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Sean Riley

Rita Carmo

Sean Riley levou a primeira guitarra para o deserto americano: “Esta é a banda-sonora de um filme que vocês não viram”

Chega na sexta-feira às lojas e chama-se “California”. À BLITZ, Afonso Rodrigues, que há mais de dez anos veste a pele de Sean Riley, falou-nos da concretização do seu “sonho americano” e da amizade com Paulo “Tigerman” Furtado, com quem gravou, em quartos de motel, o primeiro disco a solo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Quando o amigo Paulo Furtado lhe contou que iria gravar “Misfit”, o álbum lançado este ano, ao Rancho de la Luna, no deserto de Joshua Tree, Afonso Rodrigues, aka Sean Riley, não demorou a responder: “Então eu gostava de passar lá e ter essa experiência contigo”. Daí à ideia de aproveitar a road trip marcada para depois da gravação de “Misfit” para preparar, também na estrada, o primeiro disco a solo de Sean Riley, foi um ápice. Um voo e uma viagem de automóvel depois, o músico português, que há mais de dez anos lidera os Sean Riley and the Slowriders, encontrou-se com a trupe de Legendary Tigerman - e, uns dias mais tarde, com a sua própria voz, agora sem banda.

Numa altura em que o futuro dos Slowriders é uma incógnita - há concertos marcados, mas apenas este ano decidirão se voltarão a gravar juntos -, “California” é o disco que Sean Riley queria fazer - ou precisava de fazer, numa época que implicitamente se afigura como de balanço. À BLITZ, partilhou as coordenadas desta jornada, musical e pessoal.


Este primeiro álbum a solo foi gravado em motéis, na viagem pelos Estados Unidos com o Paulo Furtado. Já levou as canções consigo de Portugal ou escreveu-as durante essa road trip?
Na sua maioria, as canções já estavam alinhadas, pelo menos em tudo o que era progressão de acordes e ideias gerais. Depois há sempre uns toques que damos, e neste caso houve uns toques finais nas letras que tiveram a ver com os dias em que estive nos Estados Unidos, antes da gravação. Porque não foi exatamente chegar e começar a gravar. Foi chegar, estar em estúdio com o Furtado, acabar de gravar o “Misfit”, participar nesse disco, fazer alguma estrada... Já tinha estado em Los Angeles, fomos a Joshua Tree, a San Diego, daí a Tijuana, depois voltámos a Los Angeles e só aí é que começámos a gravar as canções.

Como fizeram? Alugaram um carro e partiram à aventura, como nos filmes?
Eles [Paulo Furtado e a sua banda] voaram para lá muito antes de mim, para começarem a gravar o disco - talvez uns oito dias antes. Eu voei depois, sozinho, com a ideia de os apanhar [nos] últimos três dias de estúdio. Voei para Los Angeles, aluguei um carro e conduzi sozinho até Joshua Tree, onde fiquei com eles até acabarem de gravar o álbum. Depois, cada um foi à sua vida: o Sega [Paulo Segadães] ainda ficou por LA uns tempos, o [João] Cabrita veio logo de volta para Portugal e eu e o Furtado arrancámos na tão prometida road trip.

“[Nos Estados Unidos] há uma questão espacial impressionante que passa pela distância da linha do horizonte. Fazes retas com 50 quilómetros...”

De uma das últimas vezes que falámos, confessava que, apesar de o universo da sua música ser muito inspirado pela América, nunca tinha estado nos Estados Unidos. Agora que já se estreou, como foi a experiência? Esteve à altura das expectativas?
Desde essa última vez que falámos, tive oportunidade de visitar as duas costas. Estive algum tempo em Nova Iorque e depois na Califórnia, estado que percorremos de norte a sul, ou de sul a norte, pois começámos por baixo. Não senti que fosse uma experiência defraudada. (risos) Não senti que a perceção que tinha do espaço fosse diferente, principalmente da Costa Oeste, que sempre me interessou mais, pela estética, literatura, cinema, música, etc. É exatamente tudo aquilo que tu conheces, porque conheces aquilo muito bem. Já to passaram tantas vezes que não há muitos segredos. Mas há outras experiências que passam por estares lá e que são difíceis de transmitir, porque são sensações, porque envolvem emoções. Há uma questão espacial que é extremamente impressionante e que passa pela distância da linha do horizonte. Fazeres retas com 50 quilómetros... já viste aquilo no cinema e em videoclips, mas quando passas por isso é diferente.

