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Rita Carmo

“Uma piscina, um belo churrasco e uma bela poncha”. Como os PAUS foram à Madeira cozinhar um disco

Sai na sexta-feira “Madeira”, o quarto álbum dos portugueses PAUS. Em entrevista à BLITZ, os quatro músicos dão o seu parecer sobre o turismo e a gentrificação na cidade onde vivem, Lisboa, e explicam em que medida a residência de uma semana no Funchal confirmou a aragem “insular e tropical” da sua música

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Ao fim da tarde, encontramos a porta do HAUS - estúdio e quartel-general dos PAUS, em Santa Apolónia - encostada. Lá dentro, Hélio Morais, um dos bateristas do quarteto, recebe-nos com entusiasmo, fazendo uma breve visita guiada pelo espaço que serve não só de estúdio de gravação, mas também de verdadeiro complexo da música feita em Lisboa, albergando várias salas de ensaio, ocupadas por artistas como You Can't Win, Charlie Brown ou Linda Martini. Logo a seguir, Joaquim Albergaria - o dono da outra bateria dos PAUS -, o baixista Makoto Yagyu e o teclista Fábio Jevelim juntam-se à soirée de conversa. “Podemos abrir este sofá e faz de divã!”, brinca a certa altura Makoto, quando comentamos que a banda parece estar - ao falar de alguma tensão causada pelas vozes e letras - a fazer psicanálise. Segue-se o relato da produtiva “sessão” com a banda de Lisboa, que muito em breve regressa, também, aos concertos.

O vosso novo álbum, “Madeira”, nasceu na Madeira, fruto de uma residência no Funchal...

Joaquim Albergaria - Na Madeira acabámos algumas coisas, e houve algumas decisões, mais conceptuais, que foram tomadas lá. Mas o disco começou a ser feito aqui, mesmo [no estúdio HAUS, em Lisboa]. Com o convite para podermos terminar o disco lá, ou fazê-lo com uma parte mais visual, é que a Madeira começou a informar a música que estávamos a fazer, na parte das letras, também. E a nossa relação com a ilha e com as pessoas de quem somos amigos, e com as pessoas que ficaram nossas amigas depois da residência, é que amarrou a coisa toda. O princípio das canções foi feito sem a Madeira em mente. O que aconteceu é que há um lado meio insular, meio tropical, meio flutuante que as músicas já tinham e que fazia todo o sentido para a nossa ideia da Madeira.

Hélio Morais - Como nunca compomos na sala de ensaios - compomos aqui - tínhamos pensado ir para a Madeira e fazer lá a residência, aprendendo as músicas. E depois faríamos o primeiro concerto de apresentação do disco lá. Só que, como adiámos o disco para este ano, acabámos por pensar noutra alternativa e surgiu esta ideia megalómana de fazer nove vídeos - um vídeo para cada música do disco, mais um documentário. E incrivelmente conseguiu-se fazer tudo numa semana!

Como foi essa semana de filmagens na Madeira?

Makoto Yagyu
- Cansativa, mas esteve-se bem. Já fizemos vídeos que nos custaram mais e nos tomaram muito mais tempo. Tínhamos era de ensaiar a música que íamos tocar no vídeo - se contemplares tudo, acabam por ser dias muito intensos. Mas com uma piscina, um belo churrasco e uma bela poncha, vai-se fazendo.

HM - Uma piscina à qual fui duas vezes! Acordávamos muito cedo porque, na maior parte dos dias, tínhamos de apanhar o nascer do sol. Desfrutávamos do espaço onde estávamos, que era lindo, e mesmo que só tivéssemos duas horas do dia para contemplar aquilo, já era incrível. Foi mais árduo para a equipa de vídeo.

JA - Foi fixe, acima de tudo porque não houve um trabalho de encenação do que quer que seja. Éramos nós, a tentar aprender a tocar as nossas canções, em contextos da ilha. A sermos nós, naquele momento e naquela altura. E depois a canção. Só isso.

Fábio Jevelim, Makoto Yagyu, Hélio Morais e Joaquim Albergaria - os PAUS em 2018

Fábio Jevelim, Makoto Yagyu, Hélio Morais e Joaquim Albergaria - os PAUS em 2018

Rita Carmo

Qual era a vossa relação com a Madeira, antes desta residência?

HM
- Eu e o Quim tínhamos ido lá ao Barreirinha, que é quase o quartel-general do Festival Aleste. Fomos lá passar som e ficámos impressionados com aquilo que aquelas pessoas dão sem esperar nada em troca. E ficámos com vontade de fazer mais coisas juntos.

MY - Tocámos uma vez na estalagem Ponta do Sol. Não saímos de lá durante uma semana. Bem, eu saí duas vezes. Fui comer uma espetada...

