nossa história aos nossos filhos. Como eles vão saber da felicidade que sentimos quando soubemos que íamos ser pais, de como nos apaixonámos... Gosto muito da ideia de, um dia, quando já não estivermos cá, os nossos filhos, bisnetos e trinetos poderem ter esta história que vai ficar eternizada, para saberem mais sobre a sua família.

E foi assim: cheguei a casa, às três e tal da manhã, e disse: “fiz-te uma canção que gostava que guardasses, é o teu presente de aniversário”. Cantei-lhe, a capella, ele ficou emocionado e pediu-me muito para irmos para estúdio gravar. Eu gravei, guitarra e voz; entretanto tive de sair e, quando voltei, ao final do dia, ele já tinha a música toda produzida - as percussões, os teclados, tudo! E pronta para ir para a rádio! Ficámos muito contentes, porque existe qualquer coisa no ar quando sentes que fizeste algo especial. Não é para ser presunçosa, mas sentes que é diferente. Como é muito pessoal, tive medo que fosse especial só para mim. Mas foi exatamente o oposto: as pessoas identificaram-se e eu fiquei muito feliz porque, na minha canção de mais sucesso, 'A Vida Toda', posso falar de uma coisa em que acredito mesmo: que ainda há amores que podem durar a vida inteira, que isso não está em desuso, que não é uma coisa datada. Vamos lá acreditar que não tem de ser tudo a correr, vamos ser ingénuos e dar-nos ao luxo de acreditar que estamos a construir uma coisa que vai ser para sempre! Quando comecei a acreditar nisso, quis espalhar a mensagem. Que amar é bom e recomenda-se! (risos)

“Um dia estava no Colombo e uma senhora veio a correr, abraçar-me, a dizer que estava a tentar ser mãe há não sei quantos anos mas tinha tido muita dificuldade em engravidar”

E quando começou a sentir que a canção estava, também, a chegar às pessoas? A ter um impacto no público?
A canção não teve um impacto imediato. Até porque a pus na net sem promoção - na altura não tinha label, nem agência, só o meu manager. E quando eu já pensava que ninguém lhe tinha ligado muito é que as pessoas começaram a ouvi-la! E houve um dia em que senti que esta será a canção que mais me aproximou das pessoas. Eu estava no Colombo e uma senhora veio a correr, abraçar-me, a dizer que estava a tentar ser mãe há não sei quantos anos, mas tinha tido muita dificuldade em engravidar. E estava muito triste, porque o sonho da sua vida era ser mãe. E quando saiu 'A Vida Toda', a canção e o vídeo deram-lhe muita esperança. E engravidou. E agradeceu-me, como se eu tivesse feito alguma coisa! Disse que a canção ia sempre ficar associada a esta conquista da sua vida e a ter conseguido realizar o seu sonho. Eu fiquei super comovida, ela deu-me um abraço e eu pensei: a sorte que eu tenho de poder ilustrar estes momentos da vida das pessoas! Acabo por fazer parte de momentos tão importantes como descobrires que vais ser mãe, casares, batizares o teu filho, começares um namoro... Eu também tenho artistas que ilustraram as grandes memórias da minha vida! Para cada canção do Rui Veloso tenho uma memória: um verão, um namoro, um desgosto... E essa foi a primeira vez que senti que fiz uma canção que vai ficar para a eternidade. Que uniu as pessoas, que celebrou os seus momentos. Percebi-o quando começaram a vir ter comigo e a agradecer-me, com mensagens e vídeos. Eu lancei 'A Vida Toda' em maio e só em setembro ou outubro é que comecei a ter noção de que a música estava a chegar às pessoas.

É autora das canções que canta. É importante cantar as suas próprias palavras e melodias?
É importante para mim fazer canções, porque ajuda-me a exteriorizar e a verbalizar muita coisa. Quando tenho uma perda muito grande, quando me apaixono perdidamente, quando estou numa felicidade ou numa tristeza sem nome, posso falar uma hora e não conseguir explicar-me. Quando canto sobre isso, é-me mais fácil e natural. Mas também gosto muito de cantar canções de outras pessoas. Adoro tudo o que mexe comigo. E, no nosso país, há letristas e poetas e compositores que me dão muita vontade de cantar tudo o que é deles, sempre. O Mário Pacheco, que é incrível e faz coisas mais relacionadas com o fado, mas que me faz sempre pensar: quero isto no meu disco! Os temas do Diogo, eu ouço e penso: quero isto no meu disco! A Luísa Sobral também. Desta vez, calhou os temas serem todos meus. Estava em casa com os miúdos e não era fácil juntar-me com outras pessoas. Acaba por resultar disso e da minha necessidade de falar [desta fase]. Tenho uma canção chamada 'Benjamim', sobre quando o Benjamim nasceu, 'A Vida Toda' é para o Diogo... Senti necessidade de agradecer pelas coisas que me estavam a acontecer. Acabei por fazer muita coisa sozinha por isso mesmo.