Quanto tempo esteve nos Estados Unidos, desta última vez?
12 dias, salvo erro. Mais os voos.

Bem aproveitados?
Muito bem aproveitados! Tínhamos horários muito estendidos. Dormia-se pouco e fazia-se muito.

Qual o itinerário completo da viagem?
Los Angeles, Joshua Tree, San Diego, Tijuana, Los Angeles de novo, Big Sur e Carmel-by-the-Sea, São Francisco, Los Angeles de novo. Estivemos três ou quatro dias parados em Joshua Tree, mas depois foi sempre a andar.

O que lhe causou o maior impacto?
Joshua Tree e o Rancho de la Luna são sítios muito especiais, fora do que seria uma experiência convencional como turista. Qualquer pessoa pode ir a Los Angeles ou atravessar a [ponte] Golden Gate. Entrares no Rancho, conheceres o Dave [Catching, que produziu “Misfit”], veres lá na parede os discos de platina dos Arctic Monkeys ou dos Queens of the Stone Age, veres o pôr-do-sol no deserto... Teres o Dave Catching a fazer-te o jantar, a cozinhar peitos de frango no fogão enquanto o pessoal está a gravar um disco e acabarmos todos a jantar e a beber cerveja mexicana, e no final ele pegar na guitarra e gravar um solo no álbum do Furtado... essas experiências não podes comprá-las. Ali no Rancho aconteceram coisas especiais e que dificilmente vou esquecer, além de que o sítio é lindíssimo e toda aquela vibe do deserto é muito interessante. O resto é fantástico, mas é mais tangível, porque podes sempre comprar um voo para LA e fazer a Highway One, ou ir ao Big Sur.

“Quando nasceu a ideia de gravar as canções numa road trip, fui transportado para o início de tudo. Até optámos por levar a primeira guitarra que comprei, uma guitarra acústica com que gravei o primeiro disco de Sean Riley and the Slowriders”

Como fez para peneirar as canções que já levava consigo?
Passou por perceber quais eram as canções que tinha no bolso, já feitas ou bastante avançadas, que cabiam naquele feeling de “vamos estar num quarto de hotel e vamos gravar isto de forma muito simples, com dois microfones para a guitarra acústica e dois para a voz”. A partir do momento em que nasceu a ideia de gravar as canções numa road trip, fui transportado para um universo de gravações fora de estúdio, e de canções muito simples de guitarra e voz, o que me coloca no início de tudo isto. Quando comecei a fazer música sozinho, ainda antes de Sean Riley and the Slowriders, era isso que eu fazia: gravava no quarto, ou no estúdio da RUC, ou com um minidisc na casa-de-banho, ou na casa de alguém. Eram sempre estúdios muito improvisados.

Agora, isso levou-me a escolher canções que se aproximavam do universo que tinha nessa altura - até optámos por levar a primeira guitarra que comprei, uma guitarra acústica com que gravei o primeiro disco de Sean Riley and the Slowriders e onde compus as nossas primeiras canções. Voltámos a essa estética e a esse imaginário do início de tudo. A própria forma como os temas foram gravados, embora doseada com alguma preparação, foi sobretudo de momento e impulso. As canções não estavam excessivamente preparadas, não as tive a rodar durante seis meses antes de me sentar a gravar.

Também por ser uma coisa ao vivo, em que gravas a guitarra e a voz ao mesmo tempo, sem mais nada à tua frente, essas gravações vivem mais do feeling com que estás a gravar do que de preciosismos técnicos ou artifícios que possas usar posteriormente. Ali contava muito o sentimento com que foi interpretado cada take. E se calhar, no take que acabaste por escolher, até disseste uma palavra que não era a que tinhas escrito na primeira versão da letra, mas foi a que te saiu naquele momento - uma coisa de impulso, com alguma dose de improviso.

