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Lawrence Hayward

PP Hartnett

A comovente história de um génio que o mundo nunca aplaudiu

10 anos, 10 álbuns, 10 singles. Nos anos 80, os Felt bateram à porta do mundo com um cabaz de enormes tesouros... só que o mundo não estava em casa. Três décadas depois, a justiça começa finalmente a ser feita com a reedição dos primeiros cinco álbuns do grupo inglês e o (re)encontro com um maravilhoso baú de canções (há também uma garbosa playlist aqui dentro). Não houve outra banda como os Felt. E não há génio como Lawrence, que à BLITZ concedeu uma entrevista exclusiva

Ao contrário dos permanentemente evocados Velvet Underground, os Felt, de Lawrence Hayward – que sempre assinou apenas com o nome próprio – não foram alvo de um culto celebratório que, geração após geração, os pudesse ter transformado em algo maior do que aquilo que foram em vida. Os 10 álbuns que editaram sem nunca terem quebrado as margens da década de 80 permaneceram até hoje um segredo ao alcance apenas dos que entendem que os verdadeiros tesouros daquela década não se revelam nas playlists saudosistas carregadas de “one hit wonders” cujos videoclips, rodados até à exaustão em canais curvados ao peso da nostalgia, parecem ter sido gravados à força no mesmo canto da memória em que uma certa geração guarda as experiências dos seus anos dourados.

Até agora, os Felt eram um ténue eco, distante, um acorde solto de uma década mágica da música envolto em reverb e já bem perto do silêncio que o esquecimento traduz. Até agora. Porque o programa de reedições "A Decade in Music" levado a cabo pela britânica Cherry Red promete reverter esse estado de coisas e devolver o grupo de "Crumbling The Antiseptic Beauty", "The Splendour of Fear", "The Strange Idols Pattern and Other Short Stories", "Ignite The Seven Cannons" e The Seventeenth Century (novo título do álbum "Let The Snakes Crinkle Their Heads to Death") a um presente que talvez seja capaz de lhes fazer a justiça que o seu próprio tempo não logrou oferecer-lhes.

Esses cinco primeiros álbuns – lançados, originalmente, entre 1982 e 1986 – compreendem a primeira parte de um duplo momento de recatalogação dos discos imaginados por Lawrence numa era em que o epicentro do abalo punk ainda se fazia sentir em réplicas profundas na cena musical britânica que entre a new wave, o lado mais experimental do pós-punk ou o movimento two-tone lá ia povoando as tabelas de vendas – mainstream ou indie – de enérgicos assaltos sonoros, bastas vezes servidos por letras que carregavam o imediatismo ideário do punk em verdadeiras listas de palavras de ordem. Os Felt eram farinha de outro saco: profundamente poéticos – como aliás os seus títulos deixam perceber –, líricos e melódicos, os homens comandados por Lawrence criavam música que não tinha real paralelo no seu tempo, pegando nalgumas das pistas menos abrasivas dos Velvet Underground para as envolver num sentir decididamente britânico e melancólico que rendeu uma discografia ímpar. Anos depois, Lawrence – em entrevista exclusiva à BLITZ – abre as portas do seu nebuloso passado e transporta-nos até este presente que, como tenta explicar-nos de forma comovente, pode ser a sua última hipótese de superar uma ingrata história de insucesso.

Os Felt, um "segredo" da música britânica dos anos 80

Os Felt, um "segredo" da música britânica dos anos 80

PP Hartnett

É assim que, de forma algo paradoxal, começa esta conversa um homem que sempre viveu atormentado por não ter alcançado a fama, mas que nunca cedeu um milímetro ao facilitismo pop que lhe poderia ter permitido atingir tal objetivo. “Tenho muito orgulho na minha obra, no meu legado. Precisei de muitos anos para transformar os Felt numa banda de culto credível. A espera pelo reconhecimento tem sido igualmente longa. Quando a banda acabou em 1989, quando deixámos de fazer discos, ninguém ligou, tínhamos muito poucos fãs. Levou muito tempo a erguer este culto credível que agora temos. Por isso, nada contra abordar o nosso passado”, admite Lawrence, de forma desarmante e honesta, numa voz delicada que parece magoada pelo peso dos anos, apesar de contar apenas 56 anos.

