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Festival F - Rui Veloso

Marta Ribeiro

Rui Veloso - Rei sem Coroa

Numa altura em que tem estado na ordem do dia, graças às suas declarações sobre o Festival da Canção e outros temas, recordamos a entrevista com Rui Veloso originalmente publicada na BLITZ de julho de 2007

Diz-se que quem tem uma mãe tem tudo e no caso de Rui Veloso, isso não podia ser uma verdade maior. Não fosse a segurança da dona Emília Veloso nas capacidades do seu filho, não tivesse ela agarrado, às escondidas, nas bobines que o filho tinha gravado e ido mostrá-las a António Pinho, então na Valentim de Carvalho, e a história da música portuguesa seria radicalmente diferente daquela que conhecemos. A recção de António Pinho foi positiva: fez-se o desafio a Carlos Tê para escrever em português e o resto, quase se poderia dizer, é música. A edição de Os Vês Pelos Bês, de Ana Mesquita, conta precisamente esse caminho.

Rui Veloso descreve o livro como sendo «para amigos» e diz que faltam lá muitas histórias para ser uma biografia «completa». Falta--lhe nomeadamente o futuro porque Rui Veloso não parece ter vontade nenhuma de abrandar e quase parece ter a mesma energia hoje que possuía há 27 anos. Surgiu na cena musical portuguesa com um certo Ar de Rock que soava muito diferente de tudo o resto que se fazia em Portugal na altura: retratos claros de certos tipos com que todos nos íamos cruzando nas ruas, mas que ninguém cantava. Com Carlos Tê, Rui Veloso deu--lhes espessura de canção e uma explosão de criatividade seguiu-se com bandas novas a serem reveladas todos os meses, na imprensa, na rádio e na televisão. Este é o olhar de Rui Veloso sobre essa época.

Quando se fala em «boom do rock português» em que é que imediatamente pensa?
Bem, penso numa enorme explosão que sucedeu à saída do Ar de Rock, que foi um disco que deu uma abertura enorme às editoras que assim começaram a acreditar num tipo de música diferente, que não se fazia antes ou que só se fazia muito esporadicamente.

Alguma vez se sentiu no meio de um turbilhão musical?
Não. O turbilhão que sentia era o da minha vida pessoal, não o do rock. A minha vida estava a mudar completamente, com a mudança para uma cidade estranha que quase não conhecia [Lisboa], com o quase deixar de ver os amigos. E, depois, passar da minha cave para um estúdio. Essas foram as coisas que me abalaram na altura. Claro que hoje tenho uma perspectiva diferente, mais histórica, e já me vejo no meio daquilo tudo mas naquele tempo até parece que tudo me passou ao lado.

Nesse tempo, quais eram as suas referências na música portuguesa?
Ouvia muito rádio foi essa a minha formação musical inicial. Os discos, poucos, íamos comprando e trocando. Na música portuguesa, o que eu conhecia, e de que gostava muito, era o Zeca Afonso, o Zé Mário [Branco], o Sérgio [Godinho]. Seguia com atenção o lançamento dos discos no Página Um, do Zé Manuel Nunes.

Mas, em termos de rock nacional, ouvia alguma coisa?
Havia alguns grupos, como os Psico, os Tempo ou até os Tantra, que eu acompanhava e de que gostava. Mas eu era ainda muito novo e tinha uma liberdade limitada. Além disso vivia no Porto uma cidade onde poucas coisas aconteciam. Tinha um lado cultural interessante mas, especificamente na música, passava-se muito pouco. Aliás, acabámos todos por ter que vir para Lisboa.

O deserto era tal que foi necessário inventar uma cena rock, é isso
Não diria tanto inventar... Acho que tudo aconteceu de forma natural. Antes não havia nada e depois as coisas começaram a acontecer. Não nos podemos esquecer que tinha acontecido uma guerra e a história de Mingos & Os Samurais é um pouco essa, não é? A guerra dividiu muito a malta nova que tinha grupos havia quem tivesse que ir para a tropa, para a guerra, e isso desintegrava qualquer hipótese de se fazer alguma coisa com continuidade. De qualquer maneira, os músicos continuaram a trabalhar, a aprender, a ouvir rádio e a trocar discos. Eu, por exemplo, fartei-me de fazer aquilo que se faz muito hoje: gravar compilações para amigos, com uma música daqui e mais duas dali. E não só em cassete em bobine também! Aliás, comprei há pouco tempo um gravador de bobines para ir recuperar certas coisas que fazia. Como não tinha dinheiro para fitas, aproveitava o facto de a fita ser stereo para gravar músicas em mono e ficar com mais tempo de gravação.

E gostava de música negra.
Sim, imenso. O meu pai um dia levou-me à Ordem dos Engenheiros para ver, em Super 8, o discurso da liberdade do Martin Luther King e isso foi uma coisa que me impressionou muito, posso mesmo dizer que é uma das pedras de toque da minha vida. Quando me questionam sobre as pessoas que me marcaram, eu falo sempre, com certeza, no meu pai, mas também no Martin Luther King porque o discurso do «I have a dream» deu--me uma visão diferente do mundo.