Sean Riley, fotografado no cinema São Jorge, em março de 2018

Sean Riley, fotografado no cinema São Jorge, em março de 2018

Rita Carmo

“Não tenho muita paciência para ouvir discos muito longos. E também tinha interesse em explorar um formato que nunca tinha explorado, o dez polegadas”

Foi um processo breve, também?
Também. Para já, havia um plano: só iríamos usar o que gravássemos lá. Não íamos chegar cá e fazer overdubs, ou acrescentar mais canções - o que se conseguisse fazer lá era o que se fazia. Sendo um disco conceptual - há uma história à volta dele e da razão pela qual foi feito -, não fazia sentido estar a acrescentar coisas feitas a posteriori. O Furtado sempre teve essa ideia muito assente, muito sólida: não fazer nada que fosse além dali. E para um disco de guitarra e voz, os 20 e tal minutos que tem chegam perfeitamente. É um tipo de sensação que queres passar a quem está a ouvir, para a qual não precisas de 40 minutos, nem de 35. A génese do que eu quero que alguém pense quando o ouve está ali.

E é um registo no qual acaba por estar mais exposto? Só guitarra e voz, sem os seus companheiros de banda...
Há sempre essa questão, se bem que, como alguém dizia, esse foi o meu início e aquilo a que sempre estive habituado. Mas é óbvio que sim, que sentes que não tens grande apoio para nada. Tens de fazer aquilo sobreviver per se, com uma guitarra, uma voz e as palavras que tens a dizer. Mas eu cresci a ouvir discos de guitarra e voz e já ouvi milhares de pessoas a fazer isto que estou a fazer, de maneiras diferentes... Para mim, é um sítio muito confortável. Um sítio que, como ouvinte, adoro. Claro que não é um disco que vá ter um grande hit a passar 24 horas por dia na rádio ou na televisão, mas tem um espaço específico para as pessoas que gostam deste tipo de experiência. E eu tenho muitos discos que adoro - assim simples, simplezinhos.

Quais os seus discos de voz e guitarra favoritos?
Ainda em relação ao tempo, também nunca gostei de discos grandes. Para mim, aquela medida das dez músicas sempre foi ótima e os LP normalmente eram orientados dessa forma. Mas sempre tive dificuldade em fazer discos com dez músicas porque, como era com banda, há sempre alguém - o produtor, o manager - que diz: não podes tirar essa! Este tem menos de dez músicas, mas eu não tenho muita paciência para ouvir discos muito longos. E também tinha interesse em explorar um formato que nunca tinha explorado, o dez polegadas. O disco vai ter edição em vinil de dez polegadas, onde não podes ultrapassar os 22 minutos. Para mim, fazia sentido que fosse este o formato; um LP necessitaria de outro tipo de preparação e de trabalho no projeto, enquanto editar um dez polegadas é especial - tem um sítio próprio na discografia de uma pessoa ou de uma banda. Também havia essa componente de ser quase uma banda-sonora, de um filme que vocês não viram.

Sean Riley ao vivo no Lux, Lisboa
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Sean Riley ao vivo no Lux, Lisboa

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Sean Riley ao vivo no Lux, Lisboa
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Sean Riley ao vivo no Lux, Lisboa

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Em relação aos seus discos de voz e guitarra favoritos...
Tenho discos [nesse registo] que me influenciaram imenso - começando por nós, a grande influência que tive, em termos de guitarra e voz, foi o Zeca Afonso, que o meu pai amava e que eu ouvia regularmente em casa. Outra coisa que também ouvia em casa era música popular brasileira: muito Chico, muito Caetano. Desde sempre estive exposto à questão da voz e guitarra e de isso chegar para escrever uma canção. Quando comecei a escrever canções à guitarra, as pessoas que mais me influenciaram foram o Dylan, ainda hoje uma das minhas maiores influências, mas muitos outros, desde o Elliott Smith ao Will Oldham, ao Bill Callahan.