JA - Pensámos: “temos de ir ver golfinhos e baleias!”. E levámos a Glória, que é a minha filha, naquela de “vais ver baleias!”. Após cinco minutos de viagem, a Glória adormeceu e não houve baleias. A única baleia fui eu. (risos)

“Aprendemos que a nossa tolerância à poncha é grande. Muito grande. Basicamente estivemos uma semana em residência no Ponchal”

Costumam dizer que tentam sair daquilo que conhecem, para fazerem um trabalho diferente. Foi o que aconteceu com esta “migração” para a Madeira?

MY
- Tentamos sempre puxar mais para a frente do que conseguimos fazer.

JA - Para nós resulta esta ideia de: vamos fazer o que temos a fazer, mas mudamos o envolvimento da coisa, ou metemos mais dois músicos, ou afinal a residência passa por fazer nove vídeos. São coisas que nunca fizemos antes, das quais geralmente saímos exaustos mas com as quais aprendemos qualquer coisa. E o resultado final é sempre diferente do que já fizemos, porque a envolvência mudou.

HM - E aprendemos que a nossa tolerância à poncha é grande. Muito grande. Nós basicamente estivemos uma semana em residência no Ponchal.

Os PAUS, fotografados no seu estúdio, o HAUS, em Santa Apolónia

Os PAUS, fotografados no seu estúdio, o HAUS, em Santa Apolónia

Rita Carmo

“Confesso que não apresentei nem metade das ideias de letras e vozes que apresentei no disco anterior, porque estava muito condicionado”, Hélio Morais

Todos vocês têm outras bandas, outros projetos. Como decidem que chegou a altura de voltar a gravar com PAUS?

Fábio Jevelim - Chegas a uma altura em que te aborreces de tocar sempre as mesmas músicas e em que te apetece fazer coisas diferentes. A vontade acaba por chegar na mesma altura, costuma ser de dois em dois anos.

MY - E temos a facilidade de conseguir gerir o nosso horário com as várias atividades que fazemos, é uma questão de gestão de agenda [do estúdio].

HM - Este foi o nosso disco mais simples de compor e gravar.

MY - As vozes foram muito mais simples. Porquê não sabemos muito bem... estaríamos focados na mesma coisa?

FJ - Não estivemos muito tempo aqui em cima [no estúdio], todos. Nos outros álbuns, estávamos sempre os quatro aqui. E, desta feita, às vezes só estavam dois - o operador a gravar e o músico.

MY - E quando entra alguém, vem com uma energia diferente. Vem fresco. Os outros discos ajudaram-nos a perceber o que é que os outros [na banda] vão gostar ou não. Fomos aprendendo a tocar mais uns com os outros, ou mais uns para os outros, especialmente nas vozes. Vais condicionando o arranjo de forma a que seja mais agradável para todos e para encontrar um consenso.

HM - Quando cheguei a este disco, confesso que não apresentei nem metade das ideias de letras e vozes que apresentei no disco anterior, porque estava muito condicionado.

FJ - Porque tiveste medo, Hélio. Uma pessoa não pode ter medo.

HM - Há alturas em que estás com estrutura para discutir, outras em que não! São fases!

As vozes causam-vos ansiedade?

HM - Por isso é que estamos tão felizes por estas terem sido tão fáceis! Porque são sempre o único tema fraturante!

FJ - São complicadas porque nós tocamos o nosso instrumento e, quando recebemos uma crítica, [desvalorizamos] e fazemos logo outra cena a seguir. Mas com as vozes é uma cena tão pessoal - tanto a letra como a abordagem - que é mais fácil ferir o ego de alguém ou sentirmo-nos magoados. Torna-se complicado, até porque nenhum de nós domina muito a parte vocal. O Quim é o nosso melhor vocalista e mesmo assim não é um vocalista convencional. Então custa-nos muito mais ter ideias melhores e ouvir críticas.

Partem do Quim as críticas às vocalizações alheias?

QA - Eu? Não! A minha abordagem é sempre Beyoncé/Mariah Carey! Tento sempre baixar a diva. Mas boa parte dos músicos esquece-se que a primeira função do músico é ouvir aquilo de que a música precisa, ouvir o que os outros estão a dizer, para poder reagir melhor. E a arte do consenso - que nunca chega a palco, nunca chega a disco - é uma das partes mais importantes. Compor em banda é isso: como é que engrenas as vontades e as expressões de toda a gente? Às vezes não é fácil, como noutra relação qualquer.

HM - E numa relação a quatro, é mais complicado ainda!