Ao contrário do que muitas vezes acontece nestes momentos de recuperação editorial de um qualquer passado celebrado, mas obscuro, as reedições da primeira parte da discografia dos Felt não vêm aditivadas com extras, raridades e inéditos. “Para esta série de reedições tive que voltar ao estúdio com montes de bobines de fita e também tive acesso a um cofre em que encontrei muitos masters de produção que não via há muitos anos. Houve várias maneiras de remontar estes 10 álbuns. Esta é, sem dúvida, a derradeira coleção. Duvido que esses masters voltem a ser escrutinados desta maneira”, explica o músico, dando a entender que esta será a última oportunidade de estes registos alcançarem algum tipo de notoriedade. “Para além disso, o álbum número 4 desta operação, 'Ignite The Seven Cannons', foi remisturado. Durante anos eu andei com os multipistas dessas canções de um lado para o outro porque sabia que um dia haveria de querer voltar a mexer nelas. Elas foram tão mal produzidas pelo Robin Guthrie dos Cocteau Twins que esse era um dos meus objetivos. Consegui-o agora”.

“Não houve um grupo que tenha tentado fazer parte apenas de uma década. A maior parte quer apenas continuar enquanto conseguir”

“Não existem canções perdidas, material extra que não tenhamos lançado”, prossegue Lawrence. “Não sou um desses artistas que escreve material que fica de lado até que anos mais tarde é finalmente mostrado. As canções que escrevo são canções de que gosto e acabo sempre por usá-las. Não sobrou material nenhum inédito. Por isso, quando voltei às fitas, não encontrei nenhum material que tenha ficado esquecido”. Lawrence revela desta forma que cada uma das canções que escreveu ao longo dos anos é o resultado de um intenso processo criativo que é igualmente raro e precioso. As canções nunca lhe sobraram, facto que já se entendia pela quantidade de momentos instrumentais nos álbuns dos Felt.

Prova de que Lawrence nunca foi dotado de um apurado sentido comercial está na sua incapacidade de nos “vender” estas novas versões dos seus velhos álbuns pela via do seu “upgrade” sonoro. “O som destas reedições é muito melhor porque a tecnologia evoluiu ao longo dos anos, mas não é assim tão diferente porque o Kevin Metcalfe masterizou os álbuns originais e nós optámos por voltar a ele para estas novas versões”, explica, com uma ideia a acertar em cheio no “cravo” e a outra a cair ao lado, mesmo na “ferradura”. “O mastering é um processo que pode parecer muito estranho para quem está de fora do negócio da música. Para muitos fãs, para a pessoa normal na rua, isto poderá querer dizer muito pouco. A prensagem dos novos discos é melhor porque na verdade, no início dos anos 80, quando estes discos saíram, a qualidade do vinil não era a melhor. Hoje em dia é muito melhor. Mas, para dizer a verdade, no que ao mastering diz respeito tenho a certeza que o público em geral não perceberá as diferenças, é um trabalho que só será devidamente apreciado por quem está em bandas, de alguma forma envolvido na indústria. Se calhar, até eu mesmo terei dificuldade em perceber as diferenças se ouvir os originais e as reedições. O que as pessoas vão conseguir perceber é que o som está simplesmente mais limpo, mais nítido”. As presentes reedições do material original dos Felt surgem no inevitável formato de vinil, pois claro, mas também em cinco luxuosas caixas individuais para cada um dos primeiros cinco álbuns em que à versão em CD se junta ainda um single de vinil.

“Quando começámos, a minha intenção era lançar um álbum por ano. Essa era a ideia, fazer álbuns rapidamente e lançá-los uma vez por ano”, explica Lawrence, que partiu para a aventura Felt com um invulgar plano de existir apenas durante uma década e de nesse período lançar 10 álbuns e 10 singles. “Mas um plano assim é muito permeável ao falhanço (risos)”, admite. “Não creio que alguma vez tenha havido um grupo que tenha tentado fazer parte apenas de uma década. A maior parte dos grupos quando se formam querem apenas continuar enquanto conseguirem. Alguns duram 30 anos e outros só conseguem existir durante dois anos. Mas decidir existir apenas por uma década, logo à cabeça, é algo muito complicado. A minha ideia era lançar um álbum por ano e não consegui fazê-lo, mas conseguimos encaixar 10 álbuns nesse período, o que faz de nós a única banda de sempre a ter de facto tratado a ideia de estar numa banda como um projeto artístico, quase como uma instalação viva”.