É um registo despido, que implica uma certa bravura?
Talvez! Quando estávamos a misturar o disco, eu disse ao Nelson Carvalho, que o misturou e que começou a trabalhar com Sean Riley and the Slowriders logo no primeiro álbum: “já viste, tanto tempo a fazer discos para agora fazer uma coisa tão simples? Este é que devia ter sido o primeiro”. E ele disse uma coisa engraçada: “estes nunca são os primeiros, porque habitualmente já precisas de alguma baaggem e capacidade de lidar com as coisas para conseguires fazer uma coisa tão crua”. E eu imediatamente me lembrei de um disco de guitarra e voz que é um dos meus favoritos: o “Nebraska”, do Bruce Springsteen, que é um disco feito na ressaca de um sucesso gigantesco. Quando toda a gente espera que ele faça o disco mais produzido da carreira, ele vai lá para uma casa com um gravador de quatro pistas, faz aquilo, vai à editora e diz: é isto que quero publicar. E eles andaram a engonhar, não queriam, tiraram canções e lá chegaram àquele formato das dez... Sim, talvez seja precisa alguma... não sei se coragem é a palavra certa. Se calhar diria confiança.

“O meu disco foi sempre entendido como um projeto de continuidade do 'Misfit', do Legendary Tigerman”

A última canção é um piscar de olho a uma canção que o Paulo Furtado gravou no “Misfit”, 'To All My (Few) Brothers'. De onde surgiu essa ideia?
Quando estava nos Estados Unidos, fiz uma data de gravações - de ruas, do riacho da biblioteca do Henry Miller, dos sons do aeroporto em Los Angeles, enquanto esperava para me vir embora. A minha ideia era usar parte dessas gravações de campo, como acontece nessa música, que tem três elementos: sons do aeroporto de LAX; o início do poema do Ginsberg, o “Howl”, muito ligado à beat generation e à Califórnia, e esse excerto que gravámos num hotel em São Francisco de uma música do Furtado, música que eu também gravei no “Misfit” - gravei guitarra e backing vocals nessa canção. O meu disco foi sempre entendido como um projeto de continuidade do “Misfit”, tanto que o artwork foi feito pela mesma designer. Quisemos aproximar os dois universos e fazer com que ficassem ligados. E o facto de haver uma pequena chamada a uma música do “Misfit” na qual eu participei é o fechar do círculo de toda esta história - uma constatação pública de como gosto do trabalho do Paulo e de como somos amigos. É uma música que toca nesse ponto, da amizade.

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Quando se tornaram amigos?
Nos tempos em que eu estava na RUC, talvez há uns 12 anos? Mas foi gradual, não foi uma coisa de grande intensidade imediata. Houve um momento em que se deu um clique muito grande: quando fizemos o primeiro concerto como Slowriders, que ainda não existiam, na altura chamava-se apenas Sean Riley. O Paulo foi a esse concerto e levou o seu manager da altura, e daí passámos a uma potencial relação de trabalho, de trabalharmos com o manager dele, de ele ser o primeiro produtor da nossa banda. Quando tive oportunidade de assinar com a Valentim de Carvalho, foi ao Paulo que recorri para me aconselhar, pois era a pessoa que eu conhecia com mais experiência nessa área. Nessa altura, sensivelmente há dez anos, a nossa relação de amizade tomou uma nova direção e hoje estamos ligados a muito níveis, pessoais e familiares.

“Neste momento, pertenço muito mais a Lisboa do que a Coimbra. A minha mãe nasceu aqui, a minha filha nasceu aqui”

No ano passado, quando entrevistámos o Paulo Furtado, perguntámos-lhe se ainda fazia sentido chamar-lhe “o músico de Coimbra”. Ele respondeu que não, acrescentando que nem sequer gosta da cidade... E ao Afonso, devemos continuar a chamar “o músico de Leiria”?
Eu nasci nas Caldas da Rainha. Depois vivi muito tempo em Leiria, depois muito tempo em Coimbra, agora já estou há bastante tempo em Lisboa e, se tudo correr bem, espero ainda viver em mais sítios. Não tenho qualquer problema em refererirem-se a Slowriders como uma banda de Coimbra - isso faz todo o sentido, porque foi uma banda fundada em Coimbra. Já não está em Coimbra, mas foi lá que nasceu. Pessoalmente, não. Faz tanto sentido dizeres que sou de Coimbra como que sou de Lisboa. Estou praticamente há tanto tempo em Lisboa como o tempo que vivi em Coimbra. Também passei muito tempo no Porto, apesar de nunca ter tido casa própria lá. São essas quatro cidades que marcam a minha vida até agora: o início nas Caldas, aos cinco anos vou para Leiria, onde fico até aos 18, aos 18 vou para Coimbra, onde fico até aos 27. Depois ainda tive uma breve passagem por Leiria, antes de vir para Lisboa.