JA - Mas estou de acordo com o Makoto: este disco foi mais fácil de fazer, porque já toda a gente tinha uma consciência muito clara de quais são os limites estilísticos e as vontades de cada um. E a intenção de fazer uma coisa mais canção e a naturalidade com que as canções apareceram também informaram aquilo que as vozes tinham de ser. Tivemos a sorte de acertar no nervo à primeira...

No booklet do disco escrevem uma espécie de manifesto, dizendo que são demasiado brancos para serem do sul, demasiado pretos para serem do norte... de onde vem essa pequena biografia?

JA - Primeiro foi para justificar algumas preocupações que tivemos, quando escrevíamos as letras. Ao misturar rock com uma data de outras influências - psicadélicas, música africana e de outros sítios... Viver em Lisboa, hoje em dia, é viver no meio dessa sopa, por isso a nossa música, de forma muito natural, contempla essa questão do que é fazer música em português e em Portugal, hoje. Essa questão está lá, latente. Depois a ideia da Madeira enquanto subúrbio mais longe de Lisboa, que está num triângulo entre as Américas, África e a Europa, também informou essa [abordagem].

A ideia de uma ilha ser um país completamente rodeado por margens - marginal por todos os lados - também nos levou a essa descrição. Depois há uma descrição, nossa, do que é sermos nós. Músicos portugueses a fazer esta música que é um bocadinho de tudo e acaba por não ser nada. Das nossas experiências de ir tocar lá para cima, para os brancos que são mesmo brancos, e onde já sentimos que não somos brancos o suficiente. Na nossa relação com as culturas a sul, com as quais partilhamos imensa coisa, mas não somos bem a mesma coisa. O ser português é estar “entre” - e este é um trabalho que, mais do que pensado, vinha a ser sentido desde o “Mitra” [álbum de 2016]. Esta coisa de não ser bem de um sítio nem de outro. A Madeira deu corpo, deu nação a esse pensamento. É uma coisa que nos é natural e com que nos sentimos confortáveis - nem carne nem peixe. Esse estado alforreca assenta-nos bem!

O primeiro single, com aquela que é possivelmente a primeira referência numa letra à localidade Foros de Amora, tem o nome de passe intermodal, 'L123'. Algum de vós teve esse passe?

HM - Claro! Eu sou da Linha de Sintra, o Makoto e o Fábio também. O Quim ainda viveu lá, e na Linha da Azambuja também!

QA - Eu vivi na Arrentela, que é a seguir a Foros de Amora. Na altura era Fogueteiro.

HM - Eu tinha, porque vivia em Queluz e a minha mãe vivia no Cacém, então precisava da coroa 3 para ir até ao Cacém!

Numa entrevista, o Hélio disse que gostaria de continuar a poder pagar uma renda em Lisboa. Qual a vossa opinião sobre as consequências do turismo na cidade?

HM - A minha é mais acutilante que a deles. Eu vivo muito perto do Quim, ali entre a Praça das Flores e a Calçada do Combro. E já vivo naquela freguesia - da Misericórdia - há dez anos. Ainda me recordo - e sem qualquer tipo de saudosismo - de ir às dez da noite à Brasileira [café] e não ver ninguém na rua. O que tem acontecido com esta vaga turística é muito fixe para a cidade, no sentido em que os espaços são recuperados, a cidade está mais segura, as casas têm melhor aspeto, entra mais dinheiro de impostos no município... Acho que estamos é numa preguiça imensa, ou não é preguiça e aí acho mais grave, de legislar. Não sou político, não me cabe a mim pensar como se impede esta expulsão de lisboetas - e quando falo de lisboetas, não falo de portugueses, mas de pessoas que habitam e fazem esta cidade ser o que é, há muitos anos. E custa-me perceber que os lisboetas vão ter de deixar de ser lisboetas. Há soluções para isso e já podíamos ter aprendido com os exemplos de Barcelona, de Veneza e de outras cidades que já passaram por isto e que passaram a ter medidas para controlar [os efeitos do turismo]. Nós chegámos tarde e mesmo assim parece que teimamos em não aprender.

FJ - Se calhar não interessa aprender...

HM - Isso é mais grave ainda. Imagino que haja alguma forma de legislar sobre isto. Não sou a pessoa mais indicada para saber que medidas usar, mas é uma preocupação que todos devemos ter. Porque depois perde-se isto: o caldeirão do que Lisboa é, desta mustura que somos, desta mistura de todas as culturas. De repente vamos ser uma cidade fantasma e não vai haver grande coisa de onde beber. Vamos voltar todos aos subúrbios.

FJ - Eu não partilho da opinião do Hélio. Acho que a evolução traz sempre coisas novas e consegues sempre ir buscar coisas boas. Não tens o mesmo tipo de caldeirão, mas tens outro qualquer. Se calhar é de inox, antiaderente, até pode ser melhor.