Carolina Deslandes

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Rita Carmo

“Nesta indústria é tudo muito efémero. Muita gente me dizia: tu é que escolheste ser mãe! Perdeste o comboio. Sai uma, entra outra!”

É evidente que retira muito prazer da vida doméstica e familiar. Mas não lhe custou estar afastada dos concertos, por exemplo?
Não é fácil! Houve uma altura em que abria o Instagram e desatava a chorar, por ver toda a gente na estrada, a tocar. E pensava: quando é que vou poder voltar a fazer isto? Porque acredito que quanto mais feliz e realizado és, melhor pai serás. Para ser feliz, boa pessoa, boa namorada, boa amiga, boa mãe, tenho de cantar, de tocar, de dar concertos. E como tinha tido o Santiago um ano antes, tinha feito muito poucos concertos. Estava a ressacar de andar na estrada. E o Diogo andava e chegava a casa e contava-me as coisas e mostrava-me as fotos... Não era inveja, mas ficava com muita saudade. E há uma coisa muito cruel: nesta indústria, é tudo muito efémero. E muita gente me dizia: “tu é que escolheste ser mãe! Agora vais ter de correr muito, perdeste o comboio! Sai uma, entra outra!”. E acabei por duvidar de mim mesma: será que só posso escolher ser uma coisa? Mas é mentira. É um medo que tentam incutir em nós.

Lembro-me que a minha mãe me disse: “tens de decidir se queres ser mãe, se queres ser cantora, ou escritora, se queres ter um blogue ou um disco...”. E eu respondi: “não, não tenho. Porque eu quero tudo e tenho o direito de querer tudo!”. Se trabalhar para isso, acredito que posso ter tudo aquilo que quero. Tenho 26 anos e gosto de tantas coisas diferentes! Essa fase foi difícil, mas rapidamente dei a volta. E agora estou de volta e às vezes é ao contrário: queria parar um bocadinho e estar mais tempo em casa! (risos) O Diogo diz uma coisa muito sensata: não sofras em demasia com as fases. Não vale a pena pensar que são eternas. Não, tudo passa.

Como diz o Marcelo Camelo. E por falar em Marcelo Camelo, há muito de música brasileira neste disco...
Muito. Mas só tive essa noção quando acabei o disco e o ouvi!

Carolina Deslandes

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Rita Carmo

“As pessoas são capazes de estar duas mesas ao lado e dizer: 'ai credo, está tão gorda!'. E eu a ouvir”

Até escreveu uma canção depois de ouvir o último disco do Chico Buarque, “Caravanas”...
Não escrevi uma, escrevi três! Sou absolutamente fã do Chico, como do Caetano, do Milton, dos Tribalistas, da Marisa Monte, do Marcelo Camelo, da Mallu... Gosto muito da forma poética e ao mesmo tempo realista com que eles abordam as coisas mais banais da vida. Às vezes há uma canção sobre a forma como o cabelo pousa nos ombros, ou sobre a luz da manhã. E eu fascino-me com isso. Tenho alguma família - por afinidade - no Brasil; os melhores amigos dos meus avós eram brasileiros e vinham para cá todos os verões. Acabei por crescer próxima da música brasileira... Quando tinha 18 anos, fiquei no Brasil um mês: foi o único sítio fora de Portugal em que me senti em casa. Nada me era estranho, parecia que era dali. Estive para ficar a viver lá, mas tive de voltar, porque estava a estudar e tinha a minha vida cá. Mas sempre me senti muito próxima da cultura, da paisagem, dos cheiros, da música - adoro tudo.