É bom ter raízes e origens; é bom que, quando voltamos a esses sítios, nos sintamos bem e que tenhamos razões para lá regressar. Mas também é muito bom sentir que pertencemos ao sítio onde estamos. E eu, garantidamente, pertenço muito mais a Lisboa, neste momento, do que a Coimbra. A minha mãe nasceu aqui, a minha filha nasceu aqui... tenho uma ligação maior com esta cidade do que com Coimbra. Ou de que com as Caldas da Rainha, onde nasci.

Sean Riley and the Slowriders, fotografados em Sintra, em 2010

Sean Riley and the Slowriders, fotografados em Sintra, em 2010

Rita Carmo

“O pessoal que agora escreve em português, em Portugal, tem uma linguagem que é real. Que vem da rua, vem das conversas, da forma como as pessoas falam”

Quais são essas outras cidades onde ainda gostaria de viver?
Um dos meus sítios preferidos em Portugal é Aljezur. Mas neste momento não sei se a minha vida podia passar por viver em Aljezur. Pode haver um plano alternativo de, mais dia menos dia, viver num sítio perto de Lisboa, talvez do outro lado do rio, ou para os lados da Ericeira. Gostava de viver num sítio onde o ritmo seja mais calmo, o espaço maior, perto do mar. Na Europa, as cidades que mais gostava de conhecer já conheço relativamente bem: Londres, Paris, Berlim. Já tive muitas experiências em todas essas cidades. Neste momento o que mais me poderia atrair era Tóquio, Los Angeles e Nova Iorque. Talvez não para viver o resto da vida, mas para uma experiência de um ano...

Tal como cresceu a ouvir a música favorita dos seus pais, cresceu a ler os seus livros prediletos. Nunca quis ser escritor?
O meu pai costumava dizer-me que, para escreveres, precisas de viver. De certa forma, ainda não abandonei essa ideia - é uma coisa que, um dia, gostaria de fazer. Talvez numa segunda fase criativa da minha vida. Gostaria de fazer uma abordagem à escrita, eventualmente uma abordagem à música, mas em português... Mas ainda não liguei esse botão. São coisas que, para mim, ainda não estão suficientemente organizadas para poderem conviver. Fazer um disco como o “California”, ter uma banda como Sean Riley and the Slowriders, ou uma banda como Keep Razors Sharp, e ao mesmo tempo estar a fazer canções em português... ainda não me surgiu. Para uma mudança de direção dessas, precisas de vocação. Tens de sentir que é o momento certo e sentir o chamamento - da mesma forma que estive uma data de tempo a tentar escrever em inglês antes de achar que estava minimamente preparado. Há cinco anos, dediquei bastante tempo à escrita em português: escrevi prosa, contos, poesia para canção. Mas nunca saiu da gaveta. Estava à procura de chegar a um sítio onde me sentisse confortável e onde sentisse que tinha uma voz. Mas esse trabalho ficou interrompido. Talvez um dia. Se calhar é preciso ir viver para Tóquio!