A singularidade desse plano de carreira tinha óbvia equivalência na proposta musical que não possuía grandes paralelos quando o grupo se estreou a sério em 1981, com o lançamento na Cherry Red do single “Something Sends Me To Sleep”, com Lawrence a ser secundado já por Gary Ainge, o baterista que se manteria ao lado do líder durante toda a existência do grupo, e Maurice Deebank, o guitarrista responsável por tornar real o som que o nosso interlocutor tinha na cabeça. “No início estávamos completamente sozinhos, sentíamos que não havia mais ninguém como nós, na verdade, mas tínhamos alguns amigos. Os Fall foram uma grande ajuda para nós no início”, admite Lawrence. “O Mark E. Smith conseguiu mesmo perceber que éramos uma grande banda. Tocámos com eles desde o início, algumas vezes. Os Cocteau Twins eram fãs... Éramos um pequeno culto, minúsculo. Mas alguns músicos gostavam de nós e foram-nos ajudando, mesmo tendo em conta que não soávamos iguais a mais ninguém, não éramos parte de nenhuma cena, não estávamos nalgum grupo de músicos que se ajudassem mutuamente. Não havia nada disso. Sentíamo-nos muito sozinhos”.

Lawrence (à direita) com o baterista Gary Ainge, em 1982

Lawrence (à direita) com o baterista Gary Ainge, em 1982

Getty Images

“Eu tinha de tentar controlar tudo”

Parte do caráter solitário dos Felt advinha igualmente do simples facto de não serem o mais sociável dos grupos. Nem na estrada gostavam de criar laços com outras bandas, nem no estúdio o convívio era fácil com técnicos ou produtores, tais as certezas que Lawrence possuía em relação ao som que a banda deveria ter.

“Num produtor procurava alguém em quem pudesse confiar”, explica-nos o músico que nestes primeiros cinco álbuns trabalhou com gente como John A. Rivers (Love and Rockets, Clan of Xymox), John Leckie (cujo currículo inclui Stone Roses, XTC ou Radiohead...) e Robin Guthrie, dos Cocteau Twins. “Isso era o mais importante e a verdade é que eu não confiava em ninguém. Eu queria confiar, sentar-me, relaxar e deixar outra pessoa tomar decisões, mas não era capaz porque tinha que tentar controlar tudo”, confessa Lawrence que não procura dourar a pílula de um caráter obstinado que ajuda a entender parte do percurso da sua banda.

“Penso que o John Leckie era um excelente produtor, mas ele não quis continuar a trabalhar connosco. Quando fizemos o 'Strange Idols Pattern...' ele depois não quis continuar a fazer discos connosco, mesmo depois de eu lhe pedir, porque ele não gostou de trabalhar comigo (risos). Eu era uma carga de trabalhos. E quando trabalhei com o John A. Rivers, a verdade é que passámos todo o tempo a discutir. Quando vinha alguém da editora ele queixava-se sempre: “não volto a trabalhar com esta gente, são terríveis. Não me deixam trabalhar”. Foi sempre uma relação muito fraturada a que tive com os diferentes produtores”, relata Lawrence de uma forma tão transparente que parece revelar que pode ter feito as pazes com alguns dos seus demónios passados.

Esta operação presente, aliás, parece também ter sido encarada como a derradeira oportunidade de corrigir algumas falhas de um passado tumultuoso. “Quando terminámos o 'Ignite The Seven Cannons' na Escócia, em Edimburgo, roubei duas das bobines e andei com elas de um lado para o outro durante os 25 anos seguintes porque sabia que teria que voltar a misturá-las. O Robin Guthrie não as produziu nada como eu queria”, revela o músico. “Fui impedido de estar nas misturas, ele fez tudo sozinho. Por isso, o que ele fez foi tratar aqueles masters como um disco dos Cocteau Twins, não como o novo álbum dos Felt. Para esta nova versão, voltei a mexer nas seis faixas que me incomodavam, as faixas vocais do álbum. Há outras tantas que são instrumentais. Eu só mexi nas faixas com vozes. Levei-as ao John A. Rivers, o velho produtor dos Felt, e o que fizemos foi retirar praticamente todos os efeitos, e tratámos esses temas como sempre tratámos os temas vocais dos álbuns dos Felt, não como se fosse um disco com a estética dos Cocteau Twins. Por isso agora não há efeitos e finalmente podem-se ouvir aquelas belíssimas canções como eu as imaginava. Na versão original isso não acontece”.

Gary Ainge, Nick Gilbert, Maurice Deebank e Lawrence: os Felt em 1982

Gary Ainge, Nick Gilbert, Maurice Deebank e Lawrence: os Felt em 1982

Jane Leonard

Curiosamente, Lawrence parece não ter mais nada que não seja uma inesgotável ternura para com Maurice Deebank, o pilar do som dos Felt, que hoje reside num mosteiro, poética resolução de vida que é, afinal de contas, a metáfora perfeita para a carreira do grupo a que em tempos emprestou os seus cristalinos solos de guitarra.