MY - O barro é fixe.

FJ - Estás preso ao passado. (risos)

JA - Para nós, este é um tema mais sensível, sobre o qual acabamos muitas vezes a pensar e a conversar. E de alguma forma absorvemos isso para a arte que fazemos. O 'L123' é sobre esse percurso, esse ângulo de como é que as cidades funcionam, formando identidades e expressões. Nós crescemos a olhar para dentro, de fora, e a achar que cá dentro, em Lisboa, é que se fazia e acontecia tudo, quando a verdadeira expressão e a mistura real estavam a acontecer na periferia. Os fenómenos do hip-hop dependeram do que acontecia nas periferias de Lisboa. O rock de hoje - com expressão e identidade, não estou a falar das 1500 bandas de covers de Pearl Jam que aconteceram nos anos 90 - surgiu nos subúrbios. Este boom criativo de música de dança com identidades que cristalizaram cá em Lisboa não aconteceu na Brasileira, aconteceu fora. Acontece é que muitos dos fazedores desta música depois vieram para a cidade e criaram uma comunidade aqui - trabalham juntos, partilham espaços, experiências. Este fenómeno de gentrificação, ou de monetização de património que estava abandonado, se quisermos olhar de outro prisma, pode obrigar as pessoas a ir para fora. A minha opinião é diferente: se calhar, é uma oportunidade de criar guetos [criativos] fixes.

HM - Estás a pensar na comunidade artística...

JA - Vou pensar na minha comunidade primeiro...

HM - Mas tens uma população que não tem nada que ver com as artes criativas, que é uma população lisboeta que deixa de o ser. Perdes identidade na cidade.

MY - Ganhas outras.

JA - Há cidades que se posicionam por serem cidades da tecnologia, ou cidades da música...

HM - Eu não quero parecer Velho do Restelo. A minha questão passa por encontrar um equilíbrio entre estas coisas. Acho que é possível evoluir economicamente e beneficiar de tudo isto, mantendo uma coisa que é nossa, que é cultural.

JA - O que as outras cidades grandes fizeram foi perceber que o centro da cidade não é a identidade da cidade. Se o centro da cidade quiser ser turístico, 'bora valorizar e edificar uma série de espaços cá fora, em vez de serem só dormitórios.

HM - Mas isto afeta toda a gente. Tu, enquanto classe média com algum privilégio, vais ser expulso do centro e vais começar a ocupar casas de Marvila, que dantes eram de gente com muito poucos recursos monetários, que por seu turno vão começar a sair para outros guetos, e assim sucessivamente. A minha questão é que isto muda a dinâmica não só do centro, mas de todas as coroas a seguir.

No fundo, as vossas posições são complementares...

HM - A discussão que devia haver era esta!

A digressão do novo álbum começa já este mês

A digressão do novo álbum começa já este mês

Rita Carmo

No álbum anterior, disseram que pensam no vosso público como uma comunidade próxima e pequena, de amigos e conhecidos... Ainda pensam assim?

HM - Nós somos bastante autocentrados, no que diz respeito à composição. O que me parece positivo em qualquer banda que se proponha fazer o que nós fazemos.

FJ - A ideia de fazer música a pensar muito no público resulta em bandas mais pop, que têm de ter uma abordagem lírica com que as pessoas se identifiquem. Numa banda mais instrumental e roqueira, sem muita voz, o pessoal faz o que lhe dá gozo. Às vezes faço malhas a pensar: “isto vai saber-me bem tocar ao vivo”, e não por causa das pessoas. Noutras penso: “aqui posso ir fumar um cigarro”. Penso mais nessas coisas do que: “será que o pessoal vai curtir?” Até porque, se estiveres sempre nessa desconfiança, acabas por não fazer nada de novo e ficas agarrado aos outros, em vez de tentares chegar a um sítio novo. E o objetivo é sempre chegar a um sítio novo, mesmo individualmente.

HM - Ou mudo os pedais, ou procuro sons diferentes, ou mudo a disposição da bateria. Temos sempre esse cuidado em todos os discos.

FM - Vendemos pedais e compramos outros. Ou compramos teclados, ou percussões...

HM - Eu não vendo nada, eu vou acumulando. Sou hoarder de material! (risos)

“Madeira”, o quarto álbum dos PAUS, composto por CD e DVD, chega às lojas a 6 de abril. Nesse dia, a banda toca no Hard Club, no Porto. No dia seguinte, estará num festival em Haia, na Holanda. Em Lisboa, o concerto é no Capitólio, a 13 de abril, e em Aveiro os PAUS tocam no Teatro Aveirense, no dia 14.