Talvez por ser a sua língua, o peso da responsabilidade é outro?
A prosa não me assusta muito, porque aí, acima de tudo, precisas é de assunto, de ter algo que queiras dizer. A poesia para canção, no meu entender, é mais complicada. Porque há uma data de condicionantes da própria língua e dos seus sons que tornam a coisa mais difícil. Mas acho que, no futuro, o caminho estará mais facilitado, porque esta última geração de cantores e escritores em português veio abrir uma data de portas, fazendo as coisas de maneira muito genuína, muito imediata. Para mim funciona muito bem, porque o tipo de escrita de que sempre gostei... o meu estilo favorito é algo biográfico, romanceado na primeira pessoa. Os Kerouaks, Bukowskis, Henry Millers. São as coisas que me tocam mais diretamente. E há um ponto de equilíbrio interessantíssimo, nesses escritores, que é a facilidade com que conseguem ir de uma imagem super urbana, terrena, de “acabei de pedir uma cerveja”, rematada logo a seguir com a frase mais poética do mundo, como “atrás do teu sorriso o sol põe-se todos os dias”. Eu sempre gostei muito desse equilíbrio entre a coisa da rua, a linguagem coloquial, e algo mais elevado.

Este pessoal que agora escreve em português, em Portugal, tem isso: uma linguagem que é real. Que vem da rua, vem das conversas, da forma como as pessoas falam. Para mim, isso é muito mais palpável do que o que se fez nos últimos anos, em Portugal, tirando as pessoas que sempre adorei, como o Adolfo [Luxúria Canibal], o [João] Peste, também o Jorge Palma e o Sérgio Godinho... Mas houve uma fase em que as pessoas parece que se esforçavam para escrever letras. Eu nunca 'cliquei' muito com isso - gosto mais deste pessoal que descreve a sua vida de forma poética. Não quer dizer que os outros não tenham valor, que não sejam poetas da canção, mas estes têm uma abordagem infinitamente mais interessante.

No final do ano passado, celebrou, com os Slowriders, os dez anos do vosso primeiro disco, “Farewell”. Foi surpreendente ver as pessoas a cantar as letras dessas canções e perceber que também para elas esse é um disco importante ou especial?
Nós não tínhamos colocado grande expectativa no que íamos fazer - clássico Slowriders, não pensar muito e deixar as coisas andar! Mas tínhamos a intenção clara de homenagear algo muito importante para nós. E isso passa pelo nosso primeiro disco, que tem uma importância ímpar na história da banda, incomparável a qualquer um dos outros discos. Até mesmo o carinho que temos por aquelas canções é muito especial e diferente do resto do percurso.

Tu fazes música ou outra forma de expressão artística à procura de encontrar algo que te satisfaça a ti mas, se não ecoar nas pessoas, acaba por não ter grande significado. E quando vês que as pessoas, dez anos depois, se continuam a relacionar com aquilo que fizeste, claro que sentes que fizeste algo que foi útil para elas e que as faz ficarem felizes e darem-se ao trabalho de comprar um bilhete, sair de casa e ver o teu espetáculo. E isso é impagável - é uma coisa maravilhosa. Também reparámos que havia público que vinha do início, que tinha visto os concertos originais ou que trazia o CD original, daquela altura, e pessoas que o conheceram há seis meses, ou que nos conheceram ao quarto disco mas depois descobriram o primeiro por causa dos concertos... No final dos concertos, tivemos a oportunidade de ouvir todo o tipo de experiência.

Sean Riley and the Slowiders em 2008, um ano depois de “Farewell”, o seu álbum de estreia (Filipe Costa, Afonso Rodrigues e Bruno Simões)

Sean Riley and the Slowiders em 2008, um ano depois de “Farewell”, o seu álbum de estreia (Filipe Costa, Afonso Rodrigues e Bruno Simões)

Rita Carmo

Quais são os seus planos para este ano? Vai voltar a gravar com Slowriders ou a banda continuará em “pausa”?
Os meus planos passam por continuar a tocar este disco a solo e por lançar o disco de Keep Razors Sharp, ainda antes do verão. Discos com Slowriders estão em stand by. Há vontade, não sei se vai haver capacidade. Só quando tentarmos é que vamos perceber se é viável ou não. Vai mexer com outras coisas e dependerá muito da forma e do timing com que atacarmos [o assunto]. Não é uma decisão que vamos tomar, é uma decisão que vai acontecer.

Este ano, há de haver um momento em que nos vamos juntar para fazer música, porque depois daquele parênteses do “Farewell” temos mais concertos agendados, ainda de promoção ao último álbum. Aí, vamos ponderar se fazer música nova nos vai fazer sentir bem ou não. Se fizer, ótimo, fazemos um disco. Se não... é a vida.