Há pouco referiu que colocou 'A Vida Toda' na net. A internet tem tido um papel muito importante na divulgação do seu trabalho?
Sim! Há uma coisa em comum entre todos os artistas que apareceram com a internet: uma gratidão muito grande pelo público. Porque tenho uma noção real - não é uma coisa que me digam, eu vejo pelas partilhas, pelos gostos e comentários - que pus na net um canção que as pessoas estão a ouvir e a viver. A J. K. Rowling tem uma frase que levo sempre comigo: à porta dos estúdios do Harry Potter, lê-se “por melhor que seja a tua história, ela nunca será grande se não existirem pessoas dispostas a ouvi-la”. Eu tenho noção que isto só acontece porque as pessoas estão dispostas a ouvir-me, o que faz com que as rádios queiram passar a minha música, com que os promotores queiram que eu esteja [nos seus eventos]... isso tudo vem das pessoas. As pessoas é que são os meus patrões! A internet tem isso de muito bom: a proximidade com [quem nos ouve].

Claro que depois também traz coisas com as quais é muito difícil lidar. A exposição traz-te “hate”, traz comentários indescritíveis, tudo é assunto... Às vezes pões uma fotografia sem mal nenhum e de repente há um objeto lá atrás que desencadear uma polémica, ou porque estou mais gorda, ou porque estou com ar cansado. Mas, honestamente, tudo o que é muito bom na vida tende a ter, também, um lado muito mau. E, para mim, o lado bom compensa-me o lado mau. Porque aprendi a olhar para esse tipo de coisas e... tenho pena desas pessoas. Penso: não têm mais nada que fazer. E vão dizer coisas agressivas só para causar impacto, para dizerem que não têm papas na língua. E eu tenho pena delas. Claro que há dias em que mexe mais comigo e fico mais irritada, mas digo uns palavrões e depois passa-me.

“Muita gente questiona: porque é que ela está na capa do disco com uma t-shirt dos Nirvana? Há coisas que me influenciaram pela atitude, pela coragem”

Como figura pública, é preciso desenvolver determinadas defesas para ler comentários, por exemplo?
É muito raro lê-los. Mas mesmo no dia-a-dia as pessoas não têm noção. Estou no cinema, ou a ver um espetáculo, ou a jantar fora, e as pessoas estão a falar de mim como se fosse um animal exótico. Como sou uma figura pública, acham que têm direito a falar de mim, como se eu não estivesse a ouvir e não tivesse sentimentos. São capazes de estar duas mesas ao lado e dizer: “ai credo, está tão gorda!”. E eu a ouvir. Ou taggam o amigo no Instagram para dizer: “olha, esta gaja tem o mesmo casaco que tu!”. Essa parte é mais difícil de gerir. Mas também há tanta coisa boa... No primeiro single que pus online, estava chateada com um comentário do YouTube. E a minha mãe disse-me: “como é que achas que os milhares de pessoas que perderam tempo para virem dizer que gostam da tua música se iriam sentir se soubessem que só falas daquela pessoa que disse que a música é má?”. E eu pensei: tem toda a razão. A partir daí aprendi a borrifar-me.

Quais as suas grandes referências, no que toca a interpretação e composição?
Gosto de muitos estilos de música diferentes, e ouço assiduamente estilos completamente opostos. Português: Rui [Veloso], sempre. Jorge Palma, cujas canções ouço há 15 anos e de cada vez ainda descubro mais um pormenor da letra que me deixa a pensar: este gajo é absolutamente genial. O Sérgio Godinho. O Manel Cruz e os Ornatos Violeta - mudaram completamente a minha vida, assim como várias músicas dos Da Weasel. Lembro-me quando os Da Weasel lançaram o 'Casa', com o Manel Cruz, e eu fiquei: meu Deus, isto é inacreditável! Gosto muito da Luísa Sobral, da Manuela Azevedo. De uma fadista nova que é a Sara Correia, que cada vez que canta o mundo para. A Maro, que é uma força da natureza. Dillaz escreve incrivelmente... Sempre que ouço o Camané emociono-me sempre, a Amália... Há muitas coisas que ouço e me influenciam, mesmo que não seja diretamente. Por exemplo, muita gente questionou: “porque é que ela está na capa do disco com uma t-shirt dos Nirvana?”. Quando a minha música não tem nada a ver com eles. Há coisas que ouvi e me influenciaram pela forma franca como falam dos sentimentos, pela atitude, pela coragem. Também adoro os Xutos, sempre.