Lembra-se da greve dos músicos sindicalizados por volta dessa época? O Francisco Vasconcelos [da Valentim de Carvalho] refere que foi um catalisador para que as portas dos estúdios se abrissem a uma nova geração.
Lembro-me da greve mas curiosamente nunca tinha relacionado os factos. Acho que o facto de o meu disco ter vendido bem e ter aberto novas perspetivas de negócio também encorajou as outras editoras a apostar. Até porque a ideia era alcançarem-se lucros astronómicos.

E como foi finalmente poder colocar os pés dentro de um estúdio a sério?
Eu nem sabia muito bem como era um estúdio! Tinha feito uns trabalhinhos pequenos, uns coros para ganhar uns trocos... Acabei até por participar num festival da canção, precisamente em 1980, com uma guitarra e uns coros também para ganhar algum.

Com quem?
Foi com a Dina e já nem me lembro bem do que fiz. A minha memória é fraca, fumei-a toda, como dizia o [jornalista, comunicador e produtor brasileiro] Nelson Motta (risos).
Portanto, tinha uns conhecimentos mínimos do que era um estúdio. Era muito inseguro ainda sou um bocado, mas na altura nem conseguia perceber muito bem o que se passava.

Como é que se lida, depois, com a promoção do disco, com ter que vender aquilo que tinha sido criado?
Não muito bem. Essas senhoras [aponta para as veteranas promotoras Isabel Castaño e Paula Freitas] sabem bem que sempre fui muito mau para vender o meu produto. Fui sempre mau vendedor, precisamente por causa desse meu lado inseguro.

Olhando para a quantidade de galardões aqui nestas paredes, diria que ainda bem que é mau vendedor.
Pois. porque houve quem se encarregasse de o fazer! Se tivesse dependido de mim, se calhar, não tinha vendido nada (risos).

Deu por si a ter que explicar as suas criações, não foi?
Sim, mas não foi fácil. Nem eu percebo como nascem as canções! Ainda hoje fico intrigado comigo mesmo porque nunca aprendi piano, sento-me ao piano e as canções aparecem. É como o sofrimento: às vezes não se sabe porquê mas fica-se triste. A criação tem um bocado a ver com esse lado inexplicável da vida. O Tom Waits diz que faz músicas novas porque está cansado das velhas, eu também sou um bocado assim.

A fama era algo que desejava ou nem por isso
Nem por isso. (risos) Eu preferia ser famoso sem ser notório. O [Carlos] Tê é uma pessoa que sempre se resguardou, deu muito poucas entrevistas. Eu fui mais exposto. E a verdade é que não há cursos para isso para se lidar com a fama. O que acaba por ser engraçado é que hoje em dia temos este grupo social novo, que se chama «os famosos», que vejo nas revistas de coração -gosto de as ver nem que seja por uma questão antropológica! - e, nesse grupo, há gente que é famosa por absolutamente nada, que faz tudo para estar nesse grupo, mas que depois passa a vida a queixar-se da fama. Andam à procura da fama, por vezes durante anos, e depois adoptam o discurso do «deixem-me em paz, quero viver a minha vida» e tal. No meu caso, a fama, posso dizê-lo, tem um preço violento.

Como era a imprensa da altura? Havia o quê?
O Musicalíssimo, o Se7e, o Música & Som, de que eu tenho até uns prémios antigos ali na parede. Posso dizer que esta imprensa me tratou bem, até porque eu era a novidade. E o facto de estar disposto a entrar em diálogo com eles, dando entrevistas, vendia jornais e revistas...

E discos!
Pois, e discos também, claro! Era mesmo muito importante para a divulgação. Havia muita gente na rádio que também escrevia nas revistas. Era uma rádio muito melhor - a chamada rádio de autor, que não tem nada a ver com a rádio de agora. Hoje em dia não se arrisca como naquele tempo. Transmitia-se muito conhecimento. A rádio e a imprensa complementavam-se. Ouvia o Rock em Stock, o António Sérgio, o Rui Pêgo, o Rui Morrison. Lembro-me antes disso do Página Um, do Em Órbita.

Essa gente toda também desempenhou um papel no boom?
Sem dúvida que sim! Foram pessoas que colocaram todo o entusiasmo possível na divulgação de música nova. Podiam ter olhado para o lado e não o fizeram. Uma coisa que hoje em dia quase acabou: é preciso quase mendigar para uma música passar na rádio. E só passam uma! É quase como se um escritor que escreve um livro só visse um dos seus capítulos tornar-se famoso. É que, por cada música que passa, ficam dez no esquecimento.

Um dos rótulos criados nesse tempo foi o do «rock português». Fazia sentido essa designação?
Acho que fazia e até hoje ainda faz. Há o rock inglês, o rock espanhol e o italiano. São todos diferentes.

