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Benjamin Clementine

Rita Carmo

Benjamin Clementine: “Podem escolher amar-me ou odiar-me. Eu só estou aqui para vos amar”

É uma das figuras mais enigmáticas e magnéticas a aterrar na música nos últimos anos e regressa esta semana a Portugal – onde é cada vez mais adorado – para três concertos: Viana do Castelo, Figueira da Foz e Lisboa. No ano passado vimo-lo brilhar em palco e fora dele. Olhos nos olhos, o artista inglês explicou-nos por que razão é um 'alien'

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Paredes de Coura, agosto de 2017, última noite do grande festival minhoto. Pelo palco maior do evento que, todos os anos, leva largos milhares de melómanos à pequena vila no norte de Portugal já passaram, por esta altura, numerosos músicos: o rock, nas suas tentaculares derivações, continua a ser o campeão, mas hip-hop, música eletrónica e até jazz cabem num cartaz que, em 2017, celebra com convicção a chegada à edição número 25.

Para a despedida ficara então, se não o melhor pedaço, o mais inqualificável. Naquela noite quente de agosto, o tapete outrora verde, e entretanto já reduzido a pó, recebe a visita de um alien – Benjamin Clementine, passaporte britânico algures na mala de viagem, mas pouco amigo da noção de fronteiras, chegou para conquistar os quase 30 mil espectadores que acorrem ao quarto e derradeiro dia de festival.

Fá-lo, insistimos, com música difícil de catalogar: ao piano, instrumento que o acompanha desde tenra idade mas que ameaça abandonar em breve, alterna entre canções do primeiro álbum, At Least For Now, e as novidades do ainda desconhecido I Tell a Fly, que só chegará às lojas no final de setembro. Numas e noutras o magnetismo do londrino de 28 anos agarra pelo colarinho a plateia – em último caso, dir-se-ia que não importa o que Benjamin Clementine canta.

Naturalmente, temas já bem conhecidos do público – Portugal é o tipo de país onde um artista tão singular consegue ter uma canção, «Nemesis», num anúncio televisivo à cerveja – garantem uma maior adesão. De entre as novidades, «The Phantom of Aleppoville», que em agosto já «rodara’ bastante na net, é recebida com algum entusiasmo. Mas continuamos a acreditar: não importa o que Benjamin Clementine vem tocar, mas sim que está aqui, perante nós, para uma celebração que tem tanto de enfoque na mensagem – ele quer pôr-nos a pensar no mundo e não o esconde – como de sessão de terapia coletiva e, de forma pouco camuflada, de culto da personalidade.

Criado nos subúrbios de Londres, renascido em Paris, adotado pelo mundo, Benjamin Sainte-Clémentine é um falso tímido, que sussurra nas entrevistas e, ao chegar ao palco, voa como uma águia-real. Ou será a sua postura de palco um mero disfarce e a timidez a verdadeira personalidade do rapaz em tempos vítima de bullying? É possível que nunca venhamos a descobrir a resposta mas, naquela noite amena, até os mais céticos se calaram para tentar perceber.

Para o seu primeiro espetáculo em Paredes de Coura – mas décimo em Portugal –, o artista trouxe uma banda, um coro, um palco bonito. Mas são as suas palavras, o seu piano e, acima de tudo e no centro de tudo, a sua voz que exercem boa parte do fascínio. Quando Benjamin Clementine, que na vida dita real mede 1,93m e em palco não parece ter menos de três metros, pede ao público que se cale, o impensável acontece – e a obediência pronta dos milhares que se concentram à sua frente permite-nos ouvir o vento a passar pelas folhas das árvores. Que feitiço é este?

«Fechem os olhos, vamos cantar juntos, sem medo», convida. E o desafio abre a porta a um longo diálogo entre músico e audiência, como se, em vez de no recinto de um festival, estivéssemos num auditório daqueles onde o cantor e compositor atua, também, com frequência. «I’m sending my condolences to fear, I’m sending my condolences to insecurities», quer ele que cantemos. E, sob a sua batuta invisível, a frase – retirada de um dos temas do seu primeiro álbum – é repetida uma e outra vez, no anfiteatro natural de Paredes de Coura.