Por falar em Xutos, como se lembrou de fazer uma versão da 'Circo de Feras'?
O primeiro concerto a que fui na vida, às cavalitas do meu pai, foi de Xutos & Pontapés. Milhares de pessoas a cantar, uma energia incrível... e pensei: se calhar é mesmo isto que quero ser. Depois comecei a ouvir os álbuns, o DVD, [a perceber] a coisa toda de serem uns punks, uns revolucionários, e de se terem juntado como grupo de amigos e de repente estarem a tocar para o país inteiro... Mexeu muito comigo e transmitiu-me uma mensagem de: isto é possível! Foram um exemplo de coragem para mim. Estava muito indecisa entre cantar a 'Circo de Feras' ou a 'Conta-me Histórias'. Também gosto muito da “o nosso amor, sempre...” (canta 'Para Sempre'). Mas a 'Circo de Feras' é a minha preferida. E quis cantar, primeiro porque tenho guardado esse momento em que decidi que era este o sonho que iria seguir na minha vida, graças a um concerto deles, e depois porque voltei a cantar em português, só em português. E isso deve-se aos artistas que ouvi a minha vida toda e a quem quis prestar homenagem e agradecer. Em minha casa sempre se passou muito esta coisa de agradecer aos mais velhos e eu tenho uma relação de respeito e profunda admiração por estas pessoas que me influenciaram e deram tanto a mim e a tanta gente! Quando estava a viver em Londres, cada vez que ouvíamos Xutos sentíamo-nos mais perto de casa. Por isso mesmo, fez todo o sentido entrarem neste disco - porque também me fizeram sentir em casa, mesmo quando eu estava longe.

E chegar ao seu herói Rui Veloso, com quem canta em 'Avião de Papel'? Foi fácil?
Fiz batota! (risos) O meu namorado, marido, namorido é amigo do Rui há muitos anos. Eu não o conhecia, mas quando escrevi a canção pensei automaticamente nele. E disse: “vou fazer esta canção com ele”. E o Diogo: “olha que é difícil, não sei se ele vai aceitar!”. Então marcámos um almoço. Fui a casa dele, conhecemo-nos, falámos e criámos logo uma proximidade muito grande. É uma pessoa muito franca, não faz fretes. É a pessoa mais livre que conheço! Não faz nada que não lhe apeteça, não dá um elogio que não lhe apeteça dar, diz o que lhe apetece e estar com ele é inspirador nesse sentido! Pensei: “esta pessoa há de ser feliz consigo mesma, vive bem resolvida consigo”. E quando já se tinham passado horas e eu já achava que ele não me ia falar do tema, diz-me ele: “olha, canta lá o tema que querias que eu ouvisse”. E eu: vou morreeeer... (risos) Esperava que ele me pedisse para o mandar para o mail, ou assim. O Diogo foi a correr buscar a guitarra e eu roxa, a corar imenso, a pensar que não ia ser capaz. Ia desmaiando. Mas cantei e ele disse-me imediatamente: “quero gravar isso”. Deu-me imenso apoio e opiniões muito válidas; foi mesmo importante estar com ele e ouvir aquilo.

“Criou-se uma polémica à volta do Festival da Canção, parece pólvora!”

E com o António Zambujo, que canta em 'Coisa Mais Bonita'?
Também foi um bocado batota! (risos) Fiz um tema e disse ao Diogo: “adorava que o Zambujo o cantasse. Mas não lho vou mandar - não conheço e não gosto de estar a impingir”. Quando um amigo meu andava à procura de um tema, eu pedi ao Diogo, que os tinha no computador, que mos mandasse. E ele: “vou mandar este, o outro não posso, porque já o mandei ao Zambujo”. E eu fiquei furiosa: “é uma falta de respeito, agora vai ficar a achar que lhe estou a impingir canções!”. Depois conheci-o e ele disse-me: “Carolina, adorei o teu tema. Tens mais alguma coisa?”. E eu: “por acaso fiz mais um a pensar em ti, vou mandar”. Passados uns tempos, quando comecei a gravar o disco, pensei: “fui dar aqueles dois temas ao Zambas e gostava tanto deles... adorava gravar um”. (risos) Então liguei a perguntar se ele ia gravá-los. Ele disse que em princípio só iria gravar um e eu: “então dá-me o outro, porque não quero que nenhum desses temas fique na gaveta”. E diz ele: “olha, e a 'Coisa Mais Bonita?'”, que é um tema meu, do qual eu tinha posto um bocadinho no Instagram. “Esse é que, se me tivesses convidado para cantar, eu cantava!”. E eu fiquei tão nervosa que, em vez de perguntar “mas queres cantar?”, disse: “pronto, então fica para a próxima!”, e desliguei. Depois, como temos o mesmo manager, liguei-lhe a dizer: “Vasco, ajuda-me! Queria dizer-lhe para ele cantar no meu disco e fiquei cheia de vergonha, liga-lhe lá tu!”. O Vasco ligou e o Zambujo liga a seguir, para dizer: “então tu és parva?”. (risos) Adorei conhecê-lo - não vou dizer mais do que trabalhar com ele, mas foi mesmo uma agradável surpresa. Super generoso, boa onda, tranquilo, sem vedetismos, sem nada. Parecia que já era meu amigo há uma data de anos.