Num dos concertos da ZDB, no final do ano passado, referiu-se aos verdes anos da banda e a algumas das loucuras de então... aproveitaram bem essa juventude rock?
Aproveitámos tudo o que havia para aproveitar - e mais uma gota. E continuamos a aproveitar - se calhar de forma mais moderada, como é normal. Andar na estrada continua a ser o momento máximo de diversão e palhaçada, e também é isso que mantém a paixão. Somos muito amigos, gostamos muito de estar juntos e de nos divertir, e a música é uma coisa que nos enche o coração e nos dá muito prazer. Enquanto isso existir, e se sobrepuser a eventuais sentimentos negativos... Acredito que vamos continuar a retirar prazer dessa partilha que temos - de amizade e amor pela música.

Em julho de 2016, no NOS Alive: um dos primeiros concertos após o desaparecimento de Bruno Simões, baixista da banda

Em julho de 2016, no NOS Alive: um dos primeiros concertos após o desaparecimento de Bruno Simões, baixista da banda

Rita Carmo

Recentemente foi pai pela primeira vez. A sua vida mudou muito desde então?
A minha vida mudou radicalmente, porque há uma data de coisas que nem ponderas que se alterem. Eu não tinha muita convivência com o mundo das crianças - tenho poucos amigos com filhos e muita gente tem uma postura em relação aos filhos como eu tenho: de algum desconhecimento. Estás muito preocupado com as questões práticas: como é deixar de poder ir ao cinema todos os dias? Como é não dormir bem porque um bebé chora? Como é não dormir bem porque tens de mudar as fraldas? Essas são as preocupações que as pessoas habitualmente abordam. Aquilo que deviam abordar é como é que a tua forma de ver o mundo muda, e o teu coração muda, no momento em que tens um filho. Isso é o mais importante. Correndo o risco de ser lamechas, considero-me uma pessoa muito mais completa e muito mais feliz desde que fui pai.

Chegou a estudar Direito, animado pela ideia de poder ajudar pessoas em necessidade. Essa vocação de “justiceiro” ainda vive em si?
Sem dúvida. Infelizmente, nos últimos tempos tenho estado demasiado ocupado para poder agir ou preocupar-me tanto com as coisas que nessa altura me preocupavam. O tempo passa, ficamos mais velhos, com mais responsabilidades, com filhos. E isso pode ter o efeito perverso de nos tornar mais umbiguistas e mais centrados na nossa vida. Nesse sentido, temos de fazer um trabalho diário para continuar a olhar para o mundo como um sítio que queremos tornar melhor. Provavelmente não sou a melhor pessoa do mundo, mas todos os dias tento fazer alguma coisa. Nas relações com os outros, tento ter uma postura correta, que seja catalisadora de outras atitudes corretas...

Quando vinha para aqui, estava a trocar umas mensagens com a minha mãe, que ontem perdeu o dia inteiro - o dia que tinha sem trabalhar - a ajudar uma família que vive na zona dela, que estava com um problema com a Segurança Social e não tinha as condições corretas para um dos filhos. E passou o dia todo a angariar dinheiro junto dos seus amigos para mobilar o quarto dessa adolescente. Honestamente, todos os dias penso nisso: tenho de tentar fazer mais. Quem sabe no futuro não terei condições de fazer mais - espero que sim.

A capa de “California”, com design de Hélène Mailloux (sobre foto polaroid de Paulo Furtado)

A capa de “California”, com design de Hélène Mailloux (sobre foto polaroid de Paulo Furtado)

“California”, o primeiro disco de Sean Riley a solo, chega às lojas a 13 de abril. Estará disponível em digital e vinil 10 polegadas. A 17 de abril, atua na Festa dos Museus, em Leiria, a 10 de maio toca em Lille, França, e a 31 do mesmo mês em Londres, com Legendary Tigerman.

A BLITZ agradece ao São Jorge pela cedência das instalações para a realização da entrevista filmada e da sessão fotográfica