“O Maurice Deebank saiu depois do 'Ignite The Seven Cannons' e eu nunca mais consegui substitui-lo. Tentei pessoas diferentes que não se encaixavam e foram saindo”, concede Lawrence. “A banda tornou-se um ponto de passagem para guitarristas porque eu nunca consegui encontrar alguém que, de facto, o substituísse, e mesmo hoje continuo em busca de alguém que ocupe o lugar dele. Mesmo com o meu novo projeto [Go-Kart Mozart], ele é sempre o ponto de comparação que tenho na cabeça. “Ele era muito bom, tão bom que se tornou complicado tocar com outras pessoas. Quando estávamos na Creation, os músicos não gostavam da forma como a banda estava organizada e por isso chegavam e partiam. Chegavam com grandes ideias e partiam desiludidos, derrotados (risos). Eu nunca despedi ninguém, nunca mandei ninguém embora, todos saíram por vontade própria”. Certamente empurrados pela difícil personalidade de alguém que exigia controlar tudo até ao mais ínfimo detalhe.

“O Maurice vive num mosterio, mas não é monge. Penso que será uma espécie de contínuo, funcionário de limpeza ou algo assim. O Maurice nunca quis ser músico, fui eu que o obriguei a tocar guitarra. Ele estudou guitarra desde cedo, mas nunca quis estar num grupo. Odiava o que fazia e nunca se convenceu de que era um bom músico. Tive que extrair aqueles solos dele. Foi um trabalho muito longo e complexo. Ele saiu sempre depois de fazer cada um dos álbuns e depois regressou sempre para o seguinte. Passou o tempo todo a abandonar o grupo e só voltava porque eu implorava. Eu encorajava-o, dizia-lhe o quão bom ele era e foi assim que conseguimos fazer aqueles discos, mesmo contra a vontade dele. Obriguei-o. Disse-lhe sempre que não havia razões para ficar desiludido com o seu trabalho porque a qualidade era óbvia. Foi sempre uma montanha russa de emoções”. Nas palavras de Lawrence percebe-se que cada um dos discos dos Felt foi o resultado de uma profunda luta interna e talvez parte importante da sua beleza venha precisamente dessa tensão.

“Se lhe der um título de enorme beleza, a canção vai tornar-se ainda maior do que é”

Um dos discos neste primeiro conjunto de reedições viu também o seu título ser alterado, outro gesto de correção de um passado que Lawrence quer agora que se erga à altura da sua visão de sempre. “Nesta reedição, no caso de 'Let The Snakes Crinkle Their Heads to Death' regressámos ao título original, 'The Seventeenth Century', que foi sempre o título do disco até ao dia em que estávamos a trabalhar na capa e eu, de repente, o alterei. Fiz isso num impulso, sem pensar, e desde então que me arrependo. Na verdade, o arrependimento era tal que jurei a mim mesmo que um dia voltaria a repor o título original. Sei que é algo incomum, mas não é propriamente inédito: já muitos artistas resolveram dar novos títulos a alguns dos seus discos. Algumas vezes isso acontece por vontade dos artistas, outras por vontade das editoras. Quando eu percebi que não era assim tão incomum alterar um título, decidi que o faria quando esta reedição fosse em frente. Eu sempre adorei este álbum instrumental, mas o título impedia-me de o abraçar totalmente”. Verdade reposta, portanto.

E, claro, essa foi sempre uma dimensão importante da obra dos Felt, os títulos dos álbuns e das canções. Para uma música tão densa e opaca, por vezes os títulos funcionavam como as únicas janelas por onde seria possível vislumbrar alguma luz reveladora. Sugerimos que muitos desses títulos poderiam encontrar-se numa galeria, ao lado de quadros famosos.

“Títulos de pinturas impressionistas? Sim, é uma boa ideia. Poderia ser. Sempre admirei poesia, títulos poéticos. Muito mais do que títulos rock. Os títulos dos poemas sempre me fascinaram mais. Por exemplo, 'Sunlight Bathed The Golden Glow' [do álbum 'The Strange Idols Pattern and Other Short Stories'] sempre me soou a algo que, sei lá, o Allen Ginsberg poderia ter escrito, a esse tipo de poesia. Foi sempre minha intenção que os títulos fossem importantes para que as pessoas pudessem gostar ainda mais das canções, essa era a minha ideia. 'Se lhe der um título de enorme beleza, a canção vai tornar-se ainda maior do que é'. Essa era a ideia. Funcionaria melhor do que um título simples como... a primeira frase do refrão. Há para aí tantos títulos banais que eu queria ser diferente, tentar alterar essa ordem de ideias. Os títulos são mais importantes do que se pensa e deveríamos preocupar-nos muito com eles”.