Mas é apenas uma questão de língua? Não seria mais correcto então falar em «rock em português»?
Não. Acho que era um rótulo que condensava um momento, que agregava uma série de coisas diferentes, umas mais punk, outras mais bluesy. No fundo, esse rótulo queria identificar a nova música portuguesa do pós--25 de Abril ou pós-PREC.

E quanto ao outro rótulo famoso da época, o de «pai do rock português?
Achava uma chatice. Era uma responsabilidade que eu enjeitava porque não fiz nada: estava no meu cantinho, fiz umas músicas e gravei um disco, mais nada! Não era pai de nada ainda por cima só tive uma filha dois anos depois! Acho que isso não tem especial interesse até porque sempre me considerei mais discípulo do que mestre.

Como era tocar ao vivo nesse tempo? A estreia foi naquele concerto no Algarve com o Steve Harley, não foi?
E com os Gang of Four, que era um grupo com muita piada. Lembro-me que os Gang of Four partiram o camarim todo, até deitaram o telhado abaixo. Mas com razão: estavam a ser maltratados, como eu aliás, pela equipa do Steve Harley.

Não seguiu o exemplo?
Realmente fomos muito maltratados em Lagos, e depois aqui em Cascais, mas houve um terceiro concerto em Espinho. E, nesse terceiro dia, todas as pessoas da «entourage» do Steve Harley tiveram a consciência de que iam tocar à minha terra. O Steve Harley veio falar comigo: «então vamos tocar à tua terra?» Respondi que sim e que era bom que não me tratassem mal lá. «Não haverá problema».É que eu já tinha lá uns amigos preparados para puxarem as orelhas ao técnico de som.

Andar na estrada nesse tempo era bem diferente, não era?
Ui. desbravar os caminhos naquelas estradas horrorosas, tocar em palcos muito maus, com PAs muito maus...

Esse tempo não deixa saudade nenhuma.
Claro que não! É a mesma coisa que um gajo andar num Fiat 600 e depois andar num Mercedes e dizer que tinha saudades do Fiat 600 - não sou assim! Quem começa agora a tocar não faz a mínima ideia de como se tocava na altura: ter que carregar com tudo. E a dificuldade que era para conseguir comprar instrumentos?! Hoje em dia vai--se à net e manda-se vir uma Stratocaster muito rapidamente mas naquele tempo havia pouca coisa. [Havia] umas três casas de música e sempre que chegava um instrumento novo os músicos invadiam a loja. Hoje já não é assim.

Houve uma série de gente que permaneceu desde essa altura: os Xutos, os UHF, os GNR. Existe algum sentimento de clube que vos una?
Sim, claro, temos essa época em comum. Mas também acho que internacionalmente é um bocado assim. Continua a haver uma série de veteranos com muito sucesso: o [Bruce] Springsteen, o Tom Petty, o Tom Waits, o [Bob] Dylan. Na altura, talvez houvesse muito maior ligação entre os músicos o sentimento geral foi sempre de irmandade.

Nunca houve rivalidades como lá fora? Stones vs Beatles ou Oasis vs Blur?
Que eu saiba, não. Houve sempre grandes amizades. Não só entre as pessoas do rock, mas entre as do rock e as da música popular e do jazz. O que há agora, realmente, pelo menos que eu sinta, é uma certa distância entre o pessoal que canta em português e o que canta em inglês. Até porque, segundo me parece, há uma certa falta de reconhecimento do trabalho que os mais velhos fizeram. Assim mesmo à africana: «os mais velhos»...

A antiguidade é um posto?
Não é isso até porque fazemos todos a mesma coisa. Todos se sentam ao piano, todos tentam fazer o melhor que conseguem.
Parece que, às vezes, tentam fazer-nos regressar aos tempos antigos, quando era foleiro cantar em português. Não gosto nada de sentir isso.

Falando especificamente em Ar de Rock: é um disco que ainda ouve?
Não. Em geral, não ouço os meus discos. Tenho muita música para ouvir estou sempre a comprar discos e muitos nem têm nada a ver com a minha música.

Se amanhã se reformasse, quem seriam os seus herdeiros?
Só o facto de haver muita gente a cantar em português já é bom. Agora herdeiros, no meu estilo se é que tenho um estilo, não sei. Talvez na guitarra, gente que tenha aprendido a minha forma de tocar e de solar. Talvez haja alguém, sim.

Mas se tivesse que pegar na sua coroa e colocá-la na cabeça de alguém especial, quem seria?
Por acaso tenho uma costela monárquica (risos), mas não me sinto rei de nada nem sequer habilitado a usar uma coroa.

Para terminar, há algum projecto na manga que possa revelar?
Tenho a ideia de, um dia, fazer um disco na minha casa eventualmente até aqui neste sítio [NR: a sala de música de Rui Veloso, envidraçada], com algumas das minhas canções favoritas com arranjos meus, simples, com guitarras acústicas e também eléctricas, uma coisa muito orgânica. Quero reunir as coisas de que gosto: do Tom Petty, do Tom Waits, do Bob Dylan.

Publicado originalmente na BLITZ 13, de julho de 2007