Brincalhão ou provocador, desafiante ou atrevido, o maestro conduz a massa de gente que não arreda pé até ao fim de um concerto com iguais doses de paixão e improviso (do alinhamento previsto, afixado na zona de imprensa antes do espetáculo, muito pouco se mantém no lugar; há canções que desaparecem, outras que mudam de sítio, outras ainda que fazem aparições-surpresa). Em palco, Benjamin Clementine está no seu recreio, mas é evidente que leva a sua missão muito a sério. É apenas mais uma das contradições de um artista que Portugal conhece e adora há cerca de dois anos.

Benjamin Clementine

Benjamin Clementine

Rita Carmo

Ancião antes dos 30

Quando, ao 12º dia de 2015, lançou o primeiro álbum, Benjamin Clementine era um velho ancião de 26 anos. Ainda que a sua chegada à ribalta tenha sido gradual e mais alicerçada na força dos concertos do que no impacto do disco, o inglês já apareceu envolto na sua própria mitologia.

O facto de se recusar a abordar em pormenor a sua infância e juventude só adensa o mistério e aguça o apetite; sabemos que é o mais novo de cinco irmãos de uma família fortemente religiosa, de origem ganesa, e que a certa altura foi enviado para a casa da avó, sozinho. Porquê, diz não saber.

Na adolescência, era um rapaz extremamente introvertido, que encontrou conforto na literatura (odiava William Shakespeare, que era obrigado a ler na escola, adorava William Blake, cujos livros requisitava na biblioteca) e na música. Desejoso de que o filho mais novo se tornasse advogado, o pai proibiu-o de perder tempo com cantigas, mas Benjamin conseguia esconder pequenos instrumentos no sótão, aprendendo a tocá-los praticamente sozinho (o irmão Joseph, que tinha um piano, deu uma mãozinha).

Aos 16 anos, mais uma vez não explica porquê, saiu de casa e acabou sem-abrigo, em Camden. Daí às ruas de Paris bastou o impulso de comprar um voo numa companhia low cost e passar longos meses a tocar em estações de metro (onde chegou a ser preso por não ter passe), até que um agente o descobriu e pôs a «rodar» no circuito dos festivais europeus. Benjamin toca piano e fala francês; tem um visual desconcertante, tão devedor dos seus tempos de sem-abrigo, com os longos sobretudos e pés descalços, como capaz de levá-lo a desfiles da Burberry, marca com a qual já colaborou mais do que uma vez; viveu num dormitório para dez indigentes, onde escondia os seus poucos pertences debaixo do beliche, e agora é venerado por multidões em êxtase.

Todas estas contradições parecem contribuir para dar forma ao seu mito e, ao mesmo tempo, para conferir a Benjamin, o humano, uma natureza mais terrena. Em 2015, antes de uma nova fornada de concertos em Portugal, dizia ele à BLITZ: «tem sido um longo caminho, o meu, e não é um comentário negativo que me vai fazer chorar. A menos que quem o faça seja um dos meus heróis, mas os meus heróis já morreram todos», afirmava este fã devoto de Leonard Cohen, Jimi Hendrix e Nina Simone.

Mais à frente, desenvolvia: «algumas pessoas podem pensar que sou muito teimoso, ou talvez arrogante, mas esse não é o retrato que faço de mim. A verdade é que já fiz muitas escolhas que podiam ter levado a que, por esta altura, já estivesse morto. Mas ainda estou vivo, e isso fez-me acreditar em mim mesmo. E na minha intuição».

Dois anos depois, Benjamin Clementine está mais vivo do que nunca. Quando, após uma sessão de escuta do novo álbum, promovida no Centro Cultural de Paredes de Coura, se materializa perante os jornalistas, a sensação que transmite é a de uma estranha serenidade. No seu segundo longa-duração, o multi-instrumentista é caótico e intenso, seguindo por caminhos divergentes, esteticamente falando, e pouco imediatos, do ponto de vista comercial. À noite, já sabemos, cantará com uma voz capaz de furar a lua. Mas aqui, num auditório onde uns 20 ou 30 estranhos acabam de ouvir pela primeira vez o seu novo trabalho, Benjamin parece tranquilo, respondendo com generosidade às perguntas da imprensa portuguesa, mas também da de Espanha e de França, o seu segundo lar, afinal.

Muitas das perguntas passam, compreensivelmente, pelas letras de um disco que tem sido descrito como político, por oposição ao «pessoal» álbum de estreia. Mas Mr. Clementine, essa contradição em construção, lembra: «guerra é aquilo que estamos a enfrentar de momento. Mas isso não quer dizer que o disco seja político. Para mim, a guerra e a paz não são política; só estou a tentar dar o meu melhor para escrever algo sobre o tempo em que vivo e, ao mesmo tempo, a tentar não parecer um idiota». Pessoal e político, micro e macro, local e universal: o homem que temos diante de nós, enfiado num fato de bombazine amarelo-mostarda, parece transitar com agilidade todas estas esferas.

Quando questionado sobre se a personagem Billy the Bully, da canção «The Phantom of Aleppoville», existiu na verdade, responde de forma simultânea direta e alegórica. «Com certeza que existiu. Em criança, eu era vítima de bullying na escola», revela, sem nunca elevar a voz, introduzindo então a importância do trabalho do psicanalista Donald Winnicot, que nos seus livros comparou o trauma sofrido pelas vítimas de bullying à tragédia vivida pelas crianças numa zona de guerra. «Se, quando chegam a casa, as crianças vítimas de bullying não puderem contar aos pais o que lhes aconteceu, porque têm medo que lhes ralhem ou que vão à escola falar com o diretor, essa é outra forma de violência – e acabam ser vítimas de bullying tanto na escola como em casa», elabora o homem cuja mulher, grávida de três meses, assiste à conferência de imprensa numa das últimas filas do auditório.

Ao relacionar a guerra na Síria, e a forma como ela atinge as crianças («muitas veem os pais serem assassinados e ainda têm de decidir se hão de integrar o ISIS ou não»), e o fenómeno do bullying escolar (um problema muito comum em Inglaterra, diz-nos), Benjamin Clementine espera chamar a atenção para as pontes entre um flagelo e outro, tornando mais próxima, do ponto de vista emocional, uma catástrofe relativamente longínqua do mundo ocidental. Porque, afinal, ninguém está livre de ver a sua confiança abalada por experiências traumáticas. Nem mesmo um adulto que, dali a poucas horas, terá mais de 25 mil almas a seus pés. «Ainda hoje, se vou na rua e vejo miúdos reunidos numa esquina, às vezes sinto um pouco de medo. Porque acho que podem rir-se de mim ou fazer-me alguma coisa. E sou capaz de atravessar para o outro lado. E tenho 28 anos!», acrescenta, como que reconhecendo o aparente absurdo do que acaba de dizer.

Quando – depois de criar algum sururu com dois EP e a fama dos primeiros concertos – se estreou nos álbuns, a sua intenção era simples: contar a sua história. Ao segundo capítulo, o enredo complica-se: em I Tell a Fly, título que é um trocadilho com I tell a lie («conto uma mentira») e a era das fake news, o plano é mais amplo – mas a responsabilidade não parece pesar-lhe nos ombros largos e retilíneos.

«Não senti pressão, ao fazer este disco, porque senti que tinha algo a dizer», explicou, ainda na conferência. «No primeiro álbum, quis contar a história da minha vida. Desta feita, quis contar a história das outras pessoas, de como aquele visto americano me inspirou». Refere-se o nosso anfitrião ao visto que, na chegada aos Estados Unidos, onde ficaria a viver num apartamento com piano, em Manhattan, o classificou como alien, mais precisamente «alien of extraordinary ability», ou seja, um forasteiro de capacidades extraordinárias. Primeiro estranhou, mas depois o rótulo dos serviços de emigração norte-americanos acabaria por oferecer-lhe um conceito a explorar em I Tell a Fly: o de ser um estranho, um extraterrestre, alguém que nunca chegará a pertencer a lado algum – nem mesmo tendo talentos extraordinários.

Benjamin Clementine prefere não ser demasiado pessoal ou específico, mas é evidente a ligação de títulos como «God Save the Jungle» à «selva» de Calais, o acampamento no norte de França onde, até 2016, se concentravam os refugiados à espera de entrar em Inglaterra, ou de «By the Ports of Europe» à questão do Brexit. E, para dar vida a temas tão contemporâneos, o jovem que o jornal Evening Standard considerou uma das pessoas mais influentes da Grã-Bretanha usa instrumentos como o inseparável piano, alguns sintetizadores emprestados por Damon Albarn ou o cravo, um arcaísmo que desperta a curiosidade dos presentes. «Usei-o por ser europeu e porque me pareceu que, ao escrever um álbum sobre o tempo presente, devia usar um instrumento como o cravo. Não posso usar só as minhas palavras, tenho de recorrer a instrumentos que ajudem o meu trabalho a chegar a outros sítios, aos sítios onde quero chegar», justifica. «É um belo instrumento, ainda que muito difícil de tocar. E a verdade é que também me aborreço a tocar piano – todas estas razões me levaram a optar pelo cravo. Muitas pessoas me têm dito que era usado em castelos e palácios mas, para mim, só tinha de acrescentar valor», defende, descrevendo o seu som como «mais insistente. Chama mais a atenção do que o piano, que temos de tocar de forma harmoniosa. O cravo é mais como um cão, sempre a ladrar. Por isso é que algumas canções têm cravo logo no começo – para chamar a atenção. Se estou a falar de Alepo, claro que quero que as pessoas ouçam».

Benjamin Clementine

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Rita Carmo

Coração dormente

Quando nos sentamos para o entrevistar, na primeira fila do auditório, Benjamin Clementine fala tão baixo que quase temos de adivinhar as palavras nos seus lábios. Mas a mensagem passa. Sobre o novo álbum, onde apenas um músico – o baterista Alexis Brossard – aparece na ficha técnica, faz questão de dizer que pelo menos 20 pessoas participaram nas gravações. «Da pessoa que nos traz o chá até nós, os músicos, fazer um disco leva muito tempo e envolve pessoas que te façam coisas, que saibam fazê-las. Não basta sentar-me sozinho numa sala e carregar no "gravar"», sorri, elogiando o trabalho do engenheiro de som Steve Sedgwick, que fez as misturas. «É um homem adorável e, se não fosse ele, este álbum não soava como soa».

Sem demérito para a equipa técnica, detivemo-nos no chá: certamente um hábito muito britânico? A ideia não lhe agrada especialmente. «À medida que cresço, como homem, começo a pensar que esta coisa das nacionalidades é uma treta», confessa. «Se pensares nisso, chamam-te portuguesa porque nasceste aqui – não porque o tenhas escolhido. Eu quero escolher quem sou. Não posso aceitar aquilo que as pessoas dizem que sou. Então, por muito que adore voltar a Inglaterra e viver lá, a meu ver sou um alien. Sempre andei por aí, sempre viajei, sempre conheci pessoas novas e sempre falei com elas. Sempre tentei aprender com os outros – com as pessoas daqui, da América… Não posso dizer que sou britânico. Oficial e legalmente, o que quer que isso queira dizer, sou, mas não posso aceitá-lo. Quanto mais depressa aceitarmos que somos todos viajantes, mais depressa o mundo será um sítio melhor. Posso estar enganado», admite, «mas acredito nisso».

A inquietação que percorre I Tell a Fly pontuado por momentos de calmaria após a tempestade, e vice-versa, é para o seu autor um reflexo natural do mundo em que vivemos. «Olha para o que acontece à nossa volta. Num momento alguém faz uma coisa, no momento a seguir faz outra. Depois o Trump diz qualquer coisa, os líderes ficam todos indignados, e estamos a comportar-nos como macacos… Então olhas para a tua rua, em Inglaterra, e tens um incêndio, um prédio todo em chamas», diz, referindo-se à tragédia de Grenfell, não muito longe do bairro londrino onde vive. «Claro que tenho de criar este impulso e usar a minha música para falar e dizer às pessoas como me sinto em relação a estes assuntos». E não se sente demasiado assoberbado para abordá-los? «Não, porque o meu coração deixou-se adormecer», diz, surpreendentemente. «Deixei de conseguir sentir, e foi aí que tive de começar a escrever a sério para este álbum. Quando deixei de me sentir magoado ou triste por as pessoas estarem a morrer, ou a serem escorraçadas por não terem onde viver, e por terem de fugir de situações que já não conseguem aguentar. Na verdade, isso ajudou-me a escrever porque, se me sentisse demasiado emocionado, não conseguiria escrever de forma equilibrada, como talvez tenha conseguido. Soaria demasiado assoberbado e perderia o sentido. Às vezes não é bom para um artista tornar-se demasiado emotivo», concretiza, sempre num fio de voz. «Sobretudo quando falamos de assuntos como estes. Porque acabamos a apontar o dedo a certas pessoas e isso destrói o nosso guião».

Entusiasmado por mostrar aos fãs o novo disco, «por ser bastante diferente», Benjamin Clementine define-se como «muito ambicioso. Este álbum é muito ambicioso. Vamos ver como corre. Mas mais importante é que as pessoas que abraçaram o meu primeiro disco também abracem este, e percebam que eu não estou aqui só para chorar e ter pena de mim», brinca.

Pouco antes de regressar aos álbuns, a sua voz inconfundível pôde ouvir-se em «Hallelujah Money», single lançado em janeiro pelos Gorillaz, a banda cartoonesca de Damon Albarn. Trabalhar com o multifacetado artista – além de ser a cara dos Blur, tem colaborado com numerosos músicos de todos o mundo – foi importante a vários níveis. «Os Gorillaz são muito sensatos artisticamente, na forma como escolhem as suas ideias e as trabalham. São um império! Estou mais do que grato por ter trabalhado com eles, porque não só são muito profissionais como bem amigáveis. O Damon Albarn é muito amigável – tem um ego enorme, mas esteve sempre a dar-me conselhos sobre o meu álbum», revela. «Até quisemos produzi-lo juntos, mas não resultou, então acabei por trabalhar sozinho. Mas foi uma questão de timing», salienta, explicando que usou o estúdio de Albarn e alguns instrumentos que ele lhe cedeu. «Acho que estava escrito.

Trabalhar com os Gorillaz abriu uma porta para o meu disco», acredita o autodidata que, além de piano e cravo, toca ou já tocou «guitarra, ukulele, trompete e saxofone, bateria, baixo… neste álbum toco todos os instrumentos, menos a bateria, que entreguei a um amigo que é um grande baterista, melhor do que eu».

Quanto ao piano, Benjamin Clementine é o primeiro a reconhecer que a sua relação com o instrumento «tem vindo a mudar. Claro que continuo a tocar, mas também recorro a outros instrumentos para tentar encontrar o que não encontro ali. É por isso que me começo a afastar um pouco do piano e creio que, no futuro, deixarei mesmo de o tocar».

Ainda na conferência, o alien favorito de Portugal respondeu com humor a uma pergunta sobre o seu sucesso nos palcos nacionais, desde as primeiras visitas, em 2015. «Ainda hoje não entendo!», exclamou, fazendo rir o auditório. «Mas talvez sejamos parecidos, eu e os portugueses. Talvez faça parte da vossa cultura reconhecer algo na minha música: se olharmos para o fado, para a bossa nova… E, em Portugal, tenho tocado em belos teatros, no grande Coliseu – é difícil encontrar estes sítios noutros países. Itália tem-nos, França tem alguns, mas em Inglaterra não há muitos, nem na América», reflete.

«A mim parece-me que a vossa cultura está muito imersa na música, numa música sentimental, melancólica. Música que parece uma conversa com a pessoa que nos está a ouvir cantar, o que é romântico. Pode ser bastante assustador, mas é assim que vejo os portugueses». Mais risos na plateia. «A primeira vez que toquei cá estava tudo esgotado, claro que fiquei chocado. Agora começo a acreditar que talvez tenha encontrado as pessoas que há muito procurava. Adorava poder vir para aqui viver. Sinto aqui o que desejo que aconteça em todos os sítios onde vou tocar, mas nem sempre acontece. Tenho muita sorte. Muita sorte em ser compreendido pelo povo português».

De volta à nossa entrevista sussurrada, e ao conceito de alien que sustenta I Tell a Fly, perguntamos ao senhor Clementine se acredita que é assim que os seus fãs o veem. «Não consigo ver o que as pessoas veem em mim. É impossível. Mesmo que fosse um alien de Marte», ri-se, «não saberia dizer. Mas o que espero é que respeitem o que faço porque, embora seja pago para o fazer, também podia ficar sentado no meu quarto, a fazer música para mim mesmo. Mas chegámos a um acordo: eu estou aqui para vos mostrar o que fiz e vocês estão aqui para o apreciar. Também preciso das pessoas para conseguir ir mais além, isto não funciona numa só direção», frisa.

«Espero que se deixem inspirar e que me deem tanto a mim como eu lhes dou a eles, a cada momento. Quando entro em palco, quero sempre que me amem, porque quero poder dar-lhes tudo. Na maior parte das vezes, sei dizer como o público é só pela sua reação quando entro em palco. Quero que gostem de mim, claro», admite, com um encolher de ombros subentendido. Mas há coisas que estão fora do seu controlo. «Podem escolher amar-me ou odiar-me. Eu só estou lá para os amar».

Publicado originalmente na BLITZ de novembro de 2017