Recentemente fez uma versão do tema que o seu marido escreveu para Peu Madureira, no Festival da Canção - 'Só Por Ela'. Gostaria de vir a escrever, também, uma canção para o festival?
(Pausa) Não sei. É uma honra muito grande, pelos nomes que já por lá passaram. E têm saído de lá incríveis canções. Mas é um risco grande. Sinto que se criou uma polémica à volta do festival, parece pólvora! É muito discutido, puxa-se muito pelo sensacionalismo... Por isso, não sei dizer. Mas também ninguém me convidou, por isso não tenho de pensar nisso agora.

Instagram

Numa entrevista, contou que, há alguns anos, tinha 30 euros na conta e zero concertos marcados, e pensou desistir. O que a fez mudar de ideias?
Foi o Agir. O Bernardo fez a 'Mountains' e a 'Heavens' comigo. E mesmo antes de sermos amigos, sempre acreditou em mim. Dizia que gostava de me ouvir cantar e ligou-me até eu dizer que sim. Até eu aceitar ir para estúdio com ele, e voltar a fazer canções, não me largou o pé. É quando eu faço a 'Mountains' que volto a acreditar. Senti uma nova esperança e voltei a fazer música. Foi ele, basicamente.

Oito anos depois, que balanço faz da sua participação no Ídolos e dos frutos que daí retirou?
Mesmo sem Ídolos, acho que isto ia ser sempre a minha vida. Claro que o Ídolos ajudou, porque ninguém me conhecia de lado algum e de repente estava a passar na televisão, em horário nobre. O Ídolos trouxe-me amigos para o resto da vida, coisa a que dou muito valor. O Martim Vicente era da minha edição, vai casar no mês que vem e eu sou madrinha de casamento! É dos meus melhores amigos. Não sei como teria sido [o meu percurso] se não tivesse começado por aí. Foi importante, foi um tempo da minha vida bonito e que teve coisas muito boas. Não sei se os frutos vêm diretamente daí, porque também demorou algum tempo, depois do Ídolos, a arrancar, mas deve ser mais fácil arrancar com uma cara que as pessoas já conhecem de algum lado do que no total anonimato.

Neste ponto da sua carreira, consegue dizer quem é o seu público?
De todo. Sei que tenho mais fãs mulheres, mas tenho desde miúdos mínimos, rentes ao chão, a cantar na primeira fila, a pessoas de 60, 70 ou 80 anos, a pessoas da minha idade...

Quais as suas expectativas e planos para este novo disco?
Tocar muito. Estar perto das pessoas. Ouvir as suas opiniões, agradecer-lhes muito por terem esperado e o tanto que me incentivaram e puxaram por mim. Criar boas memórias. O concerto no Rock in Rio, por exemplo, é no dia em que o Santiago faz dois anos, e acho incrível um dia mais tarde poder dizer ao meu filho: “olha tu aqui, no dia em que fui cantar pela primeira vez [ao festival]!”. Criar boas memórias, construir sonhos. Eu posso dar-me a esse luxo e tenho noção que acordar todos os dias e adorar aquilo que faço é uma bênção. Tenho noção que isso não acontece a toda a gente. Vejo as pessoas desejosas que seja sexta-feira, tristes por ser segunda-feira, e eu não tenho isso. É uma sorte fora do normal poder conquistar tanta coisa, é mesmo maravilhoso. O meu plano para este disco e para os que se seguirem é criar boas memórias. Para mim e para os outros.

Carolina Deslandes acaba de lançar o seu terceiro álbum, “Casa”. O disco foi antecipado por vários temas, o último dos quais, 'A Miúda Gosta', foi revelado esta semana. As datas de Carolina Deslandes ao vivo podem ser consultadas aqui.