Claro que títulos como 'Evergreen Dazed', 'The World is as Soft as Lace', 'Dismantled King is Off The Throne' ou 'Whirlpool Vision of Shame' contribuíram também para a ideia de uma reputação difícil que a imprensa britânica especializada rapidamente associou aos Felt. Honesto, uma vez mais, Lawrence não tem qualquer problema em admitir o seu pretensiosismo, mas, na sua cabeça, isso não era uma coisa necessariamente negativa.

“As pessoas pensavam que éramos muito pretensiosos e ser pretensioso no rock não é algo positivo (risos)”, admite. “A maior parte das pessoas não gostam de bandas pretensiosas. E eu confesso que éramos pretensiosos, na verdade éramos pretensiosos de propósito. Por exemplo, poderia pensar-se que o Mark E. Smith não gostaria dos meus títulos, que seria contra os meus títulos pretensiosos, mas ele adorava-os. Ele também adorava a pretensão. Se decides que amas a beleza, então tens que a promover no teu trabalho. Não basta dizer algumas coisas bonitas nas entrevistas, há que prová-lo no trabalho e uma boa maneira de o fazer é dar às canções títulos bonitos, porque um título é como uma etiqueta, uma etiqueta numa camisa, num par de calças. É o que te diz exatamente o que se passa, o que é o produto. Sim, eu queria que as pessoas tivessem noção de que éramos pretensiosos e que tínhamos orgulho nisso. Mas tudo vinha do amor pela poesia”. Um amor que permanece inalterado até aos dias de hoje, na verdade.

Lawrence, a alma dos Felt

Lawrence, a alma dos Felt

PP Hartnett

“Este é o meu derradeiro álbum pop. Só espero que as pessoas o percebam rapidamente porque não posso esperar muito mais”

Depois dos Felt, Lawrence lançou três álbuns como Denim nos anos 90, grupo que falhou o sucesso que Lawrence nunca teve problemas em admitir que sempre procurou de forma obsessiva. Os Go-Kart Mozart surgiram no final da década de 90 – curioso como Lawrence parece encarar cada década como um novo campo de possibilidades – e Mozart’s Mini Mart, o seu novo álbum (que é já o quarto), parece ser uma última e desesperada tentativa de alcançar a imortalidade ou, pelo menos, o justo sustento financeiro, ainda que canções como 'Facing The Scorn of Tomorrow’s Generation' revelem o verdadeiro sentimento que o anima e que também inspira temas como 'When You’re Depressed' ou 'Relative Poverty'.

Já estava pronto há algum tempo, mas esperámos para lançá-lo ao mesmo tempo que as reedições para conseguir o máximo de impacto”, conta Lawrence. “É a minha maneira de dizer que continuo aqui, não vivo apenas do passado, também tenho ideias novas. O que quero que fique claro é que avancei como artista, não me limitei a ficar no passado. Sou um músico muito invulgar, porque a maior parte das pessoas da minha geração depende do passado de forma continuada, nunca pensam no futuro, limitam-se a tocar as mesmas velhas canções nos concertos. O negócio parece orientado para nos fazer olhar para trás. Mas eu quero olhar em frente”, elabora. “Mais ninguém da minha geração faz o mesmo. Todos reformaram os seus velhos grupos e tocam as canções antigas. As pessoas gostam mais dos Felt do que dos Go-Kart Mozart, mas tal como me levou muito tempo a fazer com que os Felt fossem apreciados, suponho que o mesmo tempo será necessário para que gostem também dos Go-Kart Mozart. Talvez o novo disco ajude, porque é um disco pop, de proporções tão altas e de fasquia tão elevada que se não resultar não sei o que mais poderei fazer. Tanto quanto consigo perceber, este é um disco para toda a gente, com grandes letras: o vinil vem carregado de texto. E depois tudo vem embalado em melodias muito ‘catchy’. É o meu derradeiro álbum pop. E só espero que as pessoas o percebam rapidamente, não posso esperar muito mais”.

Lawrence na atualidade

Lawrence na atualidade

PP Hartnett

Quase uma hora e meia com a melhor música dos Felt: